Bônus Dois
Élio Wessex:
Acho que nunca me permiti relaxar de verdade, nem ser completamente feliz, desde que assumi a administração da empresa da minha família. Sinto que carrego o peso de um legado imenso, algo que nunca para de crescer em minhas costas. Mas, agora, vendo o Connor seguir seu próprio caminho, sinto que talvez eu possa, finalmente, respirar. Saber que ele, de alguma forma, está levando adiante o que começamos, mesmo que ao seu jeito, me dá uma paz que não consigo explicar.
Enquanto estou aqui, sentado, os pensamentos vagam para aquele menino pequeno que ele foi um dia. Sempre tão bondoso, fazendo o bem para os outros sem esperar nada em troca. Me lembro dele correndo pelo quintal, com aquele sorriso de quem não tinha preocupações no mundo. E agora? Ele se transformou em um homem tão gentil, com uma força e uma empatia que me enchem de orgulho. Às vezes me pergunto como o tempo passou tão rápido, como aquele garotinho se tornou esse homem que é hoje.
Pego meu celular, pensando em tudo isso, e disco o número do Luiz. Imagino que ele e Aaron devem estar ocupados até o pescoço, planejando cada detalhe do casamento ou até decorando o quarto para o bebê que está a caminho. Eles nunca deixam nada pela metade, sempre seguindo as etapas com perfeição. Primeiro começaram a namorar, com aquela tensão no ar no trabalho, e agora já estão construindo uma família. Fico feliz por eles, mesmo que, em momentos como esse, eu sinta um peso no peito.
O que me incomoda é essa constante sensação de que preciso estar sempre ao lado do Connor. Como se, ao ficar perto, eu pudesse compensar o tempo perdido. Parece que preciso pavimentar o caminho à frente, limpando os obstáculos, para que ele tenha uma trilha mais fácil para trilhar. Talvez seja o meu jeito de tentar reparar os erros do passado. Eu não cresci ao lado dele como deveria, e essa culpa é algo que sempre carrego comigo, uma dor que, por mais que tente, nunca vai embora.
Culpo aquelas pessoas, as circunstâncias que me afastaram dele, mas no fundo sei que essa culpa também é minha. E é difícil imaginar que algum dia eu vá conseguir me perdoar.
Quando apertei o botão de chamada, ouvi a voz familiar do Luiz atender do outro lado, com aquele tom sempre caloroso.
— Oi, pai!
Sorri, aliviado ao ouvir sua voz.
— Olá? Luiz, onde você está?
— Na sua casa, ajudando a Marta com a limpeza e... bem, tentando lidar com a Sam, que, para variar, está mais atrapalhando do que ajudando — Luiz respondeu, e ao fundo, pude ouvir a risada alta e despreocupada da Sam, o que me arrancou um sorriso involuntário.
— Estava pensando... que tal sairmos para dar uma volta? Tenho um tempinho antes da minha próxima reunião de trabalho, e poderíamos aproveitar para ver algumas coisas para o seu casamento com o Aaron, ou até escolher algo para o quarto do bebê que vocês estão planejando — sugeri, tentando soar casual, mas sabendo que meu tom talvez entregasse um pouco da ansiedade que estava sentindo.
Do outro lado da linha, ouvi Luiz soltar um suspiro, mas não parecia um suspiro irritado, e sim... divertido.
— Pai, sério? Eu tô de férias pra te visitar e você quer que eu pense em decoração de casamento ou em um quarto de bebê? — Ele riu suavemente, o som me aquecendo por dentro. — Além disso, por que está tão animado com isso de repente?
Sorri mais ainda, mesmo que ele não pudesse ver, e senti aquele pequeno nervosismo no peito, o tipo de sentimento que não se apaga, não importa o quanto se tente.
— Connor vai assumir a empresa de vez — soltei, tentando parecer casual, mas o peso da notícia fez com que o silêncio do outro lado da linha durasse mais do que eu esperava. Ouvi Luiz engasgar de surpresa.
— O quê?! — ele perguntou, claramente pego de surpresa.
— Isso significa que eu terei mais tempo... mais tempo para estar presente na sua vida, na vida da Sam. E, quem sabe, até ajudar vocês com o que precisarem — completei, tentando manter minha voz firme, mas o tom emocionado me traiu.
