Capítulo 9 - Nova vida
~ Joana
No refeitório, Guilherme percebe minha animação incomum. Na verdade, durante o dia inteiro isso deve tê-lo deixado inquieto. Bom, se ele soubesse o que eu sei, também estaria assim. Não, tenho certeza que sua animação seria maior que a minha. Estamos aqui há tempos, tivemos que nos acostumar ao estilo de vida, como funciona; claro, nesse lugar é impossível de se viver naturalmente, mas é bem melhor agora. Acho que os humanos, até mesmo erros, têm uma ótima capacidade de se adaptar, afinal sempre queremos sobreviver.
A cada instante que se passa, Guilherme parece cada vez mais infeliz pelo meu estado. Acho que tenho que explicar, já que ele pode acabar explodindo de curiosidade. Indico com os dedos sobre as lentes.
— Eu... descobri... que... é... possível... sair... daqui!! — essas palavras são curtas, mas... acho que sempre foi o que quisemos ouvir, ambos sempre estivemos em busca de um jeito de sair, um que não envolvesse morte, então saber disso é maravilhoso.
— Acho que aqueles remédios estão te fazendo mal.
— Eu nunca estive melhor, obrigada. — Viro o rosto pro lado dramaticamente, como há tempos não faço...
— Joana... O que houve? Não me entenda mal, gosto de ver você assim, mas... Faz anos desde a última vez em que te vi tão... bem?
— Relaxa, sua confusão faz sentido. Escuta, você sabe que os meus poderes me permitem andar sem ninguém me ver nesse lugar, certo? Ontem, eu acabei explorando e, em um momento, vi um garoto sendo levado por um segurança.
— Qual a novidade? — ele pergunta com uma clara frustração no rosto.
— A novidade, Guilherme, é: o garoto foi escoltado e levado pra fora daqui, deixaram-no em uma casa, que eu julgo ser a dele, e ficou por lá.
Guilherme fica quieto por um tempo, acho que ouvir isso não é algo muito normal. Talvez ele esteja pensando se estou brincando com a cara dele, mas o encaro com mais seriedade nos olhos.
— Então, hipoteticamente falando que isso realmente aconteceu, o que houve com ele depois?
— Isso... eu não sei. Mas pense pelo lado bom, ele saiu daqui. Ele é livre, Guilherme.
— Joana, eu acredito em você, não acho que vá brincar com isso. Mas... independente do que me diga, caso isso ocorresse mesmo, não sabemos o que aconteceu depois que você parou de segui-lo. Não vou arriscar nada, ok? E tente demonstrar menos alegria, os guardas suspeitaram.
— Eu sei, também pensei bastante nisso. Mas pensa comigo, caso seja real, talvez consigamos sair daqui um dia.
Guilherme deixa um pequeno sorriso escapar, acho que ele também tem alguma esperança.
Alguém bate na minha porta, o que acabo estranhando bastante, hoje não é dia que o Guilherme vem pra me entregar remédios. Um guarda entra no meu quarto, ele está sem capacete ou máscara.
— Senhorita Joana, hoje é seu dia de sorte! Você vai embora daqui.
O tempo parece paralisar por um segundo. Penso em permanecer calma, mas preciso fingir espanto, provavelmente ele vai suspeitar de alguma coisa caso eu permaneça tranquila.
— O-o que eu fiz pra isso? — deixo minha voz trêmula e aparento angústia. — V-você vai me matar? POR QUÊ? O QUE EU FIZ?!
Recuo em cima da cama, quero me distanciar. Por anos Guilherme e eu precisamos encenar pra sobreviver, ou conseguir algo.
— Acalme-se, senhorita. Por favor, olhe, estou sem armas. Entenda, quando nós percebemos que nossos hóspedes estão felizes, entendemos que é hora de saírem daqui.
Então... aquele garoto ficou feliz? Mas... parecia assustado. Talvez ele não acreditasse que fosse sair daqui de verdade.
