Capítulo 12 - Lábios de mel

PIERRE NARRANDO

Ter ido ver Dumbo com Isak foi super de boas. Não teve nada demais. Eu e ele ficamos o tempo todo dm silêncio prestando atenção. Comemos pipoca, eu bebi refri e ele uma água. Parece que durante a época que ele fez a cirurgia na garganta, teve que evitar coisas ácidas por um bom tempo e perdeu o gosto por refrigerantes.

Agora era aula de Literatura. Depois de termos começado a conversar, ficou mais fácil prestar atenção no Sr. Path. Aliás, essa virou minha aula favorita. Na última semana, esgotamos todas as aulas para falar sobre Dom Quixote.

A bola da vez era O Conde de Monte Cristo.

- Até onde o desejo é capaz de nos levar? Sei que o primeiro sentimento que nos vêm à mente quando falamos dessa obra do Dumas é a Vingança. Mas antes da vingança, temos que explorar primeiro o desejo e a inveja. Pois é neles que estão as raízes de toda a problemática que vai assolar o Dantès. A cobiça e inveja de seus inimigos é tamanha que, os levam a criar um plano para se livrarem dele e criarem situações que lhes deem benefícios. É aí que tudo realmente começa. Até onde o desejo pode nos levar? - Path para repentinamente e olha para uma garota. - Srta. Madson, qual o seu maior sonho e desejo?

- Ah... creio que ganhar um Nobel de Literatura.

- Excelente. Pois bem. Imagine que você é indicada, e alguém de dentro do corpo de juízes lhe diz que irá te laurear, se fizer três favores a ele. Roubar uma roupa de uma loja; fazer propaganda de um livro que esse juiz escreveu e atropelar o filho de um inimigo dele. Você faria essas três coisas por um Nobel?

- As três não... mas acho que faria merchant para um livro dele, talvez até roubaria uma roupa de uma loja. Mas eu não atropelaria ninguém. - A menina respondeu.

- Vê como o desejo lhe tomou? Você não correria o risco de matar alguém, mas se corromperia a ponto de roubar e quebrar com uma conduta moral da sociedade. É até aí que o desejo a levaria. E você não é indicada ao Nobel, então, por mais que seja seu sonho, é fácil recusar o terceiro pedido. Mas se fosse estivesse de fato indicada, seria tão fácil assim? Não se é indicada ao Nobel todo dia. - Ele lançou um olhar a classe que deu até arrepios. - O desejo de outros levou Dantès para a cadeia, e tamanha injustiça, sofrimento, traição e também inveja -- pois lembrem-se que ele viu os conspiradores terem a vida de luxo que ele tanto queria enquanto ele vive uma vida podre, então ele também teve inveja -- levaram ele à vingança.

Ao final da aula, eu saio junto de Isak da sala. Conversamos sobre Path durante nossa caminhada.

- Ele é genial. O cara pensa muito, fala várias línguas... isso na literatura europeia e asiática que vimos até agora. Imagina na literatura da língua portuguesa, que ele é especialista. - O Isak não media palavras pra elogiar o professor, e eu acompanhava a opinião dele. - Eu entendo a opinião dele sobre a beleza da língua portuguesa. Acho linda.

- Eu acho ele incrível sim, mas eu tenho que puxar sardinha para o lado do Francês. Eu ouço português constantemente, e pra mim o francês vence. C'est une belle langue. - Falo um pouquinho com sotaque forte de aristocrata e o faço rir.

- Duvido muito que todo francês fale assi... pera... ouve o tempo todo?

- Sim, é qu...- Sou interrompido abruptamente por uma gazela que tenho como prima, que acabara de pular em cima de mim e que me derrubou.

- É que ele mora com um brasileiro. Aliás, trabalhamos com um. - Marcelle se vira pra mim e pergunta. - Não vai me apresentar pro teu boy, não?

- Marcelle! Olha os modos. Somos amigos. - Eu tento diminuir os efeitos da fala de Marcelle, mas não sei se falei direitinho ou se gaguejei. Isak está vermelho feito um pimentão.

- Olá, meu nome é Marcelle. Sou prima de segundo grau do Pierre.

- Oi, sou Isak Alberman.

