Capítulo 2 - Partes
~ Wendler
Vejo um campo aberto, a brisa agradável brinca com meu cabelo negro, e sinto uma calma indescritível. Será que tudo o que aconteceu foi um sonho? Meu quarto branco, os intermináveis testes que faziam com que tivesse dores de cabeça frequentes. Olho para baixo e percebo que estou sem sapatos, meus pés descalços esmagam algumas gramíneas, sinto-me leve.
Ao piscar, percebo que o chão verdejante agora é liso, transparente e profundo. Começo a afundar no que penso ser água e olho para os lados procurando algo em que eu possa me segurar. Nada. Sinto algo tocar meu calcanhar e, ao verificar, percebo ser eu mesmo, porém os cabelos estão azuis. Ele continua me puxando para o fundo e até tento resistir, mas minha força parece se esvair sem mais nem menos. Vejo-me abaixo da água, enquanto o meu outro eu está andando acima dela. Seus lábios começam a se mover sem produzir som algum: "Olá, Wendler". Meu fôlego se esvai rapidamente, não consigo nadar, mesmo que a água não possua correnteza alguma.
Começo a perder minha consciência, meus olhos se fecham, até que, numa tentativa desesperada, tento puxar um pouco de ar e consigo respirar. Após ter me recuperado, olho pra cima, onde meu outro eu está apenas me observando. Ele direciona seu dedo para baixo e o sigo. Percebo que o fundo possui uma vasta escuridão, porém uma pequena luz dourada sai de lá. Ao me voltar para o outro eu, ele não está lá, nem em lugar nenhum. Tento voltar à superfície, sem muito sucesso, e viro-me para o abismo profundo que me espera. Então, começo a "nadar", se é que onde estou é água. Será que até os livros que eu li eram falsos, dizendo não ser possível respirar dentro da água? Enquanto me encaminho para o fundo, a luminosidade vai sumindo.
De repente, a sensação de umidade desaparece, dando lugar a uma ventania furiosa na direção do meu rosto. Noto que estou caindo. Despenco em uma velocidade assustadora e grito nos primeiros instantes, mas depois de trinta segundos berrando e percebendo que não me espatifaria em lugar nenhum, fico feliz por ninguém ter visto esse vexame. Começo a me manobrar no ar, fico sentado com as pernas pra cima, passo por uma nuvem, ficando agora com um frio horrível. Não sei há quanto tempo estou caindo e apenas fito o horizonte, que percebi há pouco tempo que é iluminado, mas não tem Sol algum. Mais alguns instantes se passam e olho para o chão. Vejo o meu eu, de cabelo azul, novamente, junto com as águas abaixo dele. Se eu cair nessa velocidade na água, meu corpo quebrará em pedaços. Começo a me desesperar conforme me aproximo das águas, mas não há nada que eu possa fazer. Sem escapatória, olho para o outro eu, com esperanças de que ele me dissesse o que fazer. A única coisa que ele faz é: apontar pra cima. Que incrível.
Calculo que em menos de cinco minutos vou virar panqueca, enquanto meu outro eu continua apontando pra cima. Acabo me rendendo e me viro. Reparo que um ponto dourado, que não estava lá antes, brilha. Bom... se respiro dentro da água, será que nado no ar? Faço uma tentativa e funciona. Realmente é muito lógico o que tenho que fazer aqui, e começo a... Acho que voar seria uma melhor definição pro que estou fazendo. Conforme chego mais perto, percebo que me aproximo muito mais rápido do que quando eu estava caindo. Paro de "voar" e penso que, se eu continuar, eu vou voltar àquele lago. Viro-me para baixo esperando que o meu eu azul esteja lá, mas, para minha não surpresa, ele não está.
Já que me aprofundando nas águas fui para cima, caso eu volte, talvez eu retorne ao lago imenso. Sinto alguém cutucar meu ombro e, ao me virar, vejo que agora tenho cabelo branco, e nos encaramos por um tempo.
— Será... que pode me ajudar? — pergunto, mas sem muitas esperanças.
— Por que fala como se eu fosse um estranho? — ele responde em contrapartida.
— Porque eu sou eu. Você não sou eu.
— Só pela coloração diferente do cabelo?
