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FANTASMAS DO PASSADO
Maria Clara acordou de um pesadelo que parecia mais real do que ela gostaria. O quarto estava escuro, exceto pela luz fraca que entrava pela janela. O suor escorria por sua testa, e sua respiração estava ofegante. Era sempre o mesmo sonho: ela de volta ao campo do bairro onde tudo começou, ouvindo os gritos que a perseguiam desde a infância.
Aqueles dias difíceis, que ela lutava para esquecer, vinham à tona agora como se o acidente tivesse aberto uma porta para seu passado. A menina que sonhava em ser jogadora de futebol, mas que enfrentava mais críticas do que apoio, ainda vivia dentro dela.
Ela se levantou lentamente e foi até a cozinha. Pegou um copo d'água e tentou se acalmar, mas, ao olhar para o reflexo na janela, parecia que via uma versão mais jovem de si mesma, sozinha, assustada e determinada a lutar contra tudo e todos.
O Peso dos Traumas
Maria Clara cresceu em um bairro simples, onde o futebol era o único escape. Mas, para uma menina que queria jogar no meio dos garotos, o caminho era sempre mais difícil. Desde cedo, ela ouviu que o campo não era lugar para ela.
— Você nunca vai ser boa o suficiente. Vai desistir como todas as outras.
Essas palavras, ditas por um dos primeiros técnicos com quem trabalhou, ficaram gravadas em sua memória. Mesmo anos depois, com sua carreira consolidada, a sombra da dúvida ainda pairava sobre ela.
A pressão para provar seu valor, para ser perfeita em cada jogo, vinha desses momentos. O medo de não ser aceita, de falhar, a fazia carregar um peso que ninguém mais via. Ela nunca contou isso a ninguém, nem mesmo a João.
Mas, desde o acidente, as lembranças estavam cada vez mais frequentes. O sonho que a assombrava sempre terminava da mesma forma: ela, caindo no campo, sozinha, enquanto todos ao redor riam ou a ignoravam.
O Apoio de João
No dia seguinte, João percebeu que algo estava errado. Eles estavam em um encontro discreto, como sempre, mas Maria Clara parecia mais distante do que o normal.
— Maria, você está bem? — perguntou ele, enquanto caminhavam por um parque quase vazio.
Ela hesitou por um momento, olhando para o chão. Por mais que confiasse nele, falar sobre aquilo ainda era difícil.
— Estou... só cansada.
João parou de andar e segurou a mão dela, forçando-a a olhar para ele.
— Não é só isso, é? Eu vejo que tem algo te incomodando.
Ela respirou fundo, lutando contra as lágrimas que ameaçavam escapar.
— Eu não gosto de falar sobre isso, João. É o tipo de coisa que prefiro enterrar e seguir em frente.
— Talvez você precise deixar isso sair. — A voz dele era suave, mas firme. — Seja lá o que for, você não precisa carregar isso sozinha.
Maria Clara hesitou por mais alguns segundos antes de finalmente ceder.
— Quando eu era mais jovem, ninguém acreditava que eu poderia jogar futebol. Eu ouvi tantas vezes que não era boa o suficiente, que nunca seria aceita, que isso... ficou comigo.
Ela fez uma pausa, tentando encontrar as palavras.
— Mesmo agora, depois de tudo que conquistei, ainda sinto que preciso provar meu valor. E, depois do acidente, parece que tudo está desmoronando. É como se... eu estivesse de volta àquele lugar, sozinha, tentando ser algo que ninguém acredita que eu posso ser.
João a escutou em silêncio, sem interromper. Quando ela terminou, ele segurou seu rosto com as mãos, olhando diretamente em seus olhos.
— Você é incrível, Maria. Não porque provou algo para os outros, mas porque acreditou em si mesma quando ninguém mais acreditava. E, se você sente que está sozinha, eu quero que saiba que estou aqui. Sempre.
As palavras dele a pegaram de surpresa. Ela nunca imaginou que João pudesse ser tão vulnerável, tão aberto.
— É difícil confiar, João. Sempre foi.
— Então comece devagar — respondeu ele, com um pequeno sorriso. — Comece confiando em mim.
Um Novo Passo
Aquela conversa marcou um ponto de virada para Maria Clara. Aos poucos, ela começou a se abrir mais, não apenas com João, mas consigo mesma. Pela primeira vez, começou a enfrentar seus traumas, a aceitar que não precisava ser perfeita o tempo todo.
Os pesadelos ainda vinham, mas, agora, ela sabia que não estava sozinha. E, com João ao seu lado, sentia que podia, finalmente, começar a deixar o passado para trás.
Mas, enquanto ela lutava com seus próprios demônios, novas pressões surgiam no horizonte. A rivalidade entre seus times continuava, e o mundo externo começava a descobrir o que acontecia entre eles.
Maria Clara sabia que o caminho não seria fácil, mas, dessa vez, estava pronta para enfrentá-lo de cabeça erguida.
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