Capítulo 11 - A decisão

     Então, oi! Tudo bem? Espero que sim. Assim, isso aqui é só pra fazer dois avisos, o próximo capítulo virá, antecedendo ele, uma parte pra interação de opiniões, ideias, aqueles pensamentos que todo mundo tem enquanto tá lendo. E avisar que quem tem um estômago fraco, ou não gosta muito de sangue, não recomendo você ler esse capítulo por completo, já que ele é beeem pesado na questão de violência. Tirando isso, um bom dia/tarde/noite/madrugada pra vocês.

***

~ Wendler

     No instante em que penso em responder, a porta se abre. Um homem encapuzado de preto aparece, ele exala uma sensação de harmonia, como se fosse apenas uma tarefa rotineira.

     — Como você é novo aqui, você ainda não conhece esse cara. Ele é encarregado de nos deixar fracos. A cada mês ele vem aqui pra nos torturar — Ben tem uma pitada de repugnância na voz.

     Ele se vira para o lado, até que mexe em alguma coisa que faz o barulho de um estalo e ilumina todo o lugar. Com as luzes acesas, percebo a presença da terceira pessoa que Ben citara. Ela está acorrentada, os pulsos e pernas presos, um tipo de mordaça está na boca dela, seus cabelos são negros, parece estar apagada.

     O homem se aproxima primeiramente de Ben. Ben desvia o olhar do nosso torturador, encarando o chão. Há um ódio imenso nos olhos de Ben; aparentemente ele já sofria com isso há anos.

     — Ele tem nome? — pergunto sem muita vontade.

     — Não sei, eu o chamo de carrasco. Esse é outro motivo de que eu não acredito que vamos conseguir sobreviver, ou fazer algo. Sempre ficaremos sujeitos a isso. Desiste?

     — Ben, eu me recuso a aceitar uma vida onde alguém pise em mim dia após dia, repetida e ininterruptamente. Caso você queira ficar aqui pra sempre, essa decisão é sua. — Encaro Ben sério, querendo deixar claro o que eu pretendo fazer e encerrar de vez esse assunto.

     — Eu lhe avisei, depois não diga o contrário.

     — Não se preocupe.

     O carrasco finalmente chega perto de Ben, desvio meu olhar em respeito a ele. Enquanto isso, começo a observar melhor o espaço em que estou, é bem grande, começo a ouvir um barulho metálico. Carne começa a ser rasgada, mas Ben não grita, talvez por honra, ou por orgulho.

     Horas se passam, minhas pernas estão molhadas com o sangue de Ben. Pensei que ele não fosse gritar, mas após certo período seus grunhidos começaram a ecoar pelo espaço, até que cessa. Preocupado, fui ver como estava, porém não estava morto, apenas inconsciente. Seu corpo era um pedaço de carne fatiado, suas roupas estavam bem rasgadas, mas ainda o cobriam. Consegui ver com clareza naquele momento cortes que as roupas escondiam.

     O alvo agora é diferente, o carrasco vai em direção à garota. Quando ele fica próximo dela, ele apenas a encara por um tempo, parece distante. Alguns segundos se passam, ele simplesmente para de encará-la e enfia suas mãos no seu jaleco negro, suas mãos trazem a vista um cilindro fino metálico, possui alguns detalhes adornados, mas não consigo ver muito bem, seu corpo está na frente obstruindo minha visão.

     Não consigo ouvir som algum, por que raios usar um apito que é de difícil percepção para humanos? Ela começa a inclinar a cabeça dela, seus olhos estão em direção pro chão, acho que ela percebe os pés do carrasco. Ela estremece de medo e começa a tentar fugir, debatendo-se violentamente, começa a sair sangue dos seus pulsos e tornozelos, seus olhos começam a lacrimejar. Desvio o olhar, acho que ela não gostaria que alguém a visse passando por esse tipo de coisa.

     Muito tempo se passa, horas e horas, porém, diferente de Ben, ela não emite nenhum som, em momento algum. Enquanto o desgraçado está ali, sinto uma inquietação crescendo, como uma ira lenta e gradativa. Parece que ela sempre esteve aqui, mas nunca tinha sido percebida, nunca tinha sido refletida, simplesmente, existia. 

     Minha respiração começa a acelerar e a ranger os dentes com força. Tudo que me aconteceu, desde quando eu não conhecia essa parte das torturas, quando era mais novo, começa a preencher minha cabeça. Vagas imagens da minha infância aparecem, coisas que eu via e não entendia. Por exemplo, eu sendo levado para locais estranhos com outras crianças, sendo estadas intelectualmente, as que falhavam era "consoladas" e levadas pra fora pra tomar um líquido. As crianças que tomavam nunca mais eram vistas. Provavelmente, morreram.

