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A FRONTEIRA ENTRE A RIVALIDADE E O DESEJO

O dia seguinte ao evento beneficente foi estranho para ambos. João estava acostumado a acordar com a mente focada nos treinos, no desempenho, nos jogos. Mas naquela manhã, seu pensamento estava mais disperso. Algo tinha mudado, e ele sabia disso. O que mais o incomodava era a sensação de que ele não estava mais no controle da situação. A conversa com Maria Clara no campo, o olhar que ela lhe dera no final da atividade — tudo aquilo o deixava inquieto.

Maria Clara também sentia a mudança. Nos últimos dias, ela havia ficado mais pensativa. A rivalidade, que sempre foi o combustível para sua paixão pelo jogo, estava começando a perder sua força. João não era apenas o defensor que ela queria vencer. Ele era... algo mais. Ela não sabia o que exatamente, mas algo havia mudado. Ela sabia que, se continuasse tentando negar isso, acabaria se afundando ainda mais.

Na manhã seguinte, o técnico de São Paulo convocou todos os jogadores para um treino intensivo de preparação para o próximo jogo. O Corinthians também tinha o seu treino marcado para o mesmo horário, o que significava que João e Maria Clara não iriam se encontrar naquele dia. Mas, ao menos por um momento, o futebol voltaria a ser o foco, não a confusão de sentimentos que ambos estavam tentando ignorar.

No entanto, o destino parecia ter outros planos.

O Encontro Inesperado

Ao fim do treino, João estava indo para os vestiários quando recebeu uma mensagem no celular. Era de Maria Clara. A última coisa que ele esperava era ter algum tipo de comunicação com ela fora do ambiente do projeto, mas a mensagem era direta:

"Precisamos conversar."

João hesitou. Ele sabia o que isso significava. E, no fundo, sentia que não tinha como escapar dessa conversa. Ele simplesmente não conseguia mais fingir que não estava afetado por ela. Então, respondeu:

"Onde?"

"Na cafeteria do estádio. Em meia hora."

Ele sabia que não tinha como evitar. Então, guardou o celular e se dirigiu à cafeteria.

Quando chegou, Maria Clara já estava lá, sentada com uma xícara de café em suas mãos. Ela parecia mais calma do que ele imaginava. O que, de certa forma, só aumentava a tensão dentro dele. Ele se sentou à sua frente, os dois se encarando por um momento, sem saber o que dizer. A rivalidade, que antes parecia ser a força que os movia, agora era um peso, algo difícil de carregar.

— Então, você queria conversar? — João foi o primeiro a quebrar o silêncio, sua voz mais suave do que ela esperava.

Maria Clara suspirou, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas.

— Eu não sei o que está acontecendo, João. Sério. Não sei mais o que pensar de você. E isso me irrita. Eu sempre soube exatamente o que você era, o que você representava... mas agora, não sei. Não entendo o que está acontecendo entre nós.

João a observou atentamente. Ele sentia o mesmo. A confusão era mútua, mas ele não sabia como explicá-la.

— Eu também não sei. — Ele disse finalmente, com sinceridade. — Mas alguma coisa mudou. Eu sei disso. Só não sei como lidar com isso.

Maria Clara olhou para ele, seus olhos buscando alguma resposta. Ela sentia que o jogo, que sempre foi a sua paixão, agora não fazia mais sentido se não envolvesse ele. Mas ao mesmo tempo, havia uma voz dentro dela dizendo para se afastar, para não cair na armadilha da vulnerabilidade.

— Você já pensou que talvez a gente precise parar de lutar? — Maria Clara disse, quase como se fosse uma confissão. — Não estamos mais no campo. Não precisamos mais vencer o outro.

A declaração a pegou de surpresa. João franziu a testa, a confusão em seu rosto mais evidente do que nunca.

— Não sei se posso... — ele começou, mas parou. — Não sei se consigo esquecer que você é do Corinthians. Isso sempre foi o que me motivou, Maria Clara. Sempre foi sobre vencer você.

Ela sorriu com amargor, entendendo a dificuldade dele em aceitar isso.

— Eu sei. Sempre foi a mesma coisa comigo. Mas será que estamos realmente vencendo? Será que essa rivalidade é realmente tudo o que somos? Ou será que é só o que nos ensinaram a ser?

João ficou em silêncio, ponderando suas palavras. Ele queria responder, mas havia algo em seu interior que o fazia hesitar. Algo que, até aquele momento, ele nunca permitira surgir.

— Eu nunca pensei nisso dessa forma. — Ele finalmente admitiu, seu olhar suavizando enquanto ele refletia sobre suas palavras. — Talvez a gente tenha sido treinado para pensar que a rivalidade é tudo. Mas, agora, estou começando a ver que talvez não seja tão simples assim.

Maria Clara abaixou a cabeça, mexendo na borda da xícara. Ela sabia que ele estava começando a entender, mas ainda era um caminho longo até que ambos conseguissem realmente superar tudo o que haviam construído até ali.

— Eu não sei o que fazer com isso, João. — Ela disse, quase em um sussurro. — Não sei o que fazer com o fato de que... de alguma forma, você deixou de ser o cara que eu queria derrotar, e se tornou... outra coisa.

João se aproximou levemente, o olhar fixo nela. Pela primeira vez, ele não se sentia como um adversário, mas sim como alguém que estava começando a entender o que ela queria dizer.

— Eu sei o que você quer dizer. Eu também não sei o que fazer com isso. Mas, talvez, seja hora de deixar as regras do jogo de lado.

O olhar entre eles se intensificou. O que antes parecia ser uma batalha sem fim estava se transformando em algo novo. Algo que nenhum dos dois sabia como controlar. O sentimento que começava a crescer entre eles era forte, mas também perigoso, como uma chama prestes a se apagar ou consumir tudo ao redor.

E, naquele momento, ambos sabiam que, se aquilo fosse para dar certo, teriam que se render ao que estavam sentindo — e ao que isso significava, não apenas para eles, mas para tudo ao redor. Porque, no fim, o maior desafio não era vencer no campo. Era enfrentar o que o coração dizia.

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