Capítulo 6
Sofia acabou desistindo de estudar por aquele dia. De que adiantava se não conseguia focar em outra coisa que não fosse em Guilherme? Toda vez que olhava para o livro, lembrava dele a puxando para um beijo naquele mesmo lugar. Olhava para o sofá e sentia o gosto de hortelã na boca. Até a porta lembrava a necessidade de um beijo de despedida. Droga! Não havia como se concentrar depois daquele dia.
Talvez tivesse sido uma ideia ruim ter deixado que acontecesse. Sabia que de agora em diante teria muitas dificuldades em estudar, porque seu vizinho faria qualquer negócio para se manter distante dos livros e de tudo para chamar sua atenção. Sempre fora muito difícil convencê-lo do contrário. O que significava que ele tentaria atrapalhar seus planos. E ela tinha uma organização perfeita de estudos!
Então decidiu tomar um banho quente e vestir o pijama. Passaria o resto da noite embaixo das cobertas, em seu quarto, lendo o livro que começara na semana anterior ou assistindo uma série histórica. Não tinha a menor vontade de usar o cérebro naquela noite. Seu dia havia sido muito conturbado e necessitava ficar um tempo sozinha, em silêncio.
Funcionou por uma hora. Pouco depois das seis, ouviu o barulho do celular indicando uma nova mensagem. Era Guilherme, lógico. Devia ter imaginado que ele não conseguiria esperar até o dia seguinte. Sempre fora muito impaciente.
Ela sorriu, involuntariamente, com a piadinha péssima. O vizinho estava realmente determinado a recuperar o tempo perdido. Sofia achava que era muito cedo para ficarem assim tão grudados. Eles não estavam namorando, só haviam trocado alguns beijos. Tinha certeza de que sobreviveriam. Mas será que seria fácil?
Guilherme era sensível, carismático e carinhoso, então Sofia não tinha certeza de qual era a extensão dos sentimentos do vizinho por ela depois daqueles três anos. Afinal, ele sabia muito bem como convencer as meninas, com papinho ao pé de ouvido, um carinho aqui, uma gentileza lá, e rapidinho uma estava aos seus pés. Não sabia em que momento havia aprendido tudo aquilo, ou que passara a ter mais amor-próprio e autoconfiança, mas sabia como agia. O vira em muitas situações pelos corredores, fazendo gracinha com as meninas mais novas durante os recreios. Fingia ignorar, é claro, mas agora sentia na pele a experiência. E era difícil resistir.
Sofia lembrava de quando o amigo tinha baixa autoestima e falava apenas besteiras. Agora sabia que se aproveitara do rápido crescimento e muitas horas livres para se exercitar, além de usar daquele charme que fazia com que todos acreditassem no bom moço que era. Não que não fosse. Ele era. Ao menos no passado. Agora não tinha certeza, então era melhor ir devagar e descobrir antes de se apaixonar de verdade.
Se é que já não estava. Apesar de achar que era impossível, Sofia se sentia nervosa e estranha, como se estivesse novamente com treze anos.
Foi com essa idade que percebeu por que sentia tanta falta dele quando passavam alguns dias longe. Ou porque sentia tanta raiva quando ele falava com outra menina como se fossem grandes amigos de toda uma vida. Porque ela deveria ser a única grande amiga de toda uma vida. Não. Ela deveria ser a única pessoa em seus pensamentos e toda sua atenção, gentileza e dedicação devia estar apenas nela.
Sendo muito racional, sabia que não deveria pensar dessa maneira. Ninguém é objeto para ser posse de alguém. Apenas não conseguia evitar ser tão possessiva em relação ao amigo. Diferente dela, ele era simpático demais com todo mundo.
E quando Maria Eduarda apareceu, se metendo em suas duplas como se fosse a rainha de todo o universo, a odiou. Odiou seu jeito engraçado e espontâneo. Odiou suas roupas justas e chamativas. Odiou seus cabelos loiros e escorridos. E odiou especialmente suas risadas altas. Porque ela era tudo que Sofia nunca seria e Guilherme parecia gostar muito daquele estilo.