- Prazer, Alberman. Eu vim aqui pra avisar o Pierre que todos vamos para um karaokê no sábado. Por que não vem com a gente? Vai ser super legal. Vai eu, um colega de trabalho nosso, o irmão dele, um policial amigo do irmão dele, o brasileiro e o Pierre...

- Espera. Quem confirmou que eu vou?

- Eu. E é melhor ir. A gente nunca tem tempo pra fazer nada legal. Nunca temos tempo de relaxar. Dessa vez, você vai! E se tiver amor aos seus ovos, sugiro não faltar. - Quando ela disse isso, instantaneamente pus minhas mãos a frente da minha virilha. - Agora vou indo. Vim aqui mais cedo pra apresentar seminário. Aparece lá, Isak.

Ela se vira e sai por aí saltitando novamente. Eu me viro e falo com Isak:

- Então... você vem?

- Você vai? - Ele me pergunta, deixando claro que irá se eu for.

- Eu tenho amor às minhas bolas. Então acho que vou sim.

- Então te vejo, lá. - Ele me responde. - Agora vou ali na biblioteca trocar de livro. Te vejo mais tarde.

- Até! - Respondo enquanto ele se vai. Nessa hora ouço um som vindo de uma árvore ao lado de onde estou, e ao olhar para cima, me deparo com um canadense trepado em um galho. - Tudo bem aí em cima seu poeta?

- Claro, amigo! Sua prima me deu uma ótima ideia para um poema sobre karaokê. Vai se chamar "Minhas mãos sobre tua coxa e o microfone"! - Ao falar isso, me sobe um arrepio, pois me lembrei do ocorrido em Madrid, mas é melhor ignorar.

- Boa sorte com o seu poema, seu poeta! Até logo. - Me despeço daquele homem que ri alto enquanto escreve algo em um bloquinho. Acho que esse cara é meio doido.

Quando deu o sábado, trocamos de roupa no próprio banheiro da padaria. Isak estava lá, enquanto espera que acabassemos de fechar o estabelecimento.

- Pronto, meu povo. Vamos! - Marcelle grita tão alto que Federico até levou as mãos aos ouvidos.

Fomos todos a pé, pois o bar karaokê era aqui perto. Hank e seu amigo Troye já estavam lá. Chegamos no lugar, era uma espécie de pub. Todo preto com fotos de bandas de rock nas paredes, uma bandeira britânica pintada numa parede, a ocupando toda. Tinha um bar, com a parede toda de tijolos e prateleiras com várias garrafas de bebidas diferentes.

- É o seguinte. Comprei ficha pra todos, sete ao todo. Uma para cada. Aqui as fichas. É só escrever o nome da música, eu nome e entregar pro DJ. - Marcelle dá a cada um de nós uma ficha.

A primeira a ir cantar foi a própria Marcelle. Alejandro da Lady Gaga:


- She's got both hands
In her pocket
And she won't look at you
Won't look at you
She hides true love
En su bolsillo
She's got a halo around her finger
Around you

You know that I love you boy
Hot like Mexico, rejoice
At this point I gotta choose
Nothing to lose

Don't call my name
Don't call my name, Alejandro
I'm not your babe
I'm not your babe, Fernando

Don't wanna kiss, don't wanna touch
Just smoke my cigarette and hush
Don't call my name
Don't call my name, Roberto

Alejandro(8x)

Simplesmente uma grande cantora. Todos aplaudimos. Nico estava até chorando.

- Que é isso, brother? Tu tá chorando, man? - O amigo de Hank pergunta enquanto ri de Nico.

- É que foi lindo. Ela canta bem. - Nico fraquejou com a voz. Achei esse amigo do Hank um babaca. Que que tem ele ter chorado?

O próximo foi o tal Troye, que cantou uma música do Eminem. Depois foi Hank, que cantou Despacito. Então fui eu, que acho que arrasei com Bad Romance, principalmente na parte do Francês:

- "I want your love
And I want your revenge
I want your love
I don't wanna be friends

J'veux ton amour
Et je veux ton revanche
J'veux ton amour
I don't wanna be friends
Oh-oh-oh-oh-oooh!
I don't wanna be friends
Caught in a bad romance"

A poc interior dentro de mim se sentiu brevemente libertada. Depois Isak cantou "Shape of you" e Fede cantou "Sweet child o'mine". E só faltava Nico. Todos já havíamos bebido, e Nico achara no bar uma bebida do país dele chamada "Catuaba". Já estava meio alterado. Isak e eu também já estávamos meio alegrinhos. Eu estava tomando vodka e Isak bebia uma batida de Vodka, limão, gelo, açucar, hortelã e mel.