Houve uma pausa antes de Luiz falar de novo, dessa vez, mais sério, mas com aquele toque carinhoso que só ele tinha.
— Isso é ótimo, pai. Mas você sabe que vai precisar ajudar o Connor no começo, né? Ele pode assumir a empresa, mas vai precisar de você pra isso — ele disse, e antes que pudesse terminar, ouvi um barulho alto do outro lado da linha.
— Sam! O que você fez agora?! — Luiz exclamou, seguido de uma risada. — Pai, preciso ir! A Sam derrubou um dos livros na cara do Aaron. Tá uma bagunça por aqui!
E, antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou. Fiquei ali, parado, segurando o telefone, olhando para o prato de comida à minha frente. O silêncio pareceu me envolver, trazendo à tona a verdade que eu não queria admitir.
Ele tem razão... Eu estou forçando as coisas, tentando me aproximar, mas talvez esteja errando na forma. Criar laços é algo que não se faz com pressa, e mesmo que eu queira estar mais presente, não posso forçar isso a acontecer.
Abri a carteira com um movimento quase automático, e meus dedos encontraram uma foto antiga, meio desgastada pelo tempo. Tirei-a com cuidado e olhei para a imagem já um pouco desbotada. Era uma daquelas fotos que sempre mexia comigo, não importava quantas vezes eu a visse.
Nela, Connor ainda era uma criança, com aquele sorriso largo e sincero que parecia iluminar tudo ao redor. Ele estava rindo, sem nenhuma preocupação, enquanto eu e meus pais estávamos ao lado dele, também sorrindo. Era um daqueles raros momentos em que tudo parecia perfeito, onde o mundo era simples e nada podia quebrar aquela bolha de felicidade.
Meu coração apertou ao pensar nisso. Como o tempo passa rápido. Aquela criança sorridente agora era um homem, seguindo seu próprio caminho. E meus pais... já não estavam mais aqui. A saudade bateu com força, um peso familiar que sempre vinha quando eu olhava essa foto.
Senti os olhos arderem um pouco, mas forcei um sorriso. Eles teriam orgulho do Connor, do homem que ele se tornou. Mas ao mesmo tempo, não pude deixar de me perguntar se eu também estava à altura desse legado, se eu tinha sido o pai que ele precisava.
O tempo que eu perdi, as escolhas que fiz... tudo parecia tão distante, e agora tudo o que eu queria era ter mais desses momentos, mais dessas risadas sinceras, mais dessas memórias.
— Então, como está indo a preparação para a festa de casamento do seu filho? — Ouvi uma voz masculina me perguntando, tirando-me dos meus pensamentos.
Levantei o olhar e, à minha frente, estava a silhueta de um homem com óculos grossos, segurando a alça da mochila com uma postura meio desajeitada, mas familiar. Era o Dr. Hill, o médico que havia atendido meu filho alguns dias atrás. Nosso breve encontro naquela ocasião fez com que eu me sentisse um pouco mais jovem, como se estivesse conversando com alguém que realmente entendia o que eu estava guardando lá no fundo, sem precisar explicar muito.
— Olá, doutor Hill — cumprimentei, com um sorriso que ele logo retribuiu. — Não houve casamento nenhum, na verdade. Pedro exagerou um pouco...
— Pode me chamar de Sandro — ele respondeu, soltando um sorriso amistoso. — Sinto muito por essa confusão de casamento que não aconteceu.
Ele apontou para o lugar à minha frente, como quem pede permissão educadamente.
— Tem alguém sentado aqui? Posso te fazer companhia?
— Claro, não estou completamente sozinho, mas companhia é sempre bem-vinda — disse, tentando não parecer tão solitário quanto me sentia.
Ele riu suavemente e se sentou, ajeitando os óculos. Era aquele tipo de riso que vinha de alguém que, mesmo com as dificuldades da vida, encontrava momentos de leveza.
— Então seu filho já teve um "divórcio"? — ele comentou, com uma leve ironia. — Jovens hoje em dia não conseguem nem manter um casamento, hein?
Balancei a cabeça, sorrindo.
