2.1
Stella Rodrigues
E então ele fez isso de novo, fugiu de me ver, se concentrou mais em planilhas de uma empresa do que na própria filha, a qual não vê faz anos. Foram com esses pensamentos que fui dormir à noite, eu e Diana comemos algo bem rápido que nos ofereceram e viemos para nossos quartos, cada uma tem seu próprio quarto aqui e ambos parecem terem sido decorados por alguma profissional da área.
O meu, possui paredes brancas e uma única em tom rosa baby, tenho uma prateleira de madeira escura, um tanto pequena onde tentei amontoar todos os livros que trouxe até aqui e, mais ao lado, há uma escrivaninha vazia. O quarto em si é bonito, tenho aqui uma cama um tanto chique de mais para meu gosto, com um colchão gigantesco, ela é maior do que as camas de casal que normalmente são vendidas e a cabeceira tem um estofado azul escuro de veludo.
Tudo aqui é novo e por mais que hajam dois quadros com pinturas de flores na parede em cima da cama e mais alguns outros objetos de decoração espalhados pelo quarto, ainda parece vazio. Eu me sinto vazia. Pego meu celular e penso em mandar mensagem para minha mãe, mas lembro que se aqui já são quase meia noite, no Brasil ela já deve estar dormindo desde que mandei um recado para ela no WhatsApp aproximadamente uma hora atrás. Ela é do tipo de pessoa que dorme cedo, pois tem que acordar cedo e dar duro no trabalho; contudo, não descansaria sem ter ao menos algum sinal de vida meu.
-Toc toc- Diana fala enquanto bate de leve na porta- Essa cara é por causa do jetleg ou saudades de casa?- ela vem e se senta ao meu lado na cama
-Acho que um pouco dos dois- dou um sorriso forçado e ela me abraça
-Sinto muito que ele não tenha ido nos buscar no aeroporto e nem estava aqui quando chegamos- é incrível como ela me conhece também, por mais que eu não vejo meu pai faz muito tempo e teoricamente estou acostumada com a falta de presença do mesmo, algo dentro de mim ainda tinha esperança de que isso pudesse mudar, mas, mais uma vez, eu me iludi
-É, mas isso não importa- digo, secando uma lágrima solitária que escapou de meus olhos- E os seus pais? Você já falou com eles para avisar que chegou bem?
-Mandei uma mensagem e eles retribuíram com um "okay, Diana, só não se esqueça que suas aulas no internato começam daqui duas semanas"- ela explica revirando os olhos- Eu sou praticamente maior de idade, eles não vão me forçar a isso
-E o que você pretende fazer?- ela responde que ainda não sabe, mas eu conheço bem minha amiga, muito provavelmente algum plano maluco e que pode terminar em desastre está se formulando nesse exato momento na mente dela
-Isso não vai ficar assim- ela diz enquanto deita por completo na minha cama- Agora vamos dormir, porque amanhã teremos um dia cheio
-Primeiramente, você tem um quarto só seu, por que quer dormir aqui? E segundamente, como assim, o que vamos fazer amanhã?- pergunto e me deito ao seu lado, realmente, essa cama é mesmo muito grande, dá para caber mais duas de nós aqui
-Stella, nem vem, eu sei que você tá triste nesse momento, se sentindo sozinha, é assim que nós somos, nos conhecemos muito bem e sabemos tudo uma da outra. Sendo assim, sei que se eu te deixar aqui assim você vai acabar tentando se consolar abraçando seu ursinho de pelúcia de quando tinha cinco anos, e sinceramente, isso seria muito triste, então eu te faço companhia. E, respondendo agora a sua segunda pergunta, vamos acordar bem cedo e sair daqui o quanto antes para não termos que dar de cara com seu pai e, é assim que vai começar nossa aventura, porque estamos em Los Angeles e a gente tem que conhecer essa cidade para dominá-la
-E quem disse que eu quero dominar Los Angeles?- é nesses momentos que lembro que Diana tem algumas ideias um tanto doidas
-Qual é, no fundo você sabe que veio para essa cidade para tentar encontrar e viver algo maior, algo que não tínhamos em São Paulo, só precisamos encontrar quais são os nossos propósitos aqui- ela me dá um sorriso- Boa noite, Stella
-Boa noite, Diana.