— Exa... — enquanto ia responder, sinto alguém me chamando por trás. Observo que sou eu de cabelo azul... Existem quantos de mim?
— Não faz sentido — o de azul fala.
— Concordo — este é o branco.
— Realmente, nossas vozes são iguais, temos as mesmas características físicas, altura, mas a consciência é individual.
— Mas tanto você quanto nós que estamos aqui somos criados pela sua consciência — responde o de cabelo branco.
— Mas não quer dizer que sejamos iguais — retruco.
— Ele tem um ponto — diz o de cabelo azul.
— Humm... E se pertencermos ao mesmo lugar... seríamos mais parecidos?
— Eu não vejo como nós seríamos mais iguais as... — Sinto que não estamos mais no ar, mas de volta à planície.
Quando ia perguntar como isso acontecia, os dois sumiram, porém tem algo escrito no chão: "Acorde".
Um cheiro fétido obstrui minhas narinas e sinto um enorme incômodo nas pontas dos dedos das mãos e dos pés. Abro meus olhos devagar, mas uma luz vermelha me cega por instantes. Estou de volta a essa tortura.
— Oras, vejo que acordou. Você acabou desmaiando, quando eu terminei de arrancar suas unhas. Você grita muito, sabia? Bom, é ótimo que está acordado, o que acontece é o seguinte...
Não presto muita atenção ao que ele fala e percebo que minhas coxas estão com ataduras, juntamente com meus dedos. O homem de preto se aproxima e me desfere um potente soco, fazendo com que eu vire todo meu rosto pro lado. Começo a encará-lo.
— É falta de educação não olhar pra quem lhe dirige a palavra — ele reclama. — Agora, continuando, como essa é a primeira vez que eu preciso lidar com o tipo de descartável, eu peço perdão. Minha área é para torturas contra os que são contra o sistema dessa instituição.
— Que instituição? — pergunto, já os livros dizem que este é o único lugar seguro que restou no mundo. Só que não há referência alguma ao seu nome, ainda que existam datas e fotos de sua construção. Sempre que eu perguntava sobre isso à desgraçada que me jogou aqui, ela respondia que não era necessário um nome, por isso usavam o apelido "H.O.P.E.".
— Não é de seu interesse. — Ele chuta no meio do meu peito, fazendo com que eu caia no chão, sem ar. — Continuando, eu acabei descobrindo que normalmente eles deixam os outros aqui para que enlouqueçam com fome e solidão, até que consigam fazer algo. Porém, seu caso é especial: aparentemente você não é de todo inútil, seu acompanhamento nos testes de inteligência são fora da curva, impressionantes, então eles acreditam que o melhor é torturá-lo para acelerar o processo, mas sem matá-lo nem danificá-lo tanto. Então, como o cavalheiro que sou, decidi que ao invés de privá-lo da chance de revidar, vou soltá-lo, mas, quando eu o fizer, você terá que fugir, como um pega-pega. Mas cada vez que eu chegar perto, irei machucá-lo um pouco. E caso você durma, bom... deixarei você acordar. Você tem dez segundos.
Uma faca surge da palma de suas mãos, ele corta as cordas que estavam me segurando e começa a contagem.
— Um... — sua voz sai quase que sarcástica, e levanto-me rapidamente, começando uma disparada louca. — Dois...
Olho pra trás e, ao ver que ele está cumprindo o que prometeu, começo a subir um morro.
— Três... — ele continua e escorrego em algo. Percebo que é outro crânio, mas desta vez está bem desgastado. Paro de perder tempo e fico em cima do morro. A dormência que preenchia minhas mãos e meus pés acaba. — Quatro... Cinco... Ah, esqueci de avisar, apliquei um pouco de morfina em você pra que quando acordasse passasse mais rápido. Sete. Oito.
Tento começar a descer o morro, mas a dor dos dedos impede que eu prossiga, minhas coxas doem simplesmente por ficar em pé.
— Nove... — ainda ouço sua voz e tropeço, desabando morro abaixo. Bato minha cabeça umas três vezes enquanto caio e sinto algo abrir na lateral do meu braço e uma nova ardência aparece. — Dez.
Minha parada é uma nova poça de sangue. Consigo ficar de joelhos, apoiado pelos meus braços, e ouço os passos do meu perseguidor se aproximando.
