Capítulo Dez

Pedro Alves:

A casa tinha se transformado em um verdadeiro caos depois que Samuel decidiu compartilhar as informações que Élio havia me enviado, além daquelas que eu mesmo descobri utilizando os sistemas da agência. As conversas agora eram um misto de orgulho e incredulidade.

— Esse rapaz subiu no meu conceito — disse Agnes, com um sorriso surgindo em seu rosto. — Ainda ajudando o amigo com os trabalhos na área do entretenimento, é admirável.

— Olhe para essas notas e o conhecimento que ele acumulou com o tempo! — Minha mãe assobiou, impressionada. — Esse garoto é um gênio.

Enquanto isso, Samuel pegou meu celular sem cerimônia e, como já havia feito antes, ligou para Connor. Os dois começaram a conversar animadamente, rindo de algo que só eles entendiam. Depois de uns dez minutos, ele desligou o telefone e me olhou com uma expressão crítica.

— O tio Connor disse que você ainda está insistindo nessa ideia de casamento, mas nem o chamou para um primeiro encontro. — Samuel me analisou com um olhar sério demais para a sua idade. — Ele também disse que usar as coisas que o pai dele mandou é trapaça para tentar conhecê-lo melhor.

O silêncio que seguiu foi palpável. As duas mulheres ficaram congeladas, os olhos arregalados em choque e descrença. Meu pai, por outro lado, sorria discretamente, quase imperceptível. Samuel riu da expressão das avós, a primeira risada genuína que eu ouvi dele em muito tempo.

Eu estava ouvindo tudo com atenção, e não pude evitar um sorriso. As palavras de Connor me atingiram de uma maneira inesperada, quase cômica. Baguncei o cabelo de Samuel, e seu riso continuou, mais leve, mais genuíno. Por um momento, parecia que ele era outra pessoa, alguém sem aquele peso nos ombros.

— Quando você falar com ele de novo, diga que eu não vou mais trapacear. — Respondi, tentando manter o tom descontraído.

Samuel apenas assentiu e voltou a brincar com o gatinho, como se nada mais no mundo importasse. Enquanto isso, os mais velhos ainda me olhavam em choque, mas, lentamente, os sorrisos começaram a surgir em seus rostos.

— Esse Connor fez milagres — disse Agnes, batendo palmas de leve. — Samuel sorriu, falou com você, e você respondeu sem nem uma única palavra de raiva. Uma vez me perguntaram se você conhecia outras emoções além dessa.

— Eu não tenho só raiva — retorqui, e ela me lançou um olhar cético.

— Querido! Eu tenho duas certezas na vida: tudo o que faço fica maravilhoso, e a única coisa que você demonstra no rosto é raiva. — Agnes riu, pegando os papéis com as informações sobre Connor. — Mesmo quando sorri, parece um demônio. E quando está com desgosto, é ainda pior.

Samuel, sem sequer se virar, soltou outra pérola:

— O tio Connor disse que no começo você foi meio assustador. Ele disse que parecia que ia destruir qualquer um que se aproximasse de você.

Minha mãe, que estava em choque até então, finalmente voltou à realidade.

— Pedro, quanto tempo você e Samuel passam falando com esse Connor? E o que ele diz nessas ligações? — A curiosidade em sua voz era evidente.

Meu pai, ao lado dela, também parecia ansioso por respostas.

— Nós não falamos muito. Ele só pede ao Samuel para me ouvir mais e não ser tão exigente com os planos que faço para o nosso Dia de Pai e Filho. Como podem ver, ele já me conhece bem o bastante para saber o que eu planejo. — Respondi, dando de ombros. — Ele até me convenceu a ir a um daqueles parques temáticos que ele adora. Não tem nada de estranho nisso.

Minha mãe me olhou incrédula.

— É só isso que vocês falam?

— O que mais poderia ser? Sempre que possível, conversamos, e Samuel insiste em que ele nos acompanhe nos passeios. — Dei de ombros novamente. — A única coisa que mudou é que ele fez Samuel parar de treinar o tempo todo.

Meu pai finalmente sorriu, como se entendesse algo profundo.

— A verdade é que esse rapaz conseguiu mais com você e Samuel em poucos dias do que nós fizemos em um ano. Só o fato de contar essa história já te fez mostrar um pouco de emoção.

