Capítulo Seis

Pedro Alves:

Chegamos à casa que Connor havia comprado junto com seu melhor amigo, George. Enquanto dirigia, não pude deixar de ler algumas das informações que Élio havia me mandado sobre eles. Quando descemos do carro, Samuel me puxou com impaciência, ansioso para chegar logo à porta. Dei algumas batidas firmes, aguardando.

A porta se abriu e revelou um Connor visivelmente atordoado, o olhar cheio de suspeitas ao nos ver ali. Samuel, com uma cesta de frutas coloridas nos braços, não parecia se incomodar com a reação de Connor.

— Pedro? — Connor piscou, incrédulo. — Por que essa surpresa a essa hora? Aconteceu alguma coisa?

— Visita de doente. — As palavras saíram secas dos meus lábios, sem que eu realmente pensasse nelas.

— Er... Você está sendo muito educado, Pedro. — Ele sorriu, ainda meio confuso, e fez sinal para que entrássemos. — Desculpe pela bagunça, por favor, entrem.

Ele nos convidou, ainda um pouco lisonjeado, mas claramente perdido. Enquanto isso, George, que estava sentado no sofá com uma latinha de refrigerante, rapidamente se levantou e começou a ajeitar o espaço, visivelmente envergonhado ao me olhar.

— Sentem-se onde quiserem. Querem algo para beber? Refrigerante serve? — Connor perguntou, segurando George, que parecia prestes a explodir de nervosismo.

— Iríamos adorar — respondi, assentindo.

Sentamos no sofá estreito da sala, eu e Samuel lado a lado. A atmosfera estava levemente desconfortável, com George à nossa frente, à beira das lágrimas de nervosismo. O ambiente, embora acolhedor, estava carregado de uma tensão leve, como se todos estivessem aguardando algo.

De repente, o som borbulhante de uma panela veio da cozinha, e o ar começou a se encher de um aroma sedutor e picante. Isso quebrou um pouco o silêncio desconfortável.

— Então, vocês já jantaram? — Connor perguntou casualmente. — Estávamos prestes a comer uma das minhas receitas favoritas. Gostariam de se juntar a nós?

— Ok — falei, tentando aliviar o clima.

— Isso seria ótimo! — Samuel sorriu, claramente animado com a ideia.

Connor parecia um pouco envergonhado, como se estivesse preocupado com as ofertas que tínhamos recebido até agora, mas já que a proposta foi feita, ele nos convidou para a mesa de jantar e rapidamente acrescentou mais dois pratos.

— A comida é um pouco apimentada. Vocês gostam de pimenta? — George perguntou, um pouco preocupado.

— Sim, adoramos — respondi, e Samuel assentiu com entusiasmo.

Connor nos analisou atentamente, seus olhos percorrendo nossos rostos em busca de qualquer sinal de hesitação. Era quase como se ele estivesse tentando nos conhecer melhor apenas pelo que comíamos. Sorri internamente ao pensar nisso.

Apesar da refeição ser apimentada, Samuel adorava temperos fortes, algo que meus irmãos lhe ensinaram desde cedo. Ele comeu avidamente, embora de vez em quando colocasse a língua para fora por causa do tempero, o que fez Connor franzir a testa, preocupado.

— É ruim para crianças comerem tanto tempero? Talvez eu deva pegar algo diferente para ele — Connor sugeriu, levantando-se.

— Não se preocupe, ele está bem. — Falei, rindo levemente. — Ele não é tão delicado assim.

Connor, ainda com uma expressão preocupada, assentiu e voltou a se sentar, guardando suas preocupações para si mesmo. O jantar seguiu em um clima mais descontraído, e por um momento, a leve tensão da noite se dissipou. Depois de algum tempo em silêncio, decidi perguntar algo que estava na minha cabeça.

— E como vai ser a sua audição amanhã? — perguntei, quebrando o silêncio. George congelou por um momento, e até Connor ficou calado antes de reagir. — O pai do Connor me disse que você é um artista.

Connor sorriu, seu olhar se iluminando.

— A audição é pela manhã, e... — George começou a responder, mas foi interrompido por Connor.

— Ele é o melhor ator que conheço. Sabe como é difícil encontrar alguém que se transforme no personagem? — Connor falou animadamente. — Ele vai fazer essa audição, nem que eu tenha que levá-lo pessoalmente!

George bufou, desconfiado. — O Fred não vai gostar disso.

O sorriso de Connor se alargou, cheio de mistério.

— O que você fez? — George perguntou, agora genuinamente curioso.

— Mandei uma mensagem para ele e para a empresa — Connor respondeu, tirando o celular do bolso e sorrindo. — Acho que você vai precisar de um novo agente, amigo.

Mostrou a tela para George, cujos olhos se arregalaram em choque.

— Como você conseguiu isso? — George perguntou, sua voz cheia de admiração.

— Tenho meus segredos, mas devo isso ao meu irmão — Connor disse com um tom casual, embora houvesse um brilho de satisfação em seus olhos. — E também ao Vicenzo, da empresa de Pedro. Ele me ajudou assim que pedi ajuda.

Samuel, que até então estava quieto, de repente se animou. — Como você conhece o tio Vicenzo?

— Meu irmão se chama Luiz. Ele é um conhecido de Marcos Dawson Robinson. — Connor explicou, e Samuel assentiu.

— Você quer dizer que conhece o Matt? — Samuel praticamente saltou de empolgação. — Ele é meu amigo!

Connor sorriu gentilmente. — Sim, devo muito aos Dawson Robinson por terem passado o contato. Eles me disseram que a família de vocês é a melhor no que faz.

