Capítulo Sete
Connor Wessex:
Mesmo sabendo que ter Pedro e Samuel em minha casa parecia estranho, eu não podia ignorar o fato de que meu pai tinha mandado minha localização para ele. Ainda assim, algo dentro de mim sabia que essa noite traria algo inesperado.
No meio da noite, me levantei da cama, incapaz de dormir. Fui até a cozinha para pegar um copo de água. Enquanto o silêncio da casa se misturava com o som distante da chuva lá fora, eu ouvi passos leves. Virei e vi Pedro aparecer na porta, a sombra dele se fundindo com a escuridão.
— Você tem algum remédio para dor? — perguntou ele, a voz baixa e rouca. — Minha enxaqueca atacou e eu não trouxe nada comigo.
O tom de sua voz parecia carregado de cansaço, mas havia algo mais ali, algo que fazia o ar entre nós vibrar de uma maneira que eu não conseguia explicar. O jeito como ele me olhava, mesmo pedindo algo tão simples, me deixava inquieto.
— Espere aqui. Vou pegar pra você — respondi, tentando soar casual. Caminhei até o armário mais próximo, minha mente girando com pensamentos que eu não sabia como organizar. Peguei o remédio, entregando-o a ele com uma ligeira pressa, como se isso pudesse acalmar o desconforto que se acumulava dentro de mim.
— Você precisa tomar duas pílulas — expliquei.
— Obrigado — murmurou Pedro, seus dedos ligeiramente frios roçando os meus ao pegar os comprimidos. O toque era sutil, mas foi o suficiente para fazer meu coração acelerar de uma forma que não fazia sentido. Como se aquele breve contato tivesse desarmado algo dentro de mim, algo que eu não sabia que estava tão pronto para se quebrar.
Fiquei ali, imóvel, enquanto ele tomava os remédios, observando-o em silêncio. O barulho suave da tempestade do lado de fora preenchia o espaço entre nós, e, de repente, a distância parecia ridiculamente pequena. Tentei me concentrar em outra coisa, cantarolando uma melodia qualquer em minha mente, esperando que isso acalmasse meu coração inquieto.
— Você está melhor agora? Se não funcionar, eu posso comprar outro remédio. — Minha voz saiu mais suave do que eu esperava.
— Não precisa — ele resmungou, um som abafado que parecia quase íntimo na quietude da noite. Após alguns segundos de silêncio, ele suspirou. — Samuel quis te ver esta noite. Ele está passando por um momento difícil desde aquele susto no armazém, e parece que você é a única pessoa com quem ele se sente seguro desde que o salvou.
O som do nome de Samuel me fez lembrar de tudo o que aconteceu, mas ao olhar para Pedro, percebi algo diferente. A aura fria e rígida que ele exibia durante o dia parecia menos intensa agora, quase frágil, como se a escuridão da noite tivesse suavizado as barreiras que ele mantinha erguidas.
— Eu não fazia ideia que ele estava tão dependente de mim... — respondi, processando o que Pedro acabara de me contar.
— É, ele confia em você — disse Pedro. Sua voz tinha uma qualidade vulnerável que eu não havia notado antes. Era como se, de alguma forma, a noite nos permitisse ser mais honestos um com o outro, como se nossas defesas tivessem caído junto com a chuva lá fora.
De repente, as palavras escaparam da minha boca sem eu planejar:
— Posso perguntar algo? Por que você parece tão assustador às vezes?
Pedro me encarou por um longo segundo, e o silêncio que se seguiu foi quase palpável. Então, ele falou, a voz baixa e lenta.
— Sempre fui assim, acho. Samuel também está começando a se fechar de mim, o que só torna tudo mais frustrante.
Era a primeira vez que eu via Pedro tão aberto, tão humano. A frustração em seus olhos era real, e por um momento, tudo o que eu queria era apagar essa dor que ele carregava.
— Não precisa ter tanto medo de perder o amor dele — falei suavemente, tentando oferecer algum tipo de consolo. — Samuel te ama, sempre vai te amar. Às vezes, quando os pais estão distantes, os filhos se fecham um pouco. Meu pai viajava muito quando eu era mais novo, e por um tempo, éramos praticamente estranhos. Mas com o tempo, as coisas mudaram.
Pedro ficou em silêncio, processando minhas palavras. Seus olhos, que antes pareciam frios e distantes, agora tinham um brilho diferente. Eles estavam focados em mim de uma maneira que me fez estremecer.
— Connor... — Ele começou, hesitando por um segundo, mas sua voz tinha um peso que fez meu coração bater mais rápido. — Por que você esconde sua identidade dos outros? E por que seu pai permite isso?
Se qualquer outra pessoa tivesse me feito essa pergunta, eu teria ficado na defensiva. Mas algo na forma como Pedro perguntou, na curiosidade genuína em seus olhos, me fez querer responder com honestidade.
— Eu quero criar meu próprio nome, como meu pai fez com a Corporação Wessex. Quero provar que posso fazer isso sozinho, sem depender da reputação da minha família. — Meu tom foi firme, mas antes que eu pudesse me preparar para uma reação, Pedro desviou o olhar.
— Eu entendo. — Sua voz estava estranhamente suave, e pela primeira vez, ele parecia... solitário.
Por um momento, ficamos assim, dois estranhos que, de alguma forma, estavam começando a entender um ao outro. A atmosfera pesada entre nós ainda pairava, mas havia uma leveza nova também, como se as palavras trocadas tivessem aberto um caminho que antes estava bloqueado.
