Capítulo 13
Entre o crepúsculo constante, a alvorada permanente e o peso dos anos que se passaram, Minerva e Sigel cresceram. Distantes em costumes, ideais, ensinamentos, mas principalmente em prioridades e objetivos, os quais para Sigel vieram com a responsabilidade de um trono que em menos de um século seria dela, e com ele, o fardo de tradições e deveres que aos seus oito anos de idade estava longe de questionar, assim como nenhum herdeiro antes dela o fez. A princesa Eskyer conhecia o mundo através dos olhos de seus professores e seu pai, quem ela admirava pela coragem e esforços na luta contra aqueles que sequestraram sua já falecida irmã, Selene, Apolo não descansou um dia desde que a recuperou tentando honrar aos Deuses e proteger Arcade daqueles responsáveis pela maldição que caiu sobre os céus. Ao menos essa era a verdade a qual toda Arcade acreditava, todos exceto os demônios, Sunna e todos aqueles que sentiram o peso das ações de Apolo ao decorrer desses anos.
Medidas foram tomadas, todo o Oeste, território dos infernais, vampiros e lycans, foi considerado exilado e nenhum demônio era tolerado fora dos limites do território, agora três vezes menor do que originalmente demarcado no passado. As ações legislativas do rei estavam longe de misericordiosas para esse povo, levando-os a tentar resistir a elas, aos que sobreviveram, encontraram lugar em Vlaches, que se incumbiu da responsabilidade de abrigá-los. Assim como os demônios, outros grupos nasceram, dessa vez no coração do território não exilado, pequeno e composto por ladrões, contrabandistas, piratas, oportunistas, imagens, alguns poucos soldados qualificados que perderam seus empregos e qualquer um que não tivesse o que perder e tivesse um propósito. Assim nasceu a Lótus Negra, grupo iniciado por Sunna, mas não liderado por ela fora as imediações de Filgord, e por mais que a profetisa ainda fosse tida como uma charlatã aproveitadora, era temida o suficiente para que invasões a Filgord fossem no mínimo raras.
Apesar das preocupações que envolvem um Estado dividido e os perigos sempre ameaçando se aproximar, Sunna, Demétria e Rence descobriram-se plenamente capazes de criar um lugar acolhedor o suficiente para sua protegida, Minerva.
As "manhãs" de Filgord costumavam ser nubladas e frias, graças à sua posição elevada e à floresta que cercava toda a cidade, mas por sorte, nessa manhã quando acordou, Minerva D'luna encontrou o horizonte pintado em lilás e uma brisa quente e acolhedora anunciando que em breve o verão chegaria. Na cozinha, Willian chamava seu nome, apressando-a para tomar café da manhã, mas naquele momento ela estava ocupada travando uma luta árdua contra os cadarços de sua bota, em seu pequeno quarto no chale de madeira no topo da colina. As paredes, apesar de escuras, foram pintadas com diversas flores azuis e amarelas, galhos verdejantes e passarinhos, mas com estrelas coloridas e o céu escuro no teto, ela lembra de tê-las pintado com Demétria e Rence pouco depois do último inverno, mas naquele momento seu foco estava em seus pés. Ela não esperava que Willian viesse ajudá-la e também não queria sua ajuda, ela aprendeu a escovar e trançar os próprios cabelos, poderia muito bem fazer um laço, mesmo que seus dedos parecessem escorregadios e gordinhos demais para uma tira tão fina. Com pressa e quase irritada demais para alguém que acordou há poucos minutos, Minerva desistiu de um laço e decidiu que nós apertados serviriam, e eles serviram. Erguendo seu pequeno corpo do tapete verde ocre, o qual estava sentada, bateu a poeira de seu vestido, olhou ao redor antes de fechar a porta, essa pintada com coelhos brancos e algum animal verde que ela preferia acreditar ser um sapo, e desceu as escadas com pressa.
