Capitulo 1
( NÃO ESQUEÇA DE DAR A ⭐️ E COMENTAR O QUE ESTÁ ACHANDO DA HISTÓRIA)
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A luz do sol atravessava as cortinas, aquelas finas de um tom bege desbotado, invadindo o pequeno apartamento com o calor suave da manhã. Não que isso fosse um problema para mim – a luz, o calor, a bagunça das coisas espalhadas pela sala – nada disso parecia tirar o ritmo dos meus movimentos. O café de todo dia, o silêncio das horas antes do mundo lá fora começar a fazer barulho.
Eu estava sentado à mesa da cozinha, mexendo no leite com café, tentando acertar a mistura de modo que ficasse forte o suficiente para começar o dia e doce o bastante para não tornar a manhã um suplício. De longe, o aroma doce do café recém-passado preenchia o ambiente, abafando qualquer som de trânsito ou conversas lá fora. Eu estava em modo automático, já acostumado com a rotina de cuidar de Sophia. Minha irmã, adolescente, sempre atrasada, mas com uma fome infinita e um humor instável. Ela não acordava sozinha, então era meu trabalho fazer o café da manhã, ver se estava tudo ok. Por mais que nossa convivência fosse marcada por pequenos confrontos – o estilo dela de deixar tudo jogado por aí, a maneira como ela nunca ficava satisfeita com nada – eu sabia que o que ela mais precisava era da minha presença. De alguém para lembrar que, apesar do caos, ela ainda era importante.
O pão saía da torradeira, e eu já estava fatiando uma maçã quando o telefone tocou. Aquela vibração estranha que sempre arranha o começo do silêncio. Era Collins, meu chefe.
— Marcus. Precisamos que você vá até a casa de alguém. Não é nada grave, mas... um pouco estranho. Fica ligado.
Eu respirei fundo, quase como se tivesse que me preparar para algo grande, mas, na verdade, não tinha a mínima ideia do que ele queria. Collins sempre tinha esse jeito de querer fazer parecer que tudo era importante, mesmo quando o problema era bem pequeno. Ele estava me chamando para algo... fútil. Ou pelo menos parecia ser.
— Quem é? – perguntei, guardando a faca na gaveta e já começando a vestir o uniforme.
— É a casa do Sr. Silva, Ele ligou reclamando de barulho, uns problemas com a vizinhança. Enfim, só vai lá ver, ok?
Suspirei, já me preparando para sair. Era só mais um dia, mais uma reclamação qualquer, mais um caso para o qual não tinha paciência. Não era nada. Era apenas mais uma missão de rotina, mais uma chamada de Collins que eu teria que ignorar.
— Tá bom, chefe. Vou dar uma olhada. – Desliguei o telefone e voltei para a cozinha.
Sophia já estava acordada, seu cabelo bagunçado e os olhos ainda com sono. Ela se arrastava até a mesa, resmungando alguma coisa sobre não ter dormido bem. Eu, no entanto, não me importava. Precisava ir. O dia, de alguma forma, já tinha começado a me exigir algo mais de mim, e eu sabia que não poderia ignorar. Mesmo que fosse só uma história de vizinhança.
— Já fiz o seu café. Toma logo, antes que esfrie. – Disse, sem muita empolgação, mas o suficiente para ela saber que a rotina estava ali, intacta, como sempre.
Sophia apenas resmungou, pegou a xícara e ficou ali, me olhando enquanto eu me preparava para sair. A vida não era mais fácil para ela do que para mim, mas havia algo de reconfortante no silêncio entre nós dois. Ela entendia que eu precisava ir, e eu entendia que ela ainda dependia de mim. Era assim que a vida funcionava, e eu não podia esperar que fosse diferente.
Antes de sair pela porta, dei uma última olhada na pequena bagunça da sala – algumas roupas espalhadas, um tênis jogado no sofá – e senti um peso. Não o peso do trabalho ou da responsabilidade, mas o peso de não saber exatamente o que me aguardava. Era só mais uma manhã comum, certo?
