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AS REGRAS DO JOGO
A rotina do projeto de integração estava chegando ao fim, e o desafio entre João e Maria Clara começava a se tornar mais palpável. A rivalidade, que antes parecia ser apenas uma troca constante de provocações e estratégias em campo, agora estava se infiltrando nos momentos mais inesperados, nos olhares furtivos e nas palavras não ditas. Mas o que mais surpreendia era que, à medida que o tempo passava, algo começava a mudar dentro deles.
João, que sempre teve um senso imenso de controle, começava a se questionar sobre suas próprias regras. A ideia de se manter distante de Maria Clara já não parecia tão fácil quanto antes. Durante a última semana de atividades, quando se encontraram no campo para um treino de resistência, ele notou o jeito como ela se movia: rápida, ágil, sempre desafiando as expectativas. Mas havia algo mais, algo que ele não conseguia identificar.
— Cuidado, Moreira. Parece que você está mais distraído do que o normal. — Maria Clara lançou um olhar desafiador enquanto corria para o outro lado do campo.
João franziu a testa, tentando se concentrar. Ele estava, de fato, mais distraído. E não era por causa do treino. Era a presença dela, algo que ele não podia controlar. Ela se movia com uma confiança desconcertante, algo que ele raramente via em outros jogadores. Era impossível ignorá-la, e o pior: ele estava começando a achar que não queria.
Ao fim do treino, enquanto se dirigiam ao vestiário, Maria Clara se aproximou de João.
— Você tem se esforçado mais do que eu esperava, Moreira. Não pensava que ia encontrar esse tipo de dedicação em você.
João a olhou com um olhar sério, mas sua resposta foi diferente daquela que ela esperava.
— Eu também não pensava que você fosse tão boa quanto diz. Mas é... interessante ver isso de perto.
Ela deu uma risada baixa, sem desafiar o comentário dele, mas com um toque de curiosidade. O tom era desconfortável, mas havia algo novo na troca. Algo genuíno.
A dinâmica entre eles se tornava mais difícil de ignorar. As regras que haviam construído para si mesmos, aquelas que os mantinham como rivais imbatíveis, estavam começando a se desmoronar. Maria Clara começava a perceber que, por trás daquela fachada de disciplina militar de João, havia algo mais. Algo vulnerável, algo que ela não havia visto antes. Ele não era apenas o defensor imbatível, o jogador sério e calculista. Havia algo humano ali, algo que ela começava a querer entender.
E João? Ele não sabia mais o que pensar. Estava confuso, perdido em seus próprios sentimentos. Ele sempre se orgulhou de ser impenetrável, de nunca deixar que ninguém o abalasse, especialmente uma atacante do Corinthians. Mas Maria Clara estava quebrando essa barreira, e ele não sabia mais se isso era uma fraqueza ou uma nova força.
Naquele final de semana, ambos foram convocados para um evento de promoção do projeto. Havia um evento beneficente no qual todos os jogadores deveriam participar, interagindo com os fãs e realizando atividades de integração. João e Maria Clara foram escalados para trabalhar juntos, como parte da dinâmica de "unificação". Era a oportunidade de mostrar que, apesar da rivalidade, poderiam se unir em nome de algo maior.
O evento aconteceu em um campo de futebol, onde crianças e fãs puderam assistir a uma demonstração de futebol. Durante a atividade, João foi chamado para uma palestra sobre a importância da disciplina no futebol, enquanto Maria Clara ficou responsável por um treino interativo com os fãs.
Após suas apresentações, eles se encontraram novamente, no mesmo campo, sem a pressão dos técnicos ou da torcida. Só eles e uma pequena multidão ao fundo.
— Parece que agora somos obrigados a trabalhar juntos, né? — Maria Clara disse, com um sorriso irônico, tentando aliviar a tensão.
— Pois é... quem diria que eu e você faríamos isso. — João respondeu, ainda tentando entender o que sentia. Ele não estava mais tão disposto a ignorá-la como antes, mas também não queria admitir que algo havia mudado.
Ela se aproximou, como se quisesse dizer algo, mas parou ao ver a expressão dele. A vulnerabilidade em seu olhar a pegou de surpresa. Pela primeira vez, ela não sabia o que esperar dele. E isso, de alguma forma, a deixou desconcertada.
— Não sei o que você está pensando, Clara... mas se me perguntar se eu quero ganhar... a resposta é sempre sim. — Ele a olhou de forma intensa, como se as palavras fossem mais do que apenas uma frase de impacto.
Maria Clara se sentiu estranha, tocada de uma maneira que não esperava. Ela havia sempre visto João como um inimigo, alguém a ser superado, mas agora? Algo estava começando a mudar. Ela sentiu uma crescente curiosidade sobre o que ele realmente era por dentro.
Mas antes que pudesse responder, o diretor do evento os chamou para a próxima atividade. Eles trocaram um olhar carregado de significado, mas sem palavras.
O jogo havia mudado, e as regras que haviam seguido por tanto tempo estavam prestes a ser completamente reescritas. A tensão entre eles, que antes era apenas uma parte da rivalidade, agora parecia ser algo mais complexo. Eles estavam começando a entender que o maior desafio não seria vencer um ao outro no campo, mas lidar com o que estava crescendo entre eles fora dele.
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