No momento em que o sorriso de Samuel se alargou, senti um tremor suave percorrer meu corpo. Ele estava tão feliz, e isso era tudo o que importava para mim.

— E, mais importante, sou especialmente grato a Samuel, nosso salvador naquela noite. — Connor levantou seu copo e brindou. — A você, Samuel!

Samuel olhou para sua latinha de refrigerante, hesitante por um momento, mas logo levantou-a e brindou timidamente. Bebi em um gole só, e tanto Connor quanto George riram do comportamento sério de Samuel, que, para mim, estava tentando agir como um adulto, misturando-se perfeitamente na situação.

Nós quatro comemos com grande apetite, e em pouco tempo, havíamos acabado com tudo, mesmo com Connor e George tendo feito mais comida do que o necessário.

Quando Samuel avistou o videogame na sala, seus olhos brilharam de entusiasmo, e logo ele estava jogando com George e acariciando o gato que havia insistido em trazer. Enquanto observava a cena, senti que talvez fosse hora de ir, afinal já estava ficando tarde.

De repente, um relâmpago rasgou o céu, seguido por um trovão ribombante. Ventos fortes começaram a soprar lá fora.

— Vi que a previsão do tempo avisou sobre uma tempestade forte e até um possível tufão para esta noite — George comentou, olhando preocupado para o celular.

Connor olhou para a chuva forte lá fora, a preocupação evidente em seu rosto. Ele hesitou, depois de sentir nossos olhares sobre ele, abriu os lábios.

— Voltar com Samuel agora, com esse clima, seria perigoso. Está tarde e as condições não estão boas. Talvez... vocês queiram passar a noite aqui? — Connor ofereceu, claramente tentando ser cortês.

— Acho que é o melhor a se fazer. — Concordei, e Samuel vibrou de felicidade.

E assim, ficamos.

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A casa era maior do que eu imaginava. Três quartos, uma sala de estar acolhedora, a cozinha ampla e um banheiro impecavelmente limpo. Connor e George haviam preparado tudo para nos acomodar confortavelmente naquela noite, e os arranjos de dormir foram feitos com cuidado.

— Você pode ficar no último quarto do segundo andar esta noite. Pedro, tudo bem se você dormir com Samuel? — Connor sugeriu, seu tom gentil. — Temos que arrumar um dos quartos, que na verdade é o meu escritório.

— Não se preocupe comigo — respondi, firme, meu tom deixando claro que não haveria discussão sobre isso. — Só faça tudo o mais confortável possível para Samuel.

Connor me observou por um momento, como se ponderasse algo, mas não insistiu. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, George interveio:

— Vamos ver se conseguimos encontrar uma muda de roupa para vocês dois. — Ele puxou Connor pelo braço, e os dois desceram para o porão.

Enquanto eles vasculhavam o porão, fiquei na sala, tentando distrair minha mente da situação. Não demorou muito para que encontrassem as roupas. Quando Connor voltou, trazia um conjunto de pijamas para Samuel, um pijama infantil com estampa de gato. Meu filho aceitou alegremente, e eu apenas olhei, incrédulo, sem entender como ele podia estar tão confortável em um lugar estranho.

Então, Connor me entregou um pijama também. Eu fiquei surpreso ao perceber que era do meu tamanho exato. Nossos olhares se cruzaram, e ele sorriu de leve, como se não fosse necessário explicar como tinha exatamente o pijama certo para mim. Havia algo implícito ali, uma conexão silenciosa que eu preferi não questionar naquele momento.

Samuel tomou banho primeiro, vestiu o pijama de gatinho e se jogou na cama, já pronto para dormir, o gato de estimação se aconchegando ao lado dele. Depois que ele dormiu, foi a minha vez de tomar um banho. A água morna me ajudou a relaxar, mas, ao sair do banheiro, encontrei Connor me esperando no corredor, encostado na parede, os braços cruzados de maneira casual.

— Pedro, vou dormir primeiro. — Ele parecia hesitante. — Se precisar de alguma coisa, é só chamar. Chama a mim, de preferência... George vai ficar se culpando a noite toda pelo que aconteceu e provavelmente vai se perder nos próprios pensamentos.

— Pode deixar — respondi, ainda surpreso com sua gentileza e hospitalidade.

Enquanto ele falava, algo em sua postura simples me chamava atenção. Ele estava de pijama, nada de especial, e com o cabelo preso em um coque desleixado, mas mesmo assim... havia algo ali. Um calor discreto, uma presença que me deixava inquieto de uma maneira que eu não queria admitir. Seu jeito despreocupado contrastava com a sensação estranha que crescia em meu peito. Olhei para ele e, por um breve momento, meus pensamentos foram para longe do simples ato de dormir.

"Controle-se," pensei, sentindo meu corpo reagir de maneira inesperada. Virei o rosto rapidamente, tentando acalmar o desconforto que surgia em mim.

— Obrigado, Connor — murmurei, tentando evitar o contato visual enquanto me dirigia ao quarto.

Quando entrei, Samuel já estava profundamente adormecido. Deitei ao seu lado, sentindo uma mistura estranha de confusão e exaustão. Enquanto meus olhos se fechavam lentamente, me peguei refletindo sobre o dia e, principalmente, sobre o que estava acontecendo dentro de mim. Algo naquela interação com Connor me fez sentir mais vulnerável do que o habitual.

Adormeci pensando que, de alguma forma, agi como um louco naquela noite.
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Gostaram?

Até a próxima 😘

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