Capítulo 9
Mesmo com a ligação estranha e as mensagens que eu recebia, minha vida não poderia parar. Os hackers que trabalhavam para gente tentavam identificar de onde vinha as ligações e mensagens, porém, enquanto nada era totalmente resolvido, minha pesquisa estava clara. O computador velho da polícia zumbia com um barulho incômodo enquanto eu percorria todas as abas abertas sobre a tal Casa de São Sebastião. Rafael estava a alguns metros de distância, conversando com os pais das crianças que ainda estavam desaparecidas. Fazia mais de uma semana desde a morte de Gustavo e, no máximo, quatro dias desde o desaparecimento dos pequenos. O tempo estava contra nós.
Quando a página do arquivo da polícia finalmente carregou, uma série de fotos antigas e quase recentes apareceu de uma vez só. Meu olhar saltou de uma imagem para outra até identificar Álvaro Montenegro. Ele se destacava em todas as fotos, sempre o mais alto do grupo. Isso me fez pensar se, de fato, ele fora uma das crianças que viveram no antigo orfanato São Sebastião.
Nas imagens mais recentes, ele posava ao lado de sua esposa — uma mulher belíssima, de cabelos ruivos — e de algumas figuras conhecidas da cidade. Em uma das fotos, vi que ele usava uma corrente de prata, parcialmente escondida sob a gola de uma camisa polo enquanto interagia com as crianças. Passei mais duas imagens até encontrar um detalhe que me fez parar.
Lá estava o pingente do cordão.
Ampliei a imagem, tentando distinguir melhor o desenho. O símbolo era familiar. Algo me dizia que eu já o tinha visto antes, mas onde?
Meu coração bateu mais rápido. Voltei algumas páginas nos arquivos, buscando mais referências. Em uma das fotos antigas do orfanato, um grupo de garotos aparecia no pátio, sentados em fila. E lá estava o mesmo símbolo — bordado no bolso do uniforme de alguns deles.
Meus dedos se crisparam sobre o mouse.
Esse pingente não era apenas um enfeite. Ele significava algo.
Antes que eu pudesse processar completamente aquela descoberta, Rafael se aproximou, sua expressão carregada.
— Encontrou alguma coisa? — Ele se inclinou para olhar a tela, franzindo o cenho ao notar a imagem ampliada.
Assenti, clicando novamente na foto para destacá-la.
— Esse símbolo... já vi antes. Ele estava no uniforme de algumas crianças do orfanato. Não era padrão, só alguns usavam. Álvaro Montenegro tinha um pingente com esse emblema, o que significa que ele fazia parte disso.
Rafael cruzou os braços, pensativo.
— A questão é: "disso" o quê?
Eu já tinha uma suspeita, mas antes de falar qualquer coisa, abri uma nova busca. Se minha intuição estivesse certa, esse símbolo poderia levar a algo muito maior do que apenas um antigo orfanato.
Digitei as palavras no campo de pesquisa e esperei. Alguns segundos depois, um resultado chamou minha atenção.
Um artigo arquivado há anos, pouco acessado, trazia o título:
"A Sociedade da Noite: O mistério por trás da Casa de São Sebastião."
Olhei para Rafael, que apenas balançou a cabeça.
— Isso não pode ser coincidência.
Cliquei no link, sentindo um arrepio subir pela espinha.
Eu estava prestes a descobrir algo que talvez preferisse nunca ter sabido.
Rafael puxou uma cadeira ao meu lado e se acomodou tão perto que pude sentir sua respiração quente na minha nuca. O cheiro de café misturado ao leve toque de menta de seu chiclete me trouxe uma estranha sensação de conforto, mas não era hora para distrações. Mantive o foco na tela enquanto a página carregava.
O artigo era antigo, datado de quase duas décadas atrás. A formatação precária e o layout desatualizado deixavam claro que aquilo fora escrito antes da popularização das redes sociais. Ainda assim, o conteúdo era o que importava.
"A Sociedade da Noite: O mistério por trás da Casa de São Sebastião."
O primeiro parágrafo já era um soco no estômago:
"Durante décadas, boatos sobre uma organização secreta operando dentro do orfanato São Sebastião circularam entre ex-internos e moradores da cidade. Crianças selecionadas eram submetidas a rituais desconhecidos, marcadas por símbolos misteriosos e separadas das demais. Alguns afirmam que aqueles escolhidos desapareciam sem deixar vestígios. Outros dizem que eles voltavam... diferentes."
