Capítulo 5
Vlachs
Ao contrário do castelo de prata, Umber Hill era inteiramente feito de rochas ígneas escuras, poucas janelas e piso de madeira acinzentada recentemente trocado. Claramente não alcançava a tão grandiosa majestade e luxo esperados de Apolo, mas curiosamente parecia mais imponente. Enquanto o castelo de Sora parecia uma peça rara e valiosa sob posse de um cuidadoso colecionador, o castelo de Vlachs, pelo contrário, parecia ter sido forjado pelas mãos ásperas de um ferreiro habilidoso, os braços que compunham a armadura de Vlachs, era uma fortaleza, mas também era um lar. Mais uma diferença entres ambos os castelos, um deles abrigava afeto.
Umber Hill, como era chamado o castelo, era considerado o ponto central de Vlachs, um reino que meneava entre sua independência e o governo de Apolo, já que Arcade era um continente inteiro ao seu comando. Significando que independente do governante daquela área, ela ainda pertencia a Apolo, e assim era por todo o gigantesco território, impossível de ser governado por apenas uma pessoa. Vlachs se diferenciava juntamente a outros reinos do Oeste, parte cedida aos demônios após a segunda grande guerra, não era pouco, mas não chegavam à metade da potência que um dia já foram. Esse é o preço que se paga pela derrota.
E felizmente, os atuais governantes além de reconhecerem que uma guerra naquele momento não os levaria a lugar nenhum, se não até a ruina, também estavam ocupados demais com suas responsabilidades internas, principalmente sua rainha. Elizabeth Tepes Drácula, conhecida por ser uma rainha bondosa e perspicaz que no momento, encontrava-se em um dos muitos quartos de Umber Hill, deitada em uma cama bagunçada e espaçosa. Naquela noite de verão um ano antes do nascimento das princesas Selene e Sigel, Elizabeth dava luz ao herdeiro de Vlachs, mas infelizmente fazia isso sozinha.
A noite quente de verão somado ao esforço do parto deixaram Elizabeth ensopada de suor, não bastando os gritos de dor e a câimbra nas pernas, sua mente insistia em voltar para Vlad. O rei havia partido rumo a um dito acerto de contas a Oeste, ele e sua tropa saíram há pouco mais de dois dias, estavam demorando mais do que de costume. Era normal as viagens em grupo demorarem mais de três dias, já que o único capaz de caminhar sob o sol era Vlad, mas algo daquela vez não parecia certo, Deva'd não era um reino grande, muito menos dono de uma forte força militar, independente do que Vlad exigisse como pagamento por suas dividas eles aceitariam facilmente, reconheciam não ter chance alguma contra magiecs tão bem treinados quanto os homens de seu marido. Seriam covardes demais para se impor contra, e Elizabeth conhecia bem a covardia humana. Sua preocupação em si era com os próprios devanos, eles deveriam rezar para seu Deus mudo para que as tropas saíssem o mais rápido possível. Cortando seus pensamentos, outra dor dilacerante a atingiu, fazendo a rainha gritar ainda mais alto.
- Vitya! Por favor, diga-me que essa criança já saiu. - Chamando por seu irmão com a voz completamente instável, tudo que recebeu foi um aperto forte em sua mão tentando conforta-la.
- Ainda não Liz, mas está quase, aguente mais um pouco. - Até mesmo a voz calma de Victor falhava, seu irmão de fato não suportava sangue, mas fez questão de estar presente ali, não para substituir a presença de Vlad, mas para compensar a ausência dela. - Dina, como estão indo as coisas...- Precisando de uma pausa para buscar palavras apropriadas ele continuou após um curto período. - Aí em baixo?
- Ele está sentado, é um bebê teimoso majestade, precisa ser forte. - A parteira parecia a única de aparência calma naquele quarto, até mesmo as criadas que entravam e saiam trocando os panos ensanguentados estavam pálidas e tremulas. Mesmo exausta, Elizabeth admirou a confiança de mulher.
