Capítulo 6
Sora
O som do farfalhar de asas e a visão constante de um céu noturno. Entre o equilíbrio frágil da silenciosa varanda, Apolo observava suas teias de luz tremularem cada vez mais fracas, desaparecendo aos poucos. Já se passavam horas desde o ritual e o rei anda sentia o palpitar da magia daqueles raios em seu interior. Sozinho, sequer questionava-se quando iria amanhecer, estava deleitando-se na luz poderosa da lua, quase desafiando-a a brilhar mais que ele. A muito tempo, Apolo não se sentia tão satisfeito, há última vez que sentiu tanto prazer foi quando destroçou osso por osso de X. Só o vago resgate daquela memoria fez a boca do rei salivar, mas quem o culparia? Todos comemoram suas vitorias de maneiras diferentes. Alguns preparam festas regadas a álcool e promiscuidade enquanto outros, como Apolo, preferiam desfrutar dos gritos abafados de alguma vida infeliz em uma sala de tortura. Do ponto de vista do rei, os prazeres não eram tão diferentes. Tudo que os distinguia era o tempo de morte, um matava depressa e dolorosamente, enquanto o outro matava de maneira silenciosa e traiçoeira. No fim, o culpado era aquele que buscava tais consequências para si e Apolo mal esperava para saber quantas outras vezes ele se tornaria a "consequência" de alguém.
As portas abriram e de sua abertura, Soren surgiu, relembrando o rei que o havia convocado anteriormente. A paz de Apolo era inegável, mas até ele sabia que ainda precisava trazer Selene de volta. O menino usava uma armadura maior que deveria, isso o dava um ar desengonçado, as vezes até mesmo Apolo esquecia que o jovem tinha apenas 15 anos. Cheirando a medo e inexperiência, sempre evitava os olhos de Apolo, mesmo já sendo um comandante, Soren se dirigiu até seu rei cumprimentando-o com uma reverencia perfeita antes de começar a falar.
- Às suas ordens, majestade. - O medo do garoto chegava a divertir o rei. Observar a forma como Soren tentava esconder o suor de suas mãos ou seus batimentos acelerados conforme Apolo se aproximava.
- Parece preocupado, algo o incomoda, Soren? - Aos olhos do jovem, os movimentos do rei se assemelhavam ao de um felino. Como um gato caçando um passarinho do lado de dentro da janela, apesar de fadado a não conseguir o pássaro os olhos do bichano passavam a confiança de que o pássaro já o pertencera, independente da janela que os separava. Mas Apolo não era um gato do lado de dentro da janela, o rei não possuía um limite sequer para pará-lo. Nem Soren nem ninguém ousara tornar-se um empecilho para ele.
- Estou bem, meu senhor. Diga-me, qual o motivo de convocar-me? - O general sentiu o peso dos olhos do rei sob seu pescoço ainda curvado em reverencia.
- O povo é a ruina de qualquer rei, Soren. Preciso saber o que os aflige, pois talvez a sua dor pertença a muitos outros e assim que muitos compartilham a mesma dor surge a revolta. Você não quer uma revolta, quer Soren? - O peso sobre Soren aumentava de uma maneira anormal, assustando-o e fazendo-o levantar da reverencia abruptamente.
- De maneira alguma, meu rei. Apenas abatido pelos últimos acontecimentos, mas qual de nós não está? A traição de Zefat foi tão repentina quanto a partida de Magnólia. Não seria estranho se nós não sentíssemos? - Fugir. Gritava o interior do soldado quase paralisado pelo medo. Desviou o olhar até a tapeçaria acima do trono, lembrou de seu significado e esperou que o consolasse. Não consolou. Apolo seguia incisivo como uma cobra buscando qualquer rachadura para desferir o bote.