Nós começamos a andar, eu estou na frente. Mas começo a ficar cada vez mais tensa. Quando eu segui o garoto, ele estava sendo totalmente escoltado, sem meios de fuga ou de conseguir ficar livre. Talvez ele quisesse fugir... Outra coisa que está me incomodando: o Guilherme não está aqui.
Não posso sair daqui sem ele, vivemos nessa prisão juntos, sairemos juntos.
— C-Com licença, onde está meu irmão?
— Ah, no quarto dele. Provavelmente, dormindo.
— Sim, eu imagino. O que eu quero saber é se ele também virá.
O meu "guia" volta sua atenção para mim, muito próximo. Seu sorriso fica cínico, os olhos grandes e profundos parecem ler tudo que se passa dentro de mim. Recuo inconscientemente, já que ele continua a se aproximar.
— Algum problema caso ele não venha? — sua voz sai como um sussurro, seu bafo quente e fétido cobre meu rosto. Tento não aparentar estar com nojo.
— Na verdade — O afasto um pouco, para que eu possa falar —, há um problema, sim. Não saio daqui sem ele.
— Entendo, perdoe-me. Resolverei essa situação imediatamente.
Ele encara o teto, talvez esteja se comunicando.
Instantes intermináveis se passam, ele continua a olhar o teto. Subitamente, sinto uma falta de ar e perco a força nas minhas pernas. Caio sobre elas e minha visão fica turva. Percebo que ele me acertou no estômago.
Minha consciência está voltando. Sinto que meus olhos estão abertos, mas não enxergo nada, tudo está escuro. Algum tipo de tecido cobre o meu rosto. Não consigo mover minhas mãos e algo fino machuca meus pulsos. Minha respiração está abafada, estou suando bastante. Há um silêncio fúnebre, onde quer que eu esteja.
Ouço passos silenciosos se aproximando por trás, ele para ao meu lado.
— Vejo que está acordada — uma voz calma interrompe o silêncio.
O que estava tampando minha vista é arrancado de uma vez. O homem misterioso puxa meu cabelo junto, trazendo uma dor enorme em cima do meu couro cabeludo. Quase caio com a cadeira em direção ao chão, por causa da força que ele usa.
Encaro, furiosa, o babaca que quase arrancou meu cabelo... É o homem loiro da outra vez.
— Que brincadeira é essa?! — com raiva, descarrego tudo que sinto em uma simples pergunta.
— Não é brincadeira, não precisa ficar tão alterada. Afinal, apenas facilitamos pra você, já que você atrapalharia sua liberdade.
— Como assim?
— Antes de tudo, meu nome é Alexander, prazer.
Fixo meus olhos em Alexander e uso o canto dos olhos para observar o ambiente. Parece que estou no mesmo lugar que aquele garoto. Os cientistas, enfermeiros, algo assim, devem estar em algum lugar por aqui.
— Vejo que não parece muito interessada em mim. Bom, sabe uma coisa engraçada, o rapaz atrás de você se chama Guilherme — Alexander o descreve perfeitamente. Isso significa que sairemos daqui? — Espere um momento, trarei seu irmão aqui.
Escuto o barulho de um corpo caindo no chão, está sendo arrastado. Não há gemidos, barulhos, grunhidos. Nada. Vejo o corpo de Guilherme. Sua têmpora direita está sangrando.
— GUILHERME! — Tento avançar, mas a corda, ou seja lá o que está me segurando, não permite. A força que eu uso faz com que eu caia no chão, tentando alcançá-lo.
— Acalme-se, ele só está apagado, não morto. Você disse que queria ele, então aqui está.
*
~ Guilherme
A lateral da minha cabeça lateja, minha visão está embaçada, porém retoma a estabilidade. Minha irmã está na minha frente, seus cabelos estão bagunçados, parece preocupada. Meus ouvidos estão zunindo, não consigo entender nada do que ela diz. Vejo um homem loiro, alto e magro.
Não estou no meu quarto, parece um galpão. Acho que meu raciocínio está lento, já que um frio na barriga e uma paralisia tomam conta do meu corpo. Começo a assimilar que não estamos em um lugar normal, Joana parece machucada. Tento me levantar, entretanto sinto cordas finas segurando meus braços.