Entrei na caminhonete, que era do meu pai antes dele morrer. O cheiro da tapiceria velha ainda estava lá, misturado com o leve perfume de madeira do painel. Respirei fundo ao sentar no banco, ajustando a posição do retrovisor. O clima estava úmido, um típico dia de final de outono. O inverno se aproximava rápido, e eu podia sentir o frio que começava a penetrar pela janela entreaberta. A rua estava vazia, exceto por algumas folhas secas que o vento empurrava para os cantos da calçada. O som do motor, ainda potente, preencheu o silêncio da manhã.
Eu nunca fui fã de dirigir, mas quando entrei naquela caminhonete, tudo parecia mais... suportável. Como se, de algum jeito, fosse um pedaço do meu pai que continuava ali, ao meu lado. Ele costumava me dar conselhos enquanto a gente dava umas voltas na cidade, e eu me pegava pensando no quanto aquilo fazia falta. A vida, claro, seguiu em frente – mas aquele banco, o volante, o som do motor... tudo isso tinha algo de familiar, como se eu ainda estivesse naquele tempo em que ele estava vivo.
Cheguei até ele, que estava lá, sentado na escada da casa, com o olhar perdido. Benedito sempre teve uma postura tão imponente, apesar da idade avançada, mas agora parecia um homem pequeno, impotente, deixando transparecer a fragilidade do que restava dele.
— Desculpa a demora, o que houve hoje, seu Benedito? — Perguntei, tentando parecer o mais simpático possível. Só essa semana, ele já tinha acionado a polícia umas nove vezes, sempre com a mesma história: alguém invadindo sua casa, pegando suas coisas. Não era a primeira vez que ele fazia isso. Benedito tinha demência, sua mulher morrera no verão passado e seus filhos moravam longe, se preocupando com ele, mas mantendo distância. Dois enfermeiros revezavam os horários de cuidados, mas o da manhã aparentemente não havia chegado ainda.
Benedito me olhou com os olhos marejados e um suspiro profundo, como se tivesse guardado aquelas palavras por horas.
— Tá me ouvindo, policial? — Sua voz estava tremendo. — Eles estão aí, eles vêm toda noite. Não é normal, rapaz. Não é normal.
Eu suspirei, tentando manter a calma. Era um desses casos que eu já sabia como lidar. A mente dele estava falhando, mas ainda assim, eu não podia ser rude.
— Seu Benedito, eu sei que deve estar difícil para o senhor, mas não tem ninguém aqui. Já falei com o médico sobre esses episódios?
Ele me olhou com um semblante cansado, balançando a cabeça lentamente.
— Não, não é coisa da minha cabeça. Eles estão aqui, olha lá. — Ele apontou para a janela da sala, seus olhos fixos, como se esperasse que eu visse algo também.
Eu olhei na direção que ele indicava, mas a rua estava vazia, sem nenhum movimento. Só o vento fazia as folhas secas dançarem pelo chão.
— Seu Benedito, eu realmente não vejo ninguém. — Minha voz era firme, tentando tranquilizá-lo. — Ninguém está invadindo sua casa. O senhor deve ter tido um pesadelo, é só isso.
Mas ele não parecia ouvir. Seus olhos estavam fixos na janela, e ele se levantou de repente, indo para dentro da casa, sem dizer uma palavra a mais.
Eu segui ele, um pouco relutante, mas sabia que tinha que verificar. Sempre que ele me chamava, acabava me deparando com mais confusão do que propriamente com algo sério, dessa vez não passava de mais algo delirante dele, tudo estava em ordem pela casa, além das contas de água e cartas jogadas pela mesa da cozinha.
Enquanto eu começava a verificar a casa, ainda tentando entender o que estava acontecendo, ouvi o som de um carro vindo pela rua. A porta da frente se abriu com um rangido, e, antes mesmo de eu olhar, uma voz animada preencheu o ambiente:
— Bom dia, seu Benedito! Pronto para mais um dia de cuidados?
