Capítulo 5 - O menino e sua pipa

PIERRE NARRANDO

Eu vou dar um fim nisso. Mas nessa mesma hora. Eu miro seus olhos. Parecem um pouco molhados. Ele está com água nos olhos?

Será que ele precisa tanto assim de alguém? Ele disse não ter amigos. Ele realmente é sozinho? Como ele está aqui desde 2016 e ainda não tem amigos? Eu nunca reparei nele, mas alguém deveria ter reparado. Ele domina a oratória bem e é inteligente. Não tem como passar despercebido tanto tempo.

Eu costumo ficar sozinho por opção e por necessidade, mas ele está sujeito a isso. Eu sinto algo em relação a ele. Não posso acabar com as esperanças de Isak. Mas não posso me arriscar tanto assim. Foi difícil chegar até aqui e não vou jogar isso fora. É difícil me controlar. E não saber se o meu autocontrole está funcionando é o que mais me apavora.

- Olha, Isak... eu sou alguém complicado. Você não vai gostar de ser meu amigo. Eu machuco as pessoas.

- Como sabe que eu não vou gostar se nem mesmo tentamos ainda? E acredite, as pessoas complicadas são as mais interessantes. - Ele me deu um sorriso tão bonito. - Pelo menos me passa seu número. Você diz ser muito atarefado. Pelo menos podemos trocar mensagens. Já é um começo.

Que mal faria isso? Não custa dar o meu número pra ele. Eu lhe passei meu número e ele ficou contente.

- A gente se vê por aí então. Toda semana na aula pelo menos. - O seu sorriso era grande, de orelha a orelha. Mas era tão lindo. Os dentes brancos e perfeitamente alinhados. Os lábios finos e rosas. Aquela boca era muito atraente. Ele se despede de mim e diz que precisa ir para sua casa, pois sua mãe está a sua espera.

Eu vou para a padaria. Entro pelos fundos e vou almoçando. Sempre como pouca coisa. Uma marmitinha com uma carne, uma saladinha e alguma outra coisa. Após o almoço, eu vou para o balcão atender os clientes. Nico está lá a minha espera.

- Sem entregas?

- Algumas à noite. Já fiz quatro de manhã.

A nossa convivência estava sendo boa. Desde ontem, quando nos mudamos, ainda não havíamos visto Hank. Ele acordava bem depois da gente. Mas também volta bem mais tarde.

- E aí, Francês? Como vão as coisas? A gente mal conversa direito. Pegando muitas pessoas?

- Nada. E você? Pegando muito homem?

- Quem me dera. Eu até tô de olho em alguém em específico. Mas ainda não vou tomar nenhuma atitude. E você e aquele coreano de cabelo ruivo? Ele falou que chamava Isak, né?

- Ele é britânico. Tem o sobrenome Alberman. Deve ser descendente apenas. Ele é um colega de faculdade.

- Você parecia estranho perto dele.

- Como assim?

- Você é alguém que está sempre alerta com tudo ao seu redor. Extremamente concentrado e focado. Nunca vi alguém com tanta atenção e foco antes. Talvez só uma pessoa. Mas enfim... está sempre fazendo algo. Não fica parado nunca. E quando o tal Isak veio aqui, você ficou três minutos olhando pro nada com cara de bobo apaixonado. - Nico parece bem seguro do que falava, e não posso discordar. Aquilo não foi normal.

- Não sei. Alguma coisa me intrigou nele. Mas não estou apaixonado. Amor ilude e te enfraquece... ou até mesmo enlouquece. - Falo com a voz fraca esse último pedaço.

- Pierre... mais uma coisa. Não notou nada de diferente no Federico?

- O que eu poderia notar? Ele me parece perfeitamente bem. Por que tá me perguntando isso?

- Só reparei algumas coisas no jeito dele.

- Como assim? Jeito de gay?

- Não. Nada a ver. Eu sou gay também e sou mais afeminado do que ele no geral. Mas não é disso que eu falo... deixa quieto. Acho que não é nada não.

Não prestei atenção no que Nico disse.

Não vale a pena lembrar daquilo. Até mesmo porque eu não consigo. Não me lembro daquela noite em Madrid. E nunca mais tive notícias de Juan. Deixo algumas lágrimas rolarem por meu rosto. Que raiva! Eu não posso me apaixonar. Eu não posso e não irei!

FEDERICO NARRANDO

[ 15:51] Guspass: Bem dotado quanto?