— Ficou presa nos lençóis outra vez? Sua comida está fria. — Willian mal esperou que ela terminasse de descer as escadas para lembrá-la do acidente vergonhoso de quase um ano atrás, mas ela já estava começando a acreditar que não faria lá muita diferença discutir sobre aquilo, então, pela primeira vez, decidiu ignorar. Em resposta, ele arregalou os olhos castanhos e fingiu estar boquiaberto. — Nem mesmo uma tentativa de chute no joelho? Que bicho te picou?
— Não consigo amarrar as botas, hoje teremos revisão de história e mamãe está atrasada há duas semanas. Estou guardando a birra para mais tarde. — Geralmente Willian parava com as piadas quando ela tocava no nome da mãe, mas ele não conseguiu segurar a risada diante o beicinho malcriado e as sobrancelhas pretas arqueadas com raiva. Minerva sentou-se à mesa servindo-se de pão com geleia, ignorando os ovos e o mingau, fazendo de tudo para não olhar para Willian.
— Desculpe por rir, você está chateada, mas não é desculpa para não comer o seu mingau. — O garoto a serviu uma pequena quantidade em uma tigela e sentou-se ao seu lado com o próprio prato já feito. Ela gostava de Willian, mas preferia ele quando não tentava obrigá-la comer coisas saudáveis ou tomar banho em dias frios, com exceção disso, ele podia ser bem divertido. Willian era jovem, pouco mais de 16 anos, magro como um graveto e parecia estar sempre sorrindo com aqueles dentes levemente espaçados. Ele cuidava de Minerva desde que ela se lembra, e conforme ficou mais velha ele e Demétria revezavam como suas babás, a diferença era que a comida de Willian era muito melhor e ele não a enchia de lição de casa, então talvez ela preferisse passar os finais de semana com ele.
Minerva mostrou sua língua suja de geleia para ele antes de levar a colher de mingau para a boca, o que arrancou uma risada dele que logo devolveu o gesto.
— Aí está a monstrinha que eu conheço. — Com a boca cheia, ela devolveu um sorriso e obrigou-se a devorar toda a meleca branca que ele a fazia comer. Willian terminou bem antes dela, porque aos olhos de Minerva ele comia rápido demais, e se concentrou em limpar de guardar a louça, quando terminou, pegou os seus casacos e trancou todas as janelas. Minerva terminou sua refeição muito depois dele, lavou a própria louça e com passos rápidos foi ao encontro de Willian na sala, ela ergueu os bracinhos para que ele a ajudasse com o casaco e em poucos segundos eles já estavam de saída.
— Você disse que hoje é dia de revisão, qual foi a última aula de Demétria? — Ainda na porta, enquanto Minerva encarava seu reflexo numa poça de água e arrumava seus cachos assanhados, Willian tentava fazer do caminho o menos silencioso possível.
— Ela insiste em me ensinar a dinastia nefilin e a formação de Arcade, de novo. Não gosto de história, nem geografia, mas gosto das aulas com plantas e animais. — Willian fazia questão de segurar sua mão sempre que estavam caminhando, dessa vez não foi diferente, ele trancou a porta, pegou a mão de Minerva e começou a seguir o mesmo caminho até o centro de Filgord. Geralmente, ela não se importava com isso, mas sem as luvas, as mãos de Willian pareciam que poderiam congelá-la.
— Eu não sei muito sobre nada disso, você deveria tentar me ensinar, não seria divertido? — Ela sabia o que ele estava fazendo. Os mais velhos sempre tentavam fingir colocá-la em uma posição de poder para fazer com que as obrigações parecerem menos chatas do que eram realmente, mas ela não diria isso a ele.
— Não acho que você iria gostar, mas se quiser peço a Demétria para te ensinar também. Não temos professores em Filgord, mas ela é esperta. — Sua resposta saiu sem muita atenção, ela estava ocupada chutando as pedrinhas na trilha.
