Capítulo Onze

Connor Wessex:

Depois de sair da empresa, joguei minha mochila no banco do carona e entrei no carro, respirando fundo antes de ligar o motor. Enquanto dirigia pelas ruas que me levariam de volta à minha antiga casa, liguei para George, avisando que chegaria tarde. Ele riu do outro lado da linha, brincando sobre como sempre me enrolo quando vou à mansão do meu pai.

O caminho era familiar, cada curva, cada esquina, como um eco de memórias antigas. E então, lá estava ela, imponente e majestosa como sempre: a mansão onde passei toda minha infância. Seu exterior imponente, com colunas clássicas e jardins meticulosamente cuidados, permanecia praticamente inalterado. Mesmo que os anos tivessem passado, o peso da nostalgia caiu sobre mim como uma onda, me lembrando dos dias em que eu corria pelos corredores, os risos dos meus avós ecoando ao fundo.

Assim que abri a porta, Marta, a governanta, apareceu como se estivesse esperando por mim.

— Jovem mestre, vejo que está de volta — disse ela, com aquele sorriso maternal de sempre, enquanto se aproximava para pegar minha mochila.

— Marta, não precisa fazer isso — falei, sorrindo, tentando segurar a mochila, mas já sabendo que seria em vão. O marido dela, Forrest, apareceu logo atrás, com um olhar de cumplicidade.

— Meu garoto, ainda educado como sempre — Marta comentou, com uma pontada de orgulho, mas sem deixar de pegar a mochila. — Mas ainda sou funcionária da sua família, e devo fazer meu trabalho.

Forrest, com seu jeito tranquilo, apenas balançou a cabeça e riu baixinho. — Esqueceu de como ela é teimosa quando se trata de cuidar do seu bem-estar?

Soltei uma risada, sentindo o calor familiar dessas pequenas interações. Eles estavam presentes em cada etapa da minha vida, desde que nasci, sempre prontos para cuidar de mim quando meus avós e meu pai estavam ocupados. Até o filho deles, que tem a minha idade, está viajando a estudos, e isso sempre faz com que Marta e Forrest comentem com orgulho.

— Onde está meu pai? — perguntei, trocando meus sapatos por chinelos no hall de entrada. O ambiente ao redor parecia intocado, com o cheiro leve de madeira polida e flores recém-colhidas preenchendo o ar. Os quadros nas paredes, os tapetes macios sob meus pés, tudo ali era uma lembrança viva do passado.

— Ele está lá em cima, no escritório — respondeu Marta, apontando para as escadas. — Disse que era pra você entrar direto, sem bater.

Agradeci com um aceno de cabeça e comecei a subir, ouvindo de relance os sussurros de Marta e Forrest discutindo sobre o filho deles e um possível namorado. Sorrindo sozinho, continuei o caminho até o escritório, prestes a bater na porta, mas parei quando ouvi a voz firme do meu pai.

— Como assim as coisas não chegaram a tempo? Meu filho e minha neta vêm me visitar, e quero que tudo esteja pronto o mais rápido possível — ele dizia, em um tom severo, mas com um quê de ansiedade que me fez soltar uma risada baixa.

Élio Wessex. Um homem de muitas faces. E agora, avô de uma menina de seis anos, ele estava ainda mais exagerado do que nunca. Desde que reencontramos Luiz, meu irmão, e sua pequena família, tudo virou uma competição entre meu pai e o casal Chase — que cuidou de Luiz por tanto tempo — pela atenção da neta, Samantha.

Bati na porta levemente e, ao ouvir um "entre", abri a porta.

— Imagino que esteja comprando algo para Sam e Luiz — comentei, cruzando os braços enquanto me apoiava no batente da porta. — Eles só estão fazendo uma visita, não vindo morar aqui.

Meu pai me lançou um olhar de quem já estava pronto para rebater. — Perdi vinte e um anos da vida do Luiz. Vou mimar muito meu filho. E, para isso, estou me preparando. Nada que comprei até agora é um exagero.

Dei uma olhada no notebook dele, curioso, e encontrei uma lista enorme de compras. — Pai... por que você encomendou um carrossel?

Ele apenas deu de ombros, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Crianças adoram carrosséis. Samantha vai adorar, ela vai se divertir bastante.

Suspirei e me sentei na frente dele, rindo do quanto ele conseguia ser exagerado, mas ao mesmo tempo sentindo o calor e o amor que ele tinha pela família. Ele sempre teve um coração grande, mas quando se tratava dos filhos — e agora, da neta —, ele simplesmente transbordava.

