Capítulo 9 - Atipicidades
FEDERICO NARRANDO
Ouço o despertador tocar Let it go. É hora de ir para o trabalho de novo. Acho melhor trocar a música, pois estou ficando com ódio dela. Me levanto, boto uma calça e desço para a cozinha sem fazer barulho.
Abro a geladeira e bebo um gole gigantesco de água. Depois fui até o banheiro. Escovei os dentes, mijei e tomei meu banho em 12 minutos. Como sempre faço. Nem mais nem menos tempo.
Ouço passos pela casa. Os outros devem ter acordado. Vou nu para o meu quarto, a toalha vinha em minha cabeça me ajudando a secar os cabelos. No início, Pierre ficava vermelho e virava o rosto. Hoje ele só vira o rosto. Nico parece que fica a espreita pra me ver passar, e olha descaradamente para meu pau.
Eu não ligo. Ele, às vezes, passa a língua entre os lábios e me olha malicioso. Sinto que mesmo que nosso encontro não gere frutos, pelo menos vou ter fodido ele como ele quer. E como também quero.
Visto a roupa de hoje. Calças de tactel, cueca de malha fina e blusa 100% algodão. Também fina. Eu não tenho praticamente nenhuma roupa mais grossa. E também não uso nenhuma roupa jeans. Não gosto da sensação do tecido em minha pele.
Desço para o café, e meus coleguinhas francês e brasileiro estão lá. Pierre fazia umas torradas com um queijo e tempero. Eram uma delícia. Eu tomava um copo de leite com Toddy para acompanhar.
- Fede, você fica com o pão hoje? Eu tenho que fazer vários bolos e doces. Acho que só eu de padeiro não tem como. Foi ótimo você ter ido trabalhar lá com a gente. - Ouço com felicidade o pedido de Pierre. Adoro a sensação da massa nas minhas mãos.
Após acabarmos, vou escovar os dentes outra vez. Olho no espelho do banheiro e vejo meus dentes perfeitamente brancos, alinhados e reluzentes. Vou ser dentista, tenho que dar o exemplo.
Vamos a pé para a padaria mesmo. São ainda 4 da manhã. Nós levantamos 3:20 todo dia. É claro que nunca dormimos depois de 9 horas, ou seria um martírio trabalhar assim. O trabalho em si não cansa tanto, mas ter que equilibrar tempo com a faculdade é dureza.
Ainda tá bem escuro, e os poucos carros que passam por ali estão com o farol ligado. Toda hora eu viro meu rosto para o lado pra não ter que encarar o farol. É uma dor insuportável no meu olho. Irrita muito. A luz do sol também costuma incomodar muito, então pra todo lugar que vou, tenho meus óculos escuros comigo.
Quando chegamos na padaria, fui botar a mão na massa. Literalmente. A sensação da massa entre os meus dedos é gostosa. Uma anestesia tão grande toma conta do meu corpo. Tudo some ao redor.
Minha percepção sensorial é totalmente captada pela massa do pão. Macia. Mole. Não prega na mão, e se molda ao redor dos dedos.
Anestesia.
Anestesia.
Anestesia.
Anestesia.
A sensação é tão envolvente. Mas sinto alguém tirar minha mão da massa.
- Tudo bem? Eu te chamei e você nem me ouviu? - Pierre estava me chamando e nem me dei conta. Infelizmente acontece essa situação às vezes.
E tem momentos que esse desligamento do mundo ao redor me causou prejuízos. Uma vez, eu estava brincando de esconde esconde num passeio por umas planícies na Escócia. Eu e meus colegas de classe estávamos escondidos e o professor ia procurar. Eu fiquei em um arbusto bem grande. E senti uma pedra por baixo de mim.
Comecei a passar a mão nela. Tinha uma textura áspera e diferente. Depois de algum tempo que percebi que havia me cortado. E só quando tomei esse susto, que gritei. Fui achado na hora e a brincadeira acabou devido ao susto que dei no professor pelo meu berro.
Durante o restante da manhã, fiquei ajudando Pierre, e quando ele saiu para a faculdade, fui fazer o atendimento com Marcelle.
Pessoas, e mais pessoas. E parece que elas esperam que eu repare nos rostos delas e os guarde em minha mente.
- Bom dia, senhor. O que deseja? - Vou educadamente atender o homem de gravata e paletó que chegou.
- O mesmo de sempre, por favor. - Ele fala para mim.
- Perdão, mas o que seria esse mesmo de sempre? - Respondo educadamente para o senhor.
- Pergunte para a menina, ela saberá. E não use esse tom comigo. Eu sou um parlamentar. Tenha respeito. - Ele parecia irritado. - E olhe nos meus olhos quando eu falar com você.
Eu levanto um pouco mais meu rosto e encaro o homem, que pela cara estava mais pra lá do que pra cá.
- Perdão. Não percebi que havia alterado meu tom de voz. Vou pegar seu pedido... - Me desconcerto um pouco pelo comentário do deputado. Vou até Marcelle, e peço que ela troque de lugar comigo.
- De boas. Pode ir pegar um bolo pra senhora de vermelho ali? Ela me pediu, e você troca comigo. Então pega esse pra ela. - Marcelle sendo sempre um anjo com todos.
Continuamos nesse mesmo ritmo pelo resto da manhã. Após o almoço, eu e Marcelle fomos para a Universidade. Como o sol já estava alto, eu fui com meus óculos escuros. Ao chegar no gramado da universidade, eu e ela vamos saltitando juntos pela grama, até a hora de nos separarmos e tomarmos cada um o seu rumo.