— Tenho certeza de que eu seria um aluno mais comportado que você. Ah, e só para que você fique sabendo, nós tínhamos professores aqui, mas eles preferiram se mudar quando descobriram que poderiam dar aulas a você um dia. — Se ele estava ou não dizendo a verdade ela não sabia, mas conhecendo a si mesma e julgando as reviradas de olho de Demétria diante às suas pegadinhas Minerva não duvidava que fosse verdade.
— Te ensino baboseira de livro grande se me ensinar como pescar rãs. — Disse tentando um acordo.
Willian passou os próximos cinco minutos em uma crise de riso escandalosa e quando arrumou ar para dar-lhe uma resposta, apenas proferiu um rouco e dificultoso "sim", mas isso era o suficiente para um trato. Eles tomaram o resto do caminho contentando-se em comentar sobre as novidades da cidade e fazendo uma pequena parada para que Minerva amarrasse o cadarço solto. Quando chegaram à biblioteca, a qual também era a casa de Demétria, não se deram o trabalho de bater à porta, a druida estava ao lado de fora aparando os caules de suas plantas ainda vivas. Os olhos castanhos astutos se manteram os mesmos, a única coisa incapaz de ser mudada pelo tempo, talvez as rugas discretas em volta deles fossem uma das poucas provas de que envelheceu, sua pele escura parecia cinza com a luz solar constantemente amena, privando-a do brilho dourado que um dia teve. O cabelo estava preso, como de costume, em tranças complicadas e elegantes demais para um dia corriqueiro, as ondas castanhas agora com alguns fios brancos surgindo nas têmporas, mas algo que não mudava era o bom gosto de Demétria para escolher vestidos. O espartilho de couro marrom que a sustentava o busto forte estava por cima do tecido verde esmeralda pesado que lhe cobria o colo, mas deixava os braços e ombros à mostra, em um caimento reto de tecido opaco, sem qualquer joia se não os brincos dourados em formato circular pendentes.
Coçando a garganta para chamar atenção da druida, Willian esperou até que ela notasse sua presença.
— Vejo que alguém finalmente resolveu usar seu presente. — Disse Demétria referindo-se às botas mal amarradas de Minerva com um sorriso adorável. — Bom dia, Willian. Espero que a monstrinha não o tenha dado tanto trabalho hoje.
Ele a retribuiu um sorriso sem graça com as bochechas coradas quando soltou a mão de Minerva.
— Acho que já peguei o jeito, ela pode ser divertida quando quer. — O fato deles conversarem sobre ela como se não estivesse ali era apenas um dos motivos pelos quais ela não fazia questão de facilitar as coisas para eles, mas daria um desconto pelo elogio às suas botas e por Willian não comentar sobre o que ela disse sobre as lições de Demétria essa manhã.
— Acredite, talvez nem eu lide com ela tão bem quanto você. — Limpando suas mãos com um lenço que Minerva definitivamente não a viu pegar, Demétria ergueu uma mão, convidando-a para entrar. — Obrigada por trazê-la mais uma vez, você é um doce. Ah, antes que me esqueça, não precisa levá-la para casa hoje, vamos dormir aqui desta vez.
Minerva pensou em questionar por que, mas além de não gostar de interromper conversas, sabia que Demétria logo a explicaria do porquê de sua decisão.
— Por mim está tudo bem, volto para vê-la após o fim de semana. — Já em tom de despedida, ele vai em sua direção apenas para bagunçar seu cabelo com afagos violentos, porém afetivos. — Não esqueça do nosso trato, preste atenção e depois me ensine tudo. — Com um sorriso cumplice, Willian sussurrou para ela antes de partir, ela o respondeu com um acenar de cabeça.