— Na verdade, eles nem chegaram a ser namorados — expliquei, rindo junto. — Agora, estão apenas comendo um lanche, como se nada tivesse acontecido.
— Ah, fazer o quê, as relações são confusas mesmo — Sandro concordou, com um olhar pensativo. — Talvez por isso eu não me relacionei com ninguém desde que fui chutado pelo meu último namorado.
— Sério? Alguém chutou você? — Falei, realmente surpreso. — Isso parece impossível!
Sandro me olhou com uma expressão confusa.
— Alguém como eu? — perguntou, tentando entender o que eu quis dizer.
Eu sorri, meio tímido, mas fui sincero.
— Sim, alguém como você. Bonito, e pelo pouco que conversamos naquele dia, parece ser uma pessoa gentil, cheia de caráter. Isso não é algo que se encontra todo dia.
O sorriso dele voltou, mas dessa vez, ainda maior. Era um sorriso que deixava claro que eu tinha tocado em algo que ele não ouvia com frequência, talvez uma insegurança que nem imaginava que ele carregava.
Antes que a conversa pudesse avançar, a garçonete apareceu. Quando abri a boca para pedir, ele fez o mesmo.
— Por favor, um sorvete de pistache e um pedaço de brownie de chocolate — falamos ao mesmo tempo.
Nossos olhares se cruzaram e caímos em uma risada conjunta, o tipo de riso que você tem quando percebe que compartilha algo inesperado com outra pessoa.
— Quem diria que gostamos das mesmas coisas — Sandro comentou, com um brilho nos olhos.
O silêncio que se seguiu foi confortável. Eu me sentei um pouco mais ereto, aproveitando minha sobremesa. De vez em quando, olhava na direção dele, mas meus olhos acabaram vagando para a rua atrás de Sandro. E, em um instante, fui levado de volta à minha adolescência. Era como se, por um breve segundo, o passado e o presente se misturassem.
O que era isso? Um eco de tempos antigos? Talvez a sensação de redescobrir uma conexão que eu nem sabia que estava faltando.
Dez minutos depois, já havíamos descoberto que tínhamos muito mais em comum do que eu imaginava. Conversávamos sobre os melhores lugares para relaxar, e acabamos mencionando um local que ambos conhecíamos, onde as águas ricas em minerais eram mantidas quentes pelas fontes termais. Era o tipo de lugar que deixava qualquer um sonolento e em paz. "Essa seria a ideia perfeita de uma lua-de-mel", pensei comigo, mas me mantive quieto sobre isso. Os olhos de Sandro ficavam cada vez mais intensos conforme a conversa fluía, e eu podia sentir o calor subindo em mim, não só pela conversa, mas por como estava começando a me sentir na presença dele. Estava ficando bobo, isso sim.
Sandro começou a me contar mais sobre sua vida, e era como se cada palavra dele me puxasse para mais perto. Ele era querido pelos colegas do hospital, e seus interesses pareciam tão familiares para mim: escrever, viajar, assistir filmes antigos, poesia, literatura... realmente, compartilhávamos muitas paixões. Era raro encontrar alguém com quem eu pudesse me conectar de uma forma tão natural, como se estivéssemos apenas retomando uma conversa deixada no meio anos atrás.
Sem perceber, já estava contando tudo sobre minha vida. Desde as complicações com o pai biológico do Connor e do Luiz, até a descoberta dolorosa de que um dos meus filhos gêmeos havia sido levado de mim. Quando percebi, já tinha falado até sobre o trauma que marcou Luiz, algo que eu evitava compartilhar.
— Então você teve um ex idiota que foi enganado por uma mulher maluca, e ela ainda roubou um dos seus filhos gêmeos, e você só descobriu tudo isso quando os dois já tinham vinte e um anos? — Sandro disse, com os olhos arregalados de choque, quase sem acreditar no que eu tinha acabado de dizer.
Eu dei de ombros, tentando manter uma postura mais leve, mas a dor que carregava na voz era inegável.
— Pois é. Ainda fizeram maldades com o Luiz... — minha voz falhou um pouco, mas continuei. — Ele tem uma cicatriz nas costas por causa disso.
Sandro me olhou com empatia, e o silêncio entre nós se tornou pesado por um momento. Seus olhos, que antes estavam cheios de curiosidade e brilho, agora estavam repletos de algo mais profundo.