- Está bem. - Respirando fundo, a rainha pressentil outra contração chegando. Victor secou as gotas de suor que escorriam pela testa de sua irmã ainda segurando sua mão, finalmente focando em expulsar a criança teimosa de dentro de seu útero o mais rápido possível. Era inevitável não pensar em Vlad, em querer ele naquele momento ao seu lado, ninguém a poderia culpar por isso, mas ela se culpava. Ela poderia ter tido aquela conversa com Vlad antes, se isso tivesse acontecido ele estaria ali, mas não estava, essa seria a última vez que sua ausência tomaria tanto espaço, ela faria que fosse. Como se pudesse ler seus pensamentos, Victor afasta seus cabelos molhados de suor dando um beijo delicado em sua testa.
- Vlad ficará bem, você sabe disso. Tudo que pode controlar no momento está aqui, então seja forte. - Sem forças para falar, Elizabeth apenas assente confortável com presença dos ali presentes, em resposta, ela sorri em meio a dor.
A lua cheia iluminava a armadura escarlate coberta de sangue trajada por Vlad, o vampiro caminhava calmamente esbanjando todo seu esplendor, o rosto de um campeão sem riscos a correr. Seus cabelos negros a altura do ombro se emaranhavam pelo vento forte enquanto seus olhos cor de mel observavam ao redor, brilhantes e incisivos como os de um predador, o suor brilhando sobre a pele clara iluminada pela lua e a suas costas o mundo ardia em chamas. O exército de vampiros destruía Deva'd ao seu comando, um império ao chão, lutando para sobreviver aos seus pés, essa era a visão de Vlad. Rence, recente rei de Deva'd rastejava para longe de Vlad, roupas de alta costura sujas de terra, os cabelos dourados bagunçados caindo sobre os olhos, olhos antes azuis como gelo pareciam tornar-se cinza, temerosos, despedaçados. Adjetivos que se aplicavam perfeitamente ao rei sem coroa, com o rosto ainda molhado pelas lágrimas que derramou sobre os corpos de sua rainha e filha, mortas pela crueldade e pelo fogo. Não, por Vlad. Foi o que o jovem rei pensou antes de escorregar e cair contra o chão úmido, encharcado do sangue seu povo.
A luta contra Deva'd foi rápida, mas ainda assim precisaram de um dia para vencê-los. O exército de Rence, apesar de estar em maior número, foi derrotado assim que a lua chegou ao céu e agora o reino estava em ruínas. Segundo alguns humanos, não se vence uma guerra, talvez por nunca terem o azar de guerrear com vampiros, muito menos vampiros numa lua cheia. Rence conheceu esse azar, esse medo e impotência. Podia ouvir o choro dos órfãos em busca de suas mães, de homens aflitos lutando para proteger suas famílias, poderosos de sua corte agarrando-se ao último farrapo de vida que lhe escapava pelos dedos, tão insignificantes e impotentes quanto os corvos que comeriam suas entranhas mais cedo ou mais tarde, mas parecia que Vlad era incapaz de ouvi-los. O vampiro estava a poucos passos de Rence que agora aprecia duvidar de seus olhos, a armadura de Vlad parecia derreter conforme ele se aproximava, só então percebeu que se tratava de sangue, o metal escarlate de sua armadura tinha a cor do sangue de seu povo, pingando ao chão como chuva.
- Sua dívida foi quitada, pode ir. - A voz rouca de Vlad soou entediada, apática. Mesmo olhando Rence de cima, não possuía um ar de superioridade, seu objetivo tivera sido concluído, não iria continuar ali.
- Não vai me matar? - As palavras do rei saíram sem seu consentimento, uma espontaneidade burra que o fez trincar o maxilar após perceber seu erro. Para sua sorte ou azar, Vlad não demonstrou reação alguma além de olhar-lhe nos olhos.