     Dias cercado, sem liberdade, sempre sendo ordenado, cerro meus punhos conforme as lembranças se intensificam, o dia da minha tortura, as pessoas que morrem aqui por motivos bestas, não podem ter liberdade? Fizemos algo pra merecer essa tortura? Nunca me perguntaram se eu gostaria de nascer? Nunca me deram direitos de escolher, nenhum de nós teve esse direito, por que merecemos isso? Não poderíamos coexistir normalmente? Não, esses desgraçados são muito podres pra um retrocesso. Usam-nos como brinquedos, manipulam-nos pra serem glorificados, a "glória" dessa Liga está sobre os corpos de todos os erros.

     Ouço novamente os passos do carrasco, paro com meus devaneios e mudo meu foco pra ele. Não consigo ver seu rosto muito bem, por causa do capuz, mas consigo ver que tem um sorriso cínico no rosto. Ele se aproxima e começa a me observar, não sei o que ele está fazendo ou planejando em fazer.

     — Conhece alguém com o nome Joana? — ele pergunta.

     — Isso importa alguma coisa?
     Por que ele está conversando comigo? Com os outros, ele simplesmente focou em torturá-los, nada mais.

     — Bom, eu conversei com o irmão dela, como era o nome dele mesmo? — Ele começa a olhar pra cima dramaticamente, fazendo um suspense falso. — Guilherme! Ele disse que você queria sair daqui, não era? Tenho uma notícia ótima pra você, ela foi embora daqui faz duas semanas.

     Expresso a reação de surpresa e indignação mais genuína que eu consigo fazer, fecho meu rosto e o encaro desconfiadamente.

     — Mentira.

     — Estou me sentindo ligeiramente ofendido, Wendler — a irritação constante que crescia dentro de mim começa a aumentar — Veja bem, ela foi uma menina comportada, ela gostava daqui, Wendler, algo que você parece não sentir.

     Não respondo nada. Ele parece ter ficado inquieto pelo meu silêncio, aquele falso sorriso começa a se desfazer, ele tira o capuz violentamente revelando uma cabeça oval, seu rosto é um pouco desfigurado, principalmente do lado direito, cheio de cicatrizes e inchaços ao redor do seu rosto. Suas feições são de ódio puro.

     — ACHO QUE AINDA PRECISO LHE ENSINAR SOBRE RESPEITO  ele vocifera e agarra meu pescoço com força.

     Não consigo respirar direito, ele enfia as mãos no bolso da calça e puxa algo parecido com uma coleira. Ele a coloca forte no meu pescoço e continua a me estrangular, até que, enfim, ele me solta; respiro loucamente toda quantidade de ar que eu conseguir, já que eu não sei quando vou ter outra oportunidade.

     Ele puxa duas facas do bolso esquerdo e enfia ambas em minhas mãos, resultando na minha ira ficando maior, e maior, e maior, e maior. O carrasco abre as correntes que prendem meus pulsos e pernas, ele agarra meus cabelos com força e começa a me arrastar, com o forte puxão que ele usa me fazendo bater meu rosto com força no chão.

     Ele fica me arrastando, até chegarmos ao centro. Ele me ergue puxando pelos cabelos, sinto que todos serão arrancados logo. Ele me acerta na boca do estômago com tudo, tirando minha estabilidade. Ele agarra novamente meus cabelos e me joga pra trás.

     Caio de costas no chão, o carrasco chuta na lateral do meu abdômen, usando a ponta dos pés, sinto vários estalos vindos do meu corpo, a força do chute começa a me jogar pro lado, após intermináveis chutes, vou de encontro a uma parede. Ele cospe na minha cara, me olhando com nojo.

     Minha visão começa a ficar turva. Ele me ergue pelos cabelos novamente, tentando me deixar de pé, mas não consigo ficar em pé direito. Ele pega uma terceira lâmina do jaleco e solta meus cabelos. O carrasco pega meus dois braços e enfia a lâmina nos meus braços, ela os atravessa e fica enfiada na parede.

     — Não precisa se preocupar, vou educá-lo direitinho. — Ele sorri alegremente. — Tenho um conselho pra você, caso morda sua língua e tente se matar, vou garantir que não morra e que sobreviva.

      Ele pega algo parecido com uma furadeira, ela começa a girar devagar, depois, progressivamente ficar muito rápida, o carrasco começa a sorrir e a se preparar pra agir.

     Ele começa a furar minhas unhas, causando uma dor imensa, a qual me impede de sequer gritar de dor. Enquanto ele continua a furá-las, minha mente entra em um turbilhão e fica passando de novo, e de novo, e de novo, ininterruptamente tudo que eu sei e que sofri nas mãos dos desgraçados que vivem aqui, a raiva começa a tomar conta de mim, mais e mais, sem parar, o encaro com nojo. Ele, indignado, pega uma lâmina pequena e começa a cortar meus braços, num frenesi começo a tentar alcançá-lo, mas meus braços estão presos e não posso fazer. Quero socá-lo, quero matá-lo.

