Capítulo 4 - Entendendo aos poucos
~ Wendler
A brisa está ótima, não quero abrir meus olhos, esse lugar acaba sendo maravilhoso. Uma rota de fuga do incompreensível da realidade, se bem que tudo aqui é bem real.
Abro os olhos devagar, vejo os meus eus me observando de pé, seus rostos estão estáticos. Será que estão com algum problema?
— Então...
— Vamos dar nomes — interrompo o de cabelo branco. — Eu sou o Wendler, o de cabelo azul é o Blue e o de cabelo branco é White.
— Quanta criatividade — Blue comenta ironicamente.
— Obrigado — simplesmente respondo sem querer me mover muito, sinto uma preguiça enorme de simplesmente me levantar.
— Como eu dizia — diz White com uma pitada de raiva silenciosa —, você pode ter poderes agora, mas não é invencível.
— Isso eu percebi há não sei quanto tempo.
— Vou lhe explicar como os poderes funcionam.
— Como você sabe usar os poderes e eu não?
— Lembra que quando você entrou aqui, nós aparecíamos e íamos, sem mais nem menos? — Blue pergunta.
— Mas... Blue, como você surgiu ao meu lado quando eu estava no ar? Não existe ponto fixo.
— Você não precisa olhar pro lugar, pode simplesmente imaginar, desejar ficar próximo do objeto ou ser, ou usar a visão periférica, como você mesmo descobriu.
— Além disso, você tem uma limitação do quão distante pode ir, o máximo é de 200 metros. Você só pode fazer vinte teleportes por vez, tem que esperar algo em torno de dez segundos para "restaurar" um que você já usou. Pode fazer cinco teleportes em sequência, mas tem que esperar trinta segundos para usar novamente — White explica como se fosse um professor que trabalha no assunto há muitos anos.
Ajeito-me no chão, ficando sentando. Mesmo podendo teleportar, não posso gastar totalmente à toa, a ideia de não poder fugir de uma situação e acabar morrendo por tal é um pouco assustadora. Pondero a circunstância de alguns momentos atrás.
— E quanto a minha resistência física? Como eu ainda conseguia me mover naquele meu estado?
— Eu ia começar a falar disso agora. Sua resistência não é mais a de um humano — não diga —, por isso você conseguiu aguentar aquilo. Sua força também não é mais a mesma, diria que pode fazer só um pouco mais que um humano normal, nada tão relevante. No entanto, sua velocidade é bem superior, tanto velocidade quanto agilidade, além do mais, achou mesmo que conseguiria aguentar tanto tempo sendo um humano normal? Seu metabolismo e sistema sanguíneos são mais acelerados, por isso a morfina reagiu tão depressa, seu sistema imunológico também está modificado. Por último, você é mais resistente a químicos, por isso não teve consequências pelo uso. No mais, é só isso.
— Onde exatamente tudo isso é "só"?
— Então, foi ótimo vê-lo, mas acho que está na hora de acordar.
— Tchau, até mais tarde — ambos se despedem de mim acenando as mãos.
O sentimento de conforto parece novidade, os poucos dias que passei pelas torturas pareceram décadas. Não estou no meu quarto, o teto do meu era branco — novidade. A cor aqui é roxa, olho para os lados e vejo que o quarto tem outra cor, azul. Sinto um leve incômodo no meu pescoço, então vejo que a "coleira" está no mesmo lugar. Melhoro minha posição ao me sentar. Não sinto diferença no meu corpo, não me sinto mais forte, nem algo do gênero, talvez explique como que Marco mesmo sendo tão magro e fino tinha uma força tão surpreendente.
Percebo que não existe dor alguma no meu corpo, até minhas unhas voltaram. Olho para os dedos dos pés procurando algum sinal de apodrecimento por tanto tempo dentro de umidade. Nada. É quase como que tudo que eu passei não passasse de uma ilusão, uma lembrança distante de um passado distorcido.
O quarto é bem simples, só tem uma cama, a porta, um banheiro. Verifico os bolsos procurando pelo cartão do Josef, mas aparentemente o confiscaram. Começo a vasculhar minha cama. Já existiram outros que foram jogados naquele lugar, ou seja, não devo ter sido o único que sente uma vontade estarrecedora de destruir todo esse lugar. Pessoas, ou seja lá como posso me auto denominar, já devem ter feito grupos usando algum modo, quartos sem nenhum tipo de monitoramento e nada que possa ajudar na administração dos movimentos de seus "residentes".
