Capítulo Oito

Connor Wessex:

Fui acordado pelo som de uma conversa baixa vindo da sala, logo antes do meu alarme soar. A voz grave era inconfundível, e antes que pudesse processar o que estava acontecendo, já estava de pé, seguindo o som até a cozinha.

Quando cheguei, Pedro já estava lá, parado casualmente ao lado do fogão, mexendo em algo. Ele estava com a camisa mal abotoada, revelando parte de seu peito nu, e a visão me atingiu com uma força inesperada. Por um momento, fiquei paralisado, o olhar preso na forma dele, e me senti incrivelmente desconfortável pela intensidade do impacto que aquilo causou em mim.

Pedro parecia alheio ao meu desconforto. George, no entanto, não perdeu tempo em dar uma cotovelada no meu ombro, me trazendo de volta à realidade. Desviei o olhar rapidamente, sentindo meu rosto esquentar enquanto tentava parecer natural.

— Eu acordei vocês dois? — Pedro perguntou com naturalidade, olhando entre George e eu enquanto continuava com seus afazeres.

Eu estava prestes a responder, mas minha atenção foi capturada por algo muito mais fofo — e inesperado. Samuel estava sentado à mesa, com uma tigela de cereal na frente dele, parecendo absolutamente adorável. Seus olhos grandes estavam fixos em Pedro, sua expressão claramente infeliz, como se tivesse sido tirado de um sonho agradável. Ao me ver, no entanto, a expressão de Samuel mudou, suavizando.

— Não, não nos acordou — murmurei, tentando me recompor e me sentando ao lado de Samuel. — Bom dia, Samuel. Como passou a noite, querido?

— Foi muito bom! — Samuel respondeu animado, seus olhos brilhando com uma doçura que me fez sorrir.

— Samuel, já está terminando o café, vá trocar de roupa — Pedro falou, sem tirar os olhos do que fazia. Vestia calmamente o casaco enquanto dava a ordem, e a expressão de Samuel se fechou no mesmo instante, sua testa franzindo em clara resistência.

— Samuel, eu estou lhe dando três minutos. — A voz de Pedro agora estava mais firme, quase autoritária. — Não pense que vamos sair se continuar com esse comportamento.

O silêncio que se seguiu foi quase cômico. Samuel cruzou os braços, olhando para o pai com uma expressão desafiadora. Era óbvio que ele não planejava se mover tão cedo.

Pedro, no entanto, não se intimidou.

— Pode levantar. Se precisar que eu te force a ir, não será tão fácil falar comigo depois — ameaçou calmamente, mas Samuel sequer piscou.

A tensão no ar era quase palpável, mas havia algo de engraçado na dinâmica entre os dois. George, que assistia a cena ao meu lado, não resistiu e me chutou por debaixo da mesa, segurando o riso. Era difícil não rir diante daquela batalha silenciosa.

Mas, em vez de rir, resolvi tentar uma abordagem diferente.

— Samuel — falei suavemente, chamando sua atenção. — Eu e o tio George precisamos sair daqui a pouco, mas seu pai planejou passar o dia inteiro com você. Que tal trocarmos números de telefone para que possamos nos falar a qualquer momento? Podemos fazer videochamadas, assim, se precisar de mim, pode ligar quando quiser.

Os olhos de Samuel se arregalaram com a sugestão, e ele pareceu relaxar um pouco, seus lábios formando um pequeno sorriso.

— Posso mesmo? — perguntou, com a mesma doçura de antes.

— Claro — garanti, sorrindo de volta. — Isso é uma promessa, e nunca vou quebrar.

Foi nesse momento que percebi o olhar de Pedro sobre mim. Por um segundo, ele pareceu surpreso, como se não tivesse esperado que eu resolvesse a situação com tanta facilidade. O brilho de espanto em seus olhos me fez sentir um leve calor no peito, e por um instante, nossos olhares se encontraram, e algo passou entre nós, uma espécie de compreensão silenciosa.

