Capítulo 13 - Início da fuga
~ Wendler
Após um breve instante de aprendizado sobre como fazer com que minha cauda e chifre possam ficar um pouco mais camuflados, Alice tirou as coisas que me prendiam. Quando o machucado foi tirado, em poucos instantes, vi minhas mãos se regenerarem em uma velocidade absurda, em segundos ela já estava completamente inteira.
— Vamos levar o Ben? — Alice diz repentinamente.
— Achei que fosse fugir sozinha.
— Acho que vai ser mais interessante se eu for com você. Além disso, estou presa aqui há muito tempo, então não faço ideia do quanto esse lugar pode estar diferente.
— Quão velha você é?
— Não te disseram que é rude perguntar pela idade dos outros? — ela força o máximo que pode pra não se irritar muito.
— Certo, certo. Vou levá-lo, sim. Ele já está aqui há tempo demais, quero ajudá-lo; enquanto isso, eu preciso que me informe sobre esse lugar.
— O que quer saber?
— Existem câmeras aqui?
— Melhor nem perder seu tempo contando. Os que cuidam desse lugar contam com as nossas visitas, a que você deixou uma lembrança no pescoço, já que eles têm coleiras inibidoras e armas que fariam qualquer pessoa gritar ou se paralisar de dor. — Ela me encara com um olhar crítico.
— Quanto tempo nossas "visitas" têm pra ficar aqui? — Caminho até a direção de Ben enquanto Alice continua a me responder.
— O tempo que quiserem.
— Sabe se há patrulha por aqui?
— Bom, não. O sistema de câmeras é bem avançado; logo, eles não veem muita necessidade de fazer patrulha o tempo todo, e há um sistema de armamentos escondido atrás de todas as paredes; os guardas que você vê só são usados por eles conseguirem perceber malícia ou a astúcia dos erros, impedindo qualquer ação.
— Onde essas câmeras ficam?
— Em todos os lugares. — Paro de ir à direção de Ben e me viro pra ela com um rosto um pouco ansioso. — Não se preocupe, não há câmeras aqui dentro, foram arrogantes demais pensando que as coleiras e nossas visitas poderiam dar conta do caso. Mas, sim, eles já devem estar a caminho, devemos ter algo em torno de quinze minutos até os guardas chegarem.
— Você disse que em todas as paredes existe um sistema de armamento, bem, por que ele não ativa?
— O mesmo motivo da falta de câmeras aqui dentro. Veja. — Ela aponta na direção de onde o carrasco veio. — Aquilo é a única coisa que nos separa de centenas de metralhadoras.
— Entendo. Fique de olho na porta enquanto acordo Ben, por favor.
— Ah, ainda resta alguma educação. — Ela ri em deboche.
— Tanto faz. — Simplesmente volto minha atenção até Ben. Ele continua inconsciente.
Próximo a ele, fico perto das correntes que o prendem, olhando pra baixo vejo sua coleira. Pego as correntes e consigo arrancá-las facilmente — ao que parece, ter esses outros poderes é bem melhor do que eu imaginava. Repouso os braços de Ben acima de suas pernas, o foco agora é sua coleira. Tomo cuidado pra segurar apenas a coleira, pra evitar um estrago não proposital; consigo tirar sem complicações.
Penso em alguma maneira de acordá-lo que não seja tão violenta. Acho que se eu beliscar ele, ele acorda na hora. Começo a beliscar com o mínimo de força possível, não sei quanta força eu tenho agora, então, vou com calma, não quero machucá-lo. Acho que estou fazendo com pouca força, depois de beliscar por dez segundos o nariz dele, nada. Acho que vou pela maneira mais eficaz. Fico ao lado dele, agacho um pouco o corpo, ficando em uma posição de ataque, soco a parede metálica o mais próximo possível do ouvido de Ben, a parede acaba se contorcendo nela mesma, ficando certa extensão, junto a isso veio um estrondo enorme que acorda Ben. Ele está um pouco assustado.
