Capítulo 15 - Sobreviver
~ Alice
Os raios de sol começam a preencher o horizonte, fazendo um jogo de luzes com a escuridão que se passa com laranja e vermelho e um pouco de dourado. Já faz três dias que fugimos da "prisão", como Wendler insiste em apelidar aquele lugar. Após dois dias de fuga incessante, achamos um lugar seguro e deserto. Quando Wendler terminou de derrotar aquele titã, fui buscá-lo pra que pudéssemos fugir. Nesse instante, várias portas se abriram do domo e centenas de guardas vieram atrás de nós. Por sorte conseguimos fugir.
Ben não está em seu melhor estado ainda, com Guilherme controlando o fluxo de sangue, tivemos que ter atenção redobrada pro sangue acabar coagulando dentro dele, felizmente tal não aconteceu. Ainda estamos na planície, atrás de um pequeno morro. Guilherme me ajudou a abrir um buraco em seu interior, acabamos por criar uma gruta artificial. Nossa sorte é que erros podem viver até seis dias sem água, mas mesmo assim é uma situação crítica.
Guilherme saiu há pouco tempo em busca de algum traço de civilização, ou por um córrego, espero que ele consiga achar algo. Enquanto isso, estou cuidando de Ben e Wendler. Ambos estão dormindo no interior da gruta, aqui não é tão frio, então não precisamos nos preocupar. Wendler está num péssimo estado, mesmo podendo se regenerar, o cansaço físico e mental que ele deve estar sentindo é grande, já que permanece dormindo esse tempo todo.
Desço do topo do morro e entro na gruta, vejo que Ben está acordado, parece que acabou de despertar e está esfregando suas mãos nos olhos.
— Bom dia! — digo sem esperar por ele.
— Bom dia — sua voz está fraca, seus ferimentos estão se recuperando bem, mas seu cansaço é aparente. Espero que não fique com infecção. Na sala onde ficávamos, médicos vinham e cuidavam de nós para não morrermos, mas aqui...
— Ele já acordou? — ele pergunta enquanto se vira para Wendler.
— Não, permanece dormindo — dirijo minha atenção a ele.
— Bom, não o culpo... Mas precisamos que ele desperte o mais rápido possível.
— Concordo. Aliás, enquanto ele está dormindo, poderíamos tentar acelerar as coisas pra ele, não acha?
— De acordo. — Ele se endireita e tenta ficar o mais ereto possível, sem que os machucados o atrapalhem tanto. — Saímos seguindo pelo norte, a cidade que eles nos deixam fica nessa mesma direção, não sei a distância exata, mas estamos no caminho certo.
— Entendo, sabe onde fica a base dos revolucionários?
— Sim, mas na nossa condição atual, não vamos aguentar a caminhada. Além disso, eu preciso verificar se eles não trocaram sua localização.
— Como fará isso?
— Não precisa se preocupar,
quando chegar a hora, vou fazer o que devo fazer.
— Certo. Vamos esperar por Guilherme, quando estivermos todos juntos, vamos para a cidade e tentaremos comprar alguma coisa pra nós. Precisamos de roupas novas.
— Como faremos pra andar pela cidade?
— Não sei. Precisamos arrumar um disfarce, qualquer coisa.
O sol está no topo, deve ser algo em torno de meio dia. Ouço alguém se aproximar.
— Sou eu, Guilherme. Consegui algo pra nós — sua voz está abalada, o que não é de se impressionar, já que eu e ele não tivemos um devido descanso desde o dia em que começamos essa fuga maluca.
Guilherme entra com um cilindro de barro sólido, parece que tem água dentro dele.
— Segui alguns quilômetros daqui, achei um pequeno córrego, mas estou sem sorte pra animais. Não há fazendas por perto, mas não morreremos de fome — ele tenta levantar nosso ânimo ao menos. — O que acham do cilindro? Nada mal pra uma primeira vez.
— Claro, claro — concordo com ele, mas ele percebe que só estou brincando.
Todos se aproximam da nossa "jarra" e tomamos um pouco de água, não sei se foi pela falta desta, mas o gosto parece doce. Nunca foi tão gratificante tomar água como agora. Terminamos de saciar nossa sede, pego o cilindro e o carrego até a direção de Wendler. Guilherme já levou água pra Ben, abro a boca de Wendler e peço pra Guilherme fazer a água entrar na boca dele.
