Capítulo 10
Eu dirigia o mais rápido possível, os pneus cantando nas curvas, o motor rugindo conforme eu apertava o acelerador. Minhas mãos suavam no volante enquanto eu tentava, pela quarta vez, ligar para Sophia.
Chamada sem resposta.
— Marcus, calma. — Rafael falou ao meu lado, mas sua voz parecia distante. — Não sabemos se é ela. Collins não reconheceu o corpo, muito menos disse que poderia ser.
Respirei fundo, tentando conter o pânico. Mas minha mente já estava a mil, imaginando o pior. Tentei mais uma vez. Nada.
— Porra, ela não atende. — Minha voz saiu trêmula, um nó se formando na minha garganta. Eu precisava manter o controle. Não podia me deixar levar.
Quando percebi, já estava estacionando o carro com um solavanco. A área estava cheia de curiosos. Repórteres, câmeras, policiais. O circo já estava armado.
— Se for ela, eu não quero eles aqui. — Minha voz saiu ríspida, carregada de ameaça.
Mal terminei de falar e Rafael bateu a porta do carro, me encarando firme.
— Fica aqui. — Ele estendeu a mão para me impedir de avançar.
Óbvio que eu não ficaria. Saí do carro passando pelos olhos curiosos e familiares da cidade. Um dos policiais levantou a fita de isolamento, me deixando passar. Meus olhos varreram o local até encontrarem Rafael e Collins, que conversavam ao pé do barranco, ao lado do rio. Minhas pernas pareciam de chumbo enquanto eu descia o morro. Rafael se virou e veio em minha direção com passos firmes. Cada segundo parecia se arrastar. Meu peito se apertou. Minha respiração ficou curta. Então, finalmente, ele disse:
— Não é ela.
Meu corpo cedeu, como se toda a tensão escorresse para o chão.
— Tem cabelos curtos. — Rafael continuou. — A perícia já está aqui...
Foi quando ouvi o barulho do meu celular vibrando. Olhei para a tela. Sophia. Minha visão ficou turva por um instante antes de conseguir ler a mensagem:
"Estava no banho. O que houve?"
Fechei os olhos e soltei um longo suspiro. O alívio veio como uma onda, mas trouxe consigo outra coisa. Uma sensação ruim. Quem era a garota encontrada no rio? Olhei para a margem do rio, onde os peritos trabalhavam em silêncio. E foi nesse momento que percebi algo. O corpo da garota, mesmo parcialmente coberto pelo saco preto, não parecia ter sido arrastado pela correnteza. Ela estava completamente nua, somente usando um colar com a letra L, poderia ser um começo. dava para ver algumas marcas nos ombros e colo.
Ela poderia ter sido deixada ali. Mesmo com o alívio de saber que Sophia estava segura, minha respiração continuava pesada. O ar parecia mais denso ali. Como se algo invisível pressionasse meus ombros.
Olhei para Rafael, que também observava o corpo da garota no chão. Seu maxilar estava travado, o olhar fixo nos peritos.
— Não foi um acidente, foi? — Minha voz saiu mais como uma constatação do que uma pergunta.
Collins cruzou os braços, sem desviar os olhos do corpo.
— Aparentemente, não.
Dei um passo à frente, querendo ver melhor, mas um dos peritos levantou a mão, me barrando.
— A cena precisa ser preservada, detetive.
Engoli em seco e tentei me concentrar nos detalhes que conseguia ver de longe. A garota estava de bruços, seu corpo meio virado de lado, com a pele pálida e úmida pelo contato com a água. Mas não havia sinais de que ela tivesse sido arrastada. Nenhum galho preso ao cabelo, nenhuma sujeira de lama no corpo além do necessário.
Alguém a colocou ali.
Alguém queria que a encontrássemos.
— Identificação? — Perguntei, tentando afastar a sensação ruim que crescia no meu peito.
Collins balançou a cabeça.
— Nada nos bolsos. Nenhum documento. Nenhum celular. Sem sapatos. Apenas o corpo... e isso.
Ele fez um sinal para um dos policiais, que ergueu um pequeno saco plástico. Dentro dele, algo prateado brilhou sob a luz das lanternas.
Meu estômago revirou.
— Que merda... — Murmurei, pegando o saco com cuidado.
Era um pingente. O mesmo pingente que Álvaro Montenegro usava nas fotos da Casa São Sebastião.