— O que você fez? Quer me matar por acaso?? — grita Ben.
— Era mais rápido pra te acordar. A propósito, já te soltei, levanta logo, temos que fugir daqui.
— "Mais rápido pra me acordar?" O caramba isso, não podia ter simplesmente ter me chamad... — é interessante ver a reação dele enquanto tenta relacionar a última parte que eu falei. Ele começa a perceber que é verdade e que até eu estou livre. — O que você fez enquanto eu estive apagado?
— Agradeça a Alice.
Ele a encara e, antes de acenar como agradecimento, ele faz uma cara um pouco estranha, mas logo disfarça.
— Wendler, sei que você está realmente querendo sair daqui, mas é impossível pra nós. Ela, eu até acredito — ele a encara querendo apontar pra Alice —, mas nós, zero de chance.
— Ben — fico agachado e olho no fundo dos olhos dele —, eu apenas te acordei porque ouvi sua história e quero fazer com que ela tenha um final diferente. Além disso, o que acha melhor: morrer tentando sair daqui, ou ser torturado e apodrecer? Qual escolhe?
Ben percebe que estou levando isso a sério, ele me encara pensativo.
— Algum plano de como sair?
— Você disse pra mim sobre aquela saída aqui perto, aquele lugar será meu ponto de fuga.
— Como fará com a segurança?
— Relaxa, tenho uma boa ideia do que vou fazer.
— Tem mesmo?
— Mais ou menos.
— A gente vai morrer.
— Não, só tu mesmo, se ficar pensando nisso. A propósito, o que você pode fazer?
— Eles dizem que sou meio inútil, mas a minha habilidade veio em um conjunto: posso rastrear qualquer pessoa que você queira, só preciso que diga o nome e pensar nela simultaneamente e a acharei onde quer que esteja; e um olfato bem diferente.
— É útil pra mim. Alice, vem cá. — Faço um movimento com a mão, chamando-a.
— Ele aceitou? — ela pergunta inquieta.
— Sim, eu tenho uma ideia do que quero fazer. Vocês vão buscar o Guilherme pra mim, vou deixar nossa rota de fuga aberta.
— Pensei que Guilherme estivesse em luto — diz Ben.
— E ele deve estar.
— Qual a utilidade de alguém que está lamentando a morte de uma pessoa? — ele pergunta curioso.
Aproximo-me dele, deixando algumas risadas escaparem.
— Um homem que perdeu tudo que tinha é uma das coisas mais temíveis que você vai encontrar no decorrer da sua vida — falo peremptório, sem desejar ser questionado.
— Certo, faz sentido.
— Como vamos achá-lo? — Alice parece estar com um pouco de medo de ser capturada de novo.
— Ben vai guiá-los. Aliás, consegue andar com esses ferimentos? — já estava esperando que ele fosse sangrar, mas ele não murmurou pela dor que os machucados devem estar fazendo um momento sequer.
— Eu sobrevivo.
— Você que sabe. Alice, fique a quinze passos de distância de mim. — Ela me olha com um ar de dúvida, mas decide confiar. — Pega essa ponta, que eu ajudo a remover esse outro lado do chão, usaremos de escud... — quando termino de falar, ela já terminou de tirar tudo.
— É ótimo ter oferecido ajuda, mas sei me virar.
— Tente aceitá-la, nunca se sabe quando vai precisar.
— Certo.
Agora que eu sei que consigo arrancar uma placa metálica do chão sem muita dificuldade, pego outra. Coloco minha mão no meio da grande placa e amasso, pra criar uma espécie de apoio para que eu segure enquanto andamos.
— Perderemos nosso campo de visão. Teremos que andar logo. Rápido, Ben.
Ele se prepara pra... Não sei como o poder dele funciona, mas funciona.
Falo Guilherme e penso sobre o dia no refeitório, poucos segundos se passam.
— Achei, vamos.