- Obrigado por me tranquilizar. Tenho certeza que sua antiga rainha se sente honrada por todo o carinho e luto vindo de seus súditos. - Os olhos semicerrados de Apolo finalmente se ergueram, o garoto sentia-se encolhido conforme o rei se aproximava, algo completamente compreensível devido aos quase dois metros e meio de Apolo. - Sem mais preocupações, serei direto. O cortejo deve passar o mais longe possível do Oeste ou qualquer território Bartels, tenho certeza de que até a própria rainha Haven vai agradecer por isso. Mas no momento, essa tarefa não será coordenada por você, tudo que fará é designar um esquadrão menor para cumpri-la, sua missão é muito mais simples. Reúna seu esquadrão pessoal, se precisar reúna cada nefilim existente, mas leve um decreto a meus súditos, todos eles por todo o continente, tenha certeza que todos ouvirão as seguintes notícias: Magnólia, a Sullis Arcana, Oitava rainha de Arcade morreu naturalmente durante o parto das sucessoras ao trono, na qual uma delas, nascida deusa, foi sacrificada e devolvida aos Deuses assim como qualquer outra criança nascida com tal característica. A jovem Deusa foi batizada Selene, e deve ser cultuada e lembrada como a Deusa que nasceu para ser. Já a outra princesa, foi batizada Sigel, herdeira ao trono e aos títulos imperias. - O rei pausou seu discurso esperando alguma pergunta de Soren. - Se não tiver perguntas pode ir. E não se preocupe em decorar o discurso, pedirei que os escribas criem diversas copias para serem espalhadas por todo o reino.
- Como desejar, meu rei. - Finalmente liberto do peso da presença de Apolo, Soren caminha até a grande porta, mas o rei volta a chamar seu nome.
- E Soren, traga-me Vênus.
Filgord
Sunna seguia a trilha sobre a pequena montanha atentamente. Naquele momento ela se amaldiçoou por ter escolhido o lugar mais alto e afastado da cidade para viver, principalmente agora carregando a recém batizada Minerva em seus braços. Para um bebê tão pequeno não fazia sentido ser tão pesada, isso ou os braços de Sunna já estavam sentindo o peso da idade chegando para eles. O telhado de sua casa já apontava ao longe anunciando que a subida íngreme estava ao fim, mas aparentemente a criaturinha nos braços de Sunna não nascera agraciada com a virtude da paciência, embora silencioso no começo, aos poucos o choro de Minerva tornara-se uma provação para Sunna que começou a compreender o porquê a deixaram sozinha na floresta.
- Acalme-se monstrinha, a casa está logo ali. - Mas Minerva fazia questão de chorar cada vez mais alto, não importa o quanto Sunna tentasse acalma-la, a garota parecia que podia explodir se não chegasse ao chalé naquele momento. Mesmo sabendo que era impossível, Sunna não arriscaria. A casa era simples, espaço o suficiente para três pessoas e talvez um gato. A estrutura era quase toda feita de madeira, o piso da varanda, as pilastras de sustentação e a chaminé nitidamente eram de pedra, grandes placas presas a cada uma das três superfícies contrastando com a madeira já gasta. A cor das pedras era um mistério para Sunna, nunca conseguiu descobrir qual a verdadeira cor delas mesmo depois de diversas faxinas caprichadas tentando saciar sua curiosidade, mas a insistente camada cinza-avermelhada não saia por mais que esfregasse. Para a sorte de Sunna, não precisou ter o mesmo trabalho com o piso do andar de cima, já que era de madeira. As janelas quadradas, todas feitas de madeira num tom mais claro que o da casa. O caminho da trilha levava para o jardim de Sunna, e ela não cuidava dele há um tempo, as ervas-daninhas tomavam conta do canteiro cuidadosamente cercado e escuro, muito escuro. Sentindo-se parcialmente incomodada pela escuridão daquela noite, Sunna tentou procurar pela lua, mesmo com os ouvidos já zunindo em misericórdia. Não achou, sequer as estrelas iluminavam aquela noite após a tempestade de raios, mas sem nenhum sinal de chuva. Desconfiada, ela entra diretamente na casa sem olhar para trás.
Apesar do breu, o brilho da lareira ilumina todo o andar inferior do chalé. Minerva acalma o choro estridente e notando isso, Sunna se apressa para balança-la enquanto procura um pequeno cesto trançado que facilmente serviria de berço para a jovem Deusa. Só então percebeu o que estava acontecendo ali. Ela estava ninando um bebê que além de não ser dela possuía olhos brancos incessantes e aparecera magicamente na floresta minutos após uma tempestade sem chuva e um eclipse. Nada naquela menina estava certo e Sunna sabia disso, ficar com Minerva era perigoso demais, mas ela não abandonaria a garota, querendo ou não, agora Minerva se tornara responsabilidade dela. Sunna amaldiçoou a si mesma por não ter agido mais racionalmente antes de prometer cuidar da garota. Agora era tarde demais para se arrepender. Algo naquela noite levou Sunna a aquela parte especifica de floresta, como se o destino quisesse que ela encontrasse a pequena, mas ainda assim, algo no peito de Sunna dizia o contrário, não foi ela que encontrou Minerva, foi Minerva que a encontrou.