— Eu nunca vou me perdoar por ter deixado isso acontecer — completei, com um suspiro pesado, encarando minha sobremesa como se pudesse encontrar uma resposta ali.
Sandro colocou sua mão suavemente sobre a minha, um gesto simples, mas que me pegou de surpresa.
— Você não tem culpa por isso — ele disse, com uma firmeza e doçura que eu não esperava. — Você fez o melhor que podia, e, pelo que vejo, seus filhos sabem disso. Você tem uma chance de se conectar com eles agora, de estar presente. Isso é o que importa.
Senti uma onda de gratidão por aquelas palavras, algo que eu não sabia que precisava ouvir até o momento em que ele as disse. Eu estava me torturando por tanto tempo com a culpa, que não tinha parado para pensar que talvez, só talvez, eu estivesse fazendo o suficiente agora.
Sandro continuou com a mão sobre a minha, e de repente, todo o ambiente ao nosso redor pareceu se fechar, como se fosse só nós dois ali. Aquele gesto, por mais simples que fosse, parecia ter o peso de um alívio que eu não sabia que estava precisando. Meus olhos se encontraram com os dele, e, por um breve momento, não foi só a compreensão que passou entre nós, mas algo mais. Algo que eu não estava preparado para sentir, mas que ao mesmo tempo me parecia inevitável.
— Obrigado — murmurei, quase sem voz. — Não sei se você tem ideia do quanto essas palavras significam pra mim.
O sorriso de Sandro voltou, suave, quase tímido, mas os olhos dele ainda estavam intensos, como se ele estivesse vendo através de mim. Era um sorriso diferente, não o sorriso casual de antes, mas algo que trazia uma sensação de conexão mais profunda. A mão dele permaneceu sobre a minha por alguns segundos a mais, como se nenhum de nós quisesse romper aquele momento.
— Às vezes, a gente carrega pesos que nem percebe até encontrar alguém que nos ajude a dividir, mesmo que só por um instante — ele disse, sua voz calma, mas cheia de significado.
Meus dedos instintivamente apertaram os dele de leve, sem pensar muito. Era um movimento natural, uma resposta ao conforto que ele estava me oferecendo sem palavras. Eu me recostei na cadeira, tentando relaxar, mas ao mesmo tempo sentindo meu coração bater um pouco mais rápido do que o normal. Sandro tinha algo que me deixava desarmado, uma gentileza que ia além das palavras. E isso me afetava mais do que eu estava disposto a admitir.
— Então... — ele começou, claramente tentando aliviar a tensão que de alguma forma tinha se acumulado entre nós, — nós dois sabemos o que é perder tempo com as pessoas erradas. Mas me parece que você tem algo bem especial com seus filhos agora. E com Pedro? Vocês parecem... ter uma ligação forte também.
Eu ri, desviando o olhar por um momento, mas logo voltei meus olhos para ele.
— Pedro é um ótimo rapaz. Confesso que não esperava que a gente se conectasse tão bem, mas ele tem sido um apoio enorme. E com Connor assumindo a empresa, acho que as coisas estão, enfim, se ajeitando — falei, sentindo o calor subir novamente pelo meu corpo.
Sandro me olhou de um jeito que me fez perder o fôlego por um segundo. Aquela intensidade nos olhos dele, como se ele estivesse lendo cada pensamento que eu tentava esconder, me desarmava de uma forma que eu não sabia como lidar. Ele deu um leve sorriso de canto, e senti algo se agitar em mim, uma faísca de algo mais profundo.
— Parece que você está cercado de boas pessoas. Isso é raro — ele disse, a voz um pouco mais baixa, mais próxima.
Eu sorri, tentando disfarçar o nervosismo que começou a crescer.
— Talvez, mas agora... parece que encontrei mais uma boa pessoa — falei, e me surpreendi com o quão natural aquilo soou, mesmo que fosse algo que eu não diria normalmente.
O sorriso de Sandro se alargou, e ele inclinou a cabeça, como se estivesse processando minhas palavras. Então, ele se inclinou um pouco para frente, fazendo com que nossos joelhos se tocassem levemente sob a mesa. Não era nada exagerado, mas o suficiente para fazer meu coração acelerar mais uma vez.