Todos nos viramos para o local de onde o carrasco veio e caminhamos até lá.
— Alice, você fica na frente, eu cubro vocês dois no início. Depois disso, vamos ter que dar nosso jeito. Ben, vou ver se o carrasco tem algum presente pra você. Aguenta segurar uma placa dessas? Além disso, vamos derrubar aquela porta e seguir nosso caminho, podemos levá-la pra ser um escudo a mais. Vão andado, tenho que pegar uma coisa. — Volto minha atenção pro carrasco, que está jogado ali no chão.
Teleporto até seu lado, começo a vasculhar seus bolsos, acho algumas armas e pego algumas facas pra mim. Acho dentro de um bolso seu cartão daqui; estranhamente, ele não tem nome. Bom, apenas quero seu cartão, não me lembrar de você. Vasculhando um pouco mais, acho duas seringas; ambas tem um papel na parte de vidro, mostrando seus nomes, uma delas está vazia, outra é adrenalina.
Ouço um barulho metálico, Alice deve ter retirado a porta. Teleporto para o lado deles. Vejo que a porta está apenas um pouco amassada e recuada pra trás.
— Quando arrancarmos, entrem em posição. Não podemos falhar aqui.
— Ben, é bom em apostas?
— Não muito... O que você vai fazer?
— Relaxa. Tenho adrenalina aqui, você só vai sangrar mais rápido, vai ser interessante. — Tiro as mangas da minha camisa, entregando para que ele possa fazer umas bandagens improvisadas.
— Seu cretino louco. — Ele pega as mangas longas e começa a amarrar em volta, buscando o máximo de machucados que ele puder cobrir.
— Ótimo que concordou. Alice, preciso que cuide da retaguarda do Ben. Ben, use seu olfato pra prestar atenção no que terá à frente de vocês.
— Certo — ambos falam em uníssono.
— Onde fica a saída que você disse? — pergunto a Ben.
— Siga reto, depois dos dois corredores à sua esquerda, vire no terceiro, siga até o fim. Você chegará a um caminho sem saída, você pode destruir ou, caso tenha alguma cartão de acesso, aproxime o cartão, mostrando a identificação do dono, pra qualquer canto e altura.
— Entendo. No três, vamos avançar com tudo. Três — Ben injeta a adrenalina em seu braço. — Dois... Um... Vão!
Alice termina o trabalho que estava fazendo com a porta, arrancando-a do seu lugar de vez. Esse ínfimo instante nos dá de tempo de organizar melhor. Alice usa sua cauda e fura parte da porta, agora arrancada, e deixa Ben no meio. Fico pronto pra correr e testar os limites da minha força.
Esse breve instante é tempo o suficiente para começarmos nosso avanço. Ouço um som familiar, o mesmo que ouvi quando estava fugindo dos guardas. O sistema de segurança, armamento, já está pronto. Sinto todos os tiros contra meu braço, em todos os lados é possível sentir o impacto. Minha placa retangular começa a se contorcer em algumas partes pela força das ensurdecedoras balas. Espero que Alice e Ben tenham mais sorte.
*
~ Alice
Mesmo com a quantidade enorme de balas, continuo avançando com cuidado. Ben está no meio, parece estar conseguindo aguentar sem muitos problemas. As armas cessam por um momento, sendo possível ouvir o quão superaquecidas devem estar, por conta dos disparos ininterruptos.
— É seguro avançar? — pergunto pra Ben.
— Sem problemas, nada de estranho no nosso caminho.
Combinamos que ele iria se segurar nas minhas costas, pra que eu pudesse avançar mais rápido. Quando ele termina de se ajeitar, avanço velozmente, mas tomando cuidado pra não bater de frente com uma parede.
— Direita — ele diz subitamente. Consigo me virar a tempo.
Continuamos seguindo, sem parar. Enquanto ele me ajuda a ver se temos inimigos próximos, consigo protegê-lo. As placas metálicas estão entrando pra dentro de si, pelo menos a parte de cima está bem danificada, mas estimo que aguentarão bem até o fim disso.