- Eu não mato covardes. - A ofensa do vampiro atingiu Rence como um soco no estomago. Que tipo de rei deixaria seu povo e família ser dizimado sem ao menos lutar? A vergonha dentro de Rence o embrulhava o estomago, tanto que a bile subiu até sua garganta, fazendo-o engolir em seco. Só então notou o medo desaparecer de seu corpo como uma brisa passageira. Medo, isso já não fazia mais sentido para ele, o medo só existe quando se existe o que perder, e Rence já não possuía nada que o prendesse, suas raízes foram arrancadas e transformadas em cinzas contra sua vontade, sua coroa se perdera nos destroços do pequeno reino em que cresceu, por um segundo ele pode ver suas memorias de infância nele, seus amigos dentro e fora da corte, onde estariam? Mortos. O querido padeiro que mimava a ele e seus amigos com doces recém tirados do forno, teria ele escapado? Rostos iam e vinham em sua memória como fantasmas acompanhados sempre, não do adjetivo, mas do fato. Mortos. Mortos por um erro dele, mortos não só por Vlad, mas por ele. Erguendo-se do chão, Rence seca as lágrimas restantes de seu rosto e ergue sua postura transformando vergonha, ressentimento e dor em ódio, em seu mais puro estado, o tipo de ódio cego que só busca uma alternativa, destruição.
- Eu juro Vlad, juro sobre o sangue dos meus e sobre o solo em que nasci que irei mata-lo, destruirei tudo que ama e então sentirá o que senti. - Ódio, ódio, ódio. Era isso que gritava subjetivamente. Destruído pelo ódio, mas renascido sobre ele, assim a promessa do rei se firmou, sem escrivão ou qualquer outra formalidade, não restara nada além de ódio.
Um dos soldados de Vlad aproximou-se de maneira minaz, encarava Rence de cima esperando que o rei recuasse, mas ele não o fez. - Nomagic tolo, não percebe que lutar é inútil? Agradeça a misericórdia do filho do dragão e corra! - A mulher alta de voz segura o alertou em um tom nítido de ameaça. Rence não seria expulso de seu próprio reino, se fosse embora, seria por sua vontade. Aparentemente a cena chamou atenção de Vlad, agora assistindo com certa curiosidade nos olhos. - Não ouviu? Vá embora. - Dessa vez, o forte empurrão da soldada o devolveu ao chão, mas ao invés de ir, Rence levantou-se, calado, sem qualquer expressão de dor em seu rosto enquanto o mundo desmoronava em sua mente, destruindo tudo que um dia foi. A mulher estava prestes a soca-lo quando Vlad segurou sua mão.
- Acha que já não é tarde demais para isso Deva'd? Olhe em volta, não há porque ou por quem lutar, poupe o folego e paciência dos meus soldados. - O desprezo nos olhos escuros do rei vampiro era nítido, se pudesse lê-los, Rence enxergaria "insignificante" escrito neles enquanto o olhava. Sendo esse o estopim para a ira do rei sem coroa, não disfarçou a expressão em seu rosto, pelo contrário, fazendo questão de arquear o máximo possível suas sobrancelhas e trancar a mandíbula. Vlad apenas suspirou em reação. - Escute. - Antes que pudesse desviar, o chute do vampiro atingiu seu estomago fazendo-o cair de joelhos ao chão, observando as botas de Vlad, que agora ajoelhava-se para encarar Rence, que tentou se afastar desferindo um chute contra o mesmo, mas não foi o suficiente, Vlad desviou do chute com uma velocidade sobre-humana segurando seu pescoço. - Quero que lembre disso Deva'd. Você só respira porque eu permito que seus pulmões expirem o ar, portanto você só morrerá se eu o julgar digno de tal destino. Você não é poderoso, é frágil como as pétalas de uma rosa. Nem o mais forte dos humanos é capaz de vencer um vampiro primário, entende? Entende que todo o livre arbítrio que vossa majestade acreditou possuir está tirado de você? Os fortes escolhem quem vive e quem morre, os fortes determinam o destino dos fracos e convenhamos, você não pertence aos fortes, não é? - A voz baixa e séria de Vlad parecia hipnotiza-lo, talvez pela dificuldade de respirar, talvez pela raiva pulsando em suas veias louca para ser exposta. Um calafrio percorreu a espinha de Rence assim que foi liberto do toque quente do rei vampiro, agora dando as costas a ele e indo em direção a um majestoso cavalo.