Então se obrigou a fingir que também gostava da aluna nova apenas para agradar seu amigo. Com o tempo, acabou se acostumando com Duda como se realmente fossem amigas, embora, uma vez ou outra, se sentia mal com as interações dos amigos.
Até que Gui resolveu beijar a loira naquela festa de formatura, amassando seu coração como se fosse uma bolinha de papel usado e jogando-o na lixeira como algo descartável. Foi a primeira vez que percebeu como podia se enganar com as pessoas e não pretendia cair nessa outra vez.
Guilherme estava agitado. Sabia que precisava esperar, mas às vezes era um pouco difícil conseguir se controlar. Se bem que havia esperado por mais ou menos seis anos até conseguir algum progresso com a vizinha. Uma noite não era nada.
Tinha apenas doze anos quando percebeu que estava completamente apaixonado pela melhor amiga e que não era um sentimento puro e simples de criança. Não apenas queria estar a seu lado o tempo todo. Não mesmo. Ele queria beijá-la. E muito. Assim como via alguns de seus colegas começarem a fazer. E sonhava com o momento sempre que era possível, fosse dormindo ou acordado.
Também percebeu que seu corpo inteiro ansiava pela garota de uma forma que parecia muito errada. Mas que também parecia muito certa. O que parecia um paradoxo impossível de compreender.
Foi em um dia nublado de abril, em uma aula de educação física que sua ficha caiu. Naquele dia o professor solicitou que todos corressem dez vezes em volta da quadra para avaliar o condicionamento físico de cada um. O seu era claramente péssimo. Vários colegas já haviam terminado as dez voltas e ele ainda estava na sexta. Estava acima do peso, não se exercitava nunca e morria de preguiça.
Na primeira curva, tropeçou nos próprios cadarços. Em um gesto automático, colocou as mãos na frente do corpo, porém elas não o sustentaram. Sentiu o estalo do osso se rompendo e a dor da queimação como se tivesse sido esfaqueado.
O professor demorou a perceber que havia se machucado. Estava concentrado escrevendo alguma coisa no caderno de chamada. Mas Sofia notou, foi a primeira a chegar e perceber que seu braço estava torto.
Os outros colegas não quiseram ver. Nem ele estava muito à vontade com a cena, só o que sabia fazer era chorar. Guilherme chorava por qualquer razão, mas ali estava um motivo real. Sofia não se importou. Agachou-se ao seu lado e disse que tudo ficaria bem, que não precisava chorar, logo chamariam a ambulância.
Enfim o professor compreendeu a razão do burburinho e foi socorrê-lo. Chamaram seus avós e o levaram, de carro mesmo, para o hospital, onde fizeram a radiografia que constatou a fratura que já parecia óbvia pela forma como seu pulso havia se torcido.
Sofia só voltou a vê-lo à noite, quando foi até sua casa ver como estava. Sentou-se ao seu lado na cama e verificou como estava seu braço envolto em uma tala. Ele explicou que ficaria com aquela atadura provisória por uma semana até que desinchasse. Talvez precisasse de cirurgia e alguns pinos. Dependia apenas de que se mantivesse quieto.
A amiga disse que o ajudaria. Que copiaria as matérias em seu caderno, que traria as lições, que estudaria com ele durante sua recuperação. Ainda comentou que gostaria de ser médica para poder ver o que tinha debaixo de sua pele, para entender como o osso fazia para voltar ao normal.
Guilherme quis ser como ela, corajoso, mas não era como se sentia. Imaginava que não era bom o suficiente em nada. Nem sabia que profissão queria ter. Só sabia que queria a vizinha ao seu lado, fosse como fosse.
A menina não saiu de perto e ainda implorou aos pais para passar a noite com o amigo, como sempre faziam, pois queria ser sua enfermeira. O garoto achou aquilo encantador. Adorava que ela estivesse ali sempre que precisava. E era bom ter uma distração que não o fizesse lembrar do momento da fratura.