— Por que disse seu nome pro Wendler? — enquanto avanço após uma pausa das armas, Ben questiona curioso.
— Qual o motivo da pergunta?
— Bom, quando chegava alguém novo onde nós ficávamos, você nunca falava seu nome.
— E você? Desde quando conta sua história de vida pra qualquer desconhecido? — ele ri um pouco agora que pensou no assunto.
— Simples, gostei dele. A coragem dele parece ser estupidez, mas isso ele não é. Ele apenas decidiu que quer sair daqui, então, ele vai sair. Acho que gostei desse modo simplista dele de pensar.
— Entendo. Bom, no meu caso, acho que o temo.
— Como?
— Você estava desacordado quando aconteceu, mas devia ter visto o que ele fez enquanto estava sendo torturado... Aquilo... não foi algo normal, ele é insano. Acho que por isso ganhou meu respeito.
— Acho que encontramos um líder bem estranho.
— Pode ter certeza disso — respondo com um pouco de vontade de rir sobre isso.
— Espere, ouço passos.
Paro de avançar no mesmo instante. O sistema de segurança parece ter recuado.
— Quantos são?
— Dois.
— Certo, fica atrás das placas, dou um jeito neles.
— Antes disso, tente passar por eles, não lutar. O sistema foi desativado, precisamos tentar.
— Desde quando ficou tão disposto a tomar riscos?
— Fui infectado pela idiotice do nosso amigo.
Não consigo segurar dessa vez e acabo rindo bastante. Posiciono-me pra correr o mais depressa que eu posso.
— Preciso que me guie e seja rápido.
— O que vai fazer?
— Apenas se segure forte em mim.
— Quero lhe lembrar que estou machucado.
— Tá, tá. Deixa de frescura, vamos logo. — O ouço bufar pelo meu último comentário.
Avanço com um forte impulso, usando o que me resta da parede. Sinto algo se chocando contra ela. Vejo um pouco de sangue no chão, o sistema de armamentos voltou e volta a atirar, deve ter deduzido que os nossos amiguinhos aqui morreram.
Após alguns intermináveis corredores, Ben diz que estamos em frente ao quarto de Guilherme, dou um chute na porta que a deixa frouxa o suficiente pra que caia. Vemos uma figura sentada, seu olhar vazio e distante. Parece não ter se importado com o barulho da porta, ele está no chão, sua visão está na direção de uma carta. Deixo apenas uma das placas no chão. Uso a cauda para segurar meu outro escudo e nos dar cobertura, pra não ter nenhum disparo surpresa. Aproximo-me dele e tiro sua coleira, isso parece chamar um pouco de sua atenção.
— Guilherme, vim para tirá-lo daqui — falo o mais calma e gentilmente que consigo, respeitando seu luto. — Consegue ficar de pé?
— Vão me levar pra morte? — ele pergunta meio que sem vontade. Sem forças.
— Somos conheci... Amigos do Wendler, estamos aqui pra te ajudar.
— Por que ele voltaria por mim?
— Ele disse que você teria alguma utilidade. — Ben responde rapidamente.
— Do jeito que estou agora? Não sou tão útil.
— Wendler busca vingança contra esse lugar, não apenas fuga — Ben pode ter feito a melhor escolha de palavras da vida dele.
— Então o que estamos esperando? — o olhar de Guilherme é de ódio, ele põe-se de pé e parece pronto pra ir. — Acham que ele pode me perdoar pelo que eu fiz?
— Ele disse que você teria utilidade... Isso é algo entra vocês.
— Certo. — Guilherme tira suas lentes e parece pronto pra ir.
— Alice, pode pensar no Wendler?
— Claro.
Pronuncio o nome do Wendler e imagino-o. Guilherme nos encara um pouco confuso.
— Depois te explicamos melhor.
— Certo...
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top