Demétria guardou os materiais de jardinagem em um balde ao lado do canteiro de flores na lateral externa da biblioteca, abriu a porta ignorando os olhares direcionados à sua sobrinha e fez questão de batê-la com força. Elas caminharam biblioteca adentro, Minerva logo livrou-se do casaco já que a lareira aquecia a casa. A casa de Demétria, tinha cheiro de tinta, papel e chuva, cada canto era iluminado de uma maneira aconchegante, por velas ou vitrais coloridos. Suas paredes eram estantes repletas de livros que poderiam fazer qualquer um confundir o interior da casa com um labirinto, mas era espaçosa, com tapetes quentinhos e alguns quadros e estatuas pequenas em cima de mesas de canto. Uma das favoritas de Minerva estava logo no hall de entrada, onde geralmente deixava os casacos e sapatos, em cima de uma mesa baixa escorada à parede, uma coruja de madeira com as asas abertas, apenas os olhos pintados com as cores o céu noturno. Minerva podia não saber como a noite se parecia, já que jamais saiu para além de Filgord, mas Demétria e sua mãe faziam de tudo para trazê-la até ela de alguma forma, fosse com esculturas de corujas Zeus de olhos pintados ou tetos com estrelas.
Adjacente ao hall, uma grande janela dava visão para o canteiro de flores, nela, um sofá sem encosto estava embutido, repleto de almofadas de cores neutras por toda a extensão do acento, ao redor, livros e mais livros emolduravam toda a parede enquanto um maleiro, sob o acento, guardava os materiais usados por Minerva em suas aulas. A sala também contava com uma pequena lareira, poltronas hediondas e tapetes coloridos. Aconchegante até demais para manter os olhos abertos todas as manhãs.
Demétria buscou os materiais antes mesmo que Minerva se sentasse ao sofá. A druida passou os olhos rapidamente nos papeis soltos decidindo-se por onde começar.
— Lembra de nossa última aula?
— Sim, mas não sei por onde começar. — Discretamente, Demétria segurou o sorriso ao ver Minerva bater a ponta das botinhas mal amarradas com um olhar sério.
— Se sentiria melhor se eu fizesse as perguntas? — Ignorando os papeis, a druida põe-se de joelhos para amarrar os pequenos cadarços de sua garotinha que acena com a cabeça para ela em confirmação. — Pronta?
— Sim, vamos. — Com um pulinho do sofá, Minerva ergue-se posicionando as mãos para trás do corpo, frente a Demétria ,já de volta a sua poltrona, ela encara sua mentora com o mesmo brilho confiante já conhecido pela druida.
— Quantas e quais línguas temos ao todo no continente?
— Arcaico, língua tradicional. Latim, usada por imagens para conjurar feitiços. Grego, falado pelos nobres e burgueses tão ricos quanto. Rúnico, não é mais permitida, pertence aos infernais. Solastico, só nefilins são capazes de falar ou traduzi-la. Então são 5 línguas oficiais, mas há muita variedade entre as tribos do sul.
— Como Arcade tornou-se um único continente governado por nefilins?
— Antes não havia magiecs, não muitos pelo menos. O continente era dividido em reinos individuais com pouca interferência além de relações diplomáticas e com o passar dos anos um dos reinos fortificou-se cada vez mais, Onrew tornou-se praticamente a primeira capital. Com o tempo os magiecs surgiram, aos poucos, e foram perseguidos pelos humanos, isso os levou à guerra. Hoje, conhecemos como primeira guerra mágica, durou pouco mais que quarenta anos, os humanos venceram porque criaram os imagens. — Minerva sorria orgulhosa tentando disfarçar a incerteza, mas o sorriso orgulhoso de Demétria a deixava cada vez mais confiante. — Não é certeza, mas dizem que os humanos fizeram um trato com os Deuses, o resultado disso fomos nós, imagens, e um pacto quebrado com o Deus humano que após isso os abandonou. Outros dizem que somos híbridos de magiecs e nomagiecs, mas essa é extremamente improvável. Com o controle da magia ao seu lado, os humanos ficaram em pé de igualdade com os oponentes e isso os levou a vencer.