[ 15:53 ] Roman69: 22 cm

[ 15:54 ] Guspass: Só acredito vendo

[ 15:54 ] Roman69: Foto

[ 15:54 ] Roman69: Foto

[ 15:55 ] Guspass: Eu vendo: não acredito

[ 15:55 ] Guspass: Bora marcar

[ 15:55 ] Guspass: Eu, você, uma cama, meia noite

[ 15:56 ] Guspass: Vou te mandar o endereço do meu apartamento

-

- Tá fazendo o quê aí?

- Ahhh! - Escondo o meu celular rápido. Dou um pulo pelo susto repentino. - Que susto, Marcelle!

- Quem é Guspass? - Marcelle me pergunta sobre o cara que vira em meu celular.

- É um cara que achei no grindr. - Não gosto de compartilhar conversas. É meio invasivo.

- O que tem de tão legal nesses caras do grindr? - A pergunta dela tem uma resposta óbvia.

- Nada. São só uma...

- Foda?

- É. - Respondo com naturalidade.

- Fode eles e larga? - Ela pergunta de novo. Será que ela ainda não entendeu?

- É isso aí. - Qual a dificuldade nas pessoas entenderem isso?

- Eu tô chocada. Você é muito atencioso. Focado. Gentil. Vejo que sempre regula as coisas que fala para ser o mais cauteloso possível. Mas ainda assim, você descarta as pessoas.

- Sexo é para reprodução, prazer ou estabelecer relações. Não precisa ser necessariamente para as três razões ao mesmo tempo. Eu escolho fazer só pela segunda opção. Agora eu tenho que ir pra aula. Vamos juntos até dentro do prédio?

- Bem... vamos sim. - Ela me olhou com um olhar estranho. Não sei dizer exatamente do quê. Talvez estivesse me analisando.

Durante o caminho eu dou um esbarrão forte contra uma quina de escada. Acho que vai deixar um roxo.

- Tudo bem?

- Tudo sim. Não doeu. Direto esbarro nas coisas. Sou muito estabanado. - Dou um riso leve. Meu corpo é cheio de arranhões e hematomas. Alguns eu nem sei de onde vieram.

Saímos da área onde estávamos e fomos para uma parte bem ensolarada e aberta. Eu pego meus óculos de sol e ponho no rosto. Marcelle vai saltitando pela grama. Ela é tão doce. Fico feliz de estar fazendo laços nesse emprego. Mas agora vou para a aula e me concentro completamente em dentes.

NICO NARRANDO
A véia me liberou das entregas hoje à noite. Um contato dela de dentro da delegacia disse que liberaram um viciado pra ele os levar até o entregador. Como todas as entregas eram na região daquele usuário, ela as cancelou e os clientes foram buscar pessoalmente.

Aconteceu uma coisa de manhã. Estava na cozinha com o Pierre e o Federico. Pierre teve que fazer um bolo de casamento e deixou o pão por conta do Fede. Ele parecia tão envolvido. Houve um momento que ele começou a apertar a massa entre os dedos e não parou. Os olhos pareciam vazios. Uma expressão de imensa satisfação e anestesia. Era como se ele tivesse deixado o mundo ao redor em silêncio e falasse diretamente com a massa por meio do toque. Eu tentei chamá-lo, mas ele me ignorou e continuou com a massa.

Ele me lembra tanto do Alejandro. Não me esqueço um único dia do dia da sua morte. Ainda mais quando olho para Federico. Sinto que os dois são iguais. Acho que estou começando a entender o lado do Hank. Nem tudo naquela casa é o que parece. E se não fosse pela minha experiência com o Alejandro, nunca desconfiaria de nada.

FLASHBACK ON
JUIZ DE FORA, 2005
NICO NARRANDO

- Me espera, Nico!

- Vem, Alê!

A risada que soltávamos era tão gostosa. Era tão divertido quando o Alê vinha me visitar em Juiz de Fora, ou quando eu ia vê-lo em Buenos Aires. Eu corria pelo campo aberto próximo à BR, e minha pipa ia alto. Alê tentava ao máximo empinar a sua, mas eu tinha mais jeito com a linha e carretel. A minha tinha o desenho de uma onça, e a dele de um pinguim.

Começou a ventar forte. Eu olhei pra trás, e vi Alê. Seu rosto estava vermelho em lágrimas. Recolhi minha pipa e fui até ele.

- Que foi, Alê?