— Exatamente! — Agnes concordou, surpresa e animada. — Esse rapaz não parece ser ruim. Pedro, você tem que se esforçar!

Quando ela disse isso, me olhou de cima a baixo, e então virou-se para minha mãe. As duas, em sincronia, me observaram com uma expressão de... nojo?

— Vou chamar o Vincezo para vir até a cidade — minha mãe anunciou, e a olhei confuso.

— Pedro, você é como um pedaço de madeira. Como espera se declarar para alguém sem ajuda? — Agnes disse, com um estalar de língua. — Em comparação, Vincezo sabe muito bem como conquistar alguém. Não precisamos nos preocupar, ele vai usar toda a experiência de vida de solteiro dele para te ajudar! — E sem cerimônia, rasgou os papéis que estava segurando. Minha mãe, por sua vez, começou a mexer no meu celular.

— Vamos estabelecer algumas regras primeiro. — Minha mãe disse, calmamente. — Não podemos interferir até que seja absolutamente necessário. Sabemos como é fácil estragar tudo quando os pais se metem nessa fase.

Ela parecia pensativa, enquanto meu pai apenas assentiu. Eu olhei para o chão, sussurrando para mim mesmo.

— Espero que seja só isso...

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Depois do jantar, quando os mais velhos já haviam se retirado, me recostei no sofá, sentindo o peso do dia cair sobre mim. Foi quando Samuel, com o gato castanho em seus braços, pulou ao meu lado com um sorriso doce estampado no rosto. A alegria estampada nos olhos dele me fez relaxar um pouco mais, e eu não pude evitar de sorrir em resposta.

Se meu filho fosse um animal, eu diria que ele estaria abanando o rabo de contentamento, como se esperasse uma recompensa por bom comportamento.

— Pai, eu fui bonzinho agora, né? — Samuel perguntou com um brilho travesso nos olhos, quase como se realmente estivesse abanando um rabo invisível. — Acho que mereço uma recompensa muito boa, tipo... poder comer quantos doces quiser por dois meses.

Eu ri e baguncei os cabelos dele, o que o fez rir animadamente.

— Então, o que você está tentando dizer é que por ter enganado seus avós para não me atormentarem nem ao Connor por um tempo, você acha que merece essa recompensa? — Falei, enquanto refletia por um momento. — Vamos ver se esse plano vai realmente funcionar. Se tudo der certo, podemos negociar esses doces.

Samuel me olhou, claramente confuso.

— Mas por que não daria certo? Você já está demonstrando interesse no tio Connor esses últimos dias — ele disse, franzindo o cenho como se não entendesse onde estava o problema.

Suspirei e tentei explicar com calma, escolhendo bem as palavras.

— Filho, você precisa entender que existe uma chance... uma pequena chance de que minha relação com o Connor não dê certo. E pode ser que, se isso acontecer, nunca mais o vejamos. — Fiz uma pausa, observando a reação dele. O desgosto era visível no rosto de Samuel, mas continuei. — Eu posso me interessar por ele, sim, e talvez isso se transforme em algo no futuro. Mas da parte dele... — hesitei, tentando ser honesto. — É difícil dizer. As emoções humanas, os sentimentos... são complicados, filho.

Samuel ficou quieto por um momento, claramente ponderando minhas palavras antes de olhar para mim, como se eu estivesse falando a maior bobagem do mundo.

— É por isso que você não gosta de pedir ajuda aos meus tios para essas coisas de encontros? Porque emoções são complicadas pra você? — Ele perguntou, me encarando com um olhar incrédulo. — Pai, vai dar tudo certo! Até o tio Vincezo vai vir te ajudar, e se precisarmos de mais alguma coisa, eu posso mandar uma mensagem para a tia Alice e o tio Caio.

O otimismo de Samuel me pegou de surpresa. Pisquei, incrédulo, e essa sensação de descrença me acompanhava desde que viemos para essa cidade... ou talvez desde o momento em que conhecemos Connor. Eu não sabia exatamente quando Samuel se tornou tão seguro de si, mas lá estava ele, com um sorriso amplo, como se tivesse acabado de resolver o problema do mundo.

Acabei rindo, incapaz de conter o orgulho que crescia dentro de mim.