- Não. - Foi só o que conseguiu dizer, Rence não pensava, agia por instinto, uma emoção que formigava sua pele e o fazia apertar o punho a ponto de deixar as juntas brancas. O rei não sabia se queria ser morto por Vlad, ele não lutaria caso acontecesse, tudo que queria no momento era sentir outro algo além da sensação de ser esmagado por dentro. Apesar disso, Vlad continuou caminhando, o que aborreceu Rence ao ponto de o mesmo roubar a espada presa a bainha de Vlad e aponta-la contra o mesmo.
- Lutar contra alguém mais forte que você não o torna corajoso, o torna meramente burro. - Virando seu corpo para infrentar a espada tremula às mãos de Rence, Vlad o encara desafiando-o, tanto que chega a abrir os braços deixando o peito desprotegido. - Isso vai ser interessante, vá em frente.
O rei sequer hesitou, com toda sua força desferiu um golpe contra o pescoço de Vlad já imaginando o sangue esguichando em seu rosto, mas não foi o que aconteceu. Vlad não desviou do golpe, mas o único resquício do golpe de Rence foi um corte fino em sua bochecha a qual uma linha vermelha deixou escorrer uma gota de sangue. - Vai pagar por isso Deva'd.
Foi o que disse antes de devolver Rence ao chão. No céu a lua brilhou sem qualquer nuvem para cobri-la graças aos ventos fortes, ventos esses que apagaram qualquer resquício de humanidade que existira dentro de Vlad por aquele momento, entregando-se ao doce sabor da loucura proporcionado por Lyssa a todos os demônios amaldiçoados pela lua. Sacando a adaga presa a sua bota, o vampiro a empunha em sua mão esquerda enquanto arranca a frágil armadura trajada por Rence com a direita. O rei luta, mas não grita, isso até Vlad vira-lo e começar a talhar cortes profundos em suas costas. Os gritos de dor de um homem que jamais sentira o peso de uma violência como aquela, que jamais havia provado de uma dor maior que uma queda de cavalo, mas não ali, naquele momento Rence aprendeu que que a dor constrói e a vida o estava dando as ferramentas, a promessa que havia feito seria cumprida, ele poderia não matar o vampiro, mas destruiria tudo que um dia foi dele, já Vlad, fez questão de terminar sua arte nas costas de Rence, deixando nelas cravada um fardo que sempre o acompanharia. "Rei caído" era o que dizia em letras maiúsculas talhadas a faca e pele arrancada sem qualquer delicadeza, cicatrizes eternas marcadas pela crueldade. - Sangue por sangue. - Disse finalmente deixando as costas de Rence. - Não que o seu valha de algo.
Deitado, sangrando, atordoado, Rence assistiu Vlad e os seus montarem cavalos deixando a cidade que um dia ele chamou de lar, mas mesmo após a nitida demonstração de dor dada por Vlad, a sensação formigante do ódio ainda cobria a pele de Rence, ironicamente, o único lugar livre da raiva reverberante de Rence eram suas costas. Maldito corpo humano, frágil demais para resistir, teimoso demais para desistir, vingativo demais para deixar ir.
A aurora logo chegaria e com o aproximar dela a consciência dos vampiros retornava. Todos os demônios, dos infernais a lycans, sofriam uma forte influência da lua cheia, alguns mais que outros, no caso dos vampiros, sua humanidade se tornava frágil como um tecido de ceda, qualquer movimento brusco era capaz de rasga-la, invertendo a verdadeira natureza dos vampiros, fazendo-os agirem por um instinto geralmente territorial, possessivo, protetor ou até assassino. Apesar disso, demônios em uma lua cheia são praticamente invencíveis, suas forças e magia chegam a sua fase completa, aumentando sua regeneração ao ponto de reconstituir um braço cortado. Sendo esse um dos motivos da péssima fama dos demônios, sua falta de controle sobre si mesmo durante a lua cheia resultava em atrocidades, mas também os ajudava a vencer guerras e manter possíveis inimigos afastados, sendo eles os únicos a conseguirem enfrentar um nefilin de maneira justa.
