Capitulo 3
A sala improvisada para interrogatórios estava mal iluminada, com apenas uma lâmpada pendurada balançando levemente no teto baixo. O cheiro de terra molhada ainda impregnava o ar, lembrança da corrida pela mata que terminara com aquele adolescente desengonçado sendo detido. Ele não parecia intimidado. Estava sentado de pernas cruzadas na cadeira metálica, os dedos batucando no encosto como se estivesse entediado.
Os olhos dele eram a primeira coisa que chamavam atenção: um azul profundo, quase hipnotizante, contornado pelo lápis preto borrado. Os cabelos desgrenhados caíam sobre a testa pálida, e os brincos brilhavam sob a luz amarelada. A jaqueta preta, grande demais para seu corpo magro, estava rasgada na manga esquerda, e a pequena sacola de cocaína que encontraram com ele repousava sobre a mesa entre eles como uma acusação silenciosa.
— Matias, o que fazia na cena de um crime aquela hora? — perguntei sentado na frente dele, eu tentava entender o que aquele moleque fazia lá.
Matias era filho de uma comerciante local, com a separação dos pais ele saiu de um bom garoto para um menino solitário e problemático. Eu já havia o pego roubando algumas coisas pela cidade e havia deixado passar, mais isso era demais.
— Responde garoto, só assim podemos te liberar mais rápido. — dizia Rafael em pé do meu lado.
Matias deu de ombros, um sorriso cínico se formando nos lábios enquanto inclinava a cabeça para trás, observando o teto como se estivéssemos perdendo o tempo dele.
— Cena de um crime? — Ele repetiu com sarcasmo, deixando escapar uma risada curta. — Vocês acham que é isso que vai pra manchete? "Adolescente gótico pego no mato com uma sacolinha de pó"? Trágico, hein?
— Não estamos aqui pra brincar, moleque — Rafael rebateu, cruzando os braços, o tom firme.
Eu observei Matias com cuidado. Já tinha lidado com ele antes, sabia que provocação era o jeito dele de mascarar o nervosismo. Mas havia algo diferente dessa vez. Os dedos batucando no encosto da cadeira não paravam, um ritmo inquieto que denunciava que, no fundo, ele estava desconfortável.
— Matias, você não é burro. — Minha voz saiu firme, mas sem perder o tom calmo. — A gente sabe que você não é um santo, mas também não é idiota o suficiente pra aparecer num lugar como aquele sem motivo. Então vou perguntar só mais uma vez: o que fazia lá?
Ele abaixou o olhar por um segundo, os dedos finalmente parando. Quando levantou a cabeça de novo, o sorriso havia sumido, substituído por algo mais sombrio.
— Eu o conhecia, queria ter certeza que era ele que havia morrido — ele disse baixinho, as palavras quase se perdendo no silêncio da sala.
— Conhecia o Gustavo? — perguntei, sentindo a tensão aumentar.
Matias respirou fundo, como se estivesse decidindo se falava ou não. Ele finalmente encarou Rafael, depois voltou os olhos azuis para mim.
— Sim, a gente ficava...
Fomos interrompidos com a chegada dá mãe de Matias. O som de passos apressados ecoou pelo corredor, seguido pelo abrir brusco da porta. Uma mulher magra, de cabelo preso de forma desleixada e olhos marcados pelo cansaço, entrou na sala. Era evidente que tinha vindo às pressas, a respiração ainda descompassada.
— Matias! — A voz dela soou dura, mas havia preocupação nos olhos. Ela o encarou como se estivesse tentando entender como ele tinha acabado ali de novo. — O que você fez agora?
— Nada, mãe. — Matias revirou os olhos, voltando à postura defensiva de antes. Ele cruzou os braços, afundando na cadeira como se estivesse acostumado a essas situações. — Eles só estão exagerando, como sempre.
Rafael suspirou, cruzando os braços, visivelmente incomodado com a cena. Ele olhou para mim, como se perguntasse em silêncio como deveríamos lidar com aquilo.
— Senhora... — Comecei, tentando manter o tom diplomático. — Seu filho foi encontrado no local de um crime. Não estamos aqui pra acusar ninguém, mas precisamos de respostas.
— Respostas? — Ela se aproximou da mesa, o olhar duro alternando entre mim e Rafael. — Respostas pra quê? Vocês sabem muito bem que ele não tem nada a ver com isso. Meu filho pode ser muitas coisas, mas não é um assassino!
— Mãe... — Matias tentou interromper, mas ela ergueu a mão, mandando-o calar a boca.
— Ele não deveria nem estar aqui! Vocês sabem o que estão fazendo com ele? Ele só tem 17 anos!
— E 17 anos já é o bastante pra carregar cocaína no bolso, estar em cenas de crime e não colaborar com a polícia. — A voz de Rafael saiu fria, cortante.
A mulher congelou, os olhos indo imediatamente para a sacola sobre a mesa. A expressão dela oscilou entre raiva e desespero, mas Matias, como se percebendo a situação escapando de controle, finalmente se mexeu.
— Mãe, para! — Ele levantou a voz, surpreendendo a todos. — Eles só querem saber do Gustavo. E se eu não falar, vão continuar me tratando como se eu fosse culpado.
O silêncio que se seguiu foi denso, e a tensão na sala parecia palpável. Matias voltou a me olhar, mas dessa vez havia algo diferente: uma espécie de resignação misturada com determinação.
— Tá bom. Eu vou falar. Mas só se você garantir que ela vai embora.
