⚔ Capítulo 19
Estava quente.
Tão quente que se me dissessem que o verão já havia começado, eu não teria notado a diferença. O sol estava escondido atrás das montanhas e tentava ultrapassá-la a todo custo, mas eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, ele iria se pôr do outro lado, deixando que o anoitecer tomasse o céu por completo, trazendo o frio noturno com ele.
Um arrepio subiu minha espinha.
As noites pareciam cada vez mais frias e nunca mais foram as mesmas. Ainda que o acordo com o Midas me mantivesse segura por enquanto, sabia que era uma corda prestes a partir. Constantemente, tinha pesadelos com Magdalena sendo enviada para longe, vendida como escrava para as feras ao sul de Lymurian. Às vezes eu sonhava com Nikosoli chorando sobre meu corpo ensanguentado, como se ele fosse o culpado. Todas as vezes que eu acordava, o aperto era tanto em meu peito que me fazia querer gritar.
E depois do incidente na noite do equinócio, não sabia mais o que era ter um sono tranquilo. Sonhava com garras e olhos verdes amaldiçoados. Morte e devastação.
Suspirei.
Não precisava me preocupar com os pesadelos por enquanto. O sol ainda brilhava no céu, ainda era dia, ainda estava quente. Passados alguns instantes, cansei de continuar isolada entre os pilares do castelo. Estava prestes a sair para um passeio quando me lembrei da adaga, muito mais por sentir a pressão da ponta em minha pele sob o tecido. Fitei-a, com certo receio. Onde poderia guardá-la?
Tive sorte em conseguir escondê-la bem entre o espartilho e a barra interna do forro, um tecido fino que vinha antes da saia plissada do vestido. Eu tinha certeza que Midas não veria problema algum com meu armamento, mas não seria nada fácil explicar aos demais membros da corte caso pegassem um de nós com uma adaga dentro do castelo do Rei. Seríamos vistos como uma ameaça.
A pedra vermelha na ponta superior do cabo reluzia sob o tecido cinza do lençol. Eu não podia carregar aquela arma enquanto estivesse circulando pelo castelo. E Nikosoli pedira que eu a levasse comigo apenas durante a noite. O Sol ainda brilhava bem alto no céu.
Peguei a adaga e enfiei-a debaixo do travesseiro. A cama estava arrumada e o quarto havia sido preparado para a minha chegada conforme a Sra. Dorthie avisou. As cortinas eram novas, os lençóis cheiravam à lavanda e hortênsias. O piso brilhava tanto que quase conseguia ver meu reflexo, e não encontrei nenhuma teia de aranha ou pó em qualquer móvel, ou canto do cômodo.
Sentindo o coração bater mais rápido a cada passo que eu dava pelos corredores do palácio, pude finalmente respirar ao avançar até os jardins. Andar por aqueles longos corredores e passar pela infinidade deportas e escadas era emocionante e apavorante simultaneamente. Alguns cômodos haviam sido limpos e se encontravam impecáveis, as janelas abertas deixavam o ar fresco adentrar, sem qualquer rastro de poeira ou cheiro de mofo. Mas outras alas, principalmente as mais afastadas da instalação principal, não estavam recebendo os mesmos cuidados. As alas menos usadas do castelo foram completamente abandonadas.
Castiçais e tapeçarias foram recolhidas, quadros que deveriam enfeitar as paredes foram largados aos cantos, cobertos por um longo manto vermelho de veludo. Encontrei muitos jarros de flores pelo caminho, todas ressecadas, mortas. Janelas fechadas, cortinas carcomidas e tapeçarias entregues às traças. Teias de aranha enfeitavam as junções do teto e da parede em todos os quatro cantos.
E nenhum pingo de luz.
Aquilo estava começando a ficar um pouco deprimente, principalmente porque não encontrei ninguém durante meu passeio pelas alas internas. Evitei atravessar as passarelas externas para as instalações ao norte, com medo de me perder.
Após acabar revisitando os mesmos corredores e quase derrubar uma estátua de gesso e pedra-cristal do alto da escada principal, consegui achar meu caminho de volta até a cozinha. Meu coração quase saía pela boca quando alcancei o lado de fora. As horas voaram bem rápido enquanto perambulava pelos intermináveis corredores da ala oeste.