- Não posso tirar conclusão nenhuma agora. Estou cansada demais para pensar claramente, mais cansada ainda para procurar um maldito cesto. - Soltando uma das mãos que segurava Minerva contra seu ombro, Sunna afasta os fios de cabelo ruivos a frente dos olhos, deslizando a mão da testa à nuca. Por fim, lança um suspiro de frustração enquanto agradece aos Deuses por Minerva finalmente calar a boca. Convenientemente, ela e Demétria haviam deixado cobertores em cima do sofá aquela tarde, então com um movimento rápido e cuidadoso para não assustar Minerva, os cobertores grossos de pele são jogados ao chão, amontoados como um ninho próximo a lareira. Sunna sentou-se recostada ao pé da poltrona com Minerva a encarando com aqueles olhinhos constantes. - Você sem dúvida alguma é uma garotinha especial. - Outro suspiro. - É uma pena, mas teremos que esconder isso. - Diz se referindo tanto aos olhos como a natureza de Minerva. Os olhos de Sunna vasculham o cômodo em busca de inspiração, uma cor em especifico, mas uma que fosse tão bela quanto o perolado incandescente da pequena Deusa. Ela pensa no preto profundo contido nas sombras da lareira, no castanho avermelhado da madeira de sua mesa, fica levemente instigada a escolher o verde musgo das almofadas, mas então, nota nascendo entre as madeiras da janela pequenos brotos azuis. Sunna os observou por um longo tempo, tanto que por um segundo acreditou sentir o gosto daquela cor. Olhos azuis, mas não azuis celeste como o dela, Sunna queria algo único, mas selvagem, assim como a flor teimosa que nascera em sua janela. Respirando fundo, a ruiva cuidadosamente deita Minerva de barriga para cima de frente para ela, e agora, com as mãos livres, volta as palmas para cima, fechando os olhos, mas sempre visualizando aquele azul elétrico e as flores na janela. Uma brisa vinda do Oeste a cerca ao ponto de balançar seu cabelo enquanto suas mãos sentem o peso da magia se formar sobre sua palma, o calor familiar e o formigamento se intensificavam. Já era o suficiente para começar, e Sunna não precisava abrir seus olhos para saber que a brisa que a cercava brilhava no tom azul elétrico que ela imaginava, então, com habilidade e concentração direcionou aquela cor aos olhos de Minerva. Uma máscara feita de magia para salva-la, um preço barato a se pagar pela segurança da misteriosa garotinha. Tanto a brisa magica como o peso que ela trazia suavizavam-se a medida conforme Sunna movimentava seus dedos guiando a magia, Minerva sequer emitiu um único som, isso não chegou a surpreender Sunna, ela sabia que a menina tinha uma magia muito mais antiga e poderosa correndo em suas veias, não se assustaria com um feitiço tão simples.
Sunna não abriu os olhos até que toda a presença da brisa Oeste desaparecesse, e quando o fez sorriu, a imagem de Minerva com olhos semiabertos ostentando a nova coloração exatamente igual, se não melhor, que a idealizada por Sunna. Com cuidado, envolveu novamente a pequena em seus braços, acariciando delicadamente sua testa.