Eu troquei um olhar rápido com Rafael antes de acenar para a mãe de Matias. Ela hesitou, claramente relutante, mas acabou recuando com um último olhar severo para o filho.
Assim que ela saiu, Matias inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Gustavo e eu... a gente se conhecia, tá? E não era só amizade. — Ele parou, respirando fundo antes de continuar. — Ele disse que tinha problemas, mas nunca me contou o que realmente estava acontecendo. Agora ele tá morto, e vocês acham que eu não vou querer saber o motivo?
— Ok, ok. Pode ir embora, garoto. — Olhei para Rafael dispensando o garoto. Que idiotice era aquela?
O menino saiu pela porta sem esboçar uma palavra ou se quer fazer com que sua respiração fosse visível. Permaneci olhando para Rafael de uma forma perplexo pela tal ousadia de simplesmente mandar aquele garoto que para mim, era uma peça tão importante para descobrir o fato da morte de Gustavo.
— Ele não ia falar nada! Aquele garoto só está tentando achar o motivo para saber porque que a pessoa que ele gostava tanto e que aparentemente demonstrava sentimentos por ele havia morrido, não tem sentido querer manter aquele adolescente aqui para tentar arrancar alguma coisa que não vai levar a ponto nenhum. — resmungou Rafael se levantando da cadeira.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, processando o que Rafael acabara de dizer. Ele parecia tão certo disso, mas algo não batia. Matias podia ser apenas um adolescente confuso e revoltado, mas havia algo no olhar dele, algo que ele estava escondendo. Não era só a perda de Gustavo que o atormentava.
— Talvez você tenha razão, Rafael, mas ele ainda sabe mais do que contou. — Respondi finalmente, levantando-me devagar. — Não estou dizendo que ele matou o Gustavo, mas ele estava perto demais da cena pra ser só coincidência.
Rafael bufou, andando de um lado para o outro na sala. Ele sempre ficava assim quando achava que estávamos perdendo tempo. Para ele, casos eram simples: provas, confissões e solução. Mas eu sabia que, nesse caso, não ia ser tão direto.
— E você acha que apertar mais aquele garoto vai ajudar? — Ele rebateu, gesticulando com as mãos. — Ele tá assustado, confuso. Vai só repetir o que já disse ou inventar alguma coisa pra gente parar de pressionar.
— Talvez. — Cruzei os braços, encarando Rafael. — Mas e se ele estiver com medo de falar alguma coisa? E se alguém o mandou ficar calado?
Rafael parou, me encarando com aquele olhar exasperado que eu já conhecia tão bem. Ele não disse nada, mas o silêncio dele foi suficiente pra eu entender que ele não tinha pensado nisso.
— Eu vou ficar de olho nele. — Continuei, pegando meu casaco da cadeira. — Se ele sabe alguma coisa, não vai conseguir esconder por muito tempo. Só precisamos garantir que ele não desapareça de vista.
— Boa sorte com isso. — Rafael resmungou, pegando as chaves do carro.
Ignorei o comentário e segui em direção à porta. Precisava pensar em como abordar Matias sem espantá-lo, mas também precisava descobrir o que ele sabia antes que fosse tarde demais. O relógio estava correndo, e a morte de Gustavo estava longe de ser só mais um caso comum.
Lá fora, a chuva tinha começado a cair de novo, pingos grossos batendo na calçada e formando pequenas poças no asfalto irregular. Enquanto me afastava da delegacia, os pensamentos continuavam rodando em círculos. Talvez Matias não soubesse de nada, talvez ele fosse apenas um garoto perdido em meio a algo maior. Mas isso não diminuía a importância desse caso. Um assassinato naquela cidade era quase um evento — não pela pessoa que morreu, mas pela gravidade de alguém ter tirado uma vida em um lugar onde crimes assim não aconteciam.
Eu gostava do meu trabalho. Não era algo que eu reclamava, mesmo nos dias em que os casos pareciam menores ou o apoio parecia insuficiente. Mas esse caso... Esse era diferente. Tinha peso, tinha relevância, e eu queria resolvê-lo. Não apenas por justiça, mas para provar a mim mesmo que ainda éramos capazes de lidar com algo grande assim.
— Qual tipo de café você toma? — A voz de Rafael me tirou dos meus pensamentos. Ele tinha se aproximado, mãos nos bolsos, e me observava com aquele olhar meio curioso.
— Eu tomo café em casa! — respondi sem olhar para ele.
Senti seu olhar fixo em mim, mesmo sem encará-lo.
— Acha que eu não percebi os copos de café espalhados pelo seu escritório? — Ele arqueou uma sobrancelha, um meio sorriso surgindo. — Você deve passar mais tempo aqui do que em casa.
Soltei um suspiro, me virando para encará-lo.
— Talvez... — respondi, sem dar muita importância. — Mas isso é porque tem muita coisa pra fazer aqui.
Rafael ficou em silêncio por um instante, como se considerasse minhas palavras. Depois, inclinou um pouco a cabeça, mudando de assunto com uma naturalidade que só ele tinha.
— Tá bom, então. Amanhã eu trago um café decente pra você. E não aceito "não" como resposta.
Olhei pra ele, surpreso.
— E o que você vai ganhar com isso?
Ele deu de ombros, começando a andar pelo corredor.
— Considera como um investimento no meu parceiro de caso. Você vai precisar estar acordado pra resolver isso aqui, não vai?
Soltei uma risada curta e balancei a cabeça, mas não respondi. Ele tinha razão, no fim das contas. E talvez um café diferente fosse exatamente o que eu precisava para aguentar os próximos dias.
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