Era o enfermeiro do período da manhã, provavelmente o que Benedito mais gostava, pelo tom de empolgação. Um homem jovem, com um sorriso largo que parecia não se apagar nunca. Ele entrou pela porta com uma energia que fazia o resto da casa parecer quase apagada.
— Ô, Marcus, que surpresa! — Ele me viu logo e fez um aceno com a mão. — Tudo certo por aqui?
Eu dei um sorriso cansado e dei um passo para a porta. O enfermeiro, com seu uniforme azul claro, parecia um raio de sol comparado ao ambiente sombrio que havia se instalado na casa de Benedito.
— Tudo tranquilo, só um pouco de... confusão na cabeça dele, como sempre. — Respondi, enquanto ele já começava a ajeitar a mochila nas costas e a se preparar para as tarefas.
— É, o seu Benedito não perde o ritmo, né? — Ele riu de forma leve, indo em direção à sala onde Benedito estava sentado em sua cadeira. — A gente tem que dar o nosso melhor por ele. Vai que ele resolve pedir mais uma xícara de café só pra começar bem o dia.
Eu observava aquele contraste: Benedito, com sua mente lentamente se apagando, e o enfermeiro, com tanta energia e entusiasmo. O enfermeiro se agachou diante de Benedito e colocou uma mão no seu ombro, falando com ele de maneira descontraída, como se realmente estivesse ali para algo mais que uma simples troca de turno.
— Bom dia, meu amigo! Como você está hoje? — Ele perguntou, com um tom de voz cheio de animação, sem notar a tensão no ar.
Benedito olhou para ele, mas seu olhar estava distante, perdido em algum lugar que só ele podia ver.
— Eles estão aqui, estão me vigiando... — Ele sussurrou, a voz um tanto rouca.
O enfermeiro não parecia se abalar com isso. Pelo contrário, ele apenas sorriu e assentiu, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Ah, claro, claro, seu Benedito! Eles devem estar por aí, como sempre. Vamos cuidar disso, ok? Vou preparar seu café e arrumar as coisas.
Eu olhei para os dois, ainda tentando entender a dinâmica entre eles. O enfermeiro parecia tão leve, tão animado, e ao mesmo tempo, havia uma suavidade em sua abordagem. Ele sabia o que fazer para distrair Benedito, para dar a ele a sensação de que, apesar das suas dificuldades, o mundo ainda tinha algo de bom e familiar. Algo que, de certa forma, faltava no ar da casa.
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, o enfermeiro já estava indo para a cozinha, assobiando uma melodia qualquer. Como se tudo estivesse sob controle.
Quando cheguei na delegacia, a rotina parecia a mesma de sempre. O som do teclado, a conversa baixa dos policiais nas mesas e o aroma de café velho preenchendo o ar. Collins estava na sala dele, reclinado na cadeira, aparentemente absorto nos papéis sobre a mesa. Quando me viu, deu um leve aceno e logo chamou:
— Marcus, entra aqui, vamos falar sobre o caso do Sr. Silva.
Eu suspirei e entrei, me sentando à frente dele. Collins parecia já ter se acostumado com a natureza das queixas de Benedito.
— Então, como foi? – ele perguntou, sem realmente esperar uma grande novidade.
— O de sempre. — Respondi, passando a mão pelo rosto. — Benedito estava delirando de novo, alegando que alguém invadiu a casa dele. Na verdade, o cuidador da manhã não apareceu. Deve ter sido só isso, mais um daqueles episódios de demência.
Collins balançou a cabeça, como se já estivesse acostumado com os episódios daquelas semanas. Não era a primeira vez que Benedito acionava a polícia, e provavelmente não seria a última.
