Capítulo Quarenta e Oito
Pedro Alves:
Devo admitir que, por mais que já esteja acostumado com tudo isso, sempre me surpreendo ao entrar no hospital da agência. Mesmo que meus ferimentos sejam poucos, muito menos graves do que os dos meus irmãos ou dos outros agentes, ainda assim me vejo deitado em uma cama, sendo tratado como se estivesse em um estado crítico. O corredor do hospital era tão branco que quase cegava; a luz fluorescente fazia tudo parecer ainda mais pálido, artificial, como se eu estivesse dentro de uma bolha estéril e fria. O ar-condicionado estava forte demais, quase gelado, enquanto lá fora o outono começava a tomar forma.
Fiquei apenas duas semanas longe de qualquer tecnologia de espionagem, e já me sinto estranho estando de volta nesse ambiente. É engraçado como o mundo tecnológico e o caos da espionagem nos envolve tão rápido que, ao dar um passo para fora, tudo parece... diferente.
Assim que dei entrada na recepção, uma das curandeiras chefes me entregou um formulário para preencher. Ela me lembrou imediatamente de Agnes, que, claro, se recusou firmemente a ser internada aqui. Teimosa como sempre. Assim que chegamos, ela voltou aos seus afazeres — cuidar de seu ginásio, seus alunos e, agora, seu novo aprendiz. Nada a faria ficar parada por muito tempo.
Depois daquele dia de caos e resgate, tudo pareceu se mover em um ritmo acelerado. Connor e os dois garotos foram levados diretamente para um quarto privado, com garantias de que receberiam o melhor tratamento possível. Enquanto isso, os agentes que não estavam feridos gravemente foram enviados aos seus aposentos para descansar, tomar banho, o que basicamente me deixou separado de Connor até segunda ordem. Ou pior, até minha mãe decidir que eu estava proibido de ir até ele, o que não seria novidade. Assim, sem opção, tive que aceitar o fato de que, por enquanto, eu teria que bancar o paciente exemplar e deixar o resto nas mãos dos médicos.
Fui encaminhado para uma sala compartilhada, onde despencar no sofá foi um alívio bem-vindo. O assistente da minha mãe chegou logo em seguida, carregando comida do refeitório — pratos empilhados com todos os tipos de comida, doces e salgados, até bebidas variadas. Caio, claro, atacou as sobremesas com a empolgação de uma criança em uma loja de doces. Depois de comer mais do que deveria, acabei cambaleando até a cama e desmoronando de cansaço. Foi o primeiro dia desde toda aquela confusão em que dormi sem sonhar.
Desde então, minha rotina tem sido visitar Connor todos os dias, acompanhando sua recuperação. Bella também aparece de vez em quando, e sempre traz o telefone para fazer videochamadas com Samuel. O garoto insiste em ver Connor, mesmo que a ligação sempre termine em choradeira — de ambos, na verdade. Samuel mal consegue conter as lágrimas quando vê Connor na cama, e Connor tenta manter o controle, mas eu vejo que ele também se emociona.
Esses momentos no hospital, mesmo sendo cansativos e repletos de ansiedade, têm me dado um estranho senso de normalidade. No meio de toda a confusão, esses pequenos instantes — de ver Connor melhorando, de ouvir Bella rir ao falar com Samuel — me fazem lembrar por que continuo lutando.
— Última porta no final do corredor — disse a recepcionista, com um sorriso simpático. — Ele deve estar dormindo agora. Estava sem comer ou beber nada durante todo aquele tempo e, ainda por cima, começando uma gravidez... isso o pegou de jeito. No início, as coisas são bem conturbadas.
— Sei muito bem como cuidar do meu noivo — respondi, devolvendo o sorriso, enquanto ela soltava uma risadinha. — Estive aqui ontem e nos dias anteriores também!
O hospital estava relativamente tranquilo naquela noite. As luzes frias do corredor brilhavam com aquele tom branco e estéril que sempre me dava calafrios, mas já estava acostumado. Encontrei a porta no final do corredor, que estava entreaberta. Espiei por uma fresta, tentando não fazer barulho, caso Connor estivesse dormindo, como nas últimas vezes que o visitei durante a noite.
