Capítulo 26 - Emboscada
~ Wendler
Devo admitir, julgando as condições da cidade, nunca se esperaria algo como isso: ao entrarmos no grande casarão, que por dentro mais parecia um bar do que uma casa enorme abandonada. Cadeiras empilhadas nos cantos das paredes, o lugar é bastante empoeirado, as mesas com pernas grossas estão todas viradas para cima com seus topos circulares para baixo. Há no final, um balcão, quando todos nós terminamos de passar por ele, o Chefe coloca sua mão embaixo do balcão até que aperta uma espécie de botão, fazendo com que todo o chão por trás desse balcão comece a descer. As paredes ao meu lado não são mais madeira velha e que parece que pode quebrar ao simples tocar, agora, são feitas de mármore. Enquanto descemos, é perceptível uma tensão no ar.
Eleonora olha para trás preocupada. Acho que está com medo que eu tenha a abandonado. Aceno discretamente para ela e levanto parte do capacete, ela relaxa quando percebe que sou eu. Subitamente, pequenas aberturas são formadas ao decorrer da parede, liberando uma espécie de gás roxo. Prendo a respiração evitando que eu inale qualquer coisa. Eleonora faz o mesmo. Vejo que Vergolino pega uma máscara de gás do bolso. Sinto as pontas dos meus dedos começarem a paralisar.
– Se você fosse um pouco mais calada, eu até teria gostado de você. – diz Vergolino, empunhando uma pistola que ele guardava no bolso da calça.
Que seja mesmo a Joana. Uso toda minha força pra conseguir mirar e atirar, fazendo com que Vergolino perca o equilíbrio e trema de medo, ele atira sem querer na direção de Joana, teleporto até, mas acho que o gás não permite que os outros vejam o que eu acabei de fazer. Empurro Joana e levo um tiro de raspão no braço. Sinto o resto do meu corpo ficando dormente e a cabeça a ficar pesada, até que, enfim, apago.
Não consigo abrir minhas pálpebras, nem mesmo mover meus membros. Não sei quantas horas se passam, mas consigo enfim Mem mover. Levanto-me, a primeira coisa que me certifico é que meu capacete ainda está comigo. Após isso, olho aos arredores, vejo Joana caída não muito longe de onde estou.
Estou em uma sala metálica, há uma porta que se destaca das paredes por conta da cor azul que destacável meio ao cinza. Tento usar meu teleporte, mas não adianta de nada.
Tento acordar Joana da maneira mais... O jeito que alguém que tem que respeitar a ordem de status precisa fazer. Ela acorda e abre os olhos lentamente.
Dou espaço pra ela e volto a observar o lugar que estamos, mas não há muito. Talvez o espaço inteiro seja feito do mesmo material que inibe os poderes.
– Obrigada, pelo que faz lá atrás. – diz Joana, balbuciando.
– É o mínimo que eu podia fazer, senhora. – isso é um pouco estranho. – Estamos presos, não consigo usar meus poderes, talvez seja por conta do metal deste lugar.
– Você está certo. – ela fala enquanto encara as paredes e a porta – O tom da porta é feito do mesmo metal que inibe os poderes. Tirando isso, obrigada pelo que fez lá atrás, quando ouvi o barulho de tiro e senti alguém me jogando no chão, entendi que me ajudou, obrigada.
– Disponha.
Felizmente, o capacete impede que Joana veja o pequeno aparelho no meu ouvido, que está me conectando com Eleonora. Nada. Não há som algum do outro lado, espero que isso signifique que ela está bem. Consigo ouvir uma fraca respiração.
Começo a vasculhar os bolsos; tento ver se o equipamento dos guardas está comigo. Nada.
– Também está sem sorte? – ela pergunta
– Sim, não achei nada.
– É, mesmo aqui.
Sem escapatória e estou preso com alguém que supostamente está morta, acho que é hora de fazer algumas perguntas. Sento do lado oposto da parede.
– Então... Quem escolheu seu nome? – ela me encara "com um ar de ''essa não é a melhor hora".
– Acho que não é o melhor momento para conversar.