— Ok, então. Vai dar tudo certo. — Collins falou, já voltando a atenção para os papéis. Ele era bom nesse jogo de fingir que se importava, mas na verdade parecia que nada disso afetava seu dia.
Eu me levantei, pronto para sair e dar um parecer formal sobre o ocorrido, mas foi quando o vi. David estava no corredor, de uniforme, com uma pilha de papéis na mão e uma expressão séria no rosto. Ele não me viu de imediato, então aproveitei o momento para observá-lo de longe.
Era estranho, ver David ali, como se nada tivesse mudado, mas eu sabia que as coisas entre nós já não eram as mesmas. A amizade tinha se distanciado com o tempo, e a vida fora da delegacia fez com que nos afastássemos mais. Mas ainda havia algo ali, um entendimento tácito de que ambos estavam apenas fazendo o seu trabalho. Nos dávamos bem, mas não tínhamos mais o contato próximo de antes.
Tentei disfarçar a sensação de desconforto e olhei para Collins, que não pareceu notar a minha distração. Apenas me acenou, como se estivesse mandando eu seguir em frente.
Eu me movi, tentando ser casual, mas o que eu realmente queria era ver como ele reagiria, se iria se aproximar, se diria algo. O olhar que trocamos, mesmo distante, foi carregado de uma certa melancolia.
— Ah, ei, David. — Eu disse, tentando quebrar o silêncio.
Ele me olhou então, um pequeno sorriso aparecendo no rosto. Era um sorriso que ainda carregava um pedaço de amizade, mas era visível que não era mais o mesmo de antes.
— Marcus. — Ele respondeu, a voz suave. — Como vai?
Eu dei de ombros. — Mais um dia normal. Você?
Ele pareceu pensar por um momento antes de responder, como se quisesse dizer algo mais, mas não tivesse certeza do que.
— Tudo tranquilo. Aquele caso da última semana ainda está me ocupando bastante. Mas nada de novo. — David respondeu, com um leve aceno, e foi então que ele voltou a focar nos papéis, sinalizando que a conversa tinha acabado ali.
Eu respirei fundo e continuei meu caminho. Não era como antes, mas estava tudo bem assim. Pelo menos, por enquanto, ambos sabíamos que o trabalho ainda era a coisa que nos mantinha ali, na mesma sala, nos mesmos corredores. Como sempre.
Eu já estava indo em direção à saída quando avistei Mariana, a policial que ficava na recepção. Ela estava com o fone de ouvido, conversando animadamente em uma ligação, mas algo estava claramente estranho. O que parecia ser uma conversa normal se transformava em um caos silencioso.
Ela falava com uma empolgação exagerada, tentando acalmar alguém do outro lado da linha, enquanto ao fundo se ouviam gritos de crianças. Isso era acompanhado por uma série de gemidos e miados, provavelmente vindos de um gato perdido – ou, sei lá, um bando de felinos revoltados.
— Não, dona Elza, eu entendo, mas o gatinho não vai se perder por aí de novo, vamos resolver isso, calma! Por que não ligou para os bombeiros? — Mariana disse, com uma voz suave, tentando manter a compostura.
Ela me olhou por um momento e sorriu, mas o sorriso não correspondia a uma pessoa tranquila. Era como se ela estivesse em uma missão secreta, e eu só fosse um espectador da loucura que estava acontecendo do outro lado da linha.
Ela manteve o olhar fixo na tela do celular, ainda imersa no turbilhão da ligação, e eu não pude evitar rir baixinho. O caos na recepção estava bem longe de ser uma emergência policial, mas com certeza era um bom lembrete de como as coisas podiam ser um pouco mais... fora de controle do que pareciam.
Segui em frente, tentando segurar o riso, sabendo que, no fim, tudo voltaria ao normal. Mariana, seus gatos e as crianças ainda gritando – e o mundo lá fora, no fundo, ia continuar girando do jeito dele.