Meu sangue gelou.
Rolei a página com urgência, absorvendo cada palavra.
"Em 1998, um incêndio destruiu parte da ala norte do orfanato. Documentos foram perdidos, registros apagados. A tragédia foi atribuída a um acidente elétrico, mas testemunhas afirmam ter visto figuras encapuzadas saindo do prédio na mesma noite. As investigações nunca avançaram. O caso foi arquivado."
— Isso explica muita coisa... — murmurei, sentindo meu estômago revirar.
Rafael, ao meu lado, apoiou os cotovelos na mesa, os olhos fixos na tela.
— Álvaro Montenegro estava lá na época. Ele pode ter feito parte disso. Ou pior, pode estar por trás dos desaparecimentos agora.
Assenti, ampliando uma das imagens anexadas ao artigo. Era uma fotografia em preto e branco, um grupo de crianças posando em frente ao prédio do orfanato. Olhei para os rostos, um por um, até que o choque me atingiu.
Álvaro estava ali. Jovem, talvez com doze ou treze anos. Mas não era isso que me deixou sem ar.
Ele usava a mesma corrente.
O mesmo maldito pingente.
Minhas mãos tremiam quando passei para a próxima imagem. Desta vez, era uma foto granulada, capturada por uma câmera de segurança. A legenda dizia que havia sido tirada na noite do incêndio.
Havia três figuras ao fundo, quase ocultas pela escuridão. Mas uma delas...
Ampliei o máximo que pude.
Meu coração disparou.
— Meu Deus...
Rafael se inclinou ainda mais, acompanhando meu olhar.
— O que foi?
Engoli em seco.
— Essa pessoa... — apontei para a silhueta distorcida no canto da imagem. — É Gustavo.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Rafael arregalou os olhos.
— Isso... isso não faz sentido. Essa foto é de vinte anos atrás.
Minha mente girava, tentando encontrar uma explicação lógica. Mas não havia nenhuma.
Se Gustavo estava nessa foto... Então a verdade era muito pior do que imaginávamos.
Rafael se afastou levemente, passando as mãos pelos cabelos enquanto digeria a informação.
— Isso não pode estar certo... — murmurou, os olhos ainda cravados na tela. — Deve ser alguém que se parece com ele.
— É claro que não é ele. Esse é o pai dele...
Mas eu sabia que não era Gustavo. Eu conhecia Gustavo bem demais para duvidar. A inclinação da cabeça, a forma como ele mantinha os ombros rígidos... aquela pessoa da foto era perfeita demais.
Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos.
— Se essa foto é real, significa que Gustavo já esteve envolvido nisso muito antes de tudo começar. Já que esse pode ser o pai dele. Afinal essa foto não parece ser muito antiga.
— Mas ele nunca mencionou nada sobre essa Casa de São Sebastião — Rafael rebateu. — Nada sobre Álvaro, nada sobre o passado dele.
— Talvez porque não se lembrava. Ou porque fizeram com que ele esquecesse.
O silêncio entre nós ficou pesado. A única coisa preenchendo o espaço era o som do ventilador do velho computador, que continuava chiando, como se estivesse protestando contra a carga de informações.
Voltei para o artigo, passando os olhos por cada linha, tentando encontrar algo mais que pudesse nos dar respostas. Foi quando um nome chamou minha atenção.
"Doutor Ernesto Navarro."
O nome apareceu diversas vezes, sempre ligado ao financiamento do orfanato e a pesquisas conduzidas dentro da instituição. Ele era descrito como um psiquiatra renomado, mas o que me fez estremecer foi um trecho específico do relatório policial anexado ao caso:
"Testemunhas afirmam que o Dr. Ernesto Navarro conduzia experimentos neurológicos em algumas das crianças do orfanato. O objetivo dessas pesquisas nunca foi esclarecido, e o médico desapareceu pouco antes do incêndio. Seu paradeiro segue desconhecido."
Rolei a página um pouco mais e encontrei uma foto. Era uma imagem antiga, com tonalidade amarelada. Um homem magro, de óculos e cabelos bem penteados, sorria de maneira forçada para a câmera. E ao seu lado...
