Capítulo 4


     Os raios teciam teias de luz por todo o céu, um brilho dilacerante sob nuvens densas numa noite agora fria, principalmente para o receptáculo que corria entre os galhos finos de uma floresta úmida e fechada. Com a verdadeira Deusa em seus braços, a extensão da alma de Zefat seguia a brisa quente em meio ao frio ocasionado por Apolo, que no momento, deveria estar vangloriando- se de sua vitória sangrenta, por sua vez, a jovem Deusa dormia tranquila, mesmo com a velocidade dos passos de Zefat, ou o que restou dele. O receptáculo logo desapareceria, assim como a vida desapareceu do sacerdote com tanta facilidade, revelando sua insignificancia.

     Sentindo suas pernas falharem, o receptáculo aumentou o ritmo de sua corrida, um dos pontos positivos de ser nada além de magia, ser definido como sobre-humano era a melhor descrição que encontraria para "ele", sem nome, sem proposito ou destino, magnifico enquanto existisse, vivo da magia de outro, um corpo sem alma, e sem alma, sem magia. Era isto que era, uma casca preenchida pela magia de outro, magia esta prestes a desaparecer com Zefat, levando o ultimo resquício que deixou na terra. Entretanto, algo despertou a curiosidade do receptáculo, Zefat podia dividir a dor de sua morte com ele, mas não fez, mesmo conectados o sacerdote aguentou tudo sozinho. 

   Talvez por ter esquecido, talvez para proteger a Deusa, talvez para pelo menos na hora da morte não ser um covarde, ele não era. Sendo essa a conclusão do receptáculo. E mesmo apesar de toda a velocidade, não sentia estar sequer perto de onde a brisa o guiava, e a essa altura já estava prestes a desaparecer, isto é, até quase tropeçar em uma grande inclinação, quase um penhasco. Parado observando o terreno acidentado, o falso Zefat pode ver um amontoado de luzes fracas a poucos metros dali.

   Se a brisa vermelha realmente fosse o destino da jovem Deusa, ela acabaria a encontrando mais cedo ou mais tarde, mas não poderia fazer isso morta. Era isto que aconteceria caso ele desaparecesse antes de leva-la a um lugar seguro. Com cuidado, o receptáculo derrapou barranco abaixo até o terreno torna-se plano o suficiente para que pudesse correr, a floresta parecia cada vez mais aberta, mesmo que as arvores fossem altas e grossas tinham um espaço relativamente grande entre si, um bom lugar para se esconder, pensou. As luzes aproximavam-se a cada passo, assim como a falsa pele de que lhe cobria tornava-se translucida.

     A clareira abria-se próxima a um pequeno rio de correnteza forte, não havia mais tempo, nem mesmo sua velocidade sobre-humana o ajudaria, estava fraco e longe demais, tudo que podia fazer era deixar a princesa em algum galho seguro e torcer para que fosse encontrada viva. Assim o fez, deixou-a em um amontoado de ganhos pequenos de uma árvore mediana, até sentir a brisa flamejante o envolver novamente, dessa vez guiando sua visão de volta ao rio agitado.

    Surpreendentemente um detalhe não notado antes se revelou diante de seus olhos, uma ponte e sobre ela, uma mulher se recostava, os olhos perdidos no horizonte, os cabelos ruivos como fogo eram a única cor no ambiente além de tons de preto, marrom e verde, a pele branca iluminada pela lua, que já voltava a sua forma cotidiana, mas ainda assim, as teias brancas vibravam no céu escuro. A mulher parecia prestes a chorar, mesmo de longe as lagrimas eram perceptíveis em um rosto sem qualquer expressão, só no momento em que a ruiva levantara seu corpo debruçado o receptáculo pode perceber seus lindos olhos ciano, tão claros que lembravam o gelo, não apenas pela cor, mas por parecerem tão sólidos e frios quanto o gelo de um ainda longínquo inverno. 

   A brisa quente o deixou, proporcionando a esperança em sua última visão, esperança essa que o verdadeiro Zefat não teve a mesma sorte de presenciar. Como se nunca tivesse existido, o receptáculo some.

     Os galhos que seguravam a princesa estalaram alto, assustando-a o suficiente para que chorasse, chamando a atenção da ruiva soturna antes prestes a partir, agora seus olhos curiosos procuravam a origem daquele choro. Não demorou para que atravessasse a ponte e encontrasse a pequena garota entre os galhos.

       — O que faz aqui pequenina? — A voz doce da mulher de olhos frios pareceu acalmar a garota ainda inquieta. — Quem seria perverso o suficiente para deixa-la sozinha aqui? E com essas roupas. — De fato suas na princesa eram de alta qualidade, alvas e macias, ninguém no vilarejo possuía condições de vestir seus filhos assim. Foi isso que a mulher chamada Sunna pensou. 

   — Bom, não importa. — Tirando-a do amontoado de galhos, Sunna acaricia uma de suas bochechas rechonchudas enquanto a segura cuidadosamente no colo. — Você não esta mais sozinha, posso não ser muita coisa, mas certamente sou melhor que aqueles que a abandonaram. 

   A criança calou-se, como se toda sua atenção estivesse voltada para a voz de Sunna, que até então estava calma, mas foi uma questão de tempo até a pequena abrir seus olhos revelando o incessante branco perolado em suas iris. 

  — Mas que ...— O praguejo se perdeu nos lábios finos de Sunna, sua surpresa era grande, mas não maior que seu fascínio sobre a jovem Deusa diante de seus olhos. A distração da ruiva somado ao dedo ainda próximo da pequena bochecha pálida da garota a rendeu uma mordida sem dentes. — Muito bonito de sua parte monstrinha, eu te acolho, e é assim que me agradece? 

    A recém nascida apenas continuou a mordiscar seu dedo mesmo após ser repreendida, a situação arrancou uma risada calorosa daquele rosto sério, e mesmo sem notar, em uma fração de momento Sunna sequer recordava das preocupações que causaram suas lagrimas.  — O mundo pode não ter sido muito justo com você até agora monstrinha, mas não se preocupe, vou cuidar de você. Minerva.

     Com a recém batizada Minerva em seus braços, Sunna seguiu rumo até sua casa ignorando a brisa inconveniente que a causara arrepios. 



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