Capítulo 3 - Sem escapatória

~ Wendler

     A lança acaba por ficar presa ao chão, e observo com satisfação o meu tormentador gemer. A dor que tanto foquei em ignorar me agarra com força e me lança ao chão. Um grito abafado sai de mim, já que não quero continuar com isso.

     Junto o que me resta de forças e me ponho de pé, caminhando até estar de frente ao homem de preto. Olho para suas pupilas, percebo que são castanhas. Vejo algo que os óculos escuros me ocultavam, juntamente com a cadeira: um olhar de medo. Sento-me.

     — Você tem suprimentos? Curativos, alimentos, roupas, qualquer coisa? — olho-o com nojo, porém ele ainda é útil, então não posso matá-lo.

     — Nã...

     — Mentira!!! — Tento levantar num frenesi, mas sem sucesso, ainda não tenho forças para tanto. — Não é possível que você não tenha comido nada nesses dias.

     — Então você apenas desejará por saber onde estão.

     — Escute — inspiro, na tentativa de me acalmar, e ao expirar sinto um peso bem leve sair, já é um início —, você tem algo em torno de uma hora e meia até morrer, a lança passou pelo coração. Mas, visto a finura da lança e sua lâmina, não é o suficiente para lhe matar instantaneamente, ela está quase que lhe salvando e fazendo com que você não sangre até a morte.

     — E então? Impressionante saber disso, mas ainda não conseguirá nada de mim, e acho que se esqueceu de um detalhe. Minhas mãos ainda podem se mover.

     Viro-me para trás, vejo duas lanças ao meu lado e as pego. Voltando para o meu agressor, vejo duas pistolas saindo de suas mãos. Olho para o chão atrás dele e surjo lá. Enfio as duas lanças em suas mãos, uma em cada, mais um grito de dor ecoa por todo o espaço. O movimento abrupto faz com que eu me contorça de dor por um instante. Tento me controlar, controlo o ritmo da minha respiração. No fim, só ganha aquele que estiver mais calmo e centrado, não o que se desespera, ao que aparenta.

     — Onde estávamos? Ah, claro — acabo rindo com a situação, eu sou o cara calmo e sarcástico. — Suprimentos. Onde estão?

     — Vai pro inferno.

     — Como o cavalheiro que sou, devo recusar. Você aparenta ser mais velho, então, por favor, eu insisto.

     Decido ir para frente dele, usando meu... surgir? Alguns livros de ficção chamam o que eu faço de "teletransporte". Então, eu me teletransporto para frente dele.

     Começo a perceber algumas saliências no seu tronco e pego outra lança que estava atrás de mim. Aproximo-me e rasgo seu jaleco preto, percebendo que, por baixo, usa um tipo de blusa recheada de bolsos. Começo a revistá-lo. Em um bolso próximo ao seu peito há duas seringas e um papel escrito: "morfina". Outro que está abaixo possui apenas um pequeno sanduíche. Pelo cheiro ainda é comestível, mas há um pouco de sangue. Os bolsos restantes estão vazios, apenas um deles teve algo útil: uma faca de combate.

     Devoro o pequeno sanduíche em instantes, meu estômago dói pelo primeiro resquício de comida em poucos dias. Aplico uma dose de morfina, a dor excruciante começa a se esvair do meu corpo e solto um leve suspiro de alívio. Volto minha busca no meu supermercado vivo, porém ele está um pouco insistente, já que tenta me chutar algumas vezes.

     Nas calças, acabo achando um cartão. Meu agressor se chama Josef Mengele, Alemão, nascido em Gunzburgo, 66 anos. Em um cartão ao lado há apenas seu nome e uma foto sua.

     — Seu nome é Josef... Mas que interessante.

     — Se vai brincar comigo, o seu é Wendler.

     — Não é nada.

     Josef não é tão útil agora, mas não quero matá-lo, seria um ato de bondade da minha parte. Melhor deixá-lo agonizando por agora... Não, acho que só uma pancada não tem problema. Agarro uma lança, vou para trás dele.

     — Então vai ficar me espetando? Que original, acho que no fim não somos tão diferentes.