— Samuel, você é tão obediente. Obrigado, querido — completei, e ele sorriu largamente, pegando um pedaço de papel e me entregando com uma série de números rabiscados.

Enquanto guardava o papel, não pude deixar de notar o olhar complicado de Pedro sobre mim, como se estivesse processando algo novo. Talvez ele finalmente entendesse que havia mais formas de conquistar o coração de alguém do que simplesmente impor a própria vontade. E, naquele momento, percebi que nossa dinâmica estava longe de ser simples — havia algo maior acontecendo entre nós, algo que ainda estava por se desenrolar.

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O trânsito matinal estava insuportável, tornando a viagem até o prédio da audição mais longa do que o esperado. George já estava visivelmente nervoso quando finalmente chegamos, sabendo que estava atrasado.

Ao longe, avistei Nicolas e seu namorado saindo do prédio com grandes sorrisos, cercados por uma multidão que os felicitava. Era como assistir a uma cena de filme, mas um filme onde o protagonista arrogante sempre sai por cima. O olhar superior de Nicolas, como sempre, fazia com que qualquer um ao redor parecesse insignificante. Era o olhar de alguém que se achava invencível.

Quando ele entrou em sua minivan, deixando um rastro de poeira para trás, George rapidamente se apressou para dentro do prédio, claramente afetado por aquele show de arrogância.

— Não se deixe abalar por ele — disse, tentando tranquilizá-lo enquanto o puxava pelo braço. — Nada do que ele faz tem importância.

De repente, nos deparamos com um grupo de pessoas que conversavam alegremente enquanto caminhavam. Eram os juízes do painel da audição, e o coração de George disparou.

— Desculpe, estou atrasado! — George se curvou profundamente, tentando parecer o mais respeitoso possível.

Os juízes trocaram olhares, alguns claramente descontentes. Ninguém gosta de pessoas que se atrasam, especialmente em um ambiente profissional. O diretor assistente, com uma expressão séria, foi o primeiro a falar.

— A audição já acabou. De que adianta correr até aqui? Os jovens estão cada vez menos confiáveis hoje em dia! — Sua voz cortante me fez ranger os dentes.

Eu não podia deixar isso assim.

— Ele não está aqui para tentar o papel principal! — interrompi, minha voz firme.

— Oh? — O roteirista levantou uma sobrancelha, interessado. — Se ele não está aqui para o protagonista, então o que faz aqui?

— Estou aqui para tentar o papel de Silas Dressing, o coadjuvante masculino! — George respondeu, sem perder a compostura. — Até onde sei, vocês não conseguiram encontrar um ator adequado para o papel principal nas últimas audições.

Antes que o roteirista pudesse reagir, George finalmente levantou a cabeça, e naquele instante, o ambiente mudou. Foi como se o tempo tivesse parado por cinco segundos. O diretor assistente, que antes parecia irritado, ficou impressionado.

O que todos viram diante deles foi um jovem cuja presença não podia ser ignorada. O brilho de George, mesmo com um visual simples, era inegável. Sua maquiagem, feita com precisão, realçava seus traços de forma quase etérea. Ele parecia saído de uma história de fantasia, com olhos hipnotizantes que cativavam qualquer um que os encontrasse. Era como se estivesse pisando em um palco invisível, irradiando uma beleza que não podia ser ignorada.

— Qual é o seu nome? — A voz do diretor cortou o silêncio, trazendo todos de volta ao presente.

— George Taylor — ele respondeu com confiança.

O diretor trocou olhares rápidos com o assistente de direção, o roteirista e o produtor. Parecia que uma decisão havia sido tomada sem a necessidade de muitas palavras.

— Eu lembro de você. É um dos artistas da Starlight, certo? — o diretor disse, confirmando algo que ele já sabia. — Pode ir se preparar. O papel de coadjuvante masculino é seu. Você será notificado quando as filmagens começarem.