Minha mente se acelerou. Isso não era coincidência.
Isso era um recado.
Olhei para Rafael, que encarava o objeto com a mesma expressão que eu tinha certeza de estar usando.
A garota foi deixada ali com aquele pingente por um motivo.
E quem fez isso...
Queria que soubéssemos que estávamos chegando perto.
— Temos um problema. — Collins disse, puxando meu olhar de volta para ele. — E isso é só o começo.
Um trovão ressoou à distância, e um vento frio soprou sobre a cena do crime, fazendo as fitas de isolamento balançarem no ar. Eu soube, naquele instante, que esse caso acabaria sendo muito pior do que imaginávamos, seria um excelente fim de semana. Eu estava com medo, mas não podia transparecer isso. Meu primeiro pensamento era mandar Sophia para a casa de David, talvez naquele momento fosse a melhor opção. Eu não sabia o que estava por vir, mas algo dentro de mim gritava que as coisas só iriam piorar.
Rafael me observava em silêncio, como se pudesse ler meus pensamentos.
— Você tá pensando em mandar Sophia embora, não tá? — Ele perguntou, cruzando os braços.
Olhei para ele por um momento antes de desviar o olhar.
— Não embora, pensei em só alguns dias. Por precaução. Só até entendermos no que estamos mexendo. Creio que com David ela poderia está mais segura. Rafael balançou a cabeça, como se não estivesse convencido.
— Se você começar a afastar todo mundo, vai acabar sozinho nisso.
Soltei um riso sem humor.
— Talvez seja melhor assim.
Não esperei pela resposta dele. Passei as mãos pelo rosto, sentindo o peso daquela noite cair sobre mim. Quando finalmente saímos dali, a sensação de estar sendo observado ainda me acompanhava.
Já era tarde quando estacionei o carro enfrente ao prédio. Rafael havia me seguido até em casa, com a palavras dele: "Quero te acompanhar para saber que está tudo bem." Fiquei sentado dentro do carro pensando sobre como minha vida estava ficando perdidamente descontrolada. Vi Rafael piscar os faróis do carro e logo em seguida meu celular tocou. Peguei o celular sem olhar o visor, já sabendo quem era.
— Você vai ficar aí me observando ou vai entrar? — Minha voz saiu cansada, mas sem paciência para discussões.
Ouvi uma risada curta do outro lado da linha.
— Só queria ter certeza de que você não ia desabar aí dentro.
Suspirei, passando a mão pelo rosto. Eu estava esgotado, minha mente fervendo com tudo o que tinha acontecido naquela noite.
— Quer que eu suba com você?
— Você não está cansado? — Pergunto me aconchegando no banco.
— Não me importo de ficar um pouco com você. Não tenho ninguém me esperando em casa mesmo.
Respirei fundo ao ouvir as palavras de Rafael, ele se preocupava comigo e isso me assustava.
— Melhor não. Boa noite, até amanhã sniper. — disse sorrindo.
Desliguei antes que ele pudesse responder e saí do carro. A brisa noturna carregava uma umidade fria, e o silêncio da rua era quase sufocante. Olhei ao redor por um momento antes de entrar no prédio.
O elevador estava quebrado, como sempre. Subi as escadas devagar, sentindo o peso do dia inteiro nas pernas. Quando finalmente alcancei a porta do apartamento, já podia ouvir a televisão ligada lá dentro. Sophia ainda estava acordada. Girei a chave e entrei. Ela estava jogada no sofá, os olhos vidrados na tela enquanto passava algum documentário qualquer. Virou a cabeça na minha direção, franzindo a testa.
— Você tá péssimo.
Dei um sorriso cansado.
— Obrigado pela gentileza.
— Tem pizza na geladeira.
— Não te dou dinheiro pra você gastar tudo com pizza extra g toda noite. — Digo encarando ela com um sorriso.
— Uma coisinha, querido. A comida da escola é minimamente horrível, a mãe da Pamella já faz muito em me deixar almoçar lá todo dia... e outra, nossa geladeira só tem leite, ovos e água. não tem como uma jovem como eu sobreviver só com ovos e leite. — Retrucou ela gesticulando.
— Vai comprar comida ué, o mercado é descendo a rua, não tem por que reclamar. Você só não quer fazer comida, eu mau paro em casa, minhas roupas eu levo para lavanderia todos os domingos e você ta reclamando que não tem comida?