– Não há como sairmos. Se ele nos quisesse mortos, já estaríamos. O que nos resta é conversar. – ela pensa por um tempo e, por fim, acaba cedendo.
– Foi meu tio.
– Quem é seu tio?
– Não conhece meu tio?
– Ah... É que sou um cadete, comecei recentemente.
– Sorte sua que sou paciente, meu tio é admirado por todos da Liga. Seu nome é Alexander. – sua voz soa mais feliz com a simples referência do nome do tio.
É brincadeira, né? Não há como isso ser verdade. Ela parece não estar mentindo, mas então como raios ela pode gostar do Alexander? Não faz sentido. Vejamos o que mais eu consigo.
– Certo, não vou esquecer esse nome. – finjo ficar meio que sem jeito. – Tem irmãos? –seu semblante fica mais sério com a pergunta.
– Tinha. O nome dele era Guilherme.
– Meus pêsames. – ela está familiar com Alexander, mas de uma maneira diferente, entretanto, ainda se lembra de Guilherme, mas acha que ele está morto. Certo, hora da cartada final. – O que ele mais gostava de fazer?
– Ah, ele... – ela para. Seu rosto se fecha em confusão. Ela leva sua mão direita até a boca e começa a chorar. - Eu não consigo me lembrar. - ela começa a tremer e a hiperventilar, ouço ela sussurrando algo. – Meu nome é Joana; tenho 15 anos de idade; nasci no dia 17 de setembro de 2205; minha cor favorita é azul, amo sorvete e bolo; minha melhor amiga é a Bia; estou apaixonada pelo Carlos; meus pais morreram cinco anos atrás juntamente com meu irmão, só tenho meu tio Alexander; meu maior desejo é seguir a Liga e ser uma heroína como meu tio... – ela continua a repetir essas palavras em um ciclo infinito. Ininterruptamente. Ela tomba de lado, parece ter frio e a tremedeira aumenta.
Levanto-me e pego ela nos braços, deixo-a no meu colo e a abraço, para que pare de se contorcer tanto. Isso não faz sentido. Tudo que ela fala são frases exatas. Pré-determinadas. Como um robô. Além disso, parece que é tudo que ela sabe. Como é possível que ela nunca tenha tido esse tipo de reação antes, sendo que as respostas dela são tão limitadas? Será que... Sua memória fora apagada? Já li nos livros daquela prisão sobre uma planta na América Latina e algumas enzimas sendo testadas para apagar memória e, depois é só falar qualquer coisa, que a pessoa acredita. Certo. Afirmando que eu não estou louco. Alexander capturou Joana pra usá-la contra nós, Guilherme, pra ser mais específico. Construiu para ela uma vida de mentira, único modo para que as respostas não ativassem essa reação que ela está tendo. Isso não faz muito sentido. Mas é o melhor que eu tenho.
Percebo que ela para de tremer tanto. Um silêncio incômodo toma conta da sala.
– Pode me soltar? Por favor. – sua voz está marasma.
– Claro.
Ela fica a poucos centímetros de mim. Ela me encara um pouco corada.
– Obrigada.
– Disponha.
– O que foi isso? Digo, eu devia saber o que meu irmão mais gostava de fazer, não?
– Não sei se tenho o direito de falar, mas sim. – não posso responder normalmente ainda.
– Qual seu nome? – ela pergunta, acho que tentando se animar.
– João. – ela ri um pouco ao ouvir o nome.
Percebo algo interessante. A sombra dela parece estar tomando... Outras formas? Guilherme disse que Joana sabia manipular sombras, certo? E aquilo funcionava independente desses inibidores.
– Senhora, o que há com a sua sombra? – finjo espanto e surpresa na voz, como ela acabou de passar por isso, não percebe que estou fingindo.
– Mas o que? – ela olha com o canto do olho e percebe, assim como eu, que a sombra está tomando outra forma.
Nisso, palavras começam a se formar, e vejo ali tudo que aconteceu na infância de Joana até o que está havendo agora, a sombra até cita o dia que me levaram para aquele lugar onde conheci Ben e a exploração da prisão. Joana, a que está aqui, encara incrédula. Seu olhar é distante. Confuso.
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