Porém, quando acordou com uma ereção e recordou de seu sonho, em que beijava a melhor amiga de uma forma nada platônica, percebeu que não podia mais convidá-la para dormir em sua casa todos os finais de semana. Ele não era mais uma criança, nem ela. As pessoas começariam a falar.
Sofia pensou bem antes de responder. Queria muito vê-lo novamente, no entanto achou melhor pensar exatamente em como agir.
A resposta do vizinho foi imediata.
Aquilo parecia tão adulto e sensato! Ao menos em tese. Depois de jantar com os pais e voltar a deitar em sua cama à procura de um bom filme, só o que pensava era por que razão não havia ido se encontrar com Guilherme.
Fechou os olhos e mordeu os lábios, segurando um sorrisinho bobo que teimava em sair ao recordar daquela tarde. Aquele beijo parecia igual a todos os outros que tivera, mas seu sabor era diferente. Sabor de juventude, reencontros e, claro, de hortelã.
O vizinho não beijava com o corpo, beijava com a alma, o que era bastante ridículo de se pensar. Estava lendo romances demais. As coisas estavam acontecendo um pouco rápido e Sofia estava ficando assustada. Quem não ficaria? Se sentir assim às vésperas do vestibular!
Suspirou fundo, sentindo a boca salivar de saudade. Assim que levantasse, de manhã, procuraria Guilherme.
Ainda passaram um tempo conversando por mensagens e combinando que, logo pela manhã, Sofia fosse até a casa vizinha. Amanheceu e, antes das oito horas, a jovem já estava em pé. Parecia ter visto um passarinho verde, mas o passarinho atendia pelo nome de Guilherme Castro Giordani e havia passado por seus sonhos durante a noite. Não soube como evitar que aquilo acontecesse. Haviam conversado até que ela caíra no sono (embora nada tenha sido dito sobre o que significaria aquele relacionamento nem se realmente seria um relacionamento).
Sofia vestiu-se, tomou seu café da manhã tranquilamente. Era cedo ainda. Nem seus pais haviam levantado. Apenas Toby, o cachorro, lhe fazia companhia.
Sabia que o vizinho não teria despertado ainda, ou já teria enviado algumas mensagens. Não teve alternativa que sentar no sofá da sala e assistir algum programa de televisão. Estava nervosa. Não conseguia prestar atenção em nada. Sentia seu estômago embrulhado de ansiedade. Por que não conseguia se acalmar? Era só o vizinho, seu ex-melhor-amigo, seu ex-colega! Nada demais.
Bem, tudo demais. Foram anos esperando que algo acontecesse e agora que estava acontecendo era difícil. Difícil prever como seria, difícil esperar. Difícil. Ela, que pensava ter esquecido o vizinho por completo, se via novamente naquele estado lastimável de uma apaixonada.
Somente um pouco depois das nove horas é que Guilherme mandou mensagem de bom dia (cheia de coraçõezinhos, muito sua cara), dizendo que já podia ir até sua casa. Não queria se apressar e mostrar que esperava muito por aquele reencontro. Esperou por mais quinze minutos antes de descer. Vai que Guilherme ainda estava de pijama!
Mas não estava. Quando chegou ao portão e apertou a campainha, o vizinho a atendeu de banho tomado, cabelo molhado, vestido todo de moletom preto e com um belo sorriso de satisfação no rosto. Ele a esperava. Havia até acordado mais cedo para tomar um banho.
O amigo a beijou na bochecha antes de entrar, e não nos lábios como achou que pudesse fazer. Entendeu que estava com vergonha quando pisou na porta da cozinha e deu de cara com dona Nena, a avó do garoto.
— Bom dia, vó – cumprimentou, um pouco sem jeito.
Desde pequena Sofia chamava dona Nena por vó. Era como se fosse também parte de sua família, assim como também chamava seu Aldo de vô antes de ele falecer dois anos antes. Embora fosse já avó, Maria Helena mal tinha completado sessenta anos. Tinha as rugas comuns a sua idade, mas ainda aparentava ser jovem, os cabelos sempre pintados de castanho escuro, era adepta de botox (ainda que sem muito exagero) e sempre usava maquiagem. Na juventude havia sido muito bonita. Não foi surpresa ter conquistado justamente um dos irmãos donos da construtora em que fora trabalhar como arquiteta nos anos oitenta.