Quando finalmente decidi que era hora de encerrar a conversa, Pedro levantou a mão, impedindo-me de sair.
— Sem pressa. Fique mais um pouco — ele disse.
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Sentei-me obedientemente, mas o nervosismo tomou conta do meu corpo. Meu coração batia acelerado, quase dolorosamente, enquanto o silêncio da noite nos envolvia. Pedro me olhou, e seu olhar penetrante, quase hipnótico, fazia meu corpo congelar.
— Você está com medo de mim? — perguntou ele, apoiando a cabeça em uma das mãos. No escuro, ele parecia ainda mais perigosamente enigmático, quase como uma sombra que podia se materializar em algo incontrolável.
Balancei a cabeça, tentando parecer calmo, mas o medo me traía. Assenti lentamente, incapaz de esconder o que sentia.
— Provavelmente não há uma única pessoa que não tenha medo de você, certo? — minha voz tremia levemente. — É por causa desse seu jeito... assustador.
Ele brincava com o copo em suas mãos, os dedos deslizando pela superfície de vidro de uma forma quase preguiçosa, mas carregada de tensão.
— No meu mundo — ele começou, a voz lenta, calculada — se você não for temido, você morre. — Seus olhos brilharam na escuridão. — Tenho certeza de que você entende isso, afinal vamos nos casar. Você não recusou minha ajuda, certo?
Minhas pernas quase cederam. Meus dedos agarraram a borda da cadeira, tentando encontrar estabilidade. "Casar?" A palavra ecoava na minha mente, fazendo meu corpo estremecer. Eu tinha achado que tinha escapado dessa ideia maluca quando meu pai me tirou do hospital mais cedo. Mas agora, diante de Pedro, percebi que ele era o tipo de homem que não aceitava uma recusa facilmente.
— Você... me ajudou com o idiota do George! — falei, tentando controlar o pânico crescente.
Pedro olhou para mim com desdém.
— Isso foi Vicenzo, meu irmão — ele respondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Não confunda as coisas. — Seus olhos se fixaram nos meus com uma intensidade que quase me fez desviar o olhar. — Achei que tinha sido claro da primeira vez. Se você ainda não entendeu, posso repetir: vou retribuir o que fez por salvar meu filho, mesmo que isso envolva meu corpo.
Minha mente ficou em branco por um segundo. A seriedade na voz de Pedro, o tom quase casual com que ele falava de algo tão carregado de significado, me deixava sem palavras. Eu precisava de ar, precisava processar o que ele estava dizendo.
— Pedro, eu agradeço suas boas intenções, de verdade. Mas eu sou completamente contra esse casamento — tentei manter minha voz firme. — Quero me casar com alguém por amor. E mal te conheço.
Pedro manteve o olhar fixo em mim, o silêncio entre nós se tornando pesado. Quando ele finalmente falou, seu tom era calmo, quase calculado.
— Podemos nos apaixonar com o tempo — ele disse, como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Você já conquistou meu filho, e no futuro, talvez faça o mesmo comigo.
— Isso... isso não é algo que eu posso aceitar. — Respirei fundo, lutando contra a pressão que crescia no meu peito. — Não tem a ver com o fato de você ter um filho.
— Então, por que está recusando? — Ele arqueou uma sobrancelha, claramente esperando uma resposta satisfatória.
Eu suspirei, passando a mão pela testa, sentindo o peso dessa conversa me esmagar.
— Pedro, casamento não é um jogo. Independentemente de pagar uma dívida ou qualquer outra coisa, acabamos de nos conhecer. Você realmente entende minha personalidade? — perguntei, esperando que minhas palavras penetrassem a armadura que ele parecia usar o tempo todo.
Pedro me encarou por um longo momento, seus olhos intensos, mas sua resposta foi mais direta do que eu esperava.
— Não estou interessado no seu passado, Connor. Quero o que você é agora. — A arrogância em sua voz era inconfundível, mas havia algo mais ali, algo que me fez prender a respiração. — Seu pai já me passou um relatório com tudo sobre você.
Senti meu corpo ficar tenso. Claro que meu pai faria isso. Mas, ao mesmo tempo, isso me enchia de uma estranha calma.
— Entendo o que meu pai fez — falei devagar, tentando manter a compostura. — Mas isso não muda minha resposta. Pedro, estamos em caminhos diferentes. Sinceramente, sugiro que você desista dessa ideia absurda.
O silêncio que se seguiu foi espesso, quase sufocante. Por um segundo, pensei que ele fosse reagir de maneira explosiva, que sua paciência tivesse finalmente chegado ao limite. Mas, em vez disso, um sorriso — suave, perigoso — surgiu em seus lábios.
— Entendido. — Seu tom era surpreendentemente tranquilo. — Mas isso não significa que vou desistir. Vou ler o que seu pai me enviou, e, Connor... você será um desafio interessante para mim.
Meu coração deu um salto ao ouvir essas palavras. Pedro não era o tipo de pessoa que desistia fácil, isso era claro.
— Boa sorte com isso — falei, levantando-me com uma leve provocação na voz. — Agora, se me dá licença, eu vou dormir. Boa noite, Pedro.
Enquanto me afastava, senti seus olhos me acompanhando, como uma sombra constante, um lembrete de que Pedro não era alguém que eu podia ignorar tão facilmente. Ele era um enigma, perigoso e atraente ao mesmo tempo, e de alguma forma, essa tensão entre nós só estava começando.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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