     Ele troca o alvo de sua furadeira para os dedos dos meus pés, sinto minha consciência se esvair, mas não deixo. Chuto-o no rosto com toda força, ele cai pra trás. Ele se levanta rapidamente e começa a me bater sem parar, até que eu o chuto por baixo o acertando entre as pernas. Uso o pouco que ainda tenho de forças pra chutar na direção do seu olho.

     Ele agarra outra lâmina e segura firme minha perna, fazendo um corte atrás de ambas as minhas pernas. Não as sinto mais. Não vou de encontro ao chão, por conta da enorme lâmina que perfurou meus braços. Ele pega um alicate e começa a arrancar minhas unhas uma por uma, sinto minha cabeça a mil, a ira parece estar sufocando a dor. Ele para subitamente.

     — Escute, isso vai demorar bastante se continuar assim — ele exclama com um pouco de sarcasmo. — Mas posso fazer disso menos terrível. Ajoelhe-se e diga que vai desistir de sair daqui.

     O encaro por certo tempo, um sorriso começa a se abrir ao redor do meu rosto, começo a olhar pra baixo e pensar nas palavras que ele acabou de dizer. Por algum motivo começo a ter uma estranha vontade de rir e o faço, muito alto, como se tivesse acabado de ouvir a melhor piada do mundo. Acabo me cansando e murmuro algumas palavras, mas ele não escuta e começa a se aproximar de mim, ficando com a cabeça bem próxima do meu ombro.

     — Nunca que eu vou fazer uma coisa dessas, desgraçado — falo sem demora e aposto tudo numa tentativa desesperada de matá-lo, mordo seu pescoço com toda a força que possuo e tento arrancar pra acabar com tudo. Ele grita de dor, mas ele não perde tempo e desfere um soco no meu pescoço, fazendo com que eu recue, mas não solto seu pescoço. Ele faz novamente, mas arranco um pouco de sua carne e a cuspo.

     Ele avança na minha direção impetuosamente, com a furadeira em mãos, seu foco é o centro do meu peito ele começa a furá-lo. Sinto chegar em meu osso e começo a gritar o mais alto que minha garganta pode. Com o pouco de consciência que me resta, cuspo em seu rosto. Ele bate no meu com a parte de trás da furadeira, tirando minha consciência.

     Começo a recobrar a consciência aos poucos. Sinto uma fraqueza horrível percorrer meu corpo. Abrindo meus olhos devagar, vejo que tem muito sangue no chão, meus pés estão irreconhecíveis, minhas unhas estão arrancadas e o lugar onde elas ficavam foram furados. Imagino que o mesmo tenha ocorrido com meus dedos, meu corpo inteiro parece ter sido destroçado. Ainda não sinto a dor, acho que é por eu estar com a consciência fraca, vejo sapatos negros, o desgraçado ainda deve estar na minha frente. Percebo que tem um pouco de sangue escorrendo entre as pernas dele, deve ter sido por conta da mordida.

     Começo a levantar a minha cabeça; percebo que o maior foco de sangue parece estar próximo da barriga dele. Quando minha cabeça está na linha de cintura do abdômen dele, vejo algo parecido com uma lança dividida em três pontas agudas, muito próximas uma da outra, parecendo estarem coladas. A lateral da lança, das suas três pontas, tem um brilho carmesim que me lembra sangue, o resto dela é de cor negra; a mesma atravessou sua barriga.

     Enfim, vejo que o carrasco está com a boca aberta sangrando, ele começa a ser erguido; a lança, ou ao menos o que eu pensava ser, na verdade é a ponta de um rabo, seguindo o fim deste com os olhos, vejo a garota que fora torturada antes de mim... Como raios ela está solta? Ela joga o corpo dele pro lado e começa a me observar. Começo a sentir meu sangue escorrendo, droga, talvez eu perca minha consciência de novo por conta da dor.

     — Você é bem idiota, não é? — ela me questiona calmamente. Deixo uma pequena risada escapar.

     — Por que diz isso?

     — Vi que você fez. Foi bem estúpido.

     — Entendo. Pode responder uma pergunta?

     — Diga.

     — Como conseguiu se soltar?

     — Acho que você viu aquele desgraçado tocar algo parecido com um apito, certo?

     — Sim.

     — Aquilo e apenas aquilo consegue parar os meus poderes, além disso, aquilo consegue me deixar inconsciente, contanto que nada me acorde. Você gritou muito alto, bebê chorão — ela fala como se estivesse brincando comigo.

     — É, sou um grande bebê chorão.

     — Quer que eu lhe solte?