Vô Aldo era bem mais velho. Provavelmente uns quinze anos de diferença. Era engenheiro civil e havia aberto a construtora com o irmão, que ainda era vivo, embora quem hoje administrasse a empresa fossem os filhos homens, os únicos que seguiram a profissão.
— Bom dia, Sofia! – ela respondeu, surpresa ao vê-la depois de tanto tempo. Uma surpresa contente. – Não sabia que tinham voltado a se falar!
A garota olhou para o vizinho com uma expressão de súplica e ele puxou seus livros e cadernos para seus braços.
— A gente só vai estudar química, vó.
Dito isso, Guilherme a pegou pelo pulso e a levou escada acima para dentro de seu quarto sem ao menos deixar que ela cumprimentasse a mulher de forma apropriada.
Ninguém acharia nada esquisito fechar a porta de seu quarto com uma garota lá dentro. Em primeiro lugar porque não era qualquer garota, era Sofia, sua melhor amiga, com quem passara anos brincando no quarto. Bem, não era para brincar que a havia convidado, mas os outros moradores da casa nunca saberiam.
Em segundo, porque a mãe e o padrasto estavam dormindo. Eles sempre dormiam até tarde no sábado. Martín e a mãe haviam se conhecido no Rio de Janeiro cinco anos antes e se casaram em menos de seis meses apenas porque, caso contrário, ele precisaria voltar ao país de origem. Com a morte do avô, os dois foram morar ali, então com um bebê de dois anos, seu irmão, João Francisco.
A avó não gostava nadinha do novo genro e parecia deixar isso bem claro. Mas, bem, ela também não gostava de nenhum dos antigos genros, incluindo o pai de Guilherme, que engravidara sua mãe no final do ensino médio e a deixara menos de um ano depois.
Em terceiro porque nunca sequer levara alguma garota para lá, exceto a vizinha.
Sofia entrou no quarto e primeiro analisou o local enquanto Guilherme deixava os livros sobre a escrivaninha. Ela não disse nada, nem sobre a nova decoração, nem sobre a porta fechada. Pela cor de sua pele, estava morrendo de vergonha de estar ali sozinha com ele.
Observou a garota passar os dedos sobre o espaldar da cadeira gamer e depois andar até a janela aberta. Então se sentou na bordinha da cama, deixando as duas mãos cruzadas no colo.
Guilherme seguiu até ela, todo bobo. Inclinou-se e a beijou nos lábios enquanto se apoiava com as mãos ao lado dos quadris de Sofia. Apenas um selinho, como teria feito no portão de casa caso a avó não estivesse muito curiosa para saber o que Sofia fazia lá.
Ela sorriu docemente e seu coração se aqueceu de uma forma que não sabia como explicar. Sentou-se ao lado da garota e observou cada detalhe daquele rosto que ele tanto gostava. Os cabelos castanhos e ondulados, meio bagunçados, a pele tão clara, avermelhada por causa do frio e da timidez, os grandes olhos castanhos com bordas mais escuras que pareciam enxergar nele muito mais do que ele próprio conseguia ver. Os cílios fartos, o nariz arredondado e a boca que parecia ter sido esculpida para ter o formato e a cor de um coração.
Os dois continuavam em silêncio, um observando o outro como se não se vissem há anos, a respiração pesada. E parecia ser isso mesmo, embora houvessem se visto na tarde anterior.
Guilherme subiu a mão direita para o maxilar de Sofia e ela entreabriu os lábios, como se fosse difícil demais respirar de outra maneira. Seu polegar alcançou sua boca, traçando o desenho de um lado a outro. Precisava beijá-la.
Gostando da história?
É tanto beijo e tanta prova que até já cansei. kkkkk
Será que eles vão mesmo estudar? Qual sua aposta?
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