— Agora que você chegou — ele fechou o notebook com um gesto decidido —, como está George com o filme? E a sua amizade com aquele Pedro Alves?

— George está se saindo muito bem — comecei, sabendo que ele queria detalhes. — Fez amizade com alguns figurantes, e até eles odeiam o Nicolas. Você acredita? — Ele riu, assentindo. — Ah, e obrigado pela nota, foi útil. Quanto ao Pedro, é meio complicado. Ele me liga bastante, principalmente por causa do Samuel. Às vezes parece que só sou um acompanhante deles.

Meu pai arqueou uma sobrancelha, me analisando como se estivesse vendo algo que eu mesmo não conseguia enxergar.

— Está frustrado por ser só um ajudante com o Samuel ou por não ter sido chamado para um encontro? — Ele sorriu, e senti minhas bochechas queimarem. — Connor, amanhã é sábado. Por que não convida Pedro para sair? Tenho certeza de que ele vai aceitar.

— Pai, não é assim tão simples — tentei desconversar, mas ele apenas balançou a cabeça, em descrença.

— Está na sua cara que você quer isso. E também... tenho certeza de que o Samuel já percebeu. Você acha que ele faz todo esse drama à toa? — Ele riu. — Aposto que ele até faz o Pedro te ligar de propósito.

— Não tem como uma criança de dez anos ser tão manipuladora — tentei argumentar, mas a verdade é que, quanto mais eu pensava, mais fazia sentido.

— Então por que você acabou tomando sorvete com eles na última vez que "precisou resolver um problema"?

— Ele queria saber qual sabor era o melhor... — comecei, mas parei ao ver o sorriso vitorioso no rosto do meu pai. — Eles estão me usando para ficar perto de mim, não é?

Meu pai riu alto. — Claro que estão. E você está completamente envolvido.

Dei de ombros, tentando não deixar que as palavras dele me afetassem demais, mas era impossível. Saí da mansão com a cabeça girando, me perguntando o que Pedro realmente pensava de mim.

Enquanto eu saía da mansão, o ar fresco da noite me envolveu, oferecendo uma espécie de calmaria, mas minha mente estava agitada, um verdadeiro caos de pensamentos. As palavras do meu pai ressoavam em mim, ecoando sem parar. "Será que ele está certo?", me perguntei mais uma vez, como se a resposta pudesse surgir do silêncio ao meu redor. Suspirei, tentando afastar as dúvidas, mas era impossível. Pedro e Samuel... o que eles realmente queriam de mim?

Entrei no carro, e o som familiar do motor me trouxe um breve momento de foco. As luzes da mansão foram ficando para trás enquanto eu dirigia, mergulhando nas ruas da cidade onde cresci. Ela sempre foi um curioso contraste entre o antigo e o moderno. As ruas de paralelepípedo, desgastadas pelo tempo e pelas histórias de gerações, contrastavam com os prédios altos e as construções novas que dominavam o horizonte, como se a cidade estivesse em constante luta entre preservar suas raízes e abraçar o futuro.

Conforme avançava pelas ruas tranquilas, as lâmpadas dos postes piscavam de forma suave, lançando uma luz amarelada que dançava pelo caminho, refletindo no asfalto ainda úmido da chuva recente. O som distante de um trem ecoava ao longe, um som quase nostálgico que me transportava para os dias em que eu e Luiz éramos apenas crianças, sem as complicações da vida adulta.

Passei pela antiga padaria da esquina, com suas janelas sempre embaçadas pelo calor dos fornos. Eu podia quase sentir o cheiro de pão fresco, o aroma que costumava preencher nossas manhãs quando íamos comprar pães com meu avô. Foi ali que aprendi o valor das pequenas coisas, o prazer de compartilhar uma simples refeição em família. Agora, esses momentos pareciam tão distantes, quase intocáveis, como uma foto amarelada pelo tempo.

Do outro lado da rua, avistei o parque onde costumávamos brincar, eu e Luiz. Os balanços balançavam suavemente ao vento, mas o playground estava vazio, um reflexo das mudanças que a vida nos trouxe. Era ali que costumávamos correr, rindo sem preocupação, muito antes das responsabilidades e segredos nos afastarem.

As árvores ao longo da avenida principal sussurravam baixinho enquanto a brisa noturna passava por entre suas folhas. Elas pareciam contar histórias que só quem cresceu naquela cidade poderia entender. O céu, pontilhado de estrelas, surgia entre as nuvens que ainda se dissipavam da chuva. Havia algo incrivelmente pacífico na quietude daquela hora, como se a cidade estivesse respirando devagar, recarregando suas forças para o próximo dia. Mas, dentro de mim, não havia essa paz.

