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ENTRE DOIS MUNDOS

O dia seguinte ao clássico foi marcado por um silêncio tenso no vestiário. Os jogadores de São Paulo estavam frustrados com o empate, e João Moreira, especialmente, estava ruminando sobre o desempenho. Ele não gostava de perder, nem que fosse por um empate. No fundo, sabia que Maria Clara havia sido um dos maiores desafios daquele jogo. Seu estilo irreverente e suas jogadas imprevisíveis sempre o deixavam em alerta. Era como se ela soubesse exatamente como mexer com sua concentração.

Maria Clara, por sua vez, estava radiante com o empate. Para ela, o clássico sempre seria uma vitória moral, e seu gol havia sido a prova de que, mais uma vez, João não era capaz de pará-la. Porém, algo a incomodava. Mesmo sem admitir, ela sabia que a defesa de São Paulo tinha sido mais sólida do que imaginava, e que João, apesar das provocações, era um defensor de respeito. Ele não era apenas um obstáculo; ele era a muralha que ela precisava superar, e isso, de alguma forma, a desafiava mais do que qualquer outra coisa.

À tarde, ambos receberam o e-mail que confirmava o início do projeto de integração entre jogadores rivais. Eles teriam que passar uma semana juntos, participando de treinamentos conjuntos e atividades que visavam melhorar a comunicação entre atletas de diferentes clubes. A ideia era promover uma colaboração que quebrasse a mentalidade adversarial, algo que os dois, até então, achavam impossível.

No primeiro encontro para o projeto, a tensão era palpável. João e Maria Clara se encararam logo ao entrar na sala de reuniões, ambos parecendo surpresos com a falta de opções. O espaço estava repleto de jogadores de outros clubes, mas nenhum deles parecia tão desconfortável quanto os dois.

— Acho que estamos sendo forçados a isso, né? — Maria Clara comentou, quebrando o silêncio. Sua voz carregava a mesma provocação de sempre.

João respondeu com um simples olhar, mas não deu atenção ao comentário. Ele estava tentando se concentrar no que estava por vir. Não havia espaço para distrações, não com o treino de integração começando logo.

A primeira atividade era simples: uma dinâmica de grupo onde todos deveriam se apresentar e falar um pouco sobre seus clubes. Quando chegou a vez de João, ele falou com a mesma objetividade de sempre. Ele era o defensor, o lateral-direito que sempre mantinha a linha. A resposta de Maria Clara foi completamente diferente:

— Eu sou Maria Clara, atacante do Corinthians. E sim, adoro a provocação. Só não espero que você me pare em um jogo de verdade, João. — Ela sorriu, como quem já esperava o desconforto que causaria.

João segurou o olhar dela, mas não respondeu. Apenas se limitou a acenar com a cabeça e, em seguida, voltou à sua postura rígida, como se não houvesse nada mais a ser discutido.

Ao longo da semana, os dois tentaram se manter afastados, mas, inevitavelmente, acabaram se encontrando. Durante uma das atividades de treino, a dinâmica envolvia uma pequena partida mista entre os jogadores, divididos aleatoriamente entre os clubes. Maria Clara, como sempre, era a jogadora criativa, tentando desestabilizar as defesas com dribles e passes rápidos. Mas João estava lá, como um espectro silencioso, acompanhando cada movimento dela. Quando ela tentou um drible ousado, ele se antecipou, roubando a bola com precisão.

— Não vai ser tão fácil assim — disse João, com um tom que, pela primeira vez, parecia mais desafiador do que arrogante.

Maria Clara sorriu, mas não respondeu. Em vez disso, ela se afastou, mas, em seu olhar, algo havia mudado. Pela primeira vez, ela sentia que João não estava apenas defendendo o time. Ele estava defendendo a si mesmo, e de um jeito que ela não esperava.

A semana seguiu, e os encontros se tornaram cada vez mais difíceis de ignorar. A rivalidade estava lá, sempre presente, mas algo mais estava começando a se formar entre eles. Quando estavam sozinhos, trocavam olhares que diziam muito mais do que palavras poderiam expressar. Havia uma tensão no ar, algo que ambos tentavam controlar, mas que ficava cada vez mais difícil de esconder.

Na última noite do projeto, todos se reuniram para uma atividade de confraternização. A ideia era que todos dessem um pequeno discurso sobre o que aprenderam durante aquela semana, mas quando chegou a vez de João e Maria Clara, ninguém esperava o que viria.

Maria Clara se levantou primeiro.

— Eu aprendi que, às vezes, os maiores rivais são mais parecidos com você do que você gostaria de admitir. — Ela olhou para João por um breve momento. — E também aprendi que, mesmo sendo de clubes diferentes, o respeito pelo jogo é algo que todos compartilhamos.

João a observou em silêncio, a ideia de se abrir nunca sendo sua primeira opção. Mas, naquele momento, ele fez algo que não esperava. Se levantou e falou.

— Eu aprendi que a rivalidade é mais complexa do que pensava. — Ele olhou diretamente para Maria Clara. — Talvez seja mais sobre o que somos fora de campo, do que dentro dele.

O silêncio tomou conta da sala, mas ninguém ousou interromper. Eles sabiam que aquele não era apenas mais um jogo. Era algo mais profundo, algo que nem eles estavam prontos para entender.

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