Não me preocupei em visitar as torres da ala leste, pois já havia se passado quase metade do dia e eu ainda queria explorar um pouco o exterior do castelo também.
Corri para os jardins.
Flores de todos os tipos e cores. Lírios, peônias, folhas de hortelã e ervas daninhas, rosas-vermelhas, brancas e pretas enfeitavam os canteiros podados. Árvores de troncos longos e copas largas cercavam, enfileiradas, a trilha de pedras, projetando sombra por todo o caminho até a fonte de querubins e além dela.
Após passear pelo jardim, segui a trilha de cascalhos até o bosque. Árvores longas de troncos cinzentos e folhas amarelas se misturavam às folhas verdes. Um pouco mais adiante, vi um brilho azulado entre a grama e os galhos.
Pensei ter sentido algo me puxar naquela direção. Acreditei ter ouvido a voz suave de uma mulher chamando meu nome, o que era impossível, mas avancei naquela direção mesmo assim. Atrás de ruínas de pedra tinha um lago.
Caminhei até a margem lentamente. A água era tão azul quanto o céu, cristalina a ponto de eu consegui ver a terra no fundo. Enquanto deixava os pés dançarem dentro d'água, me deixei apreciar a paisagem.
Um número incontável de flores rodeavam o lago, caindo nas águas, cercando os arbustos e árvores que se distribuíam pela paisagem. O capim não era aparado naquela região, então as folhas verdes conseguiam me esconder quase completamente. Não que eu estivesse tentando me esconder, mas duvidava bastante que fosse permitido que eu, o mais novo e inútil mascote de Midas, colocasse qualquer parte do meu corpo dentro daquele lago.
Então, subitamente, não consegui pensar em ser repreendida. Meu corpo congelou.
— Aproxime-se. — ouvi uma voz fantasmagórica dizer. A poucos centímetros de onde estava, vi meu próprio reflexo tremeluzir sobre a água.
Dei um salto para trás, olhando para os lados assustada. Definitivamente havia escutado alguma coisa dessa vez.
Agachei-me na margem, aproximando o rosto da água, quase encostando as bochechas na superfície trêmula e gelada. Sentia um estranho conforto me preencher, como se o lago estivesse me convidando, me tentando a saltar em sua direção.
Deixei que os dedos submergissem primeiro, afundando a mão quase totalmente logo em seguida. A água envolveu minha pele, puxando-me para dentro com delicadeza e força ao mesmo tempo. Eu não conseguia lutar contra aquela energia, não queria.
O sussurro se tornou ainda mais alto ao pé do ouvido.
— Não tenha medo. — disse a voz, e mãos cadavéricas surgiram na superfície, envolvendo meu pulso com rapidez antes que eu pudesse me afastar. Não havia gentileza alguma em seu toque, apenas força bruta. — Venha, Celine.
Sem conseguir protestar ou me afastar do esqueleto que me puxava, eu caí no lago. Bolhas se formavam ao redor enquanto eu me debatia. A água gelada em choque com a pele quente me fez tremer, e um arrepio percorreu a espinha assim que meu corpo afundou completamente no lago.
Submersa, ainda sentindo os dedos ossudos apertando meu o pulso, puxando-me mais e mais para o fundo, eu tentava lutar. Mais esqueletos flutuantes surgiram ao meu redor, não completamente inteiros. Alguns vieram nadando aos pedaços, só mãos ou pés. Se agarravam a todas as partes do meu corpo.
O tecido azul do meu vestido movia-se ao meu redor, cobrindo minha visão parcialmente. Conseguia ver a insígnia do Reino das estrelas ali. A coroa com cinco pontas de estrela. Esqueletos, e pequenos peixes de diferentes cores e tamanhos, nadavam ao meu redor. Inesperadamente, continuei afundando, afundando e afundando. O lago parecia não ter fim e meu ar estava acabando, a garganta começava a queimar.
Ao olhar para baixo, engasguei, liberando a última bolha de ar que me restava. Percebi que a morte havia chegado de um jeito molhado e frio. E eu sabia que ela estava ali, pois tudo que vi foi o vazio e a mais completa escuridão.
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