— Filho, em que momento você se tornou essa pessoa tão positiva, com uma resposta pronta para tudo? Eu me lembro de um tempo não muito distante em que você não era assim. — Falei, balançando a cabeça em descrença. Ele deu de ombros, como se fosse algo natural.

— A tia Alice, a vovó Gisele e a Agnes me disseram que eu preciso estar sempre um passo à frente dos outros e ter várias soluções para qualquer problema. — Ele piscou para mim, com um ar doce e confiante.

Ri novamente, impressionado com a inteligência e maturidade de Samuel. Ele estava crescendo tão rápido, e cada dia me surpreendia mais. Não pude evitar sentir um orgulho avassalador ao perceber o quanto ele se tornou uma pessoa esperta e perspicaz, alguém que eu admirava profundamente.

Olhei para Samuel, ainda rindo de sua confiança. Ele estava tão convencido de que tudo estava sob controle, como se pudesse resolver qualquer coisa com um simples aceno de mão e uma piscadela. Eu, por outro lado, sentia como se estivesse tentando montar um quebra-cabeça em que as peças não se encaixavam.

— Você tem tanta certeza assim, hein? — perguntei, meio divertido. — Agora virou especialista em resolver os problemas do seu velho pai?

Samuel deu de ombros, fingindo ser modesto, mas com um sorriso travesso que deixava claro que ele estava adorando ser o centro das atenções.

— Pai, eu sou incrível. — Ele piscou de novo, como se fosse óbvio. — Eu até consegui que vovó Gisele e Agnes não ficassem no seu pé por uns dias. Isso não é pouca coisa!

Balancei a cabeça, incrédulo.

— E você acha que isso te dá o direito de comer doces por dois meses seguidos? — perguntei, levantando uma sobrancelha.

— Com certeza! — Samuel disse, sem hesitar. — Eu fiz um favor a você, papai. Agora você tem paz. E paz vale doces. Muitos doces.

Eu ri alto, bagunçando os cabelos dele de novo. Samuel estava claramente tentando vender seu argumento, e eu quase podia imaginar uma pequena versão dele usando terno e gravata, negociando como um profissional. O gato, que até então estava deitado preguiçosamente ao lado de Samuel, levantou a cabeça, como se estivesse participando ativamente da conversa.

— Tudo bem, pequeno gênio dos negócios, — disse, ainda rindo. — Vamos ver se seu plano de manter as avós fora do meu pé vai funcionar primeiro. Se der certo, quem sabe eu não considere esses dois meses de doces.

Samuel ergueu o punho no ar em uma celebração silenciosa, como se já tivesse vencido a batalha.

— Vai dar certo, pai. E, se não der, sempre posso pedir ajuda à tia Alice. Ela tem umas ideias ótimas... — ele disse, com um sorriso de quem sabia mais do que estava contando.

Eu fiquei sério por um segundo, um leve arrepio passando por mim ao imaginar Alice envolvida.

— Samuel, por favor... não envolva a Alice nisso. A última vez que ela se envolveu nos meus "problemas" eu acabei em um piquenique medieval improvisado com uma coroa de flores na cabeça. — Fiz uma pausa dramática. — No meio de um parque, com turistas tirando fotos.

Samuel riu tanto que teve que se deitar no sofá, segurando a barriga.

— Foi épico! — Ele gritou entre risadas. — Você parecia um rei desajeitado! A tia Alice disse que era para você "reivindicar seu trono"!

Suspirei, ainda rindo junto com ele, mas com uma leve exasperação.

— E é por isso que não podemos deixar a Alice interferir nos meus assuntos amorosos, — disse, tentando soar sério, mas falhando miseravelmente.

Samuel se virou de lado no sofá, ainda rindo, enquanto o gato finalmente se levantou e se espreguiçou, parecendo completamente alheio ao caos que era a nossa conversa.

— Tudo bem, sem a Alice... — Samuel disse, se recompondo. — Mas o tio Vincezo está vindo. Ele também tem uns truques.

— Ótimo... mais uma peça no meu quebra-cabeça caótico. — Suspirei dramaticamente, me recostando no sofá. — Só espero que o Vincezo não tente me arranjar um casamento medieval com direito a mais coroas de flores.

Samuel me olhou com um brilho travesso nos olhos.

— Nunca se sabe, pai... você parece ótimo de coroa!
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Gostaram?

Até a próxima 😘

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