Poucos instantes depois, ficamos reunidos e um pouco satisfeitos. Ainda há água, então não precisamos nos preocupar com isso agora. Explico o que Ben e eu estávamos discutindo enquanto ele estava fora.
— Parece que é tudo que podemos fazer... Mas nossas roupas não passam de trapos, duvido que passaríamos despercebidos pelos outros, mesmo que conseguíssemos de alguma forma algo parecido com um disfarce — Guilherme está certo, não tem como conseguirmos fazer isso, somos praticamente chamarizes ambulantes.
— Então, o que sugerem? — pergunta Ben.
— Ben, você se lembra onde ficava a base dos revolucionários da última vez que esteve lá?
— Lembro... Mas por quê, Alice?
— Guilherme achou água, podemos tentar ir até lá voand...
— Impossível. Seria atenção extra sobre nós — diz Guilherme, peremptório.
— Pelo que vejo, há duas soluções: uma insana e outra ainda mais, qual preferem? — uma voz rouca surge do centro da gruta, todos nos viramos ao mesmo tempo e vemos Wendler de pé e com muita dificuldade para se mover.
Levanto-me apressada e vou até ele, ajudo-o a ficar perto de nós e deixo-o sentado o mais confortável que eu puder.
— Há quanto tempo está ouvindo? — questiona Guilherme.
— Desde a hora que discutiam sobre como conseguir comida. Obrigado, desculpem por toda dificuldade que trouxe, deve ter sido difícil me carregar na fuga.
— Não se desculpe, ou todos terão o direito de bater em você — digo sem demora.
— Certo — Wendler deixa alguns risos escaparem, mas ele paralisa, acho que deve estar com dor demais pra rir.
— Que soluções você propõe? — Ben pergunta sério.
— A primeira seria arriscarmos tudo e tentarmos chegar até a base dos revolucionários, mas dependendo da distância, morreríamos por fome; a segunda seria arriscarmos ir para a cidade e pegarmos algo, qualquer coisa, nem que seja por furtos.
Um silêncio se instala no ar, em parte porque os dois meios são perigosos, ambos envolvem muitos riscos e a pior coisa seria morrer por fome. Além do fato de termos que roubar não me agrada muito. Eu posso regenerar ferimentos, não restituir nutrientes no corpo, então não adiantaria muita coisa.
— Podemos invadir algum jardim que tenha algum tipo de árvore frutífera, pra não prejudicarmos o dono da casa — sugiro a ideia.
— Concordo... Mas ainda resta o problema do disfarce — Ben está certo.
— Podemos pegar uma da camisa de vocês e usar os poderes do Guilherme pra fazer um capuz — acabo por achar uma solução meio engraçada.
— Certo, já temos como cobrir o rosto — eles acatam bem a ideia —, mas quem vai pra cidade? — pergunta Guilherme.
— Ben e Alice — Wendler fala, decidido.
— Eu posso ir com o Ben no lugar da Alice.
— Não, ainda tenho que discutir algumas coisas com você.
Espero que eles não se matem enquanto estivermos fora.
~ Joana
Uma luz dourada bate nas portas dos meus olhos, tentando me acordar, mas sou mais forte que essa tentação e continuo na cama, o mais confortável que posso. Ainda de olhos fechados, penso nessa última semana de aula: um caos. Bia não para de me atrapalhar o tempo todo e me jogar na direção do Carlos toda hora que lhe parece plausível; a quantidade de tarefas, tanto escolares quanto domésticas, decidiu aumentar recentemente e parece que há quatro vilões que estão à solta por aí e eu não posso fazer nada contra eles.
Uma coisa estranha das notícias é que apenas informa que esses vilões fugiram, mas não diz nada de onde, devem estar querendo minimizar a situação, pra não causar um alvoroço nos cidadãos comuns. Já faz alguns anos desde a última aparição de vilões, ou uma notícia relacionada a isso... Bom, acho que minha maior preocupação é essa voz maligna dizendo que tenho que sair da cama.