— Achou — ele cantarola e olho para o alto, observando que algo parecido com uma lança está na sua mão esquerda. Ela está levantada, pronta pra ser arremessada; a luz carmesim deixa seu rosto pouco visível, fazendo sua face ficar sombreada.
Tento desesperado levantar, mas não adianta de nada. De repente meu braço direito para de se mexer. Ao vê-lo, percebo que ele fora o alvo da lança. Tento puxá-la do meu braço, mas a carne sendo rasgada me faz interromper o movimento. Olho ao redor, tentando ver onde ele está, e recebo uma pisada na cabeça que me faz ficar com o rosto enfiado na poça. Não consigo respirar e tento levantar, mas sem sucesso, já que seu peso encurrala a minha cabeça.
Meus cabelos começam a ser puxados, e sinto meus pulmões gananciosos pelo oxigênio. Percebo que outro crânio está a minha frente e sou jogado novamente na poça. Contorço-me, desesperado, mas o homem magro e pequeno, vestido de preto, acaba revelando ter uma força anormal. De novo vejo algo que não é de todo vermelho.
— Boa noite — a última coisa que o escuto dizer, antes de apagar.
Minhas pálpebras acabam de abrir, estou deitado em algo macio, devo estar sonhando. Vejo os meus dois "eus" ao meu lado.
— O que vocês querem?
— Você pode ficar aqui, você sentirá toda a dor, mas não estará "lá". Entende? — o de cabelo branco fala.
— Fique aqui, você pode assistir tudo pelos seus olhos, nós sempre ficamos vendo, mas sentimos tudo, assim como você. No entanto, você ficará como um espectador, quase que em "terceira pessoa", você pode preferir — o de cabelo azul fala.
Por trás de mim, há duas janelas, e consigo ver que estou na poça de sangue. Agora sou levantado.
O tempo se passa e tudo continua em uma sequência: acordo, ele coloca outra lança em alguma parte do meu corpo (ele não me tocou na coluna ainda), percebo que o estresse diário tem sido grande, já que meus cabelos ficaram brancos, algumas partes do meu corpo estão apodrecendo por ficar tanto na poça de sangue, meu estômago está vazio e dói a cada vez que acordo. Já cogitei beber da poça, mas nas vezes que tentei apenas consegui vomitar com o sentimento do que eu ingeria.
Estou dormindo novamente e afundo de modo infinito. Pelo menos tudo aqui dentro é claro. Estou cansado, percebo que consigo chegar até aquele ponto de luz que havia no fundo. O alcanço, mas o brilho para, sobrando apenas escuridão... Uma pequena faísca de luz surge, e apareço na planície. É isso... Vou morrer. Ao menos vou poder descansar.
— Você quer ir pra qualquer outro lugar, não? — os dois perguntam em uníssono.
— Sim. Mas não basta... Eu quero matar esse desgraçado...
— Então... você gostaria de ir pra outros lugares, certo? — o que, agora, tem o mesmo cabelo que eu, fala.
— Sim.
— Certeza? – o de azul enfatiza a dúvida.
— Sim.
— Então... acorde — ambos dizem.
Desperto e viro minha cabeça, mas não consigo muito. Meu corpo está magro, o homem de preto não está aqui. Olho pra frente, noto um buraco no meio de uma caverna. Como gostaria de ir pra lá.
Está escuro, mas uma luz vermelha está vindo por trás. As lanças não estão nos meus braços. Giro e enxergo a poça em que eu estava agora há pouco... Funcionou? O que aqueles dois disseram... Não, depois eu penso nisso. Tento fazer o que fiz pra escapar e apareço perto de uma lança. Ao apanhá-la, retorno à minha "caverna".
Testo se o que eu levo na mão vem comigo. A lança me acompanha, mas só se eu segurar.
Ignoro a dor o máximo possível. Não posso falhar na minha vingança. Ele volta, começa a me procurar. Olho para o leste, onde eu estava, e reparo que seu corpo está tenso e atento. Sinto minha respiração se acalmar e ele se aproxima de suas lanças. Neste momento, apareço por trás dele e enfio a lança em suas costas. Ela atravessa seu peito e ele agoniza de dor.
— Não se preocupe, contanto que eu não tire, você ainda viverá por três horas.
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