- Mi rosto! Tá doendo. Estoy com um formigamiento em mi pele. - Eu e ele falávamos só um portunhol, mas o contato frequente melhorou a compreensão nossa entre a língua um do outro.

Aquele dia foi o primeiro sinal. Pelo menos a primeira vez que ficou evidente. Pois os sinais estavam em nossa frente o tempo todo.

FLASHBACK OFF

Já era noite, e íamos nós três, pois Hank ainda não chegara, assistir Invocação do Mal 2. A casa onde aconteceu tudo fica no nosso bairro. Já passamos por lá algumas vezes. Parece bem quieta hoje em dia.

Estávamos os três no sofá, com uma vasilha cheia de pururuca na mesinha de centro na nossa frente.

- Legal esse efeito do homem torto, né? - Fede olhava absorto e concentrado.

- Da hora. - Pierre respondia entre as mastigadas.

- Ei, Pierre! Não come tudo. Custei a achar isso na Inglaterra. Tive que ir em Manchester pra arrumar. - Eu xingava o francês que esbanjava a mão cheia na vasilha.

Bem no final do filme, a porta da frente se abriu. Hank chegou em casa. Tinha uma cara irritada. Foi direto pra cozinha. Ouvimos um berro:

- QUEM MEXEU NA MINHA CERVEJA?

Ai, lá vem. O policial chegou irritado na sala. E com uma cerveja aberta em mãos. Aparentemente congelada.

- Alguém mexeu nelas e segurou no meio da garrafa. Tem que segurar no gargalo, ou congela.

- Deixa de paranóia, Hank. A geladeira deve ter congelado ela. - Fede fala ao irmão.

- Geladeira? Se fosse o freezer, eu concordava. Alguém mexeu nelas e segurou no meio da garrafa!

- Ai, Madame não encoste na minha cerveja, menos barulho. Queremos ver o filme. - Eu digo, ignorando ele e voltando a minha atenção à aparição do Valak.

- Foi você, não foi? - Ele tá me acusando mesmo?

- Quê? Eu nem gosto de cerveja. Só bebo cachaça e caipirinha. Pra quê vou mexer nelas?

- Pra pegar alguma outra coisa na geladeira.

- A única coisa que peguei na geladeira hoje foi água e fruta. Nem cheguei perto da sua cerveja. - Me defendo e volto minha atenção para o demônio na frente da TV.

Ele desiste de discutir e volta pra cozinha. Em uns minutos ele volta e se senta na sala conosco.

- Terror? Que bom que acabou. Detesto. Vocês não vão ficar gritando à noite, né? - O desdém na voz dele chegava a incomodar.

- Não. - Nós três respondemos todos juntos.

- Vocês não tem medo? Isso ocorreu aqui perto.

- Olha, Seu Polícia. É um filme. E daí se é inspirado em fatos reais? Se essas coisas existem, eu ver ou deixar de ver o filme não interfere em nada. Se existe, vai continuar existindo. Se não existe, vai continuar não existindo. E esse filme foi sucesso no mundo todo. Muita gente viu. Acha que o demônio vai visitar um por um? E foi aqui perto, mas nunca mais o coisa ruim voltou lá. Porque ele foi derrotado. A casa que está aqui perto, logo, é segura. - Fiz minha excepcional defesa do filme e da minha preferência cinematográfica.

- Realmente, Hank. Acha que o Valak vai materializar aqui? - Dessa vez foi Pierre que rebateu.

- Tá, né? - Hank respondeu seco. Deve estar nervosinho pela cerveja.

Fui para o andar de cima após o filme. Escovei os dentes. Mijei. Fui para meu quarto. Fechei a porta, tirei a camisa e me joguei na cama. A luz da lua entrava pela janela. Eu estendo a mão para o criado mudo ao lado da cama, pego a minha carteira e tiro um foto de lá. Alejandro e eu tomando sorvete juntos. Mal sabíamos que o sorvete foi pago pelos nossos pais com o dinheiro da overdose de alguém.

Deixo umas lágrimas escorrerem pelo meu rosto. E só de pensar que fiquei feliz quando vim para a Europa, me dá náusea. Eu vim porque precisavam substituir Alejandro.

Ai, Alê. Eu sinto tanto a sua falta. Por que você? Por que não eu? A vida é triste. Viver é difícil. Mas eu vivo por você. Você está junto de mim.

Tiro minha bermuda. Olha para a minha coxa nua. Próxima a borda de minha cueca está a tatuagem que te mantém comigo. O desenho perfeito da sua digital. Eu vivo por você e por mim.

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