- Tchau. Tchau. Te vejo mais tarde. - Ela me dá um abraço rápido, porém apertado.
Confesso que quase dei um pulo na hora que ela fez isso. Tá certo que abracei ela e o Pierre no dia em que nos conhecemos, mas naquela vez foi pra tentar me aproximar de uma forma mais social. Vi pelo sotaque que eles eram franceses, e sei que eles costumam se cumprimentar de forma mais íntima e com mais toques do que os britânicos. Mas eu até me senti bem quando Pierre pediu pra desfazer o abraço. São muitos braços amontoados uns sobre os outros, e aperta o corpo, é desconfortável. Eu não gosto. Sou bem chato com esses lances de abraço e aperto de mão. Gosto de dizer um simples "Oi". Ás vezes, fico perdido na forma com a qual agir com as pessoas, pois não quero que me vejam como alguém arrogante ou antipático.
Tomo o rumo para a sala onde seria a minha primeira aula. E o professor, para meu desgosto, pediu que fizéssemos alguns exercícios em dupla. Mas pelo menos disse que não eram necessárias as respostas iguais. Então era só ficar em dupla e falar um com o outro só se fosse necessário. Nem guardei o nome do meu colega de dupla, na mesma hora, ele me cutuca e era a menina atrás de mim.
- Oi, Martinson. Meu nome é Sofie Madox.
- Oi. - Me viro para ela e colocamos as mesas juntas. Abri as páginas e fui fazenda as questões. Tudo muito fácil. Eu pesquiso sobre dentes, gengiva, arcada dentária desde os meus 9 anos de idade. Já fiz exercícios muito piores do que esses daí.
Volta e meia ela falava que a questão era bem complexa. Não sei do que adianta falar que é difícil. Não vai mudar a dificuldade da questão falar que ela é complicada. Eu ignorava pois acho que não é necessário falar algo, uma vez que eu estou achando fácil e não tem porque responder algo que já é afirmação.
Acabo o que deveria fazer e espero o professor falar mais alguma coisa, ou o sinal da troca de aulas tocar. Fico girando o lápis entre minhas mãos, até que a menina segura em meu queixo e vira meu rosto para ela.
- Você tem heterocromia. Que bonito. - Ela fala ao reparar que meus olhos tem cores distintas. Minha íris esquerda é verde claro e a íris direita é castanho claro.
- Tá. - Digo e me viro de volta para o lápis que girava entre minhas mãos. Não gosto de ficar encarando gente desconhecida nos olhos assim. E pegar meu queixo e virar meu rosto para si foi algo que me incomodou muito.
PIERRE NARRANDO
Puta que pariu. Puta que pariu. Eu chamei o Isak pra sair. Por que eu fiz isso?
Como você esquece de todos esses cuidados que você vem tomando com a sua saúde mental de uma hora pra outra, Pierre?
- Eu sou um idiota! - Ralho comigo mesmo um pouco alto.
- Realmente. Porque se lamentar por ser idiota é o que te faz um. - Ouço uma voz vinda de trás de uma árvore. Dou a volta na árvore e vejo um menino lendo um livro de Jean Paul Sartre.
- Desculpe... mas o que quis dizer?
- Se lamentar em vez de agir e mudar a situação em que se encontra agora é o que faz de você um idiota. Quem é responsável pela sua felicidade é você mesmo. Por que não faz algo para mudar essa situação em vez de ficar se lamentando e dizendo ser idiota por algum erro que você cometeu e provavelmente ainda nem tentou reparar? - O menino fala para mim sem nem tirar os olhos do livro.
- Quem é você? - Estou tão atordoado com esse esporro que levei que a minha única reação é essa, visto que estou sem argumentos bons para combater a sua acusação.
- Pedro. Estudante de filosofia. Sou de Cordisburgo, no interior de um lugar chamado Minas Gerais.
- Brasileiro então?
- Já ouviu falar de minha cidade?
- É onde nasceu Guimarães Rosa. E eu moro com um brasileiro que também veio de Minas, só que de Juiz de Fora. - Ele tem um jeito de falar de certo modo parecido com o de Nico, mas Nico às vezes puxa uma espécie de "x" quando tem "s" no final das palavras.
- E você é Pierre, não é? Nome interessante.
- Do grego, Petrus. Suas variações incluem Pierre, Peter, Pietro, Pierse, Pita. Pedro, Pero, Butrus e outra infinidade. Significa força de resistência, fortaleza. Literalmente pedra. Pessoas que são resistentes. Sim, sim, sim. Sei que ia falar isso. Foi o italiano que te contou ou foi o poeta canadense? - Já me adiantei antes que o brasileiro pudesse ter a chance de vir pra cima de mim com essa informação. Acho que é um complô de variações de Petrus que existe nesse lugar. Quando é que vai aparecer um irlandês chamado Pierse?
- Na verdade só me interessei porque ouvi mais cedo que iam colocar a foto de um veado campeiro nas suas costas uma última vez no trote desse ano. Mas valeu pela informação... e lembre-se, sua felicidade depende de si. Não vale a pena lamentar. Procure agir para reverter a situação. - Ele se levanta e sai dali.
Acho que é verdade. Me veio um pensamento súbito. E se eu tentar mudar a situação? Sempre falaram que a melhor solução para manter minha sanidade era evitar relações sociais e me isolar. Mas e se eu procurar formas de manter o controle?
Eu quero tentar algo com Isak. Já me arrisquei indo morar com Fede, Nico e Hank. Não custa nada arriscar ter um amigo.
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