— Bom... fico feliz em saber que posso ser uma dessas boas pessoas — ele disse, sua voz mais suave do que antes.
Houve um silêncio entre nós, mas não era desconfortável. Pelo contrário, parecia que aquele silêncio dizia mais do que qualquer palavra que poderíamos trocar. Meus olhos encontraram os dele de novo, e dessa vez, havia uma espécie de entendimento mútuo. Não era só a conexão das palavras ou das histórias de vida; era algo mais profundo, algo que parecia querer ir além.
— Sabe... eu estava pensando — comecei, sem saber exatamente para onde estava indo com aquilo, mas sentindo que precisava dizer algo. — Aquele lugar que mencionamos, as fontes termais... talvez a gente devesse ir lá um dia. Quem sabe relaxar um pouco?
Sandro me olhou por um segundo, e depois sorriu, mas dessa vez era um sorriso que trazia algo mais. Uma promessa, talvez.
— Eu adoraria — ele respondeu, a voz baixa, mas carregada de algo que fez meu estômago dar um pequeno salto.
Era isso. Aquele momento, aquela troca. Era mais do que uma simples conversa. Algo havia mudado, e a química entre nós dois agora era inegável. O calor entre nossas mãos, nossos olhares que pareciam se prender um ao outro, e o jeito que nossas palavras começaram a carregar algo mais do que significados casuais. Eu não sabia onde isso iria dar, mas naquele instante, tudo o que importava era o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, eu estava verdadeiramente presente. E Sandro estava bem ali comigo.
Bebemos mais um pouco, a conversa fluía tão naturalmente que, por alguns momentos, eu me peguei voltando a uma época em que me permitia sentir algo por alguém. Era como se estivesse redescobrindo aquela sensação, meio confusa, meio excitante. Sandro estava ali, presente de uma maneira que eu não sentia há muito tempo, e isso mexia comigo mais do que eu estava disposto a admitir.
— Eu, hum... preciso ir ao banheiro — falei, levantando rapidamente da cadeira, tentando me recompor e organizar meus pensamentos que estavam em uma bagunça total.
Sandro sorriu, mas o que ele disse a seguir me pegou completamente de surpresa.
— Posso ir junto? — Ele perguntou, e no mesmo instante suas bochechas ficaram rubras. — Quer dizer, hum... — Ele coçou a nuca, claramente desconcertado. — Isso foi muito ousado da minha parte?
Ele me olhou com as sobrancelhas franzidas, tentando entender se tinha ido longe demais. Aquele lado vulnerável, misturado com a ousadia do momento, fez meu coração disparar. Minha cabeça estava a mil, e embora encontros assim com estranhos não fossem algo que eu fizesse com frequência, a verdade é que eu já era um homem adulto, e nesse momento, a opinião dos outros não tinha importância alguma.
Dei um passo em direção a ele, e sem pensar demais, peguei sua mão. O toque foi elétrico, e os dois soubemos que aquele momento iria além de uma simples troca de palavras. Sem dizer nada, caminhamos juntos em direção ao banheiro particular do restaurante, como se o mundo ao nosso redor tivesse deixado de existir.
Quando entramos, tranquei a porta atrás de nós. O silêncio entre nós era denso, carregado de expectativa e desejo. Sandro, sem hesitar, me ergueu com facilidade e me colocou sobre a pia. Foi instintivo passar as pernas ao redor de sua cintura, puxando-o para mais perto de mim. O toque dele era quente, e o único cheiro que dominava o ambiente era o dele — uma mistura irresistível de canela e cravo. Nunca pensei que algo pudesse cheirar tão bem, tão certo.
Nosso olhar se encontrou por um segundo, e naquele momento, não havia mais dúvidas, nem hesitações. O que estava acontecendo entre nós dois era real, palpável. Eu podia sentir o calor dele contra mim, o ritmo acelerado de sua respiração, e o desejo que nos consumia. A química era inegável, cada movimento nosso parecia encaixar perfeitamente, como se estivéssemos esperando por esse momento há muito tempo.
