Capítulo 14 - O despertar de um monstro
~ Wendler
Finalmente, após corredores intermináveis, chego até o lugar que Ben falou. Acabei precisando arrancar outra placa metálica no caminho, já que eu precisava proteger minhas costas. Ajeito ambos os escudos, fazendo uma espécie de casulo ao meu redor, pego o cartão do carrasco e faço como Ben falou.
A porta se abre. Posso ver que estou no topo de uma construção enorme, o céu está um pouco escuro, mas ininterruptamente uma cor vinho e dourada começa a preencher o vasto céu, está amanhecendo. Preciso ignorar a bela paisagem e focar na nossa fuga. Saio do lugar em que estive preso por não sei quantos anos. É até libertador.
Percebo que as armas não atacam do lado de fora. O sistema até que é bem falho. Enquanto isso, observo o local. Não há muros, nem nada do gênero, não consigo avistar guardas nem nada, apenas uma duma de grama enorme, talvez do tamanho dessa instalação. Devem usar pra camuflar esse lugar de possíveis curiosos e intrometidos.
Começo a pensar nos problemas que podem me aparecer agora. Skar. É tudo o que vem a minha cabeça. Mesmo do jeito que eu estou, eu consigo derrotar aquele cara? Se bem que... Tenho que testar algo sobre minha regeneração, talvez eu tenha essa oportunidade hoje.
Aguardo por Alice, Ben e Guilherme. Enquanto isso, observo o belo horizonte.
*
~ Alice
Estamos perto de Wendler, mas as máquinas não param, parece que fizeram com que o sistema deixasse as armas mais agressivas e rápidas ao recarregar.
Finalmente, temos uma pausa. Enquanto avançamos na direção de Wendler, Ben e eu descobrimos que Guilherme tem telepatia, forte o suficiente pra me acompanhar levitando.
- Ainda falta muito? - pergunto inquieta pra Ben.
- Não, ele parou de avançar, deve ter chegado à saída. - Ben está melhor, Guilherme tem regulado a saída de sangue do corpo de Ben, sem permitir que ele sofra tanto.
*
~ Wendler
Ouço passos se aproximando. Fico de pé rapidamente, pronto pra qualquer problema, e vejo um escudo de metal totalmente achatado e reduzido e relaxo.
- Que bom que estão b... - algo estranho chama minha atenção, não vejo todos ali, apenas um par de pés, volto a ficar pronto pra qualquer ataque.
Alice, e somente ela, aparece chorando, ela larga o escudo no chão e vem na minha direção.
- Wendler, eles morreram! Não pude fazer nada, EU NÃO CONSEGUI FAZER NADA - seu rosto está vermelho de tanto chorar. Vou ver se ela é realmente a Alice.
- Qual o problema? Não se lembra? Esse era o plano desde o início. - Ela faz um rosto julgador, preconceituoso, como os guardas, mas rapidamente toma a compostura. - Agora, vamos sair daqui.
Fico de costas pra "Alice", percebi que algumas das minhas habilidades básicas estão bem melhores. Por exemplo, minha audição. Ouço uma arma ser puxada do bolso - Sabia que não podia ser ela -, faço minha cauda aparecer e furo nosso convidado. Ao me virar, vejo que peguei em seu abdômen.
- Aceitaria vir para meu lado? - pergunto, a habilidade de quem quer que seja seria bem útil.
- Espero que morra, desgraçado. - O rosto de Alice se transforma no de uma garota totalmente diferente, mais baixa que a Alice, cabelos ruivos e olhos castanhos.
- Última chance - quando falo isso, ela cospe no meu rosto... Como ela ainda vive mesmo com minha cauda tendo perfurado ela?
Percebo que ela estava falando com dificuldade, até que acaba morrendo. Retiro minha cauda dela e deixo seu corpo do lado de fora, em direção ao pôr do Sol.
Poucos instantes depois, ouço passos novamente. Vejo que todos estão seguros e fico bem mais calmo. Guilherme também está. Isso é bom.
- Wendler, eu...
- Depois resolvemos o que aconteceu, Guilherme, por agora vamos focar em fugir. Ben, como está?
- Estou vivo, melhor do que nada.
- Devo concordar.
- Guilherme, você leva o Ben. Alice e eu vamos dar cobertura pra qualquer problema futuro.
- Quem é a garota ali no chão? - pergunta Alice curiosa.
- Alguém que tentou me matar, ela veio disfarçada com seu rosto, mas felizmente eu consegui perceber e a matei.
- Entendo. Vamos logo!
Agora que sei que Guilherme tem telepatia, podemos andar mais rápido, já que Ben está flutuando. Aproveito a oportunidade para ver os limites da minha velocidade, descubro que mesmo em uma construção como essa de quilômetros de extensão, minha velocidade parece ser maior.