     — Não sei, preciso de socorro, mas não conseguiria me arrastar pra fora daqui. E você? Vai fugir?

     — Impossível. Esse lugar é seguro demais pra eu conseguir fazer isso. 

     Enquanto conversamos, percebo que ela não tem um corte sequer no corpo dela.

     — Como você não tem machucados?

     — Digamos que tenho a capacidade de me regenerar.

     — Então... Você pode se regenerar, tem força pra arrebentar correntes de ferro e uma cauda bem afiada, mas não vai tentar fugir daqui, por quê mesmo?

     — Eu posso me regenerar e não posso morrer, como se eu fosse um tipo de imortal. Eu não morro, então eu iria me regenerar, até ter meu corpo de volta.

     — Você é mais fraca do que eles?

     — Não parece impressionado com o que eu acabei de te dizer... Por que?

     — Eu consigo teleportar de um lugar pro outro, um físico diria que eu sou uma aberração pra física.

     — Justo. Respondendo sua pergunta, sim, tenho medo deles. Eu não quero ser repreendida de novo.

     — Já teve vontade de sair daqui?

     — Já... Mas não adianta.

     — Você agora é livre, saia daqui, você pode conseguir, talvez.

     — E você?

     — Eu... Acho que não tenho chances de fugir. Agi de maneira bem idiota e acabei me sabotando, então... acho que não posso mais sair daqui.

     — Gostaria que eu lhe ajudasse?

     — Seria muita gentileza, mas... Eu seria um estorvo, não importa como eu veja... O cara ali cortou os tendões das minhas pernas e estou começando a não sentir alguns lugares novos ao redor do meu corpo.

     — Eu posso te ajudar. Mas tem um preço, estaria disposto?

     — Qual o preço?

     — Provavelmente... Sua felicidade futura.

     — É melhor do que ficar sem fazer nada, o que eu faço?

     Ela ergue sua cauda e faz um movimento rápido na direção de uma das pontas de seu longo cabelo, vejo um pequeno fio cair. Ela o pega e o estende em minha direção.

     — Come.

     — Como é que é?

     — Come.

     — O que você está tentando fazer?

     — O meu poder pode ser passado, mas eu preciso consentir em passá-lo. Por conta da sua genética, você teria algumas mudanças, por exemplo, sua cauda pode ser um pouco diferente, ou ter algum aspecto físico diferente.

     — É por isso que você está aqui?

     — Sim... — seu olhar parece distante no instante em que ela concorda, como se estivesse se lembrando de algo ruim. — Vai comer ou não?

     — Pode colocar na minha boca?

     Abro minha boca e engulo o fio de cabelo, não sinto algo diferente ou qualquer coisa nova, só estou começado a sentir minhas dores mais claramente.

     — Qual é o seu poder, exatamente? — pergunto, enquanto espero algo acontecer.

     — Meu poder veio em base em um fóssil de um dragão que acharam alguns anos atrás.

     — Você... tem asas?

     — Sim.

     Começo a procurar curioso por qualquer tipo de sinal que ela tem asas, mas não vejo nada, apenas blusas e calças brancas, um pouco rasgadas, por conta dos locais de tortura.

     — Onde mesmo?

     Ela fica de costas pra mim e tira seus cabelos da frente, vejo duas pequenas asas acinzentadas, mas são pequenas demais pra voar.

     — Elas podem ser pequenas, mas estão apenas extremamente contraídas, faço isso pra que não chame muita atenção.

     — Tem algum jeito de fazer essa cauda desaparecer?

     — Diferente das asas, a cauda é mais como um poder... É como se eu pudesse fazê-la sumir quando eu quisesse.

     — Interessan... — sinto uma dor intensa nas costas, como se elas estivessem prestes a se rasgar, a mesma também surge na minha cabeça, na lateral direita dela, minha cabeça está latejando muito, como se algo também estivesse saindo.

     — Acalme-se, é parte do processo.
     A dor finalmente cessou, minha cabeça está um pouco pesada por conta dessa estranha sensação.

     — Ótimo, deu certo — ela anuncia.

     — Primeiro, o que deu certo? Segundo, qual o seu nome, à propósito?

     — Você ter meus poderes. Meu nome é Alice, você é?

     — Meu nome é Wendler... Certeza que deu certo?

     — Suas feridas se curaram, já é um bom sinal. Junto com essa cauda e esse seu chifre.

     Observo meu corpo e percebo que realmente minhas feridas se regeneraram, olhando mais pra baixo vejo algo parecido com a ponta de uma lança, que se divide em três partes ao longo do que eu poderia chamar da "lâmina" da lança, curvando-se em si mesmas em três partes diferentes, tendo sete pontos afiados, um na ponta final da lança, os outros seis estão divididos pelos lados em três em cada lado. Ela disse chifre?

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