- Deixe-me contar-lhe uma história antiga, muito mais antiga que tudo que conhecemos hoje. Após a criação do universo, Caos criou os primeiros Deuses, Vida, Morte, Nix, Urano e Gaia, mas Gaia, a terra, não passava de uma imensa pedra sem vida alguma nela, uma terra seca e infértil, como se estivesse adormecida. Apenas Vida e Morte andavam pela terra, já que Nix se limitava ao céu, assim como Urano, o próprio céu. Certo dia, Vida e Morte, cansados da monotonicidade enfadonha, resolveram fazer uma aposta. Para a aposta, Morte criou o fogo, destinado a destruir, feito para ser imprevisível e o chamou de Ignis, já Vida, criou a água, sereno, mediador, sempre estável e o chamou de Aquam. Criados para amar incondicionalmente um ao outro, mas jamais tocar-se, pois um seriam a ruina do outro. Vida, apostou que um acabaria destruindo o outro, ignorando completamente o aviso deles, já Morte, apostou que eles no fim, iriam ceder ao destino e jamais se tocar. - Um bocejo interrompendo a história foi um suficiente para Minerva grunhir em desagrado. - Tudo bem, entendi, de volta a história. Aquam e Ignis apesar disso tinham momentos felizes, para falar a verdade a única infelicidade deles era essa condição, em alguns momentos eles tentavam burlar a regra, mas ambos saiam machucados e fracos. Certo dia, cansado de machucar Ignis, Aquam foi até Morte pedir ajuda. Tudo que recebeu do Deus foi um conselho, "Quando nós amamos verdadeiramente alguém, só a sua presença já é o suficiente." Frustrado, Aquam aceita o conselho de Morte, o que ele não sabia, era que Ignis também havia saído em busca de soluções, mas com Vida. A Deusa, por sua vez, presenteou Ignis com uma lamparina, disse a ele que ao entrar ali, Aquam ficaria seguro e ele também. Ignis agradeceu o presente e saiu ansioso para mostra-lo a Aquam, que inicialmente adorou a ideia, mas ao ver Ignis isolado naquele lugar tão pequeno incapaz de se locomover, seu coração pesou, mesmo com o vidro entre eles, o calor de Ignis ainda o machucava. Angustiado, Aquam volta ao encontro de Morte, mas dessa vez, o Deus pede para que Aquam sente-se ao seu lado e diz: " Já parou para pensar se esse não é o preço a se pagar pelo seu amor? Perde-lo, machuca-lo e machucar-se? Está disposto a insistir na dor, mesmo podendo ama-lo de longe?" Aquam não entendeu completamente o que fora dito pelo Deus, mas havia uma decisão que precisava ser tomada. Ao voltar para Ignis, Aquam adentra a lamparina mesmo com os pedidos de Ignis para que se afaste, isso até ouvir as palavras de morte proferidas por Aquam. Ambos estavam cansados demais, saturados demais para serem racionais e assim fizeram, passaram horas lado a lado até dormirem e aproveitaram aqueles minutos de felicidade enquanto puderam. Ao acordar, Ignis não acha Aquam e está fraco de mais para sequer sair da lamparina, mas percebe a presença de Morte ao seu lado, ele sabia o que havia acontecido, sabia que aconteceria, mas ainda assim, sentia uma dor lancinante. Ao seu lado, Morte o perguntou se estava arrependido de sua escolha na noite anterior, mas a resposta que recebeu de Ignis o surpreendeu. " Jamais me arrependerei de tê-lo amado, independente do preço, eu faria tudo de novo quantas vezes fossem necessárias para tê-lo outra vez." Com um sorriso triste, Morte assente apagando a lamparina com um sopro, transformando Ignis em fumaça. No fim, a decisão deles despertou algo em Gaia que a fez criar vida, literalmente. Como recompensa, Vida os transformou em astros, sendo Ignis o sol e Aquam a lua, destinados a se completar, mas raramente se tocar. Irônico pensar que no fim o fogo nunca buscou a destruição e a água não é tão serena constante assim. Eu adoraria dar-lhe um final feliz monstrinha, mas quanto mais cedo descobrir que eles não existem, menos vai se decepcionar. - Minerva dormia em seus braços tão calmamente que Sunna quase a abraçou forte, mas se contentou com um beijo delicado em sua testa pálida. A ruiva deitou-a sobre seu seio e deitou-se naquele ninho de cobertores entregando-se ao sono com facilidade.
O sol forte não era o suficiente para acorda-las, Sunna só recuperou sua consciência após ouvir as insistentes batidas na porta, Minerva seguia dormindo na mesma posição na qual deitou. Levantando-se e caminhando até a porta com Minerva em seus braços, Sunna não se surpreende ao ver Demétria, já ela, precisa de cinco segundos e expressões faciais confusas para finalmente formular uma frase.
- De onde surgiu esse bebê? Pelos Deuses, Sunna, você definitivamente consegue ser imprevisível, mas de um jeito péssimo. - Sunna abre caminho e ela entra ainda esbravejando.
- Bom dia para você também, Demétria, eu estou ótima, obrigado por perguntar. - Sunna não conseguia esconder o sorriso diante a confusão cômica de sua amiga, que ainda a olhava procurando respostas logicas em sua mente, Sunna quase podia ver as interrogações acima da cabeça dela.
