Capítulo 12 - Escuridão
~Joana Dar
É escuro, não há nada aqui. Parece que foi abandonado pela luz. Onde estou? Não consigo ouvir som, apenas a ouço no meu interior. O que aconteceu com o Guilherme? O que houve depois que me seguraram e injetaram alguma coisa em mim? Não estou dormindo, a sensação é diferente de quando o meu eu, que reage com o mundo exterior, está dormindo.
Estou mais calma. Aparentemente, meu corpo físico não sofreu nenhum tipo de lesão... Acho que posso presumir que está tudo bem? Preciso acordar logo, agora seria melhor, mas não tenho mais controle do corpo, é como se o corpo não fosse mais meu.
Começo a procurar minhas memórias compartilhadas com a outra Joana, mas tudo se limita até o que aconteceu naquela espécie de galpão abandonado. Vasculho a alma, mas não consigo encontrar nada. Não sei quanto tempo se passa, mas começo a ver um caminho. Isso é novo. Talvez tenha algo que me mostre o que está acontecendo.
O caminho não era tão extenso, finalmente chego ao seu fim. Há uma porta na minha frente, parece uma porta normal, feita de madeira, marrom, uma daquelas maçanetas ovais que ficam na horizontal. Abro-a, fico quase cega com a luz que emana quando abro a porta. Depois de poucos instantes, a luminosidade enfim diminui.
Há um outro infinito lado, também escuro. Vasculho o local, mas é em vão. No lugar em que eu estava, na minha mente e a da Joana, eu apenas preciso ter uma lembrança, ou algo assim, que vejo a lembrança aparecer na frente de meus olhos, como se eu me assistisse; mas aqui, seja lá o que esse lugar é, não é minha mente, então não vou conseguir achar nada aqui. Como posso estar em outra consciência? Será que o poder da escuridão não se limitava quando provinda de coisas físicas, mas a qualquer tipo de escuridão?
Independente de quem esse lugar pertença, não vai adiantar eu procurar por algo, isso são lembranças; logo, deve haver milhares de milhares de coisas diferentes acontecendo aqui dentro, então é provável que eu me perca se continuar explorando.
Subitamente, o espaço começa a tremer, a pessoa dessa consciência deve estar acordando. Duas luzes fracas começam a iluminar o espaço, são os olhos, viro-me com medo pra trás, mas a porta pra eu voltar continua aberta... Acho que não tem problema se eu der uma olhada.
Vejo um teto feito de madeira branca, a luz não parece vir de uma lâmpada, a janela desse, provavelmente, quarto, deve estar aberta. Já sei que estou na cabeça de alguém bem diferente de mim, não acordo tão cedo. A pessoa fica sentada, julgando pelo pijama rosa e os cabelos longos, deve ser uma garota. Perdão pela invasão de privacidade.
Ela se levanta. O quarto até que é grande, há uma bancada de estudos, um guarda-roupa um pouco grande, aparentemente, a altura dela não é lá grandes coisas, os cabelos são lisos. A garota troca seu foco e vai em direção a um espelho... Sou... Eu? Que palhaçada é essa? Quer dizer que o outro eu me traiu? O que eu fiz pra ela não me deixar acessar nossas memórias, não consigo sequer falar com ela.
Joana, isso nunca vai deixar de ser estranho, começa a arrumar seu cabelo, os pensamentos parecem distantes, julgando sua face, mas não consigo saber o que é. Uma sensação de tristeza começa a me invadir, até que uma lágrima escorre. O lugar balança muito, percebo que ela está enxugando suas lágrimas, parece confusa. E se ela não tiver feito nada, e se for o contrário, aquilo que injetaram na gente, pode ter feito que perdêssemos nossa conexão. É uma possibilidade.
Fico estável novamente, aqui dentro é muito solitário, então, acaba que a Joana, a que as pessoas conseguem enxergar, é minha única amiga, somos melhores amigas, pra ser mais exata. A única que ela tem.
— Seria ótimo se eu pudesse terminar logo a escola de formação, daí Bia e eu poderíamos ser heroínas logo — Joana exclama, pensativa.