Mas para alguns demônios, tal fenômeno era conhecido como "maldição da lua", já para outros, "presente da lua", para Vlad ambos caminhavam lado a lado. Os soldados comemoravam sua vitória rindo alto e completando suas armaduras de nióbio, no intuito de proteger-se do sol. O rei vampiro, pelo contrário, apenas cavalgava livre de qualquer armadura, não precisava, vantagem compartilhada por qualquer vampiro primário, a habilidade diurna os protegia do sol. Entretanto, nenhuma habilidade genética apagaria seu passado, as memorias de todas as guerras inúteis que lutou, todas as vidas que tirou a sangue frio, sendo a de Rence apenas mais uma para a grande dívida que tinha, se Vlad seguisse algum Deus, provavelmente faria incessantes oferendas a Hades para se redimir, mas incenso e comida era o preço de uma vida? Fraco, era o que seu pai o teria dito se soubesse o que se passava em sua cabeça naquele momento, " o empalador", impiedoso, temido e reverenciado, o vampiro, mas poderoso que já pisou na terra, pelo menos até Vlad acertar uma espada de prata em seu coração. O peso de mais uma morte e de um legado que se esperava que ele seguisse, se esse era o preço da redenção, ele seguiria. Uma expressão séria tomava conta de seu rosto, a barba por fazer o fazia parecer mais cansado do que realmente se sentia, mas seus olhos distantes denunciavam seu desconforto, pelo menos para aqueles que conseguiam lê-lo.
O trotar de um cavalo aproximou-se tomando a atenção de Vlad. - Meu rei, algum problema? - River, general no comando de suas tropas, agora cavalgava ao seu lado, seu rosto parecia preocupado e Vlad entendia o porquê. River o criou desde pequeno, o ensinou a lutar enquanto seu verdadeiro pai organizava conselhos de guerra na sala principal, ou simplesmente saia para caçar vidas humanas em plena lua cheia, mesmo velho demais para julgar as prioridades de seu pai, Vlad sentiu um nó formar-se em sua garganta.
- Nada que precise se preocupar. Eu só devo estar amolecendo, apenas isso. - A resposta, mesmo que sincera, foi fria na tentativa de afastar River.
- Não lembro de tê-lo ensinado que misericórdia é fraqueza, pelo contrário, é humanidade. - Entre as muitas qualidades do general, sábio estava entre elas, um mestre na arte de acalmar até o mais aflito dos homens. Vlad sabia que não poderia fugir daquela conversa, também sabia que precisava tê-la. Em resposta, assentiu. - Sentir remorso é natural, me preocuparia se não sentisse. - River suspirou procurando palavras para continuar seu discurso, instintivamente ou não Vlad o interrompeu, sabia onde essa conversa ia chegar.
- Eu devo isso a ele, River. Cuspi em seu legado e desfiz séculos de tradição, meu egoísmo mudou tudo que meu pai e antepassados construiriam.- Vlad nunca fora um homem frio, principalmente com aqueles de sua confiança, mas com River era diferente. O general o havia ensinado tudo que sabe, conhecia suas fraquezas como ninguém. Se fosse um pouco mais parecido com seu pai, Vlad já o teria assassinado para prevenir uma traição, mas nunca o ocorrera tal pensamento.
- Lady Elizabeth ficaria muito frustrada com seu arrependimento a essa altura, não que eu vá contar, mas mulheres tem um faro bom para segredos. - O general tentava tornar o rumo da conversa minimamente confortável e aparentemente funcionou, apenas a menção ao nome da rainha foi o suficiente para suavizar e expressão tensa de Vlad. - O que está feito está feito Vlad, nem os Deuses podem mudar o passado, vosso pai está morto descansando em forma de cinzas em uma bela urna de prata, junto a aqueles que vieram antes dele. Posso não ser religioso, mas até onde sei, os mortos não interferem nos vivos, não sentem dor ou remorso e muito menos criam expectativas. - As palavras de River eram gentis mesmo seu tom de voz mantendo-se sério. Vlad o ouviu com atenção, não discordou ou justificou uma palavra que fosse, apenas deixou o discurso de seu amigo ser levado pela brisa oeste enquanto cavalgavam em silencio para casa.
