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— Vou te contar uma coisa. — ela se levanta e em seguida se senta na cadeira próxima da que estou — Até meus dezessete anos eu morei nos Estados Unidos com minha mãe. Eu vivia em um mundo diferente. Tornei-me líder de torcida, era popular e talvez até um pouco mesquinha. — ela me encara com seus olhos negros e pega minhas mãos — Eu pensava que era importante e que as pessoas ao meu lado gostavam de verdade de estar comigo. Mas um dia percebi que não era bem assim. — ela dá uma pausa — Um garoto do último ano armou, com as garotas que diziam serem minhas amigas, para mim. Levaram-me para o baile, puseram algo em minha bebida. — ela pausa por dois segundos antes de continuar — Quando eu acordei estava em um lugar desconhecido, com minhas roupas rasgadas e o infeliz do meu lado. Quando contei para minha mãe ela quis ir para a justiça, mas ambos éramos menores. A única coisa que ganhei foi uma reputação horrível... — ela inspira pausadamente — E um filho na barriga. Eu enlouqueci quando descobri a gravidez. Tive problemas psicológicos. Eu era uma criança carregando outra criança. — percebo que seus olhos estão inundados — Um dia minha mãe me deixou sozinha em casa. Eu tomei uma garrafa inteira de vinho... E acabei caindo da escada. — ela faz mais uma pausa, mas dessa vez larga minha mão e seca suas lágrimas que começaram a descer — Eu fiquei em coma por um tempo e perdi o bebê. Quando acordei percebi o que tinha feito. Eu não conseguia me olhar no espelho. Demorei um longo tempo para me recompor. Incluindo várias sessões de terapia. — ela me encara novamente e percebe que eu que estou chorando agora — Estou te contando isso porque quero que saiba que você não estará sozinha. Vejo que está convicta que pode criar essa criança, mesmo sabendo que não será fácil. Nossa escola está preparada par atender a essas situações. Temos uma enfermaria e uma conselheira. Eu também estarei sempre à disposição. Não sinta vergonha por estar grávida. Sinta orgulho por ter coragem de continuar essa gravidez. Não são todas as adolescentes que conseguem lidar com isso. — ela abre um largo sorriso, exibindo seus dentes alinhados e brancos — Por isso me tornei educadora. Dessa forma eu posso ficar mais próxima de meninas como você e eu, que precisam de apoio. Empenho-me diariamente para que esse tipo de coisa não aconteça.

— Obrigada, Senhorita Adams. — respiro fundo para me recompor — Eu confesso que fiquei assustada no início, mas agora quero que meu filho tenha um futuro digno. — alargo meu sorriso.

Ouvir a história da diretora me deixou sensível, mas também me mostrou que tenho que ser forte. Desafios nós encontramos em todo momento. Mesmo que eu tenha que enfrentá-los estando grávida, não posso me deixar abater.

— Venha, vou te levar até sua primeira aula. — Ela se levanta e abre a porta para eu passar.

Acompanho a Senhorita Molly até uma sala. A porta tem um vidro retangular que permite enxergar o lado de dentro.

A diretora faz um sinal para um aluno que em seguida avisa ao professor.

— Bom dia Senhor Borges. — ele responde com um 'Bom dia' — Vim apresentar a nova aluna. — ela põe uma mão em meu ombro e outra em meu braço — Esta é a Senhorita Patrícia Valym. Espero que sejam bons com ela. Qualquer coisa pode me procurar. — a última frase ela diz em tom mais baixo — Depois passarei o comando para os professores sobre um trabalho interdisciplinar. Tenham uma excelente aula de matemática!

Ao dizer isso a direto se retira da sala. E eu me sinto um patinho feio em meio aos cisnes.

A sala é bem arejada, as carteiras estão organizadas em duplas. Os alunos cochicham entre si.

— Pode se apresentar, senhorita. — o professor baixinho e rechonchudo de meia idade e uns óculos 'fundo de garrafa', diz apontando para a turma.

Respiro fundo antes de começar a falar.

— Hi! Meu nome é Patrícia Valym, como a diretora já mencionou, tenho 17 anos e mudei para cá há dois dias. — pensei em mencionar que estou grávida e procurando emprego, mas deixa para uma próxima.

— Seja bem-vinda. Eu sou o Ricardo Francisco Borges. Dou aulas de matemática. Pode se sentar ao lado da Laura. — ele aponta para uma menina dos cabelos pretos cacheados. Ela tá com cara de que tá se lixando para tudo.

Enquanto passo no pequeno corredor entre as carteiras recebo olhares curiosos.

Que bom que me arrumei bem hoje. Nada de calça rasgada e blusão. Apenas uma calça jeans justa e uma blusa bege com mangas curtas. Deixei meu longo cabelo solto e calcei um tênis da Adidas branco.

Passei um batom rosa clarinho e no rosto um corretivo para esconder as espinhas malditas que insistem em aparecer.

Se Yuri tivesse aqui diria que 'dá para o gasto'.

Me sento ao lado de Laura e ela sorri simpática, mas não diz nada.

👊👊👊

A aula segue normalmente. Exceto pelo fato de que nunca vi aquelas equações matemáticas até o momento que o professor passou na lousa.

Quando o sinal soou, fiquei um pouco perdida ao ver os alunos se levantando.

— Vai ter duas aulas de matemática? — Laura diz ao pegar a bolsa dela.

— Aqui diz que agora tenho aula de artes. — digo olhando para o meu horário.

— Então você deve ir até a sala de artes. — acho que estou com cara de cego em tiroteio porque ela continua — Aqui não são os professores que vem até nós, é o contrário. E a sala de artes, especificamente, é fora desse bloco. Você tem que subir para o andar de cima.

— Ah meu Deus. — percebo que perdi cinco minutos patetando — Obrigada!

— Não há de que.

Saio apressada da sala e sem querer esbarro em uma garota, fazendo os livros dela cair.

Ok, isso seria legal se fosse com um belo rapaz e eu vivesse aquelas cenas de cinemas. Mas comigo nada é fácil, né?!

A menina negra, com um cabelo cacheado maravilhoso me olha feio.

— Me perdoa, eu sou nova aqui e já estou atrasada para minha segunda aula. — Tento lançar um sorriso simpático e abaixo para pegar os livros dela.

— Tudo bem. Eu entendo. Só espero que não esteja atrasada para a aula de artes. — quando ela diz isso eu arregalo os olhos — Colega, só corre. - ela sorri e faz um sinal com a mão direita para eu seguir em frente.

Subi as escadas na maior velocidade que pude - por um segundo até esqueci que poderia fazer mal para o bebê. E ao chegar ao topo eu fiquei indecisa se iria pelo corredor esquerdo ou direito.

Tento pelo direito e para minha sorte encontro a sala.

Quando abro a porta, a professora me olha feio. Ela é baixinha e magra. Seu rosto possui traços asiáticos. Seu cabelo liso está preso em um rabo de cavalo. Ela está com um avental sujo de tintas, o que impede de ver sua roupa. Aparentemente, ela não passou dos trinta anos ainda.

— Vejo que alguém se perdeu no primeiro dia. — ela diz me encarando.

Ótimo, que bela primeira impressão.

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