Após alguns instantes procurando por algo, acho uma protuberância por baixo do travesseiro. Enfio a mão por dentro até achar algo com uma superfície lisa. Deixo no mesmo lugar que está, ao menos já sei que existe um escuta.
Fico em pé na cama, na tentativa de me aproximar mais do teto e verificar se existe algo a mais, porém não enxergo nenhuma câmera. Uma ideia interessante surge: e se o bracelete for mais útil do que apenas me paralisar? Claro, é apenas uma hipótese, quase um chute, porém eu posso estar certo, talvez exista uma câmera aqui, ou alguma utilidade para isso; caso contrário, como eles saberiam a condição de seus moradores, se estão vivos ou mortos?
Faço uma vasculha pelo quarto procurando qualquer coisa interessante. Instantes se passam e fico sem sucesso com minha busca. Não posso tentar me asfixiar na esperança de que venham verificar minha situação, eles indubitavelmente desconfiariam de algo, para dizer o mínimo.
Sem opção ou escolha, deito na cama e fico admirando o roxo do teto. Não me resta muita coisa pra fazer além de dormir, se bem que posso ver meus queridos amigos enquanto faço isso e não sucumbo à solidão, como acontece naquele livro que li que tinha alguma coisa relacionada a Partido, mas não consigo me lembrar do nome. Uma epifania parece tomar conta de mim, no livro dizia existir uma tela na casa de todos, a qual tinha a função de escutá-lo e monitorá-lo. Frustro-me ao recordar que não existe nada aqui parecido com uma tela, ou algo do gênero; a única coisa que eu achei foi esse escuta.
Recosto-me na cama e a porta abre subitamente, fazendo-me levantar de supetão. Quem vejo é a moça que sempre me levava anteriormente. Uma repulsa me preenche e penso em atacá-la. Controlo minha respiração rápido, porém. Independentemente do quanto eu a odeie, não posso arriscar atacá-la, provavelmente algum castigo acontecerá comigo, então não posso fazer nada por agora.
— Bom dia, Wendler. Espero que você tenha dormido bem.
— Bom dia, senhora — respondo com a maior calma possível e tento fazer a melhor cara de pacificidade.
— Queira me acompanhar, por favor.
— Para onde iremos?
— Tendo em vista que você finalmente possui algum poder, você será levado para uma sala diferente da qual está acostumado. Será instruído para ter uma aprimoramento de suas habilidades, você servirá um dia para essa instituição.
— O que eu tenho que fazer?
— Você passará a viver com outros como você.
— O que sou exatamente?
— Ótima pergunta, Wendler. Você, assim como todos os outros que estarão com você, são "Erros", já que não parecem em nada com humanos normais, como eu. — Ela sorri cordialmente.
Os corredores possuem a mesma cor. Ela guia o caminho, andamos por alguns instantes. Enquanto conversávamos no meu quarto, não vi nenhum tipo de dispositivo. Ao longo do nosso destino também não percebo nada com ele, o mesmo acontece no corredor, não parece existir nada que impeça qualquer tipo de tumulto. Não, talvez seja como as portas dos quartos. Enquanto era levado para minha sala, momentos antes da tortura, aquele menino pareceu, a porta simplesmente abriu; o que acabou por ser surpreendente, já que a porta parecia ter surgido ali.
Estamos em frente à parede, estou ao lado da desgraçada. Observo seus olhos castanhos olhando para a porta, se movendo em um segmento linear, como se estivesse lendo um parágrafo. Quando tento ver algo, não consigo enxergar letra alguma. Tento perceber algo no rosto da moça, mas ela está virada em minha direção.
— Algum problema? — ela indaga como se fosse uma criança. Detecto algo estranho nos olhos dela, ao redor da pupila. Algo dourado está lá, mas não consigo descrever ao certo o que seja.
— Nenhum, apenas estava estranhando a demora. Normalmente as portas sempre se abriam quando chegávamos perto; porém, dessa vez, parece que estamos simplesmente olhando para uma parede.