Mesmo com a euforia de retornar para suas famílias com notícias de vitória, a viagem demorou mais que o esperado, principalmente quando o sol atingiu o centro do céu, enfraquecendo a maioria, senão todos os vampiros. Por sorte, todos trajavam as armaduras diurnas por completo e Vlad havia descansado suficiente para guia-los por seus tuneis subterrâneos. A chegada em Vlachs aconteceu apenas após o pôr do sol, ao descer do cavalo, Vlad é recebido com um tumulto sorridente de servos que falavam rápido demais para que ele compreendesse mais que palavras soltas, isso até a palavra "bebê" chegar aos seus ouvidos.
- Bebê? Nasceu? - A multidão confirmou sorridente, quase tão ansiosos quanto Vlad.
- Parabéns senhor, é um menino. - Samantha, governanta do palácio de Umber Hill, disse já o puxando para fora da multidão, Vlad estava em choque, o bebê nascera antes do previsto e ele não foi capaz de ver. Uma magoa súbita golpeou a alegria dentro dele, Liz teria dado à luz sozinha, ele perdera o primeiro brilho de seu menino. Menino, Vlad estava tão imerso que só então havia notado, ele e Elizabeth só haviam pensado em nomes de menina, baseados no histórico de sua família onde geralmente o primeiro bebê sempre era menina. O vozeiro ressoava atras deles, agora seus soldados também comemoravam a chegada do príncipe, deixando Samantha guia-lo pelos corredores e escadas que já estavam gravados em sua memória, mas por um motivo que ele sequer entendia, não conseguia recordar o caminho para o próprio quarto.
- Não precisa temer majestade, madame Elizabeth e o jovem mestre estão bem, ele é um garotinho saudável. - A preocupação de Samantha fazia sentido, já que nitidamente as mãos de Vlad tremiam levemente, ao menos até chegarem ao quarto. A grande porta de madeira semiaberta iluminando o corredor escuro, Samantha o deixara sozinho, a pouco menos de um passo em direção a porta. Todo cansaço da viagem sumira, tudo que sentia agora era uma forte ansiedade e um frio em sua coluna, tentando controlar a si próprio, Vlad entrou quarto a dentro.
- Achei que não iria entrar. - A voz melódica de Elizabeth soara como a bronca de uma mãe, papel que agora ela exercia. Vlad não conseguiu dizer uma palavra, apenas observava. Elizabeth estava de costas para a porta sentada sobre a cama balançando o berço ao lado da cama. - Venha, ele quer te conhecer. - Assim Vlad fez, aproximou-se evitando ao máximo causar qualquer barulho que pudesse assustar o bebê.
A primeira coisa que reparou foi seus olhos, obviamente o brilho já tinha se apagado há muito, mas ele ainda tinha um pouco de esperança, entretanto, foi surpreendido de outra forma, o pequeno tinha olhos idênticos aos de Elizabeth, um âmbar amarelado, era como encarar um lince. - Ele tem seus olhos. - Foi só o que conseguiu dizer, quase como se estivesse preso em um transe hipnótico. - É magricela e parece um filhote de coruja. Ele é lindo. - A espontaneidade dos comentários arrancou uma risada contida de Elizabeth.
- Eu pensei o mesmo, mas todos faziam questão de me parabenizar por ter dado à luz a um bebê tão bonito. - Ambos riram, agora entreolhando-se, como se tentassem ler a mente um do outro, ele sabia o que viria a seguir, deixou seus olhos falarem por ele, pois sabia que Elizabeth entenderia, ela o lia como um livro que só ela era capaz de compreender. - Ele nasceu ontem à noite. Deve estar surpreso já que estávamos convictos que seria uma menina.
- Não somos muito tradicionais. - Ainda olhando para a Elizabeth, tudo que queria fazer era abraça-la forte, queria compensar sua ausência por um motivo tão fútil. Vlad precisava se redimir, tanto com sua rainha, como com sua consciência. - Eu queria estar aqui, se eu soubesse eu não teria ido. Eu sinto muito, Liz.
- Eu sei que sente, tão quanto sei que será um bom pai para essa criança. O que eu vou dizer agora pode parecer egoísta Vlad, mas escute. - Elizabeth levantava-se respirando fundo frente a frente com seu marido. Chegava a ser engraçado o quão imponente ela parecia mesmo tendo metade da altura dele.