Mas, para minha surpresa, ele estava acordado e no meio de uma conversa tensa. Três pessoas estavam no quarto, todos parecendo chocados com o que Connor dizia. Meu noivo, sentado na cama, virou-se no instante em que eu entrei. Era como se ele sentisse minha presença antes de me ver. E então, vi quem eram os visitantes: George, com os olhos brilhando de raiva, Reggie e Mariano, ambos com expressões mais calmas, segurando um tablet com a imagem de Élio do outro lado, que acenou para mim com um sorriso um tanto sem graça.
Cruzei os braços, sabendo exatamente onde aquilo ia dar. Aqueles três, sem dúvida, haviam descoberto minha verdadeira profissão e o motivo por trás do sequestro de Connor. Quando eu fui hospitalizado, Connor disse a eles que eu tinha sofrido um acidente, e parece que acreditaram. Afinal, era Connor, o melhor amigo deles, quem dizia isso.
— Como pode deixar que meu amigo fosse sequestrado pela sua tia maluca? — George disparou, sem avançar para cima de mim, mas sua raiva era palpável. — Foi praticamente por sua causa!
— George, primeiramente — Connor começou, sua voz calma como sempre —, Pedro e a família dele não têm culpa pelo que Lilly fez ou pelo que ela faz com qualquer pessoa. Em segundo lugar, eles me salvaram e têm protegido muitas vidas desde o início da agência.
— Mas ele ainda colocou sua vida em risco! — George insistiu, soltando um suspiro, claramente frustrado. Ele olhou para Reggie, Mariano e Élio na tela do tablet. — Vocês concordam comigo, certo? Élio, você também acha que isso foi demais?
Meu sogro suspirou, e todos os olhos se voltaram para ele na tela.
— No início, achei tudo isso perigoso demais para o Connor se envolver — Élio admitiu. — Mas sei que a família de Pedro é excelente em salvar vidas. Eles conquistaram muitas pessoas ao longo do caminho.
— Então você não está irritado pelo que aconteceu com Connor? — George perguntou, incrédulo.
— Claro que estou com raiva — Élio respondeu com firmeza. — Mas alguém aqui me ajudou a lembrar que posso me livrar de quem quer que seja que faça mal ao meu filho... mesmo que indiretamente.
Sandro, o namorado de Élio, apareceu na tela com um sorriso divertido, acenando para todos.
— Fiz o possível para acalmar esse ogro — Sandro disse, rindo, e deu um beijo na bochecha de Élio. — Mas devo dar o crédito para Samantha por trazer bom senso à situação.
— Agora que falou nisso, precisamos ir — Élio continuou. — Temos uma reserva para o próximo embarque e estaremos aí em breve. Um beijo, filho.
— Connor também não é tão frágil assim — Mariano comentou, dando um empurrãozinho em George. — Ele sabe onde está se metendo. Pedro vai protegê-lo.
— Mas... — George começou, mas Reggie o interrompeu.
— Você sabe que nem adianta discutir, estamos certos. Confia na gente, George — Reggie piscou para Connor, que sorriu de volta. — Vamos indo. Boa noite para vocês.
Assim que eles saíram, me aproximei da cama e me sentei ao lado de Connor.
— Agora o George definitivamente desgosta de mim — falei, soltando um suspiro exagerado, e Connor riu, sua risada suave enchendo o quarto.
— Ele só está agindo assim porque quer me proteger — Connor disse, entrelaçando nossos dedos. — Logo ele vai voltar a ser o adorável George que todos conhecemos.
— Algum sinal de Lilly? — ele perguntou, mudando de assunto.
— Aquela mulher sabe como desaparecer — respondi, minha expressão fechada. — Ela passou anos se escondendo. Não vai mostrar a cara até estar pronta. Tudo isso foi para nos dar uma amostra do poder que ela acumulou.
Connor apertou minha mão, me trazendo de volta à realidade, a preocupação evidente em seus olhos.
— Não vamos nos preocupar com isso agora — ele disse suavemente. — Vamos torcer para que os dias calmos voltem. E como está Bella? Alice me disse que ela está intensificando o treinamento.
— Vamos resolver isso juntos. Bella ainda não está preparada para ser uma assassina, e eu não vou deixar que ela se perca nisso — respondi, sentindo o peso das minhas palavras. Connor assentiu, compreendendo.
— Connor! — Ouvi três vozes ao mesmo tempo, e me virei para ver Marcos, Damon e Max entrando no quarto, com a pequena bebê de olhos enormes nos braços de Max.
— Oi, pessoal! — Connor sorriu ao vê-los. — Como estão?