— Ah, você percebeu. Como esperado do meu preferido.
— Preferido? Então ela já cuidou de outros antes de mim. — Acontece que você era registrado naquele lugar, no entanto, é a primeira vez que você vem para cá.
Registrado? Ela está me registrando pelos olhos, talvez tenha alguma ligação àquela coisa estranha nas pupilas dela.
A porta, enfim, se abre. Visualizo várias pessoas dentro, todos usando a mesma roupa que eu, blusas brancas e calças de mesma cor, ambos os gêneros estão aqui, separados por mesas, devem ter dezoito fileiras no total, cada fileira tendo quatro mesas. Um homem se vestindo como o Marco está no fim da sala, parece que estou em uma sala de aula.
— Ora, então esse deve ser o novo aluno. — Ele sorri, olhando diretamente para mim, sendo de certa forma bem receptivo. — Obrigado, Niú, pelo seu excelente trabalho.
— O prazer foi meu. Wendler, quero que vá até onde o senhor Calígula está.
Vou em direção até meu professor e ouço a porta se fechar. Ao ficar ao seu lado, percebo que suas pupilas também têm aquele adorno dourado; seu sorriso permanece, porém, agora que estou mais perto, percebo que é falso.
— Apresente-se, Wendler.
— Prazer, me chamo Wendler. Tenho quinze anos.
Estou um pouco sem jeito, qual é a dessa instituição?
— Poderia nos dizer sua habilidade?
— Certo. Posso me teletransportar.
— Que interessante — sua voz sai sádica por um momento, mas parece que ele tenta disfarçar sua gafe. — Tome um assento onde você quiser, Wendler.
Direciono-me até uma carteira vazia. A aula discorre, e, bom, definitivamente isso não é uma sala de aula. Primeiro, os alunos parecem não ter emoções, não reagem, ficam simplesmente inertes a maior parte do tempo, porém eles estão aqui, não como se estivessem em algum outro planeta, mas, na verdade, eles estão simplesmente focados demasiadamente no conteúdo. O professor ensina algumas coisas interessantes, ele está fazendo o que qualquer professor de história bom diria, sem a história, filosofia e sociologia, a ideia de liberdade ou direitos simplesmente é uma ilusão.
Quando estava com Josef, uma de suas funções era ''desmitificar'' minha cabeça. Ao longo da tortura, comecei a implorá-lo com tudo o que eu tinha. Aos prantos berrava para que ele parasse, até que ele me deu uma proposta, era simples, eu teria que acreditar com toda força do meu ser em cada palavra que ele dissesse, conforme eu começasse a acreditar nisso, a dor começava a diminuir, caso contrário, ela aumentava substancialmente. Conforme o tempo passava comecei a acreditar que 2+2=5; direitos eram cedidas apenas para aqueles superiores a nós; liberdade era servir aquela instituição. Felizmente, Blue e White, a cada vez que eu os visitava, diziam para que eu não me preocupasse, já que eles manteriam o que eu sabia a salvo. Na última vez que eu apaguei, fiquei o que pareciam meses, dentro da minha consciência, reaprendendo o que um dia eu sabia tão bem. Tal deve ter acontecido em um intervalo de tempo que não me lembro muito bem qual.
Então, tudo que ensinavam nessa sala eram as mentiras, todos aqui pareciam totalmente alienados.
"Obrigado, Blue e White" — falo em um sussurro comigo mesmo. Outra coisa interessante, todos aqui usam os braceletes nos braços, não no pescoço. Seríamos diferentes?
Olho pro lado. Vejo que um aluno está me observando, ao invés de estranhar, aproveito para procurar algum tipo de traço que demonstre que ele não está são. A única coisa diferente é a presença de olheiras profundas, olhos extremamente vermelhos e cansados. Começo a procurar os mesmos traços nos alunos ao meu redor e os encontro.
— Wendler! — escuto a voz gritante do professor. Então é isso, eu sou o aluno bagunceiro.
— Senhor?
— Gostaria que viesse até aqui, acho que você ainda não viu, já que seus cartões de identificações ficam um pouco escondidos.
Cartões? Levanto-me e começo a ir até meu destino, enquanto ando procuro qualquer mínimo sinal de algo preso à roupa dos outros estudantes, porém falho em detectar qualquer coisa.