Bia? Corro rapidamente pro lugar que eu vim e procuro pelo nome Bia, nada. Não há ninguém que Joana já tenha conhecido com o nome Bia. Volto novamente pra outra sala, olhando pra cima, enxergo diversas telas com essa tal de Bia. Momentos felizes, em maioria, alguns tristes, mas brigas curtas, sem nenhum problema. Uma das telas mostra a Bia e Joana mais jovens; Bia tem cabelos curtos, liso-ondulados, são loiros, os olhos são verdes. Na ocasião dessa memória, as duas estão nesse mesmo quarto... Joana anuncia que ela é sua melhor amiga. Sinto uma leve inquietação, mas... Não importa. Isso não faz sentido, então, isso que estou vendo deve ter alguma explicação.
Ok, juntando tudo que eu sei, ou ao menos o que eu estou conseguindo entender até agora, é que há dois lugares com memórias, eu sou do outro lado, que deve ser a pessoa que a Joana realmente é, e desse lado há outra Joana, mas diferente do lado de onde eu vim, esse lado eu não consigo fazer esse tipo de interação... Outra consciência? Como pode haver duas consciências no mesmo corpo? Até onde eu lembro Joana era apenas uma, não me lembro dela ter outras personalidades, essa porta só apareceu agora.
Acho que tenho que me contentar com isso, não consigo imaginar outra possibilidade... Espero que Guilherme esteja bem, o que eles fizeram é imperdoável. Onde será que eu estou? Essa casa não parece com o lugar onde eu estava com Guilherme.
Enquanto essa nova Joana está distraída, vou verificar se meus poderes ainda funcionam, enquanto ela está pegando seu uniforme escolar, vejo que sua cama projetou uma grande sombra. Deu certo, estou na sombra da cama... Será que faço meu corpo feito de sombra? Ela pode se assustar, talvez reaja negativamente... Não farei agora, enquanto isso, vou focar em coletar informações e garantir a segurança da Joana, custe o que custar.
~Joana
Já estou a caminho da escola, seria bom parar logo de ficar indo pra lá. É bem sem graça, na faculdade de heróis podemos pegar uma licença, bom, é meu último ano; logo, só preciso esperar mais um pouco e finalmente, liberdade pra ser independente e ser uma heroína.
Chego à escola e me despeço de meus pais, de frente à escola; preencho meus pulmões e libero o ar que estava mantendo preso, acho que estou um pouco nervosa. Andando pelos corredores, procuro meu armário, todos os alunos sempre usam os mesmos. Alivio o peso enorme que estava na minha mochila, ganhei uma nova esse ano, meus pais disseram que eu merecia. Ela tem um tom verde claro, bolsos em tudo que é lugar.
Fecho o armário e coloco o cadeado, a primeira aula é sobre o básico de primeiros socorros. Como escolhi o curso de super herói, posso pegar exatamente o que eu desejar como matéria. Ouço passos rápidos por trás — já até imagino quem seja. Pensando no bem da minha coluna, agacho até o chão.
— Joanaaa!!! — alguém aleatório e louco passa voando por cima de mim, essa pessoa se chama Bia. É uma louca gente boa, ela quase cai de cara no chão, mas consegue se apoiar com os braços.
— Bom dia, Bia!
— Por que se abaixou?! — ela pergunta, transtornada.
— Não quero perder minha coluna no primeiro dia de aula.
— Engraçadinha. A propósito, também está empolgada com o nosso último ano?
— Óbvio, é a única coisa que penso há dias. Poderemos salvar pessoas finalmente.
— Sim, mas acho que você vai precisar de mim mesmo depois de se tornar uma heroína.
— Não seria o contrário? Do jeito que você é distraída, ia ser atacada em segundos. — Encaramos uma a outra... Mas acabamos cedendo pros risos, e começamos a rir.
— Vamos logo, nossa aula está próxima — anuncia Bia enquanto olha seu relógio digital.
— Sim, vamos.
— Ah, antes que eu me esqueça, como vai com o Carlos, mocinha?
Ignoro a chatice que apareceu logo cedo pela manhã e acelero meu passo, ela também acelera e fica ao meu lado, acelero novamente e ficamos nessa. Os outros alunos começaram a nos encarar, acho que não é muito normal ver isso no primeiro dia de aula. Estamos próximas da sala, até que vejo Carlos indo em direção à sala, vindo pelo lado oposto que eu e Bia. Troco de rota e tento voltar o caminho, mas Bia me agarra pela argola, me fazendo parar. Tento continuar a andar ignorando Bia, mas ela continua me segurando e enforcando.