- Você perde o privilegio da minha educação quando faz... - Ela aponta para Minerva nos braços de Sunna movimentando-o de cima a baixo. - Isso. É bom ter uma explicação boa, ou eu vou abandonar você na floresta, à noite, e torcer para um urso acha-la.
- Garanto que tenho, mas antes deixe-me comer algo e dar algo para ela comer. - Disse Sunna, rendida. - Venha, segure-a enquanto arrumo um pouco de leite.
- Certo, me dê a... qual o nome dela?
- Minerva, segure a Minerva. - Por fim, Demétria segura a garota no colo, analisando-a como se fosse um livro escrito em um idioma desconhecido por ela, isso tirou uma curta gargalhada de Sunna, que foi até a cozinha em busca de um balde para o leite. - Embora eu já saiba a resposta, você não teria uma mamadeira em casa teria?
- Tenho, está junto aos outros copos de barro dentro do armário direito, prateleira de cima, se não me engano a esquerda. - A resposta de Demétria saiu como se aquela situação fosse corriqueira, o que definitivamente não era, atraindo agora a curiosidade de Sunna.
- Porque você tem uma mamadeira e sabe exatamente onde ela está?
- Você tira bebês das árvores e o que te surpreende é eu ter um armário perfeitamente organizado, modéstia parte, e uma mamadeira? - Sunna parou com o balde na mão, olhou para Demétria, abriu a boca, fechou, concordou com a cabeça e disse.
- Faz sentido. - E então seguiu rumo a porta, mas ao abri-la para sair uma tontura a impede, sua cabeça está girando tão rápido que Sunna sequer consegue se manter de pé, o balde rola para longe assim ela cai sobre a mesinha de canto.
- Sunna! - A voz preocupada de Demétria é a última coisa que escuta antes de seus ouvidos zunirem em uma cacofonia infernal ao ponto de fazer Sunna tapar os ouvidos com força, se ela estava gritando, não sabia, mas sentia dor em cada centímetro de seu corpo, como se estivesse sendo comprimida ou simplesmente esmagada aos poucos, ela apertava suas pálpebras com tanta força que podia jurar que seus olhos iriam explodir dentro de sua cabeça, mas nada se comparava a aquela dor incondicional em sua coluna, uma única pontada tão forte e dolorosa que se todos os seus ossos tivessem se quebrado naquele momento não seria metade do que sentiu ali, tudo que se lembra é de ter arqueado as costas para trás, depois disso, tudo ficou escuro e a dor desapareceu. O escuro logo se tornou claro e Sunna estava em um vácuo branco, sozinha, sem dor lancinante, sem ruídos infernais, sem olhos comprimidos, apenas o nada, até Ele aparecer.
Vestido com o brilho prateado das estrelas, a pele escura como a noite e o universo nos olhos, Ele era majestoso, como se o céu noturno decidisse tomar uma forma solida, caminhando em direção a Sunna, ela sabia de quem se tratava e nunca esteve tão fascinada.
- Caos. - Ouviu-se dizer em um sussurro surpreso quase inaudível. Seu rosto, mesmo que próximo dela, era tão escuro que seus olhos eram a única coisa visível. Diferente de Minerva, os olhos de Caos não eram brancos, na verdade os olhos dele eram todas as cores possíveis, elas se mesclavam e movimentavam-se entre si criando algo que nem em mil vidas Sunna poderia comparar, o que mais se aproximavam daquilo eram galáxias ou auroras boreais, era simplesmente sublime, hipnotizante, o brilho de todas as cores do mundo presos no preto caliginoso.
- Venha profetisa, ressurja em cinzas e os faça enxergar o verdadeiro brilho das estrelas.
Sem reação e com a cabeça cheia de perguntas, Sunna tomou folego e acenou em consentimento. - Que assim seja. - Erguendo a cabeça e de peito aberto, Sunna sentiu as mãos de Caos tocarem seus ombros e a dor lascinante a atingir novamente, quebrando seus ossos e reconstruindo sua alma. Imagens passavam por seus olhos como memorias de outro alguém e todas as suas perguntas foram respondidadas, quem era Minerva, de onde veio, porque estava ali e o mais importante, o que Sunna precisava fazer. Assim como chegou ao vácuo branco, saiu dele.
- Agora que sabe a verdade, espalhe-a, profetisa vermelha.