— Vejo que finalmente acordou. Isso é ótimo. — O homem estranho sorri amigavelmente.
— Quem é você?
— Alexander, prazer. Você acordou na hora perfeita. Assista a esse espetáculo comigo, por favor. — Ele se aproxima de mim e apoia seu cotovelo no topo da minha cadeira.
Consigo girar meu pescoço e enxergo vários homens de jaleco surgirem. Todos cercam Joana, seguram-na e injetam algo no pescoço dela. Debato-me freneticamente na cadeira e acabo caindo no chão. Tento me aproximar desesperadamente, Joana demonstra agonia e desespero. Ela apaga.
— JOANA!
Ela não reage, está totalmente imóvel. Paralisada. Não se mexe. Começo a me desesperar. Viro meu pescoço, mas não consigo mover meu corpo muito bem. Alvejo com ódio Alexander com meus olhos.
— O que você fez?
— Acalme-se, eu posso ajudar. Deixe-me levantá-lo.
Alexander o faz e penso em cuspir na sua cara, no entanto ainda existe uma ligeira chance de salvar Joana usando esse babaca.
O tempo se passa, mas nada acontece. Ela ainda está imóvel, parece morta. Enfim, ela inclina a cabeça.
— Joana, está bem?
Ela simplesmente olha pra mim, mas não fala nada. Talvez esteja atordoada por causa do que quer que tenham injetado nela.
— Quem... é você?
— Você está só zoando comigo, não está? Isso não teve graça — tento parecer calmo e brincalhão, mas minha voz tem uma porção grande de medo.
— Ela não está brincando com você. Ela só não se lembra do irmão. Não é maravilhoso?
Quando ele termina de falar, cuspo na cara do cretino e tento levantar pra socá-lo. Sem êxito. Irrito Alexander e ele chuta meu rosto. Caio de costas.
— É mentira, isso não é possível!
— Muitos pensavam isso. Mas, sabe, um neurocientista egípcio, Karim Nader, descobriu que os sensores dos neurônios precisam de certas proteínas pra ajudar na formação da memória, acontece que ele descobriu um jeito de inibir essa proteína, impedindo que seja possível lembrar-se de qualquer coisa. Não escolhi uma memória específica, então, preferi fazê-la esquecer de tudo.
— Faça-a se lembrar.
— Não, sem vontade. Entenda, sua irmã entendeu a perfeição desse lugar maravilhoso, agora ela sairá daqui. Infelizmente, não se lembrará de sua vida aqui. — Sinto uma turbulência forte na minha cabeça, ela parece pesar. — Agora, ela irá fazer uma despedida com o irmão. Joana, venha até aqui.
Ela se aproxima de mim.
— Reconhece essa pessoa?
— Não.
— O que sente por ela?
— Deveria sentir algo? — ela rebate, quase que mecanicamente.
— Não.
— Gostaria de matá-lo?
— Não.
— Quer ele na sua vida?
— Não. Não o conheço, afinal.
Antes que eu possa dizer qualquer coisa, sinto algo pesado me atingir por trás da nuca.
*
~ Alexander
Encaminho Joana para sua nova casa, estamos chegando à cidade. Foi interessante deixar outra pessoa ver alguém ser "transferida", o presidente deve estar querendo inovar nos métodos.
Ao chegarmos à casa, deixo Joana em seu novo quarto, pego o último remédio, injeto-o na sua veia e começo:
— Seu nome é Joana, você tem dezesseis anos, mora com seus pais, Karine e Flávio. Seu irmão morreu quando você tinha oito anos, por culpa de um vilão chamado Wendler. Você entrou, recentemente, na Liga. Seu inimigo é Cristopher. Está apaixonada por Carlos no colégio e sua melhor amiga se chama Bia.
Saio do quarto e a deixo dormir. Descrevo os últimos detalhes com os "pais" da Joana e retorno para a base.
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