O professor Calígula me estende uma pequena caixa com um formato quase oval, ao abri-la vejo duas lentes de contato com uma pequena circunferência dourada bem no meio.
Então é isso que todos usavam.
— Por favor, pegue-os com cuidado.
— Obrigado.
Coloca ambas em meus olhos, não parece haver alguma mudança significativa olhando pro nada, mas quando vejo a blusa do professor vejo o tão comentado cartão. É exatamente como o cartão de Josef, mas então como eu conseguia ver o de Josef, mas não o deles?
— Sei que é estranho ver esses cartões, mas eles são inteiramente digitais. Se você prestar atenção, verá que suas mangas, agora, têm duas listras negras. Além disso, se você olhar pra porta, verá que está escrito o nome da sala. — Sala Z, 89. — Agora, quando nossa aula acabar, você enxergará o nome do seu quarto, terá o seu nome em cima, do mesmo modo com o de outras pessoas. Ah, caso você esteja, por exemplo, com algum problema, essas lentes têm uma câmera que nos permitem ver através de seus olhos e se você retirá-las, depois de dez minutos, iremos ver se você está bem. É um pouco diferente do cartão do seu educador, ele usa um real.
Então tudo que eu passei era uma "correção de erros"? Controlo minha respiração e tento não avançar e esganar esse professor.
Fico estático por um momento, então, além da escuta que não me permite falar o que bem entender, a câmera vai literalmente me perseguir e vir comigo por onde eu for. Dez minutos não são suficientes para tecer planos, precisaria tirar e refletir em tudo, então não poderei levar alguma coisa pra tentar rabiscar ou planejar.
— Algum problema, Wendler?
Ajeito minha compostura.
— Nenhum. Perdão pela demora.
Volto para minha carteira. O aluno que antes me encarava agora está dormindo, não direi nada. Os alunos ao meu redor estão, pela primeira vez, com feições de medo, totalmente inquietos.
— Jean... pode, por favor, acordar? — sua voz sai execrável e amedrontadora, sua face se retorce a ponto de não parecer mais a mesma pessoa.
Jean acorda, ele demora poucos instantes para entender o que acaba de acontecer. Ao processar, seu rosto fica pálido de maneira que começa a se tremer, suor brota por seu rosto e ele termina por liberar o que sua bexiga segurava. Ele levanta em um sobressalto.
— P-professor, por favor, se acalme, eu lhe imploro...
— Calado!!!
Ele se vira para mim, porém sem o rosto ameaçador.
— Wendler, por você ser novo por aqui, deixarei que observe e entenda o que fazemos com quem dorme no meio das aulas. Alunos, atrás deles.
Todos se levantam como se fossem um, estão claramente inquietos e perturbados. Jean começa a chorar e fito-o, tentando entender a situação. As únicas coisas que ele faz são chorar e gemer, espasmos começam a tomar conta dele. Ele corre em direção à porta, porém, aparecem letras vermelhas em cima da porta ''trancada''. Todos os alunos estão bem próximos de Jean, ele ajoelha e começa a implorar por piedade.
Todos começam a espancá-lo, pontapés, socos e chutes são desferidos implacavelmente nele. Uma risada grotesca vem do outro lado da sala, do professor, que se diverte com a situação. Lágrimas são causadas do tanto que ele ri. Um sentimento de desgosto me preenche. O profe... Não, ele não merece ser chamado assim. Calígula domina a classe dando intermináveis aulas, não sei como é o resto do dia; mas todos são levados a algum tipo de extremo, explicando suas olheiras e corpos estáticos: ELES ESTÃO COM MEDO DE MORRER.
A brutalidade acaba. Jean está desconfigurado, seu rosto quase irreconhecível.
— Professor, posso ir ao banheiro? — sinto que vou vomitar, não vejo meios de sair dessa prisão de segurança máxima.
— Pode ir — ele ainda está se recuperando das risadas.
No banheiro, acabo por vomitar, acho que não vomitei por ter visto o estado de Jean, mas pelo estresse. Preciso de aliados, vou aproveitar que saí do banheiro para procurar algo. Tiro minhas lentes, decorei a posição de alguns lugares enquanto eu vinha. Deixo as lentes guardadas dentro do bolso.
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