— Álvaro de novo — murmurei, apontando para ele.
Rafael se inclinou, estreitando os olhos.
— Se ele era uma das crianças, então o que diabos esse médico fez com eles?
Fiz a única coisa que podia naquele momento. Abri uma nova aba e digitei o nome do Dr. Ernesto Navarro.
A resposta veio quase instantaneamente.
"Doutor Ernesto Navarro encontrado morto em sua residência, há três dias."
Meu coração disparou.
Cliquei na notícia, e uma foto do local do crime surgiu. Uma casa modesta, portas arrombadas, a fita policial amarela delimitando a área. Segundo a matéria, o corpo foi encontrado no escritório, cercado por papéis e anotações. A causa da morte? Suicídio.
Olhei para Rafael, sentindo a adrenalina correr pelo meu corpo.
— Alguém está tentando apagar o passado.
Ele não precisou responder. O olhar dele já dizia tudo. Mas a verdadeira pergunta era: quem seria o próximo?
Chefe Collins entrou na sala e chamou a mim e Rafael para irmos até a recepção, onde a televisão estava ligada no jornal da tarde. O pai de Gustavo esbravejava na frente da prefeitura, cercado por repórteres e câmeras de diferentes canais de televisão.
— Onde isso está passando? — perguntei, me aproximando.
— Canal 5 — disse Mariana, aumentando o volume.
A imagem tremida focava em Jorge Husky, o pai de Gustavo, com os olhos injetados de raiva, segurando um microfone com força. Seu rosto estava vermelho, e a voz tremia, não de medo, mas de indignação.
— Meu filho foi assassinado! — ele gritou, olhando diretamente para as câmeras. — E eu exijo justiça! A polícia Civil de São Belmiro é uma farsa.
Os repórteres ao redor se empurravam para conseguir melhores ângulos, microfones sendo erguidos no meio do tumulto. Atrás dele, algumas pessoas seguravam cartazes, mas o que mais chamou minha atenção foi um deles, pintado às pressas com tinta preta:
"QUANTOS MAIS PRECISAM MORRER?"
O peito apertou.
— Faz uma semana da morte de Gustavo — disse Rafael ao meu lado.
Na TV, Jorge Husky continuava:
— A polícia está tentando encobrir tudo! E agora, ele está morto!
As câmeras se viraram quando uma figura saiu da prefeitura. Álvaro Montenegro. Meu estômago revirou. Vestido impecavelmente, com seu habitual terno escuro, Álvaro desceu os degraus com calma, os óculos escuros escondendo qualquer vestígio de emoção.
— Calma meu amigo, a polícia está fazendo o que pode para saber o que houve com ele. — Álvaro sabia se portar frente as câmeras.
Os microfones captaram cada palavra, e um burburinho tomou conta da multidão. A imagem cortou para a âncora do jornal, que retomou a transmissão, mas eu já não estava ouvindo. Meus olhos estavam cravados na tela congelada com o último frame de Álvaro entrando no carro, seguido por Jorge e sua mulher.
A tensão na sala era palpável. O silêncio pesado só foi quebrado pela minha própria voz, firme e decidida:
— O caso está aberto. As pistas começaram a aparecer agora. Com a investigação em São Paulo, os interrogatórios foram adiados, mas começamos hoje mesmo, Chefe.
Collins suspirou, cruzando os braços.
— Eu sei, Marcus. Estamos indo o mais rápido que conseguimos com o tempo que temos. A Polícia Civil de São Paulo chamou vocês para o caso das crianças desaparecidas, então agora temos dois grandes casos se cruzando... e tudo aponta para a mesma coisa. — Ele passou a mão no rosto, pensativo. — Mas agora o estado todo, talvez o país, sabe o que está acontecendo aqui. Mais uma vez seremos colocados à prova... tudo por causa de um pai desesperado por justiça.
Rafael, que observava tudo em silêncio, finalmente se manifestou.
— Conversei novamente com os pais das crianças hoje. A mãe ainda está muito abalada... mas acredita que vamos encontrá-los. Ela tem certeza de que ainda estão vivos.
Ele cruzou os braços e se apoiou na bancada da recepção, onde Mariana digitava algo no computador, mas claramente ouvia cada palavra. Eu respirei fundo. As peças estavam começando a se encaixar. E quanto mais sentido tudo fazia, mais perigoso isso se tornava.