Estamos fora do limite da nossa prisão. O local onde estamos é estranho. Não há segurança, nem guardas. Nada. Quando saímos da prisão e pude ver com mais clareza, a construção lembrava um domo branco gigante; o resto é apenas uma área plana, parecida com um estacionamento, mas sem carro algum. Quando ficamos perto de sair, ouvimos um barulho fino, como se algo estivesse com interferência.
- Testando, testando. Quase bom dia, queridos fugitivos - continuamos a correr, sem parar por um instante -, espero que estejam bem. Acho que alguns não me conhecem ainda, meu nome é Alexander.
Guilherme para de se mover por um instante, lentamente ele começa a virar pra trás e parece pronto pra voltar tudo e lutar.
Pego no braço de Guilherme com força.
- Você terá outras oportunidades. Agora nosso foco é fugir, é uma armadilha. Não caia nessa.
Guilherme me encara por alguns segundos, pensando no que eu disse e avaliando se vale a pena me ouvir.
- Certo.
Alexander continua a comentar alguma coisa na qual não presto muita atenção.
- Eu teria mais cuidado se fosse vocês. Não somos tão estúpidos a ponto de deixar que fujam sem mais nem menos.
- Ben, sabe dizer o que eles têm aqui fora? - pergunto rapidamente.
- Não faço a mínima ideia.
- Alice, se as coisas saírem do controle, vá com os dois. Eu fico atrás e cubro vocês, na melhor oportunidade vou até vocês.
- Entendido.
Quando damos o primeiro passo pra fora dos limites do domo, um tremor enorme começa a acontecer, todos nós paramos por conta do que parece ter acabado de surgir. A duna gigante que vi antes, começa a se erguer, a grama que estava acima dele desgruda de seu corpo, demonstrando uma enorme criatura de pedra, sua retina é negra como a noite e suas pupilas douradas como o ouro.
Ele alcança os céus rapidamente, está olhando pra cima e começa a mover seus olhos em nossa direção. Sinto meu corpo tremer e um sorriso de nervosismo toma conta do meu rosto. Forço para ficar firme. Então... É dele que vou ter que cuidar enquanto fugimos.
- Vamos. O plano é o mesmo. Eu seguro ele. Alice, você disse que não morre, certo?
- Bom... Sim, mas.
- Ótimo, você tirou o meu maior empecilho. - Todos ficam um pouco confusos com minha afirmação. - É simples, eu nunca pude lutar com tudo, por ter que me preocupar se eu iria morrer, sobre como lutaria depois. Mas, agora, eu não preciso me preocupar com esse tipo de coisa, posso lutar com tudo que eu tenho. Sem temer a morte.
Eles relutam um pouco, mas decidem ir.
- Guilherme, consegue levar vocês três?
- Eu posso voar - Alice se pronuncia
- Verdade. Então vocês vão ter que passar por cima dessa coisa, o mais rápido que puderem.
Eles levantam voo, a grande criatura apenas nos observa. Quando todos ficam acima da criatura, e começam a voar o mais rápido por cima para passar por ela. Deixo minha cauda à vista junto à porcaria do chifre.
Subitamente, a enorme criatura está de frente com todos eles, pronto pra derrubá-los com seu braço, sua velocidade é impressionante, como se não pertencesse a um corpo tão pesado.
Teleporto para o lado de seu rosto e o soco com toda minha força, abrindo uma brecha para que consigam fugir. A criatura aproveita o soco e gira ferozmente no ar, usando o braço que acertaria meus amigos em mim. Não tenho tempo pra reagir e sou lançado pra longe. Atinjo o chão com uma força monstruosa, fazendo que eu cuspa sangue por causa do impacto, continuo indo pra trás, abrindo um enorme rastro de terra por onde passo. Aproveito o impulso pra ficar agachado e usar minhas mãos pra parar. Quando paro, percebo que minhas unhas estão um pouco soltas, porém, rapidamente se regeneram.
Sorrio pra mim mesmo. Volto com tudo na direção da criatura, acertando o que seria seu abdômen. Ele recua pelo impacto, teleporto para sua cabeça e tento chutá-lo, mas ele me agarra e arremessa contra o chão abaixo dele. Ele tenta me esmagar, mas teleporto a tempo, ficando de frente com a criatura.
Avanço com tudo contra seu joelho, consigo fraturar parte dele. Ele aproveita minha posição e me chuta. Mesmo regenerando, ainda sinto a dor, está começando a ficar insuportável, sem contar com a tortura de antes. Ele começa a me usar como bola de pingue-pongue, batendo repetidamente em múltiplos lugares e me jogando, sinto meu corpo pesar a cada impacto.
Começo a lembrar daquela raiva de novo, ela parece reaparecer dentro de mim. Após instantes sendo arremessado no ar, a criatura me agarra pelo braço e arremessa com tudo, nisso sinto meu braço deslocar. Enquanto voo no ar, começo a sorrir involuntariamente, a criatura aparece ao meu lado, pronta pra me socar e me matar. Ouço Alice, Ben e Guilherme chamarem meu nome ao longe.