No outro dia...
Acordo assustada, com um solo de guitarra estourando em meus ouvidos. Eu já devia saber que isso aconteceria..
-Diana, você pirou?- falo ao abrir os olhos levantando em um pulo de repente, assustada
-Fala baixo, a ideia é não acordar ninguém- ela sussurra e só nesse momento percebo que o som vinha não de algum aparelho gigante, mas sim dos fones que ela havia colocado em ambos meus ouvidos enquanto eu dormia
-Se era para falar baixo, você não deveria ter me assustado colocando esse som para me acordar- começo a sussurrar também
-Mas isso não é para te assustar, é para você acordar feliz, ouvindo uma voz tão angelical como a do Liam e- interrompo sua fala
-Voz angelical? Aquilo era um solo de guitarra tão alto que quase estourou meu tímpano- tiro os fones e os entrego a ela, que me parece confusa, mas logo arregala os olhos quando foca na tela de seu celular
-Meu Deus, eu cliquei na faixa musical errada, mil desculpas, amiga- ela me dá um sorriso de quem sabe que fez besteira, mas tá se esforçando para não rir- Agora vem, temos que nos arrumar- olho para ela e pergunto que horas são, a mesma me responde que são 4:40 da manhã e foi nesse momento que me joguei de volta na cama, desejando dormir por mais um dia inteiro. Mas é óbvio que o ser humano energético do meu lado não poderia fazer outra coisa se não me puxar da cama até eu cair no chão e, com o impacto, me forçar a acordar e levantar.
Meia hora depois já estamos arrumadas. Normalmente isso demoraria mais, porque Diana ama criar arte enquanto se arruma, mas pelo que percebo somente agora, ela já havia feito sua maquiagem praticamente completa antes mesmo de me acordar. Minha amiga tem seus cachos ruivos soltos, sua pele está muito bem maquiada, como sempre, mas o detalhe artístico está em seus olhos, que possuem uma leve camada de glitter rosa, não sendo ofuscado pelo batom nude que ela sempre põe em seus lábios.
Nesse quesito dá para ver bem a diferença entre nós, enquanto ela está radiando cores em sua make up, eu só estou com base, corretivo para esconder as olheiras, um gloss e, em meus olhos, um pouco de delineado, bem fininho, e muito rímel. Nossas roupas também não divergem de nossos estilos, minha amiga está usando um top rendado, com uma jaqueta jeans, que ela mesma pintou, por cima e uma saia jeans também curta e colada em seu corpo, seguida de uma sandália rosa com um pequeno salto nos pés. Enquanto isso, eu sou mais discreta, estou com uma calça jeans larga em um tom claro, um cinto preto e uma camiseta de manga curta, branca com a palavra "destiny" escrita em uma delicada caligrafia, além dos meus All Stars pretos, esse par de tênis é o meu essencial de cada dia.
A ideia inicial era sairmos de fininho do apartamento sem ninguém perceber, porém, algumas pessoas já estavam acordadas então realmente o plano não deu assim tão certo, mas somos vitoriosas, porque nos deram um sorriso gentil. É bom ter gentileza sempre por perto e, ainda assim, o maior prêmio dessa manhã, meu pai ainda não acordou, o que significa que não tive que encará-lo, ao menos não até agora.
Saímos do prédio, cumprimentando o porteiro e sendo impactadas pelos trechos do nascer do sol que conseguimos ver entre as centenas de outros prédios que estão a nossa frente. É uma paisagem tão linda que não tenho como colocar em palavras, somente apreciar esse momento e, é assim, como começa o que Diana insiste em chamar de "aventura", não importa o quão brega eu insista em explicar para ela que isso é.
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