~*~
— Voltou cedo hoje. — Sophia comentou ao me ver entrar pela porta ao lado de Rafael.
Ela arregalou os olhos para mim, e eu já sabia exatamente o que estava passando pela cabeça dela. Na noite anterior, com David em casa, ela mal percebeu que Rafael estava comigo.
— Só vim pegar alguns papéis e uma jaqueta. Está tudo bem por aqui? — perguntei, observando-a com o controle do videogame nas mãos.
— Sim... Só tem uma coisinha. — Sophia saltou do sofá, largando o controle, e correu até o quarto. Quando voltou, trazia um bilhete nas mãos. — A diretora mandou entregar para você.
Merda.
Peguei o papel da mão dela, já prevendo o pior. E lá estava: um chamado para comparecer como responsável dela a uma reunião.
Merda.
— O que você aprontou agora? — perguntei, estreitando os olhos para ela.
Sophia deu de ombros, cruzando os braços.
— Nada demais.
— Sophia.
Ela suspirou, revirando os olhos antes de finalmente falar:
— Eu só... cabulei algumas aulas na terça e quinta na semana passada.
— Sophia.
— Mas não foi nada grave!
Passei a mão no rosto, tentando conter um suspiro.
— E por que você chegou atrasada?
Sophia hesitou por um instante, depois desviou o olhar.
— Foi por causa do Matias, ele está muito abalado ainda com a morte de Gustavo. Eu queria mostrar meu apoio como amiga.
Rafael, que até então apenas assistia à cena, me olhou e suspirou fundo. Lancei um olhar para ele antes de me virar para Sophia novamente.
— A gente vai conversar sobre isso depois. E você vai nessa reunião comigo.
— O quê? Mas por quê?
— Porque quero ver você explicar para a diretora o motivo de ter discutido com uma professora. — Ela bufou e se jogou no sofá, derrotada.
— Isso é injusto.
Ignorei o drama e guardei o bilhete no bolso da jaqueta. Quando olhei para Rafael, ele estava sério, parecia que seus dentes trincavam dentro de sua boca. — Que foi?
— Nada — disse ele, balançando a cabeça. — Só que eu não sabia que você também tinha talento para ser babá.
Revirei os olhos, pegando os papéis que precisava. Mas, no fundo, eu sabia que Sophia era um dos poucos motivos pelos quais eu ainda me agarrava à normalidade. E, com tudo que estava acontecendo, eu não podia me dar ao luxo de perder isso.
— Vamos! — digo saindo pela porta. Rafael me seguiu até o carro sem dizer uma palavra. A tensão entre nós era palpável, mas não havia tempo para distrações. Liguei o motor e segui em direção ao necrotério da polícia. O trânsito estava relativamente calmo, o que nos permitiu chegar lá em poucos minutos.
— Eu não imagino como deve ser para você cuidar de sua irmã e ainda trabalhar na policia o dia todo — disse Rafael abrindo a porta do carro.
Olhei para ele e sorri.
— Isso é um sorriso? Quase não faz isso. — disse ele meio incrédulo.
— Não, é só meu sistema nervoso sendo atingido pelas suas palavras. Você nunca saberia como é cuidar de uma criança. — Digo desfazendo rapidamente o sorriso e balançando a cabeça.
Descemos do carro e atravessamos a entrada do prédio sombrio e silencioso. O cheiro característico de produtos químicos e morte pairava no ar. Caminhamos pelo corredor frio e bem iluminado até encontrarmos o homem que estávamos procurando.
— Que bom que chegaram — disse o perito, ajeitando os óculos no rosto. Seu jaleco branco já tinha algumas marcas de café, denunciando as horas de trabalho. — Estava esperando vocês.
— Encontrou algo novo? — perguntei, indo direto ao ponto.
Ele fez um gesto para que o seguíssemos até a câmara refrigerada. Abriu uma das gavetas metálicas e puxou o corpo de Gustavo para fora. Pensei que haviam enterrado o corpo, como ele ainda poderia estar aqui? Mesmo depois de uma semana, o cadáver já apresentava sinais avançados de decomposição, mas nada que impedisse uma análise detalhada.