Sandro se inclinou para mim, e nossos lábios finalmente se encontraram, primeiro com um toque suave, quase hesitante, e depois com uma intensidade que fez tudo ao redor desaparecer completamente. O mundo lá fora podia esperar. O que importava agora era o que estávamos vivendo ali, naquele instante.
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Eu ainda estava com o coração acelerado, quase eufórico pelo que tinha acontecido no banheiro com Sandro. Era como se eu tivesse voltado a ser um jovem, agindo com uma leveza e impulso que há muito tempo não sentia. A troca de números de telefone entre nós foi rápida, mas carregada de uma promessa silenciosa: a de que isso não seria um caso isolado. Íamos nos ver de novo, só que de um jeito mais discreto.
Voltei à empresa tentando parecer o mais normal possível, ajustando a roupa para não dar a impressão de que algo havia acontecido. Fui direto ao meu caderno, anotando o horário de entrega dos documentos e o nome do responsável, enquanto o celular vibrava em minha mesa. Relatei rapidamente o trabalho e já me preparava para a reunião quando vi Connor passando pelos corredores, com um sorriso de orelha a orelha. Era evidente que ele tinha passado um bom momento com Pedro no almoço. A felicidade estava estampada em seu rosto.
Ver aquilo me fez soltar uma risada leve e espontânea. De repente, percebi que, de alguma forma, todos na minha família estavam felizes, e meu coração deu um salto de alegria. Não me lembro da última vez que senti essa sensação tão boa, como se tudo estivesse finalmente no lugar.
— Meu filho vai finalmente ao lar e apresentar o namorado presencialmente — Marta disse com empolgação quando contei a novidade sobre a vida profissional do Connor.
— Ver meus garotos trabalhando juntos é muito animador, — acrescentei, com um sorriso sincero.
Marta assentiu com um brilho nos olhos, mas Forrest, sempre o mais prático da dupla, interveio:
— Só não vá forçar nada ou dar uma de mãe protetora — disse, com um tom de brincadeira. — Lembra quando Reggie pediu para você respeitar o espaço dele? Dê tempo ao Connor também.
Marta franziu a testa, claramente irritada com o comentário, mas antes que pudesse responder, meu celular vibrou novamente. Eles olharam automaticamente para o visor, curiosos.
— Quem é Sandro Hill? — Marta perguntou com aquele tom curioso de amiga intrometida.
Tentei disfarçar, mas meu rosto provavelmente denunciou algo.
— Ele é... um amigo. — Respondi rápido, tentando esconder a tela. — Foi o médico que cuidou do George e do Connor dias atrás.
O sorriso de Marta se alargou de uma forma que me fez perceber que eu estava prestes a ser bombardeado com perguntas.
— Forrest, pode sair. Esta é uma conversa entre amigos sobre coisas que você não deve ouvir — disse ela, acenando para o marido de forma quase teatral.
Forrest bufou, mas soltou uma gargalhada, sabendo que não tinha chance contra a curiosidade de Marta. Ele saiu, mas não sem antes lançar um olhar divertido para mim, como quem diz "boa sorte com isso".
Assim que a porta se fechou, Marta se virou para mim com os olhos brilhando de expectativa.
— Agora sim, quero detalhes! Esse tal de Sandro parece interessante... — Ela disse, animada, inclinando-se para frente como se estivesse prestes a ouvir o maior segredo da minha vida.
Eu ri, sabendo que não teria como escapar de suas perguntas, mas, de certa forma, estava até ansioso para compartilhar um pouco da alegria que estava sentindo.
— Não é nada demais... ainda — comecei, com um sorriso tímido. — Mas posso dizer que ele me fez sentir algo que há muito tempo não sentia.
Marta soltou um gritinho abafado e bateu palmas de leve, como quem torce por um casal de filme.
— Ah, eu sabia! — Ela exclamou, com aquele entusiasmo que só uma velha amiga pode ter. — E ele é mesmo tudo isso? Bonito, charmoso, e ainda cuida bem de você?
— Talvez — admiti, sentindo o rosto esquentar. — Vamos ver no que vai dar.
Marta riu e me deu um tapinha no ombro, como quem diz "você merece". E ali, naquele pequeno momento, me senti grato por ter pessoas ao meu redor que me apoiam, seja nos momentos de trabalho, seja nas aventuras inesperadas da vida.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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