~*~
A noite chegou sem avisos, e quando dei por mim, estava estacionando a caminhonete na garagem, sentindo a tensão do dia finalmente se dissipar. O dia seguiu sem grandes surpresas, as pequenas reclamações, o vai e vem na delegacia, e uma sensação de que nada de realmente importante estava acontecendo.
Quando entrei em casa, Sophia estava jogada no sofá, com o celular na mão, os olhos fixos na tela como se o resto do mundo não existisse. Não me importava. A casa estava arrumada, o que era um alívio – pelo menos alguma coisa na vida dela estava no lugar certo. Na mesa, uma pizza estava pela metade, os pedaços restantes como uma promessa de que, em algum momento, ela havia se alimentado.
— Cheguei. — Falei, tentando dar uma leveza à voz, como se nada tivesse acontecido, como se o dia tivesse sido exatamente o que parecia: normal.
Sophia levantou os olhos, soltando um suspiro cansado. Ela não se movia do sofá, mas, como sempre, me respondia na mesma intensidade.
— Você está sempre no mesmo ritmo, né? O que aconteceu hoje? Outro caso de vizinho surtado? — Ela riu um pouco, sem graça, mas eu sabia que estava se sentindo cansada com a escola.
Eu joguei minha mochila em cima da cadeira e me sentei à mesa. O olhar de Sophia, com aquela expressão de quem não queria conversar, era familiar. Ela estava nesse limbo de adolescência onde tudo parecia entediante, mas ao mesmo tempo, ela se importava com os pequenos detalhes.
— Não foi nada demais. — Falei, tentando não falar sobre o que realmente tinha acontecido no hospital. — Apenas a mesma coisa de sempre. O Sr. Benedito, lá com a sua paranoia... O cuidador dele não apareceu, e ele fez todo um drama de que estavam invadindo a casa dele de novo.
Sophia deu de ombros, mas parecia mais interessada no que eu estava dizendo do que queria admitir.
— E você? Como foi a escola hoje? Alguma novidade? — Perguntei, tentando puxar algum tipo de conversa. Sei que sempre é um desafio, mas ela falava mais fácil quando estava em casa, longe das obrigações.
Ela resmungou algo sobre os professores e a quantidade de trabalhos, mas logo voltou a mexer no celular, o que me fez entender que o papo estava longe de ser o que ela queria.
— Tem mais pizza na geladeira, se quiser. — Ela murmurou, sem tirar os olhos da tela.
Eu ri, me levantando para pegar o que restava da pizza. Sophia, com sua atitude típica de adolescente, parecia mais confortável em seus próprios mundos virtuais. Talvez fosse essa a maneira dela de lidar com tudo, de fugir da realidade um pouco, assim como eu também fazia.
O silêncio tomou conta da sala, e, por um momento, parecia que estávamos em dois mundos diferentes, mas compartilhando o mesmo espaço. A minha conversa com ela morreu alí, ela evitava falar sobre a vida dela e eu evitava parecer querer ficar sondando ela.
A noite parecia ter se estendido mais do que eu esperava. O silêncio do apartamento estava confortável, quase como se o mundo tivesse dado uma pausa. Eu me joguei na cama, ainda pensando nas pequenas interações do dia. Mas logo, o cansaço me atingiu de uma forma que não pude evitar. Fechei os olhos, me permitindo desligar, tentando afastar a sensação de que algo estava prestes a acontecer.
Mas o sono foi interrompido abruptamente. O som do telefone me cortou em cheio. O primeiro toque foi suave, quase imperceptível, mas o segundo fez o silêncio da madrugada parecer ainda mais profundo.
— Marcus, é o Collins. Levanta. Temos um caso. — A voz dele era firme, mas com um tom que só ele usava quando sabia que a situação estava além do comum. — Estou te esperando no local, se apresse.
Com o corpo ainda pesado de sono, eu me arrastei para fora da cama, olhando para o relógio. Eram 3:12 da manhã. O que diabos poderia ser tão urgente a essa hora?