O alívio e a alegria no rosto de George eram inconfundíveis. Ele se curvou profundamente, agradecendo ao diretor.

— Obrigado, diretor. Farei o meu melhor para estar à altura do papel — disse George, a voz carregada de emoção. Eu me curvei ao lado dele, sentindo uma onda de orgulho.

Nos últimos três meses, preparei George para esse papel com tudo que tinha. Trabalhamos incansavelmente para moldar Silas Dressing, mergulhando fundo na psicologia do personagem, fazendo ajustes na aparência e na presença dele. Sabíamos que só teríamos uma chance de impressionar os juízes, e, felizmente, conseguimos.

Enquanto saíamos do prédio, George olhou para mim com um sorriso cheio de excitação.

— Não acredito que conseguimos! Você planejou tudo para que eles vissem exatamente o que precisavam — disse ele, ainda surpreso. — Até mesmo a maquiagem. Connor, como você fez Fred acreditar nisso tudo? E o Nicolas?

Eu sorri, satisfeito com o sucesso do nosso plano.

— Também pedi para o meu pai enviar uma nota para a Starlight, preparando o terreno. Sabia que seria o suficiente para garantir que eles te dessem o papel — falei, tentando manter a voz casual, mas não pude evitar de me sentir um pouco orgulhoso.

George balançou a cabeça, ainda admirado.

— Você manipulou tudo perfeitamente — ele disse, rindo.

— Eu só joguei com as fraquezas deles — respondi, também rindo. — Nossos inimigos são idiotas.

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Dias depois, George recebeu uma ligação de seu novo agente, confirmando oficialmente seu papel como coadjuvante principal no filme. Ele deveria começar a se preparar imediatamente para suas cenas. A excitação no ar era palpável, mas com ela também vinham os desafios.

Descobri rapidamente que, apesar de toda a empolgação, filmar não era tão glamoroso quanto parecia. Cada cena de cinco minutos levava duas horas para ser filmada. Os atores que interpretavam a multidão eram inexperientes, e suas ações não correspondiam às emoções que o personagem de George deveria transmitir. Isso forçou várias regravações, e a cada nova tentativa, George precisava manter a mesma intensidade, sem perder a essência do personagem.

Em um desses dias caóticos de filmagem, o agente de George me pediu para ajudar a resolver alguns assuntos do meu amigo. Por sorte, eu sabia exatamente o que fazer, afinal, parte do nosso plano tinha sido me preparar para situações como essa. Além disso, era satisfatório saber que nossos inimigos, que tentaram barrar George, não conseguiram derrubar suas conquistas.

Enquanto George atuava, eu observava de perto ao lado do agente dele, Oleg William, que saboreava um café enquanto seus olhos se fixavam na atuação de George.

— Ele é realmente muito bom — Oleg comentou, seu tom admirado. — Mas sabe que a família Wright não está nem um pouco contente com isso, certo?

Eu sorri, já sabendo que os Wrights tentariam algo, mas sem sucesso.

— Eles não podem fazer nada contra George — respondi com confiança. — Ele é protegido pela Wessex Corporation. Se fizerem qualquer coisa contra ele, estarão enfrentando diretamente Élio Wessex.

Oleg me olhou, visivelmente surpreso com a informação. Claramente, ele não tinha sido informado sobre isso antes de aceitar o trabalho como agente de George.

— Acho que esqueceram de te contar essa parte, não é? — acrescentei, com um sorriso brincalhão.

Ao ver sua expressão de choque, não consegui segurar um riso baixo. Era sempre interessante ver como as pessoas subestimavam o poder por trás das conexões de George. Mas ali, naquele set de filmagem, ele estava conquistando tudo por mérito próprio, e eu sabia que ninguém seria capaz de tirar isso dele.
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Gostaram?

Até a próxima 😘

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