Ela não me respondeu mais e fechou a cara. Joguei as chaves na mesa e fui até a cozinha pegar um copo d'água. Minha garganta estava seca, mas não era só isso. Minha mente estava exausta e presa naquela cena no rio, no pingente, na garota sem identidade que poderia ser Sophia.
Após alguns minutos ajeitando a os meus papeis que estavam espalhados pela casa, pude ir tomar um banho. O chuveiro estava quente, mas eu ainda sentia frio. O tipo de frio que vinha de dentro, se instalando nos ossos. Fechei os olhos, deixando a água escorrer pelo rosto, e apoiei as mãos na parede. Minha mente não parava. A garota do rio. O pingente. Gustavo. Álvaro. E Sophia. Ela não podia ficar aqui. Não agora. O assassinato de Gustavo, a casa de São Sebastião, as ligações entre os casos... Tudo estava se tornando grande demais, perigoso demais. Eu precisava afastá-la antes que ela fosse engolida por isso. David. Talvez essa fosse a opção mais segura. Ele podia ser um pé no saco, mas Sophia gostava dele, e apesar de tudo, eu sabia que ele não a deixaria sozinha. Mas e se ela não quisesse ir?
Se eu insistisse demais, ela perceberia que algo estava errado. Sophia era esperta. Se desconfiasse que eu estava escondendo alguma coisa, não descansaria até descobrir o que era. O Tio Roberto poderia ser outra opção. Morava em São Paulo, longe de tudo isso. Mas eu não sabia se Sophia aceitaria ficar na casa de um homem que ela mal conhecia. Passei a mão pelo rosto, frustrado. Eu não tinha muitas escolhas.
O pensamento me atingiu de surpresa. E Rafael? Ele estava em tudo. No caso. Nos momentos de tensão. Na minha vida. Eu nunca deixava ninguém chegar tão perto, mas Rafael... Ele estava ali, me acompanhando, me apoiando. Por quê? O que ele queria?
A verdade era que, em algum lugar dentro de mim, eu já sabia a resposta. E isso me assustava mais do que qualquer outra coisa acontecendo ao meu redor. Desliguei o chuveiro e saí do banheiro, o vapor preenchendo o quarto. Peguei o celular e abri as mensagens. Nenhuma nova notificação.
Mas a sensação de que algo estava errado não ia embora. Eu precisava tomar uma decisão. E precisava tomar o mais rápido possível.
Fui até a sala e encontrei Sophia ainda vidrada na TV. Ela mal piscava, totalmente absorta no que quer que estivesse assistindo. Por um instante, fiquei ali parado, observando-a. Eu não fazia ideia de quando foi a última vez que sentei para ver algo leve, um daqueles filmes da Disney ou uma comédia romântica sem qualquer peso. A ideia de simplesmente relaxar parecia quase impossível agora.
Ela percebeu minha presença e olhou para mim de relance, franzindo a testa.
— O que foi?
— Nada — murmurei, soltando um suspiro antes de me jogar no sofá ao lado dela.
Sophia sorriu de canto ao me ver fazer isso.
— Posso mexer no seu cabelo? — perguntei.
— Desde quando você pede permissão? — Ela riu, mas virou-se de costas para mim, permitindo que eu passasse os dedos pelos fios macios.
Ficamos em silêncio por um tempo. Minhas mãos se moviam distraidamente entre os fios, e por um momento, tudo pareceu normal. Mas minha mente ainda estava longe. O corpo no rio, o pingente, Gustavo, Álvaro, a casa em São Sebastião... Tudo parecia estar girando em torno de um mistério maior, e eu ainda não tinha as peças certas para entender o que estava acontecendo.
— Você anda esquisito — Sophia murmurou, a voz levemente sonolenta.
— Você sempre diz isso.
— Porque é verdade.
Sorri fraco.
— Só tô cansado.
Ela não pareceu convencida, mas também não insistiu.
Parei de mexer em seu cabelo por um momento e encostei a cabeça no encosto do sofá, encarando o teto. Eu precisava afastá-la daqui, nem que fosse por alguns dias. O medo de que algo acontecesse com ela me corroía.
— Quero que você vá pra casa do David por uns dias.
Ela se virou para me encarar.
— O quê?
— Só por um tempo. Não é nada demais.
— Você tá falando sério? O que tá acontecendo?
Fechei os olhos por um segundo, reunindo paciência.