- Vai, é só você que falta! Vai lá dar um showzinho pra nós. - Eu tinha um sorriso tão besta enquanto falava. Devia estar ridículo.

- Ai, gente. Me deixa! Eu não canto tão bem. - O motoqueiro tentava se desvencilhar de nós enquanto bebia catuaba direto da garrafa.

- Vai, cara. Canta algo em português. Eu acho uma língua tão linda. Faz isso pra mim? - Isak fez carinha de cachorrinho pidão.

- Tá, mas com uma condição. - Ele chega do lado de Isak e fala algo em seu ouvido. O oriental assente e Nico se dirige ao DJ. Após 20 minutos, ele é chamado. E começa a tocar uma música estilo rock anos 80 ou 90.

- "Todo dia a insônia
Me convence que o céu
Faz tudo ficar infinito
E que a solidão
É pretensão de quem fica
Escondido, fazendo fita
Todo dia tem a hora da sessão coruja"

Não entendi como Nico disse que não canta bem. Ele canta é ótimo. O jeito que arrasta a voz e passa alegria é diferente. É como se o próprio cantor tivesse baixado seu espírito nele. Todos do pub até pararam para ver.

- "Só entende quem namora
Agora vam'bora
Estamos, meu bem, por um triz
Pro dia nascer feliz
Pro dia nascer feliz
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir
Pro dia nascer feliz
Essa é a vida que eu quis
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir"

Quando dou por mim, a coxa de Isak está escostando na minha. Tive a sensação de um leve choque. Todo mundo no pub fazia pequenos movimentos sentados. Pareciam estar curtindo. Isak parecia mais próximo. Não sei o que deu em mim, mas eu segurei sua mão.

- "Todo dia é dia
E tudo em nome do amor
Essa é a vida que eu quis
Procurando vaga
Uma hora aqui, outra ali
No vai-e-vem dos teus quadris
Nadando contra a corrente
Só pra exercitar
Todo o músculo que sente
Me dê de presente o teu bis
Pro dia nascer feliz
Pro dia nascer feliz
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir, dormir" (2x)

Eu e ele trocávamos pequenos olhares. Eu estava umidificando meus lábios.
Eu me virei e o encarei em seus olhos. Estavam cintilantes. E então ele se aproximou e nossos narizes começaram a roçar um no outro. Estamos esfregando os narizes. E aos poucos nossas bocas se abriram levemente. E nossos lábios se tocaram. Começamos a mexer aos poucos. Nossas línguas davam breves encontros. Entre uma mordidinha nos lábios um do outro, nossas mãos percorriam as costas um do outro. O gosto da sua boca era de vodka e também do mel que ia em sua batida. Seus lábios estavam lambuzados com mel.

"Pro dia nascer feliz
Essa é a vida que eu quis
O mundo inteiro acordar
E a gente dormir"

Todo mundo aplaudiu Nico. Eu e Isak quebramos o beijo. Demos um sorriso um para o outro e voltamos nossa atenção a Nico que acabara de chegar. Afinal, que problema tem em pegar o amigo? E talvez algum de nós nem lembre disso amanhã.

Mas até lá, ainda tivemos uma noite incrível. A única parte chata foi que Nico sozinho esvaziou duas garrafas de Catuaba e ainda tomou um pouco das bebidas do copo de todo mundo.

Resultado: Ele teve que ser carregado por Fede até o táxi. Isak e eu também estávamos meio bêbados e ele começou a ficar enjoado e vomitou no Táxi. O motorista ficou uma fera e cobrou em dobro. Não é atoa que Hank não quis nos levar no carro dele. Acho que preveu o que ocorreria.

Chegando em casa, Isak dormiu no quarto de Nico junto comigo, pois Marcelle ficou no meu quarto. Eu emprestei umas roupas pra ele. Nico tomou um banho gelado com a ajuda minha e do Fede ficou na cama com ele. Acho que é a primeira vez que Fede leva outro homem pra cama e não come ele.

Eu também capotei na cama, sorrindo bobo com o beijo que dei com Isak. Durante a noite nem percebi quando nos abraçamos e dormimos de conchinha.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top