Teleporto para o olho da criatura, posso ver claramente como estou, minhas pupilas parecendo de alguma criatura reptiliana, sangue ao redor da minha cabeça, e meu estúpido chifre negro coberto do meu sangue, minha cauda logo atrás. Uso a cauda contra o olho da criatura, furando-o. Uso esta de apoio e pulo até seu pé, destruindo-o; a criatura usa a outra perna e me chuta, no ar, mas eu me teletransporto novamente até ela.
Sinto que finalmente posso usar o outro braço. Soco-o no rosto com toda força, fazendo-o ter que se apoiar sobre os braços. Enquanto estou caindo, percebo que ele está diferente, ele vira seu corpo mais rápido, o dorso da sua mão vem em minha direção, só consigo me preparar pro impacto. Ele me engana e redireciona o corpo novamente, agora, usa o braço esquerdo e pega meu braço que acabou de se recuperar. Ele me joga no ar... Não sinto mais meu braço, quando vou olhar, percebo que ele não está lá.
Uso minha cauda e furo parte da minha perna, pra ainda ficar consciente. Volto minha atenção e meu ódio para a criatura, que apenas me observa me esperando. Puxo bem o ar e me preparo.
Uso os cinco teleportes que posso de uma vez só, um eu termino de partir sua perna, os outros quatro eu foco em acertar seu peito. Sem efeito, meus com esses danos, ele parece não parar. Estou cansando.
A criatura cai. Ao perceber a perda da perna, ela se vira pra mim, parecendo um animal de três patas e avança, investe seu potente braço novamente, desvio enquanto pulo em sua direção, acertando-o novamente no rosto. Ele usa a cabeça e me acerta, fazendo com que eu seja lançado ao chão, uma nuvem de poeira cobre seu rosto. Avanço contra sua outra perna, mas ele percebe minha intenção e, rapidamente, fica sobre seus braços e usando a perna tenta me acertar. Eu consigo segurá-la, minha clavícula já era também, arremesso-o pela perna, na direção da minha antiga prisão, e avanço contra o monstro mirando seu abdômen novamente. Ataco o máximo que posso, tomando cada vez mais impulso até jogar esse desgraçado contra a prisão.
O sistema de segurança aparece, droga. Meu braço também. Recuo pra não ser morto de imediato pelos tiros. Esse é o meu problema. Eu ainda fico temendo a morte. Preencho meus pulmões de ar. Já posso usar o teleporte, avanço contra o queixo da criatura, fazendo-a recuar. Ela me soca com braço direito. Enquanto voo, ouço o sons de centenas de tiros de todos os lugares e começo a me teleportar para trás das próprias máquinas, visando usar o sistema contra ele, mas são muitos para que eu consiga destruir. Uma enorme sombra me cobre. Virando pra trás, vejo uma mão acertando meu rosto com tudo, acerto em cheio as paredes da prisão. Avanço, ignoro o sistema de segurança, e vou pra uma luta direta contra esse monstro, seu punho vem de encontro com o meu. Consigo destruir sua mão, em troca meu outro braço foi deslocado, enquanto isso múltiplos tiros me pegam, mas também o acertam.
Uso o teleporte e apenas me desvio da criatura, fazendo com que os tiros possam danificá-lo, ele tem me pegar, mas foco em seus pontos cegos, não sou acertado por ele, mas sou arranhado e acertado por vários tiros.
As armas pararam para recarregar, é apenas eu contra essa criatura agora, ficamos em uma troca de golpes frenética, cada vez ele recua, e eu também. Virou um teste de resistência, ouço o sistema de segurança reiniciar, não tenho mais forças pra desviar como antes. Vou apenas avançar contra esse desgraçado sem parar, sou furado múltiplas vezes, fazendo que eu esgote minhas últimas forças, não sinto meu olho esquerdo, nem o braço direito. Acabo por não sentir uma das pernas, estão danificadas demais. Apoio-me no braço esquerdo e olho quase sem forças pra criatura tão danificada quanto eu. As armas estão recarregando, tempo o suficiente para me regenerar o mínimo. Acabo me erguendo o máximo que posso com o braço e uso meu teleporte. Usando o braço direito e o resto de forças que me restam, soco seu olho afundando-o, a criatura vocifera em dor, aproveito a chance e me teleporto pra cima, ficando o mais distante que posso.
Uso meu cinco teleportes de uma vez, não tenho forças pra usar meus braços... Quem diria que esse chifre seria útil. Acerto com tudo contra o peito da criatura, abrindo um enorme furo em seu peito, consigo pular pra longe dos limites da prisão, quando chego no chão, vejo o mundo escurecer e uma lua emanando sua luz.
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