- Se for sobre eu manter o legado de meu pai vivo, acho que não precisamos conversar novamente. - O rosto da rainha permaneceu o mesmo, mas Vlad conseguia ver que era exatamente disso que se tratava a conversa. - River conversou comigo sobre durante o caminho, sei que ambos me querem bem e seguro, mas não é como se entendessem o fardo que carrego, nós destruímos uma dinastia de séculos e eu faria tudo outra vez. Por favor não duvide disso Liz, eu amo você, mas preciso me redimir de algum jeito.
- Tudo que eu quero é a certeza de que vou acordar e você vai estar aqui. Eu posso realmente não entender essa sua obsessão por redenção, justo quando seu pai nunca foi um exemplo de afeto. O legado dele era de morte, trevas e subordinação, e você deu a seu povo liberdade, eles não temem você, mas temiam seu pai. - Agora a respiração de Elizabeth era quase inaudível, assim como seus batimentos cardíacos. Já o olhar de Vlad era desconfiado, não compreendendo até onde ela queria chegar. - Por que insiste em manter um legado que não cabe em você? O rei deles, o meu marido, o pai do meu filho não é um tirano. Você não é frio ou cruel, nunca vi sequer um resquício de seu pai em você, nem mesmo quando lutamos lado a lado e o vi matar pela primeira vez. Você não é ele.
- Mas fui eu que o matei. Não só a ele, mas todo o legado de gerações, antes de mim, Vlachs era tão poderosa quanto Sora, éramos intocáveis e meu pai fez isso. - A voz de Vlad se tornou mais baixa, a frustração o assolava por completo gritando para que encerrasse aquela conversa e fugisse para a sala de guerra para preparar outro plano de ataque a algum reino menor. Ele quase chegou a fazê-lo, desviando os olhos dos de Elizabeth e preparando-se para sair do quarto, mas ela segurou seu braço, voltando a ficar frente a frente com ele.
- Você será mais feliz se conseguir isso? - Foi tudo que perguntou, mas Vlad não respondeu. Em seu amago, ele não sabia o que responder, a pergunta o havia assustado, confundindo sua cabeça. Após minutos de um silencio esmagador, Elizabeth continuou. - Se a resposta for sim, chame o ferreiro e o diga para consertar minha antiga armadura, pois eu lutarei ao seu lado por isso. Nós dois destruímos as tradições, você com os vampiros e eu com os humanos, nós começamos isso, logo ambos somos os culpados. Mas se sua resposta for não, diga-me, porque sua culpa é maior que seus princípios? Porque está tão desesperado para ser alguém que você sempre discordou? - A respiração calma da rainha desapareceu, havia se esquivado de sua postura, ela não precisava dela em frente a Vlad, que continuava evitando contato visual.
- Há tempos eu desejei que as pessoas entendessem a mim sem que eu precisasse dizer nada. Eu não sei responder a sua pergunta e muito menos sei justifica-la, eu só. - A respiração funda antecedeu o endireitar de ombros e os olhos voltando a encontrar os de Elizabeth. - Eu quero que ele se orgulhe de mim, quero ser o rei que ele sonhou que eu fosse, é o único jeito de me redimir.
- Ah Vlad. - Um suspiro de alivio escapa pelos lábios pálidos da rainha, ela volta a sentar-se, mas mantem o contato visual. - Quando olha para aquele garotinho ali, você deseja que ele siga o mesmo caminho que você persegue hoje?
- Não. - A resposta saiu quase automaticamente, mais rápida que seu raciocínio. Surpreendendo a si mesmo, finalmente Vlad notara onde Elizabeth queria chegar.
- Não faz sentido sacrificar tanto por tão pouco, escolher o passado ao futuro. Seu pai é seu passado, mas ele, seu filho é seu futuro, seu legado está nele e ele irá se inspirar em você, mas se você continuar com esse desejo suicida apenas estará criando uma nova versão de seu pai. - Os olhos de Vlad piscavam rápido conforme ele processava as palavras de Elizabeth, mas permanecia em negação, balançando a cabeça.