— Bem! Nosso fôlego está ótimo, podemos assistir televisão o dia todo! — Damon disse, rindo, enquanto se sentava na cama ao lado de Connor.
— E eu descobri que sou ótimo em leitura labial! — Marcos falou, cheio de orgulho. — Quando começo meu treinamento? Aposto que posso aprender mais rápido que os agentes daqui!
— Primeiro você precisa se recuperar — Max disse, rindo da empolgação de Marcos.
— Ah, eu me recupero rápido! Ainda posso acabar com qualquer um — Marcos se vangloriou, arrancando risadas de todos no quarto.
Ficamos ali por um tempo, conversando e rindo, o clima leve e animado. Os garotos contaram que Agnes havia oferecido para cuidá-los até que a agência regularizasse seus documentos, para que pudessem andar livremente pela sociedade.
Assim que os garotos saíram, o quarto voltou a ficar mais silencioso, embora o eco das risadas e a energia divertida ainda pairassem no ar. Eu olhei para Connor, que estava apoiado nos travesseiros, um leve sorriso nos lábios enquanto observava o grupo se afastar pelo corredor. Quando a porta se fechou, me aproximei dele novamente, me sentando à beira da cama, e o silêncio que se seguiu foi um daqueles momentos confortáveis em que não precisamos de palavras para nos entender.
— Sabe, — comecei, sorrindo, — tem algo que a gente não comemorou direito ainda.
Connor arqueou uma sobrancelha, fingindo não saber do que eu estava falando, mas eu vi o brilho travesso em seus olhos.
— Ah, é? — Ele perguntou, sua voz suave, mas cheia de expectativa. — O que será?
Eu não consegui segurar o sorriso. Peguei sua mão e a trouxe para a minha boca, beijando-a delicadamente antes de olhar em seus olhos.
— Vamos ter um bebê, Connor — sussurrei, a emoção finalmente tomando conta de mim. — A gente vai ser pais.
Por um instante, o quarto pareceu parar, como se o mundo lá fora não importasse mais. Era só eu e ele, e a promessa de uma vida nova crescendo entre nós. A mão de Connor se apertou contra a minha, e seu sorriso se ampliou, até que ele soltou uma risada, leve e cheia de felicidade.
— Eu ainda não acredito — ele disse, sua outra mão pousando levemente sobre sua barriga, que ainda não mostrava sinais, mas que carregava o futuro da nossa família. — Cada vez que penso nisso, parece tão surreal... Eu, grávido.
Eu ri, não conseguindo conter a alegria que transbordava em mim. — Você, grávido, é a melhor coisa que poderia acontecer. E eu mal posso esperar para ver o bebê crescendo dentro de você.
— Espero que não fique muito insuportável — Connor comentou, com um sorriso brincalhão. — Já ouvi histórias sobre enjôos, desejos malucos, mudanças de humor...
— Ah, eu estou preparado para tudo — brinquei, colocando a mão na barriga dele também. — Seja o que for, vamos enfrentar juntos. Até se você quiser comer coisas estranhas no meio da madrugada.
— Isso é uma promessa? — Connor perguntou, seus olhos brilhando com aquele jeito provocador que sempre me fazia derreter.
— É uma promessa — respondi, inclinando-me para beijar sua testa com carinho. — Vamos passar por tudo isso juntos. Você, eu, e nosso bebê.
Connor suspirou, relaxando contra os travesseiros enquanto mantinha nossas mãos entrelaçadas. — Eu sei que a gravidez vai ser desafiadora... mas, com você do meu lado, acho que podemos enfrentar qualquer coisa.
— E vamos. — Olhei fundo em seus olhos, deixando que ele visse a certeza no meu rosto. — Eu vou estar aqui o tempo todo. E nosso filho vai ter o melhor pai... ou melhor, os melhores pais do mundo.
Ele sorriu, e naquele momento, tudo parecia certo. O caos de Lilly, o mundo de espionagem, todas as dificuldades que enfrentamos pareciam distantes. O que importava era que estávamos construindo algo juntos, algo que nada poderia nos tirar.
Abracei Connor com cuidado, sentindo o calor do seu corpo contra o meu, e por um instante, apenas fiquei ali, aproveitando a sensação de ter a pessoa que mais amo ao meu lado. Sabíamos que haveria desafios pela frente, mas enquanto estivéssemos juntos, tudo seria possível.