Os pensamentos sobre Pedro, Samuel, e até mesmo sobre George não me deixavam. Será que Pedro me via como algo mais do que um amigo? Será que eu estava sendo ingênuo ao pensar que aquelas ligações, aquelas conversas, significavam algo mais? Cada interação, cada sorriso, cada momento compartilhado com Samuel... tudo isso agora parecia uma trama maior, algo que eu não tinha percebido antes.

"Talvez meu pai esteja certo", pensei enquanto dirigia pelas ruas iluminadas. Talvez Pedro estivesse esperando por mim tanto quanto eu esperava por ele. Talvez Samuel soubesse mais do que aparentava. Talvez tudo estivesse, de fato, nos levando a esse ponto.

A cidade continuava a passar pela janela do carro, mas meus olhos não estavam mais focados na estrada. Eu dirigia automaticamente, sem prestar atenção real ao caminho. Meus pensamentos estavam em Pedro, nas possíveis oportunidades que eu havia ignorado, nos sinais que poderiam estar ali o tempo todo.

E, enquanto o som do motor e o silêncio da noite preenchiam o espaço ao meu redor, uma coisa era certa: minha vida, de repente, parecia muito mais complicada do que eu estava preparado para lidar.

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À noite, enquanto a TV passava algo qualquer, eu mal prestava atenção. George estava ao meu lado, absorto em um roteiro, e conversava com alguém ao telefone, com aquela voz monótona que ele reservava para interações obrigatórias. Estiquei o pescoço, curioso, e reparei que era o agente dele. Parecia mais uma dessas discussões rotineiras sobre contratos ou ajustes de última hora. Nada fora do comum.

Meu celular vibrou repentinamente, interrompendo meus pensamentos dispersos. O número era desconhecido. Hesitei por um momento, mas algo dentro de mim, talvez um pressentimento, me fez atender rapidamente.

— Olá, Connor, me salve! — uma voz masculina falou, urgente, do outro lado da linha.

Minha mente correu. Aquela voz me parecia vagamente familiar, mas eu não conseguia situá-la.

— Quem é você? — perguntei, o coração começando a acelerar de leve.

— Eu sou Vincezo, venha rapidamente para a casa do meu irmão, Pedro. Algo aconteceu com o Samuel! — A voz de Vincezo soou desesperada, cada palavra carregando um peso que me fez congelar.

— O quê? O que aconteceu com o Samuel? — perguntei, e uma onda de pânico tomou conta de mim. Meu coração apertou de imediato, como se sentisse o perigo à distância.

— É extremamente urgente, venha rápido, se apresse... Pedro, acalme-se... Ele ainda é jovem... Samuel, Samuel, você não pode quebrar isso... Ah!... — A voz de Vincezo foi abafada por sons de coisas caindo e quebrando no fundo. A cena do outro lado parecia um caos.

Minha mente foi tomada por uma única necessidade: chegar lá o mais rápido possível. Nem sabia ao certo o que estava acontecendo, mas algo dentro de mim dizia que não poderia perder tempo.

— Estou indo imediatamente! — falei, já me levantando, a adrenalina me guiando enquanto me trocava apressadamente.

Era estranho. Eu conhecia Samuel há poucos dias, e mesmo assim, a ideia de algo ruim acontecendo com ele mexia profundamente comigo. Ele já tinha conquistado um espaço no meu coração, de uma forma que eu não podia mais ignorar. E Pedro... se ele também estava envolvido, eu não podia deixar de ir.

Saí de casa como um furacão, sem nem olhar para George, que ainda estava concentrado no que fazia. Meu apartamento era longe da casa deles, e a distância só aumentava minha ansiedade. O medo de que algo piorasse enquanto eu dirigia me corroía. Entrei no carro e, sem pensar duas vezes, pisei no acelerador com tudo.

Eu não sabia como, mas consegui fazer o trajeto de quarenta minutos em dez. Cada semáforo parecia estar a meu favor, o tráfego noturno era praticamente inexistente. Meu coração martelava no peito, a tensão se acumulando a cada quilômetro percorrido.

Quando finalmente cheguei à casa, vi uma figura à minha espera. Era um rapaz, e ao lado dele estava Samuel, aparentemente ileso, mas seu rosto mostrava um misto de preocupação e confusão.

Algo estava errado.
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Gostaram?

Até a próxima 😘

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