Tendo em vista que não consigo dormir, vou ficar só bolando mesmo. Uma coisa que me chamou atenção naquelas notícias foram dois dos fugitivos, pareciam tão familiares, mesmo que eu não entenda bem o motivo. Devo ter visto em algum livro de história aleatório, mas não me lembro deles muito bem. O tempo parece se passar como uma tartaruga que perdeu duas pernas, acho que o maior fator é minha ansiedade para poder trabalhar como uma heroína o mais depressa possível.
Meus pais devem estar fora a trabalho, ambos são médicos, mesmo com os heróis cuidando das atividades criminosas, as doenças continuam sendo bem presentes no mundo, então a casa é toda minha por hoje.
Acabo desistindo de mostrar qualquer resistência e desço as escadas, estou com um pijama verde claro, não há nada muito especial nele, apenas que parecem aquelas jaquetas que usamos pra abotoar. Meus cabelos começam sua rebelião demonstrando como não aceitam um mundo mais organizado, ficando uma verdadeira selva.
Vejo que as portas que levam pra varanda estão abertas, não tenho a mínima vontade de fechá-las, além disso, tem uma ótima brisa circulando a casa, vejo o que tem de café na mesa e vejo algumas torradas, pego duas e pulo direto no sofá e procuro qualquer coisa interessante que possa estar passando na TV. Começo a ouvir algo rastejando pelo lado de fora, mas não faço ideia do que seja, devem ser alguns gatos perdidos.
Diminuo um pouco o volume da TV e tento prestar um pouco mais de atenção no barulho, percebo algumas vozes cochichando baixinho; o som está vindo detrás da parede a minha frente, levanto do sofá e me dirijo até a cozinha, uso o reflexo de uma parte de vidro da geladeira pra ver se consigo enxergar algo lá dos fundos. Efêmeros instantes se passam e vejo dois seres extremamente sujos, um deles parece ser uma garota da minha idade, o outro é um homem um pouco mais velho. São os caras que vi na notícia. Eu posso tentar ligar pra polícia... Não, não vai dar tempo, eles perceberiam, talvez tenham vindo aqui fazer algo comigo. O que eu posso fazer? — começo a perder a calma e sinto minha respiração ficar ofegante.
Não posso deixar que escapem tão facilmente. Quando penso em pegar meu celular, lembro que o deixei em cima da bancada ao lado da cama. Droga. Talvez eu consiga derrubá-los... Seria estupidez, até porque eu não faço ideia de quanta força eles têm e... Não, isso são só desculpas plausíveis pra fugir e me esconder.
Respiro fundo e me acalmo o máximo que posso. Deixo minha mão um pouco levantada uma espada branca como a luz e brilhante como o mais puro ouro surge em minhas mãos. Não é o poder mais útil de todos, mas essa espada parece ser indestrutível, seu cabo desenhado em adornos de ouro, o peso para mim é leve, porém isso deve ser devido a força incomum que possuo.
Em um átimo, estou no jardim com a espada almejando o pescoço do homem. Percebo que ele parece um pouco machucado e está mancando, ele esboça surpresa pelo meu aparecimento repentino, vejo também que ele pegou algumas roupas do varal e fez com elas um cesto improvisado, onde pegou algumas maçãs da nossa macieira. Minha espada quase o pega, mas algo pontiagudo me interrompe, percebo que é parte de uma cauda, é da garota. Ela rapidamente direciona uma joelhada no meu queixo, não consigo desviar e sou arremessada pra dentro da casa. Ainda um pouco tonta, levanto na esperança de pegá-los, mas eles sumiram. Preciso chamar alguém aqui, agora. Eles não devem ter ido tão longe.
Pego meu celular e telefono pra delegacia e explico toda a situação três vezes, o atendente não entendeu pela velocidade que eu estava falando de tão alterada. Espero que aqueles dois não tenham ido tão longe.
Um pouco de sangue escorre pela minha boca, aquela garota era muito forte, se eu tivesse mais calma e me planejado melhor, eu poderia ter conseguido abater aqueles dois. Depois penso sobre como eu poderia ter dado uma grande surra neles, agora preciso pensar em tudo que eles roubaram, pode ser útil para que a polícia, ou os heróis, achem aqueles dois, e, provavelmente, os outros que não estavam aqui. Até que não foi tão ruim levantar da cama hoje.
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