— Nada. Só quero que você fique longe de toda essa merda por um tempo.
Ela cruzou os braços e me analisou.
— E se eu não quiser ir?
— Não tô te perguntando, Sophia.
Ela bufou, irritada, e afundou no sofá, batendo o pé no chão de leve.
— Tá bom. Mas eu vou te ligar todo dia, porque claramente você não sabe cuidar de si mesmo.
Sorri de canto e baguncei o cabelo dela.
— Combinado.
Ela resmungou, mas riu baixo.
Ficamos ali por mais alguns minutos, o brilho da TV iluminando o rosto dela. Mesmo com a tensão que pairava no ar, por um instante, eu me permiti sentir um pouco de paz.
Mas no fundo, eu sabia que aquilo não duraria.
David morava a duas ou três horas da cidade, em uma região tranquila, dentro de um condomínio seguro. Sophia iria adorar. O lugar tinha piscina, jovens da idade dela e, além disso, ele poderia levá-la para a escola todos os dias. Claro, eu precisaria convencer Collins a reduzir ainda mais a carga horária dele, mas isso não seria um problema. Eu me sentiria muito aliviado.
Deitado na cama, encarei o teto, perdido nos próprios pensamentos, até que a luz do celular iluminou o quarto, me arrancando do transe. A tela mostrava uma nova mensagem de Rafael.
"Ainda acordado?"
Olhei o horário. Quase meia-noite.
"Sim."
Enviei a resposta e, quase instantaneamente, apareceu a notificação de que ele estava digitando.
Segundos depois, outra mensagem surgiu:
"Não consigo parar de pensar."
Soltei um suspiro e passei a mão pelo rosto. Como se fosse possível sentir algo diferente. Desde que tudo começou, minha cabeça não teve um momento de descanso.
"Sim, eu também. Algo não encaixa."
Dessa vez, ele demorou um pouco mais para responder.
"Posso te ligar?"
Hesitei por um momento, mas digitei rapidamente:
"Pode."
O celular vibrou quase no mesmo instante. Atendi, trazendo o aparelho para perto do ouvido.
— Achei que estivesse dormindo. — A voz de Rafael soou do outro lado da linha, baixa e rouca.
— E eu achei que você não me mandaria mensagem a essa hora. — Respondi, fechando os olhos por um momento.
— Não consegui evitar. Vi como estava no carro. — Ele fez uma pausa. — Você sentiu aquilo hoje, não sentiu?
Eu sabia exatamente do que ele estava falando. O peso no ar, o pressentimento de que tudo estava indo ladeira abaixo e que, em breve, não haveria mais controle.
— Senti. — Admiti.
O silêncio se prolongou por alguns segundos.
— Amanhã cedo, quero voltar ao necrotério. — Rafael disse, sua voz mais firme agora. — Tem uma coisa me incomodando.
Franzi a testa.
— O quê?
— O corpo da garota. Algo nele não me parece certo.
Minha mente girava com possibilidades. Já não bastava Gustavo, a Casa de São Sebastião, Álvaro Montenegro... agora mais uma peça nesse quebra-cabeça macabro.
— Eu não consigo dormir.
Rafael suspirou do outro lado da linha.
— Também não.
— As vezes eu queria estar em uma colina verdinha, tranquila, em uma boa casa onde Sophia poderia estar segura. — Me viro de lado na cama, eu via a cortina da janela balançar com o vento que entrava. — Me sinto sozinho. — Que merda eu estava falando a Rafael, para que me abrir tanto sobre isso... me viro de barriga pra cima e solto um risinho e tampo os olhos com o braço.
— Quer que eu vá aí?
Fiquei em silêncio ao ouvir aquelas palavras. Engoli em seco. Minha respiração ficou mais lenta, como se meu corpo tentasse processar o que Rafael acabara de dizer.
"Quer que eu vá aí?"
Eu deveria dizer não. Eu deveria rir e encerrar o assunto. Mas não fiz nenhuma dessas coisas.
— E você viria? — Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia.
Do outro lado da linha, Rafael ficou em silêncio por um momento, como se ponderasse a resposta.
— Se você quiser, sim.
Fechei os olhos e passei a língua pelos lábios. O vento que entrava pela janela fez a cortina balançar de novo, e a sensação de solidão pareceu ainda maior.
— Eu não sei o que fazer, Rafael. — Sussurrei.