— Pensa mesmo que vou te deixar fugir? — pergunta a pessoa mais intrometida do mundo.
— Só pensei em andar de costas até a sala, só isso.
— Mesmo?
— Claro.
— Então, eu te falo se for bater em alguém.
— Obrigada, ridícul... Cof, cof.
— Eu ouvi isso.
Começo a andar de costas até a sala, quando algumas pessoas passam por mim, observo as pessoas rindo, mas tentando abafar suas risadas, deve ser algo realmente engraçado.
— Para — Bia fala.
— Ok, pra onde eu vou?
— Carlos, pode ir um pouco pra trás, só pra Joana passar. — Tenho que lembrar de matar a Bia depois por não ter me dito o que tava acontecendo.
— Claro — sinto certa incerteza na resposta de Carlos, como se ele estivesse vendo a coisa mais estranha do dia.
Bia me guia pra entrar na sala, estou um pouco corada provavelmente, sinto meu rosto esquentar, enquanto estou andando vejo Carlos na porta, esperando. Seus cabelos são ruivos e olhos azuis, ele é bem alto, está na equipe de MMA da escola.
Finalmente, na primeira das quatro fileiras vinda do fim da sala até a porta, pega um assento na terceira cadeira, Bia senta logo à frente. Ela me encara satisfeita, enquanto faço a melhor reação de decepcionada, até que ambas rimos. Será um bom ano letivo.
~Guilherme
Desperto, poucos instantes se passam e lembro-me de tudo que aconteceu, levanto com força de onde eu estou sentado, percebo que estou no meu quarto. A minha súbita sensação de acordar e tentar sair daqui faz que eu fique um pouco tonto.
Acalmo-me e começo a pensar no que aconteceu. Só lembro-me de tudo ficar escuro e acordar aqui, mas não faço ideia do que aconteceu. Começo a olhar meu quarto, até que vejo uma carta em cima da minha cama.
"Bom dia, Guilherme. Espero que tenha dormido bem. Gostaria que você soubesse que, caso retire suas lentes a partir de agora, ou qualquer uma das coisas que eu deixei em você, será preso e morto logo em seguida. Agradeço pela sua irmã, ela foi muito útil pra nós, caso esteja pensando em fazer o que sua irmã fez pra sair daqui, tudo vai dar errado pra você, sua irmã está morta imediatamente.
Atenciosamente, Alexander"
Reflito sobre o que acabo de ler, acabo perdendo o equilíbrio e caio na cama. Estou preso, não posso mais fazer nada. E a Joana, ela não se lembrava de mim, parecia estar apenas existindo. Não se lembrava de mim, nada, absolutamente nada. E-Ela morreu?
Pra onde levaram a Joana? Ela está bem? Preciso sair daqui logo, tenho que ajudá-la.
Fico ansioso e penso em como posso conseguir sair daqui, mas não tem como. Os meus poderes estão restringidos, caso contrário eu poderia destruir essa porcaria. A porta do quarto se abre, vejo Alexander entrando. Avanço na direção dele, que agarra meu pescoço e me ergue, estou perdendo minha respiração. Olho pra ele com ódio.
— Ótimo. Você parece estar bem melhor — anuncia Alexander.
— O que fez com a Joana?
— Ela está segura, não precisa se preocupar.
— Onde ela está?
— Como eu já disse, ela está em um lugar muito bom. Melhor eu diria, um lugar onde não há dor.
— Vá se ferrar, desgraçado.
Deixo Alexander com um pouco de raiva, ele usa o dorso da mão e acerta meu rosto com força. Ele solta meu pescoço e puxo a maior quantidade de ar que eu posso.
— Recomendo que você desista. Aceite sua vida aqui. Sua irmã está segura conosco, aconselho que desista de continuar seguindo. Pare, acho que é a melhor escolha pra você. Imagino que não quer se juntar com seu amigo Wendler, certo?
Será que Wendler ainda está vivo? Lembro que ele desejava sair daqui de algum jeito... Acho que vou ter que ajudá-lo a tentar fugir daqui, caso eu queira salvá-la.
— Não faça nada estúpido, caso não queira ter o mesmo fim que ela.
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