- Isso pode enfraquecer o reino, inimigos podem acreditar que recuamos e verem nisso a oportunidade de invadir, e mesmo que já tenhamos lutado lado a lado não quero que se arrisque, também sei que não quer mais lutar, você mesma disse. É um futuro lindo o que está me pedindo, mas é impossível, utópico, praticamente irreal. - Euforia, medo, ansiedade, negação. As feições de Vlad oscilavam embora seu corpo continuasse parado, ele estava nervoso, tão quanto Elizabeth, mas ela permaneceu sentada, e pela primeira vez, desviou os olhos de Vlad.
- Nós também éramos impossíveis, utópicos e irreais. No fim você me convenceu, me conquistou e como me prometeu, me tornou sua rainha. Eu nunca sonhei com um palácio e um título como esse, era impossível, irreal e utópico. Mas agora estamos aqui, eu e você, derrubamos o maior império de todo Oeste de Arcade, eu sou a primeira rainha transformada da história e nosso filho é o primeiro a nascer de uma relação entre um vampiro primário e um secundário. Nós fazemos o impossível, Vlad. Quanto a mim, quanto ao que eu quero é a certeza de que vou acordar com meu marido vivo ao meu lado. Eu não me importaria de ir à guerra ao seu lado se soubesse que o ultimo rosto que eu veria seria o seu. Me diga, pode me garantir que nenhum adeus que me deu antes de suas missões era o último? Porque a cada um eu sentia um pedaço de mim morrer, as noites em que chorei porque sonhei que você não voltaria e imaginava como eu seguiria sem você, questionando se você me amava, por que depois de tudo que precisamos fazer para ficarmos juntos, por que você partia? - As lágrimas de Elizabeth se recusavam a cair, seu corpo completamente tenso e seus olhos ainda evitando os dele. - Tudo que conquistamos não vale de nada se você não estiver aqui. Tudo que eu quero é uma pequena eternidade com você.
Ao chão. Tanto as lágrimas de Elizabeth como os joelhos de Vlad, ele ajoelhou-se para olhar nos olhos dela, para secar suas lágrimas e segurar suas mãos. Ambos passaram um momento em silencio, novamente, apenas se encarando, falando pelos olhos. Vlad tinha uma escolha que se tornara facil de fazer, deixou o peso do passado cair de suas costas e olhou para o futuro, ela era seu futuro, foi por ela que lutou e por ela seguiria lutando, ela e apenas ela.
- Eu ficarei, ao seu lado e por todo o tempo que nos resta, não perderei mais nada de nosso garotinho. Eu prometo. - A voz baixa e solene de Vlad acalmou o coração da rainha, arrancando dela uma respiração funda e o medo que há tanto tempo guardava. As cinzas do passado haviam finalmente sido varridas para longe, dando espaço para um novo futuro, um legado cuja o jovem príncipe seria livre e o novo rei governaria por si.
- Alucard. - Disse Elizabeth já livre da voz tremula.
- Como? - A palavra não fazia sentido para Vlad que de fato não entendeu o contexto.
- O nome dele, eu pensei em Alucard Lowliet Tepes Dracula. - Finalmente o anagrama de Elizabeth fazia sentido aos ouvidos de Vlad. O nome de seu pai era Vlad Dracul Tepes, sendo Dracul um título que outrora tornou-se sobrenome, Dracul significava dragão, pois segundo seus inimigos, Dracul destruía tudo por onde passava. Já seu filho foi nomeado com Vlad Tepes Dracula, onde drácula significava "filho do dragão", lembrando-o do que se esperava dele, o filho da destruição. Mas não Alucard, ele seria o contrário de seu avô, o renascer das cinzas deixadas pelo Dragão.
- Gosto desse. Nosso pequeno Alucard. - Ambos sorriram, um sorriso aliviado de dois corpos que finalmente podiam descansar felizes antes de dar o próximo passo de sua jornada. Vlad ergueu seus joelhos do chão e delicadamente beijou Elizabeth, que o retribuiu sentindo o calor afetuoso do abraço de Vlad. Ao fim do beijo, ambos apenas observavam Alucard dormir enquanto Elizabeth contava detalhadamente sobre o parto e como Victor e Helena a haviam apoiado. Por aquele simples momento, eles compartilhavam uma pequena eternidade que poderia prende-los ali se assim desejasse, eles estariam satisfeitos com isso.
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