Eu me senti vunerável depois de tempos.
— Tudo bem. — Sua voz era calma. — Mas se precisar de alguém agora, eu tô a uma ligação de distância.
O silêncio se prolongou.
— Eu vejo você amanhã cedo. — Murmurei, ainda sem saber o que pensar.
— Até amanhã, Marcus.
Desliguei o telefone e o deixei de lado no colchão. Respirei fundo, tentando empurrar a conversa para o fundo da minha mente. Mas agora, além do peso do caso e da exaustão, havia outra coisa me consumindo. O jeito como Rafael estava se tornando presente demais. E o jeito como eu não sabia se queria afastá-lo ou deixá-lo chegar ainda mais perto.
O sono veio em fragmentos. Cochilei por algumas horas, mas a cada vez que fechava os olhos, minha mente voltava para o corpo da garota no rio, para Gustavo, para Álvaro... e para Rafael. Quando o despertador tocou, às sete da manhã, senti como se não tivesse dormido nada. O céu estava nublado, o vento entrava frio pela janela entreaberta, carregando o cheiro distante de terra molhada. O sábado começava lento, cinza, pesado.
Me arrastei até o banheiro, joguei água no rosto e encarei meu reflexo no espelho. Eu parecia pior do que ontem à noite. Os olhos fundos, a barba por fazer, o cansaço evidente na pele. Atrás de mim, ouvi batidas leves na porta.
— Marcus? — A voz de Sophia veio abafada.
— Já saio.
Terminei de lavar o rosto e saí do banheiro, encontrando-a de pé no corredor, me olhando com os braços cruzados.
— Vai trabalhar hoje? — Ela perguntou, sabendo que a resposta seria sim.
— Tenho que ir até a delegacia.
Ela suspirou.
— Pensei que a gente podia tomar café juntos.
Senti um peso no peito. Me aproximei, bagunçando o cabelo dela de leve.
— Me dá quinze minutos?
Ela revirou os olhos, mas sorriu de canto.
— Vou colocar o café. E sem ovos, porque a gente não tem nada pra comer além disso.
Assisti enquanto ela se afastava para a cozinha, e, por um instante, permiti que a manhã me envolvesse. O sábado estava apenas começando. E eu já sabia que ele não traria nada de bom. Peguei a calça que parecia mais limpa no armário e uma blusa preta, calcei o tênis o mais rápido possível.
Sentado à mesa da cozinha, segurando uma xícara de café, quando ouvi batidas na porta. Não eram leves nem hesitantes—eram batidas firmes, seguras.
Sophia, que estava mexendo no celular enquanto tomava seu café, ergueu uma sobrancelha.
— Você tá esperando alguém?
— Não.
Me levantei e fui até a porta, destrancando-a com um leve receio. Assim que abri, dei de cara com Rafael, carregando uma sacola de mercado em uma das mãos e um copo térmico de café na outra.
— Bom dia, dorminhoco.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, cruzando os braços, tentando ignorar o fato de que ele parecia muito confortável ali, como se já fizesse parte da minha rotina.
Ele ergueu a sacola.
— Trouxe pão, queijo, iogurte... Sophia precisa comer direito.
Fiquei alguns segundos parado, absorvendo aquilo.
— Você entrou numa padaria antes das sete da manhã pra comprar café da manhã pra gente?
— Você não pode simplesmente dizer "obrigado, Rafael"?
Suspirei, sentindo um pequeno sorriso ameaçar surgir. Me afastei da porta e fiz sinal para que ele entrasse.
— Entra logo.
Ele passou por mim com um meio sorriso satisfeito e foi direto para a cozinha, onde Sophia olhou para ele e depois para as sacolas em suas mãos.
— Você trouxe comida?
— É, parece que alguém aqui não sabe fazer mercado — respondeu Rafael, me lançando um olhar divertido.
Sophia pegou a sacola da mão dele antes que eu pudesse responder. Ela mau o conhecia, mais o considerava o melhor só por trazer comida para essa casa.
— Você é meu novo herói.
Rafael riu, e eu apenas balancei a cabeça, me sentando novamente enquanto ele se acomodava ao meu lado. Eu deveria estranhar como ele estava se tornando parte da minha vida tão rápido. Mas, por algum motivo, não estranhava.
E aquilo me assustava um pouco. Mas para Sophia, que tagarelava de boca cheia, era um paraíso sem fim.
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