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O LIMITE DA DOR

O clássico estava se aproximando, e a tensão nos dois times era palpável. Maria Clara sabia que aquele jogo poderia ser decisivo para sua temporada, e estava determinada a estar em campo, não importa o preço. Sua lesão no joelho, embora não grave, ainda a deixava com algumas limitações, mas nada que a impedisse de continuar treinando e se preparando para o maior jogo do ano. Porém, o corpo de Maria Clara estava começando a mostrar sinais de cansaço, e ela sabia que estava se forçando mais do que deveria.

O Treino Intenso

A manhã começou cedo, com os jogadores se reunindo no centro de treinamento. O clima era pesado, todos estavam cientes de que o jogo contra o São Paulo poderia definir não só a classificação, mas também o ritmo da temporada inteira. Para Maria Clara, cada treino se tornava mais desafiador. A dor no joelho, que ela tentava ignorar, parecia piorar a cada movimento.

Durante o treino, o técnico colocou os jogadores em situações de jogo intenso, com muito contato e velocidade. Maria Clara, mesmo ciente de que estava em risco, se entregou totalmente. Ela não podia parecer fraca. Não poderia se permitir ser uma peça fora de lugar no time. Mas no final de uma corrida intensa, quando estava driblando um defensor, ela sentiu uma dor aguda e insuportável no joelho.

Ela tentou continuar, mas foi impossível. Maria Clara cambaleou, e, em um movimento rápido, caiu no gramado, gritando de dor. O silêncio tomou conta do campo. Seus companheiros se aproximaram rapidamente, mas foi João quem chegou primeiro, seu olhar preocupado se fixando nela.

— Maria Clara! — Ele se agachou ao lado dela, tocando seu ombro com cuidado. A dor que ela sentia era clara em seu rosto, e ele sabia que era sério. — Não tenta se levantar, fica calma. O que aconteceu?

Ela tentava controlar a respiração, mas a dor era insuportável. As lágrimas vieram sem avisar, e, por mais que tentasse se controlar, ela sabia que algo estava errado. O joelho estava inchado, e a dor só aumentava.

— Acho que torci de novo. — Ela respondeu, a voz fraca, sem fôlego.

João sentiu um nó na garganta. Ele não queria vê-la machucada. Não só porque ela era rival, mas porque, de algum jeito, ele se importava com ela. Algo que ele jamais admitiria para ninguém, mas que naquele momento era impossível negar.

Ele chamou os médicos, que correram até o campo. Eles imediatamente começaram a avaliar Maria Clara, que estava visivelmente frustrada com a situação.

— Vai ficar tudo bem, Maria Clara. — João disse, tentando dar-lhe algum consolo. Mas sua voz traía a preocupação. Ele sabia que essa lesão poderia significar um longo tempo fora dos gramados, e ela não merecia isso.

O Diagnóstico

O diagnóstico foi rápido, mas doloroso. Maria Clara tinha sofrido uma lesão no ligamento do joelho, não tão grave quanto uma ruptura, mas o suficiente para exigir repouso completo e um período de fisioterapia. O médico aconselhou que ela não jogasse no clássico, e que seguisse o protocolo de recuperação.

Maria Clara não acreditava no que estava ouvindo. Ela não poderia ficar de fora. Não poderia faltar a um jogo tão importante. Ela era a estrela do time, e sua presença no campo significava tudo para a equipe.

— Não posso ficar de fora, doutor! — Ela disse, a voz alta, quase desesperada. — Eu preciso jogar. Não posso perder essa chance.

João estava ao seu lado, observando. Ele sabia que o orgulho dela falava mais alto naquele momento. Ele a conhecia bem o suficiente para saber o quanto ela odiava admitir suas fraquezas.

— Maria Clara, você precisa se cuidar. Não vale a pena arriscar sua carreira por um jogo. — Ele disse, com firmeza. Sua preocupação era genuína, e ela podia perceber isso em sua voz. Ele, que sempre havia sido o defensor imbatível no campo, agora estava ali, tentando protegê-la de si mesma.

Maria Clara olhou para ele, seu olhar misturando raiva e frustração. Ela queria continuar, queria provar que estava forte o suficiente para estar em campo. Mas a dor era tão intensa que ela sabia que não poderia ignorar mais.

— Eu... eu não posso ficar assim, João. Eu não posso ver o time jogar sem mim. — A voz dela quebrou no final, e pela primeira vez, Maria Clara se sentiu totalmente vulnerável.

João sabia que ela estava perdendo o controle. Ele estendeu a mão para ela, tocando-lhe o braço de forma reconfortante.

— Maria Clara, você vai voltar. Mas agora, o melhor é descansar e se recuperar. O time precisa de você inteira, não doente.

Ela fechou os olhos por um momento, sentindo o peso das palavras dele. Sabia que ele estava certo. Mas a dor no peito era maior que qualquer outra coisa. Não apenas por estar fora do jogo, mas por perceber que, às vezes, a força não estava em ignorar a dor, mas em aceitar suas limitações.

O Apoio de João

Nos dias seguintes, João continuou a ser um apoio inesperado para Maria Clara. Ele vinha ao seu quarto de recuperação, trazendo palavras de incentivo e se oferecendo para ajudá-la com a fisioterapia. Cada vez mais, ele se mostrava preocupado, e isso só confundia ainda mais os sentimentos dela.

O que, antes, era apenas uma rivalidade ácida e distante, agora estava se tornando algo mais humano, mais complicado. Maria Clara não conseguia entender por que João estava fazendo isso por ela. Por que ele se importava tanto? Eles eram inimigos dentro de campo, e, agora, algo mais estava em jogo.

Na véspera do clássico, Maria Clara estava em repouso no hotel, ainda com o joelho imobilizado. Ela se sentia impotente, incapaz de fazer o que mais amava. Mas, naquela noite, João apareceu novamente. Ele estava em silêncio, segurando uma garrafinha de água, olhando para ela.

— Eu sei que você queria estar lá. Mas você vai voltar mais forte, Maria Clara. Isso não é o fim, é só um obstáculo.

Ela olhou para ele, e, pela primeira vez, sentiu que ele realmente entendia sua dor. E, talvez, pela primeira vez, ela sentiu algo mais por ele do que apenas a rivalidade.

— Eu não sei o que fazer com isso, João... com você. — Ela disse, sem mais nem menos.

João olhou para ela, e pela primeira vez, sem as pressões da rivalidade ou da competição, ele se aproximou e colocou sua mão sobre a dela.

— Eu também não sei, mas estamos aqui agora, não estamos? Vamos descobrir juntos. Você não está sozinha nisso.

A resposta dele foi simples, mas profunda. E Maria Clara, sentindo pela primeira vez que talvez pudesse confiar nele fora de campo, relaxou. Ela estava ciente de que, independentemente do que acontecesse no jogo, algo mais estava se formando entre eles. Algo que eles não podiam mais ignorar.

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