     — Talvez, mas não sou alemão, nem sei minha nacionalidade — terminando a frase, bato com toda a força a lança na cabeça dele, fazendo com que desmaie. Acerto na lateral por cima de seu corpo, onde acabou ficando um pouco achatado.

     Decido ir pra cima do morro. Mesmo sem dor, não quero piorar a situação do meu corpo. Do alto, avisto uma porta branca no fim, que deve ser a saída. Talvez alguém entre aqui por conta da demora do Josef. Olhando para trás percebo que ainda restam cinco lanças pra usar. Espalho quatro lanças em locais de fácil acesso, perto da porta, mas escondidas. Fico com a quinta. Estou ao lado esquerdo do morro, perto de Josef. Decido começar a ver as limitações de minhas habilidades; no entanto, ouço uma porta se abrir.

     Engulo um seco, não tenho condições de lutar. Os buracos do meu corpo ainda sangram. Mesmo com o mínimo de movimento, teleporto-me até um amontoado de terra e espio a cena.

     Surge um homem loiro alto, com membros finos e de paletó preto junto a uma gravata branca. Sua blusa é azul, não está armado; uma mulher ruiva o acompanha, um pouco menor que ele, usa um vestido até os joelhos, que se sobressalta na luz vermelha, e mais dois guardas, que parecem soldados. Usam capacetes, os quais quase não vejo, por conta do uniforme preto. Estão armados.

     A porta fica aberta e eles se posicionam à frente dela, procurando algo, ou melhor, alguém — meio que ele está impossibilitado no momento. Não sei se consigo teletransportar de tão longe, não quero ser pego. Não de novo.

     Decido me esconder em um morro próximo, esgueirando-me para ver se eles se moveram. Nada. Continuam a esperar, a porta continua aberta. Estimo que estou a cem metros de distância. Outro monte, à diagonal, parece estar a vinte metros. Um deles não está mais lá, um dos soldados sumiu.

     Procuro por ele ao meu redor. Nada. Deve ter passado direto. Ouço o barulho de algo pingar e, ao olhar para baixo, vejo que minha coxa está sangrando: um tiro. Virando meu torço pro lado, sou recebido com uma pancada na lateral da testa. Caio diretamente no chão, minha visão fica turva e minha cabeça começa a zumbir.

     Mais de perto, percebo que ele está fortemente armado. Não é possível ver seu rosto por trás do capacete negro. Ele me agarra pelos cabelos e me levanta, a lança acabou caindo no chão pela pancada. Começo a sentir a dor voltar, parece que o pouco que eu tinha não aguenta muito tempo.

     — Achei o nosso rato, senhor — sua voz é abafada demais pelo capacete, não consigo discernir sua idade.

     — Ótimo, soldado, deixe-o de joelhos.

     O "soldado", como vou chamá-lo, me soca na boca do estômago, me deixando sem ar. Caio de joelhos, tentando respirar ao máximo.

     Aproveito a oportunidade e olho para o topo de um morro que está um pouco longe de mim. Escorrego minha mão lentamente para perto do meu bolso esquerdo, onde ainda há uma das minhas morfinas. Teleporto para o topo, pego a morfina e aplico. Olho para o chão e vou para lá, encostando-me no morro, e pego uma grande quantidade de ar. Observo que há outro monte a 150 metros de mim... Bom, acho que agora é hora de testar as limitações dessa habilidade. Tento ir até o outro lado, viro-me para trás e percebo que estou exatamente no lugar que eu queria. Sento, percebo que apenas a faca é o que me resta, empunho-a e começo a pensar no que devo fazer. Fecho os olhos tentando ouvir algum som, mas nada, devo estar muito longe. A cinco metros de mim, chego ao fim dessa grande sala. Viro pro lado e tento ver a distância, minha visão não consegue chegar até o fim.

     Arrasto-me até o topo do monte, não percebo nenhum dos soldados. Mas, mesmo com muita dificuldade, avisto Josef, e um frio corre por minha espinha. O homem loiro de paletó e a garota ruiva de vestido vermelho já estão lá. Rápidos até demais, eles estavam a mais de cem metros dele, como chegaram tão rápido? 

     Um som agudo e contínuo ecoa a poucos metros de mim. À esquerda, ao virar, percebo que é um sinalizador. Vejo o soldado que está a me perseguir e surjo atrás dele. Levanto um pouco seu pescoço e apanho a faca. Quando tento matá-lo, caio repentinamente no chão.