— O tiro foi certeiro e letal, como já sabíamos — começou ele, puxando uma luz de inspeção e iluminando o peito do cadáver. — Mas ao revisar novamente o corpo, encontrei algo que passou despercebido antes.
Ele ergueu um dos braços rígidos de Gustavo e apontou para uma marca arroxeada logo abaixo da axila.
— Isso é um hematoma antigo? — perguntou Rafael, inclinando-se para olhar mais de perto.
O perito negou com a cabeça.
— Não. Isso aqui tem, no máximo, algumas horas antes da morte. Ou seja, Gustavo pode ter sido segurado com força antes de ser baleado.
Troquei um olhar com Rafael. Isso mudava as coisas.
— Você acha que ele foi imobilizado? — insisti.
— É uma possibilidade. Alguém pode ter segurado ele antes do tiro, talvez uma luta rápida, ou até mesmo uma tentativa de fuga frustrada. — O perito deu de ombros. — Mas o mais estranho é isso aqui.
Ele puxou a maca para mais perto e virou o pescoço de Gustavo ligeiramente para o lado, revelando uma marca fina e avermelhada na base da nuca.
— O que é isso? — perguntei.
O perito pegou um pequeno bastão de madeira e pressionou levemente a área.
— Parece uma queimadura... Mas não de cigarro. Está mais para um contato rápido com algo quente, como metal aquecido.
— Um cano de arma? — sugeriu Rafael.
O perito suspirou.
— Pode ser. Mas também pode ser outra coisa.
Fiquei em silêncio, absorvendo aquelas novas informações. Se Gustavo foi imobilizado antes do tiro, então talvez ele não tivesse sido executado de imediato. Talvez tenha havido um confronto, um aviso... Ou pior, uma tortura.
— Isso complica ainda mais as coisas — murmurei, passando a mão pelos cabelos.
Rafael concordou.
— Se ele foi segurado antes de ser morto, significa que pode ter reconhecido quem fez isso. E se reconheceu, pode ter reagido.
O perito cobriu novamente o corpo e tirou as luvas.
— O que quer que tenha acontecido antes do tiro, a gente ainda não sabe. Mas agora vocês têm mais perguntas do que respostas. Lamento.
— Não, vir aqui com certeza ajudou bastante. Obrigado. — falou Rafael se afastando do corpo. Ele estava enjoado? Isso me fez soltar um imperceptível sorriso.
— Só uma pergunta, o que o corpo faz aqui? Pensei que veríamos fotos... ele não deveria tá no caixão? — pergunto rapidamente enquanto o perito guardava o corpo novamente.
Ele me lançou um olhar simples e mexeu os lábios se preparando para falar.
— A mãe não aceitou o corpo para o velório. Estamos com ele até então.
Por que a mãe não aceitou o corpo de Gustavo? Não faz sentido nada disso, tudo que uma família que perde um filho quer é ele de volta e recusarem ele dessa forma era estranho.
Meu celular vibrou no bolso. O toque estridente quebrou o silêncio pesado do necrotério. Olhei para a tela: Chefe Collins. Atendi de imediato.
— Marcus, temos um problema.
A voz dele estava tensa, mais grave do que o normal. Isso me fez endireitar a postura.
— O que houve?
Do outro lado da linha, ele respirou fundo.
— Encontraram um corpo no rio. Uma jovem. E tem algo estranho nisso.
Meu sangue gelou. Rafael me olhou, atento, percebendo a mudança na minha expressão.
— Quem é? — perguntei.
— Ainda não identificamos. Mas você vai querer ver isso com seus próprios olhos.
A linha ficou muda. Guardei o celular no bolso, sentindo um arrepio percorrer minha nuca. Logo pensei em Sophia.
— O que foi? — Rafael perguntou, franzindo a testa.
Encarei o corpo de Gustavo mais uma vez antes de responder:
— Alguém jogou uma garota no rio. E pelo tom do Collins... tem algo muito errado nisso.
O silêncio se estendeu por alguns segundos. Rafael apenas assentiu, como se soubesse que aquilo era apenas o começo de algo muito maior.
— Então o que estamos esperando? — ele disse, já seguindo para a saída.
Olhei para o necrotério uma última vez. Dois corpos. Duas vítimas. Duas crianças desaparecidas. E uma verdade que ainda não estávamos prontos para descobrir. Mas já era tarde demais para voltar atrás.
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