Ao abrir os olhos, foi acalmada pelos olhos castanhos arregalados de Demétria que parecia atônita. O corpo de Sunna estava destruído, completamente tensionado formigando, seus ouvidos ainda eram maltratados com aquela som, mas felizmente baixo, e seus ombros, esses ardiam como brasa, mas nada se comparava a como a cabeça de Sunna estava bagunçada naquele momento, ela não sabe como não gritou, talvez estivesse presa aos olhos de Demétria, focou em seu rosto mesmo tendo o visto milhares de vezes, os lábios delicados e sempre corados, as maçãs do rosto acentuadas, a pele cor de bronze, aqueles longos cabelos castanho claro sempre presos em tranças complexas que Sunna sequer tinha ideia de como ela fazia, mesmo que sua expressão fosse de completa preocupação e surpresa apenas sua presença ali acalmava Sunna, pois admitindo ou não Demétria era tudo que a restava, sua única amiga e a família que ela escolheu para si. Só então ela se deu conta de que sua cabeça estava sobre as pernas de Demétria, a sua direita Minerva deitada no bendito cesto da noite anterior. Minerva, Caos, finalmente tudo voltou para Sunna acertando-a como um tapa, fazendo-a levantar num impulso voraz.
- Não tenho tempo para explicar. Pegue Minerva e suba para meu quarto, só preciso de 10 minutos. - Os olhos de Demétria se agitavam e sua boca estava aberta procurando palavras, mas no final ela apenas sacudiu a cabeça, pegou Minerva e olhou para Sunna com as sobrancelhas grossas arqueadas e disse:
- Espero que saiba o que está fazendo.
- Confie em mim, eu sei. - A resposta de Sunna estava longe de confortar o coração de Demétria, mas era tudo que podia ser dado naquele momento e para ela era o suficiente. Demétria não olhou para trás, confiando novamente de olhos fechados em sua amiga.
As instruções de Caos estavam gravadas na pele de Sunna e ela tinha que agir, se as visões de Caos estivessem certas, e estavam, naquele exato momento havia um nefilim em Filgord, na praça principal informando sobre os acontecimentos da noite anterior de maneira manipulada e tendenciosa, em outras palavras, mentiras. Ela precisava fazer algo a respeito, mas não pessoalmente, era perigoso demais, arriscado demais, logo, ela resolveria isso do jeito que nasceu pronta para fazê-lo, com magia. Começou por pegar sua longa capa vermelha presa ao gancho do cabideiro e a jogou sobre o ombro, correndo para a cozinha, afastou sem qualquer preocupação os poucos objetos a mesa. Respirando fundo, ela pega um vaso de planta atras dela que servia de decoração derramando apenas a terra sobre a mesa, estava na hora de começar outro feitiço, posicionou a capa na mesa afastada da terra e virou-se para pegar uma faca em uma das gavetas. Finalmente com tudo em mãos, Sunna leva a faca até a palma de sua mão esquerda, fazendo um corte profundo na palma assistindo a pele abrir e o sangue rapidamente empoçar, ela fecha a palma deixando que pingue na areia. O vento sopra forte por todos os cantos, indomável, poderoso, carregado de energia apenas esperando o comando de Sunna para agir. A profetisa fechou os olhos sentindo seu corpo ser preenchido por aquele poder, então concentrou sua energia e intenção no sangue em contato com a terra enquanto proferia em sussurros um cântico antigo de sua vida antiga. Abrindo os olhos, Sunna assistiu a terra secar ao ponto de se assemelhar com cinzas, mas ela não tinha tempo para admirar, com um simples movimento de dedo, a capa cobria a areia causando a ilusão de que alguém a estava vestindo, outro movimento na mão, Sunna desenhou no ar um símbolo de Hades e assistiu a capa sumir pela janela numa velocidade surpreendente. Coberta pela presença da magia, Sunna seguia controlando a capa até o encontro do anjo, essa era sua missão, seu destino, proteger Minerva e prepara-la para ser o que nasceu para ser e ela estava preparada para isso, ela aceitava isso, faria exatamente aquilo dito por Caos, ela os faria enxergar, renascer. Usando a capa e areia como mediador, Sunna soltou aos sete ventos tudo que sua intuição a dizia ser coerente, se arrependendo apenas de não conseguir ver o rosto perplexo do nefilim.
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