Suspirei e, com a cabeça girando, fui até o quarto de Sophia. A porta estava entreaberta, e pude vê-la dormindo profundamente, enrolada no cobertor. O ambiente estava quieto, o único som era o leve ronco que escapava de seus lábios. Uma visão reconfortante, que me deu uma falsa sensação de normalidade.
Eu a observei por um momento, quase me pegando pensando em acordá-la para dar um beijo de boa noite, mas sabia que isso só a irritaria. Então, me virei e fui até o banheiro, já pegando a roupa que usaria. Troquei rapidamente, vestindo meu uniforme, sentindo o peso do sono ainda nos meus ombros, mas sabendo que precisava seguir em frente.
Quando terminei, fui até a cozinha e peguei uma xícara de café já pronto, tentando me manter alerta. O calor da bebida queimava a garganta, mas ao menos ajudava a espantar o resto do cansaço. Eu sabia que, em alguns minutos, a adrenalina começaria a tomar conta. Isso sempre acontecia. Eu me levantava, ia para a cena, e o resto só fluía.
Cheguei ao local indicado por Collins, um terreno vazio no centro da cidade, onde a neblina da madrugada ainda parecia cobrir tudo. O lugar tinha uma sensação estranha, como se estivesse fora do tempo. O clima frio e a ausência de pessoas tornavam o cenário ainda mais sombrio.
Quando entrei no local, vi Collins parado ao lado de um carro de polícia. Ele me olhou e fez um aceno rápido, sinalizando que eu deveria me aproximar. À medida que me aproximava, vi outros policiais e fotógrafos da perícia em um canto, os flashes das câmeras iluminando o espaço de forma abrupta. O que eles estavam fotografando não era bom.
E então, vi. O corpo de um jovem estava estendido no chão, envolto em um lençol branco. O rosto estava parcialmente coberto, mas as roupas, agora sujas de sangue, deixavam claro que aquilo não era um simples acidente. O sangue havia se espalhado, criando manchas escuras no chão. A cena era mais grave do que eu imaginava, mais perturbadora do que as coisas que eu estava acostumado a lidar.
David estava ao lado dos fotógrafos, com uma expressão que eu reconheci. Era uma mistura de profissionalismo e algo mais... desconfortável. Ele olhou para mim quando me aproximei.
— O que aconteceu aqui? — Perguntei, tentando manter a voz firme, apesar do que a cena estava me fazendo sentir.
— Não sabemos ainda. Parece um caso de homicídio, mas estamos esperando os detalhes. — David respondeu, sem tirar os olhos do corpo. Ele parecia calmo, mas seus olhos traíam uma certa preocupação. — Só te chamei porque você estava por perto, mas não quero que pense que isso é só mais uma história de vizinhança, Marcus. Isso é grave.
Olhei mais uma vez para o corpo. Não tinha idade suficiente para ser considerado adulto, talvez 17 anos ou 18 anos no máximo. A expressão no rosto, mesmo parcialmente coberta, dava a impressão de que ele ainda estava lutando. Eu me vi desejando que tivesse sido algo simples, algo fácil de entender. Mas, por alguma razão, esse caso tinha uma energia que me incomodava.
— Eu sei. — Respondi, mais para mim mesmo do que para David. O instinto de fazer algo sobre o que estava acontecendo estava tomando conta de mim, mas também havia algo que me dizia que esse caso não seria tão simples quanto parecia.
A perita ao fundo começou a tirar mais fotos, o flash cortando o escuro da madrugada como um lembrete de que tudo ali era muito real, muito violento. Eu me afastei um pouco, tentando juntar as peças enquanto observava o ambiente. Era só o começo, mas sabia que aquele não seria um caso que eu resolveria em uma madrugada.
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( Eai, o que achou desse capítulo? NÃO ESQUEÇA DE DAR A ⭐️ E COMENTAR O QUE ESTÁ ACHANDO DA HISTÓRIA)
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