     Não consigo movê-las, percebo que uma nova fonte de sangue acaba de aparecer na parte traseira do meu joelho. O soldado na minha frente se vira com a arma, dando-me uma coronhada. Caio no chão com força, a faca escorrega das minhas mãos. Assim que tento pegá-la, o soldado que atirou em mim me levanta pelos braços, e o outro apenas observa. Chamei o que me atirou de At e o da coronhada de Ron. 

     Ron coloca um bracelete no meu braço, ele é de cor branca, tem uma luz azul saindo dele. At me coloca sobre seus ombros, eles estão indo até aqueles dois. Entendo como me acharam tão rápido, observando sua grande velocidade. Chegamos até lá rapidamente.

     Ron me joga no chão, no caminho tentei fugir, mas acho que o bracelete restringiu meus poderes. At me coloca de joelhos, encarando o homem loiro.

     — Prazer, Wendler. É maravilhoso ver que você realmente possui poderes, seria um pouco ruim caso não. Alyson, ajude nosso querido amigo. Agora ele é um de nós, merece mais respeito.

     A tal de Alyson se aproxima, tocando perto da gola da minha camisa. Observo que os buracos do meu braço desaparecem... Não, eles se regeneram? Dirijo minha atenção para o homem loiro, atônito.

     — O que você quer? — quase digo um obrigado pra tal de Alyson, o efeito da morfina já passou.

     — Vejo que você é rápido. Meu nome é Marco. Eu lhe ofereço duas opções: morrer aqui mesmo ou se entregar para nós e continuar nos servindo.

     — Já que é assim, servi-los.

     — Ótimo. Ranton, tire esse bracelete, vamos dar um mais adequado para esse rapaz. 

     Então o Ron é Ranton. Ele tira o bracelete ao aproximar um cartão, com uma foto do seu rosto. Uma listra preta está na parte da frente, e a luz azul vira vermelha e cai.

     Do seu bolso ele tira uma "coleira". Está aberta, parece ter o mesmo comprimento do meu pescoço. Posso fugir, dizer que os serviria foi uma aposta, mas realmente me soltaram. Já que consigo ir pra algum lugar olhando para o mesmo, então a visão periférica também se encaixa.

     Arrisco e consigo fugir, apenas verifico a distância: estou consideravelmente longe. Viro meu rosto pra direita e pelo canto dos olhos vejo que eles já estão se preparando pra atirar. Fujo para um monte bem distante deles, perto de uma das lanças que eu posicionei.

     Armo-me, mas não sei o quão longe estou. Acabo caindo em um ponto distante, por pouco eu não conseguiria me teletransportar pra cá.

     — Wendler, você só está dificultando as coisas! — grita Marco, sua voz chega rapidamente pelo eco, sem demora alguma. Estou a dezessete metros dele, então, se eu seguir reto nessa direção, posso matá-lo.

     Fico um pouco agachado, analiso onde está. Ele se vira na minha direção, sorrindo para mim. Marco salta com uma força surpreendente, chegando em instantes onde estou. Surjo atrás dele, porém ele é mais rápido e acerta um chute com a lateral do pé no meu abdômen, lançando-me alguns metros pelo ar. Levanto a cabeça para saber onde Marco está e arregalo os olhos ao vê-lo avançar para o meu lado, onde soca meu rosto, fazendo com que eu bata no chão com muita força e fique totalmente imóvel. Que força. Ranton se aproxima e coloca a coleira no meu pescoço, que aperta bastante. Começo a me sentir pesado, escuto somente mais algumas palavras.

     — Por que o soltou? — Uma voz feminina pergunta.

     — Queria ver se ele realmente tentaria.

     — Sádico. Por que pediu que eu o curasse então?

     — Ele não é tolo, não poderia se mover com aqueles movimentos, mas sem eles, aí é outra história. Cure-o, vamos levá-lo para o quarto dele.

     — Claro.

     — Josef está bem? 

     — Sim, enquanto você estava ocupado, tirei as lanças e o curei, ele ficará bem. Bom, aqui vou eu.

     Acabo por perder a consciência.

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