— Nosso bebê vai ser tão amado... — murmurei, com a voz embargada pela emoção. E Connor assentiu, sorrindo, com os olhos brilhando de felicidade.
— Mais do que ele ou ela pode imaginar.
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Na manhã seguinte, fiz algo que surpreenderia qualquer pessoa que me conhecesse. Sem que minha mãe, ou qualquer um da equipe médica, soubesse, eu consegui convencer Bella a trazer Samuel para ver Connor. Aquilo não era permitido, mas havia momentos em que regras precisavam ser quebradas, e este era um deles.
Connor, deitado na cama, soltou uma pequena risada quando me viu entrando com um sorriso cúmplice.
— Quem diria... Pedro Alves quebrando as regras — ele brincou, sua voz suave, mas cheia de carinho.
— Só estou quebrando por causa do nosso filho — respondi, piscando para ele. Me virei no instante em que a porta se abriu, e Bella entrou, trazendo Samuel. Ele usava uma roupa neutra e uma pequena máscara, obedecendo a todas as recomendações de segurança. Mesmo assim, seus olhos brilhavam de expectativa.
— Eu juro, um dos seguranças estava com uma cara suspeita — Bella disse, tentando manter o tom descontraído. Mas antes que pudesse terminar, Samuel soltou sua mão e correu em direção a Connor.
— Papai! — Samuel gritou, a voz embargada pelas lágrimas, enquanto se jogava nos braços de Connor. Ele se agarrou ao pescoço do pai, escondendo o rosto no ombro de Connor. — Eu estava tão preocupado com você esses dias!
O quarto ficou em silêncio por um momento, apenas o som suave dos soluços de Samuel quebrava a quietude. As lágrimas escorriam por seu rosto enquanto ele se apertava contra Connor, que, pacientemente, acariciava suas costas com delicadeza. Havia algo profundamente íntimo naquela cena. A conexão entre os dois era tangível, como se nada no mundo pudesse quebrar aquele vínculo.
— Está tudo bem, meu pequeno — Connor sussurrou, sua voz baixa, suave e reconfortante. Ele beijou o topo da cabeça de Samuel, enquanto continuava a acariciar suas costas. — Papai está aqui, e está tudo bem agora.
Fiquei observando por um momento, meu coração cheio de amor por aqueles dois. A maneira como Samuel se enroscava em Connor, buscando conforto, e o jeito como Connor o acolhia, sem pressa, sem palavras desnecessárias, era uma das coisas mais bonitas que eu já tinha visto. Aquele era o amor paternal em sua forma mais pura: simples, mas imenso.
Me aproximei deles, puxando Bella comigo. Eu sabia que ela adorava fazer parte desses momentos em família, e nada parecia mais certo do que nos unirmos todos naquele abraço. Envolvi Connor e Samuel com meus braços, e Bella, do lado, também se aproximou, sorrindo de leve enquanto participava da nossa pequena bolha de amor e conforto.
— Vocês dois são o centro do meu mundo — murmurei, minha voz baixa, mas carregada de sinceridade. Olhei para Connor, que ainda segurava Samuel com tanto carinho, e meu coração se apertou. — E agora, com nosso bebê a caminho, somos uma família ainda mais completa.
Connor sorriu para mim, seus olhos brilhando com a mesma emoção que eu sentia. Ele apertou Samuel um pouco mais forte, e o pequeno, que já começava a se acalmar, levantou o rosto, enxugando as lágrimas com as costas da mão.
— Papai vai ficar bem, não é? — Samuel perguntou, com aquela inocência pura e tocante, seus olhos grandes e esperançosos fixos em Connor.
— Vai sim, meu amor. Papai está forte e vai voltar para casa logo — Connor respondeu, beijando a testa de Samuel. — E juntos vamos cuidar desse bebê que está vindo, você, eu, o papai Pedro e a titia Bella. Nós todos vamos cuidar uns dos outros.
O sorriso que se formou no rosto de Samuel iluminou o quarto, e naquele momento, tudo parecia certo. Não havia mais medo, nem preocupação. Apenas o calor de uma família que se amava profundamente e que estava pronta para enfrentar qualquer desafio, juntos.
Enquanto estávamos ali, abraçados, senti que, apesar de todos os obstáculos que enfrentamos, estávamos no caminho certo. E com Connor, Samuel e nosso futuro bebê, sabíamos que poderíamos superar qualquer coisa.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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