— Não está esquecendo de nenhuma figura importante desse período? — Sua voz saiu um pouco mais entusiasta do que gostaria, um brilho adorável adornava seus olhos castanhos. Minerva apenas deu de ombros e respondeu:
— Paciência. — Descaradamente parecida com Demétria. — Após a vitória, surpreendentemente, a realeza humana cedeu o poder do continente para Aureos, ninguém menos que o primeiro nascido Deus de Arcade, e, o primeiro nefilin a pisar na terra. Ele lutou ao lado dos magiecs e mesmo após sua derrota tornou-se rei de Sora, província litorânea ao extremo leste de Arcade. Casou-se com uma dríade e fez dela sua rainha, isso é, antes de casar-se novamente com uma harpia. A questão é que após o fim da guerra e a vitória dos humanos, os reais se mudaram para as montanhas do norte. Nunca mais foram vistos ou interviram em qualquer questão política até hoje. O castelo é cercado por um desfiladeiro e um exército de harpias o protege.
— Me impressiona sua atenção aos detalhes, Minerva. Pode continuar se quiser.
— Eu acho que você deveria ficar um pouco menos orgulhosa a partir daqui. A segunda guerra mágica é bem mais intensa e eu não lembro de muita coisa além do principal. — Sinceridade não faltava à pequena monstrinha. Demétria riu para esconder a frustração de ter que repetir outra aula de história futuramente.
— Resuma como se lembra e se necessário eu intervenho. — E ela provavelmente iria interferir assim que Minerva começasse a fugir do foco, de novo.
— A segunda guerra ocorreu na quarta dinastia nefilin, sendo exatos 427 anos após a primeira. Foi iniciada após a vinda de um nascido Deus entre os infernais, seu nome de batismo era Thyton, mas todos o conheceram como Júpiter. O que aconteceu foi que os nefilins decretaram sua morte assim que a notícia começou a circular, já que seres assim são extremamente perigosos pela grande quantidade de magia dentro de si, mas os Bartels, realeza infernal, se recusaram a sacrificar o menino. Eles diziam que se Aureus não foi sacrificado, então Thyton também não seria. A partir disso, Arcade praticamente se dividiu, na época o território dos Bartels era muito maior, assim como o poder de influência deles, tanto que podiam ser pareôs aos nefilins. Fato curioso, até onde se sabe apenas um infernal é capaz de matar um nefilin, isso ou outro nefilin, o que é bem irônico, já que a rainha Magnólia morreu em parto mesmo o castelo de prata sendo praticamente cercado por sullis e sejamos realistas, anjos são o mais perto de imortais que temos além de deuses, um rei governa geralmente 200 anos e não morrem a não ser que sejam assassinados enquanto qualquer outro magiec está praticamente morto aos 60.
— Sim querida, aparentemente não precisaremos de revisões sobre biologia antropológica, mas não é o momento de discutir teorias ou confabular contra a coroa. Embora você saiba o quanto eu adoro quando o faz. — Demétria odiou pará-la. Céus, como ela amava aqueles olhinhos claros brilhantes e as mãozinhas expressivas de Minerva quando se interessava pelo que dizia, ou as falhas históricas que aos poucos percebia. Em momentos como aquele ela tinha cada vez mais certeza de quão especial era sua garotinha. Com uma longa tomada de fôlego, quase como um suspiro, Minerva segurou o queixo, pensativa sobre por onde retornar.
— Entendi, de volta ao conflito diplomático e blá, blá, blá. — Uma revirada de olho, a qual aprendeu com Demétria, foi o único sinal de sua frustração. — A guerra não começou com a recusa dos Bartels, na verdade, os nefilin meio que cederam aos infernais com a condição de que Thyton fosse entregue a eles quando atingisse os 16 anos para que seu poder fosse "controlado" por assim dizer. Assim foi feito, mas anos após o treinamento, já adulto, Thyton tornou-se Júpiter, reuniu um exército e atacou a capital como se tivesse enlouquecido. Você comentou que foi a primeira e única vez que nefilins e infernais lutaram lado a lado, bom, também foi a primeira vez que humanos e imagens uniram forças também. — E então a confiança e brilho de Minerva desapareceram. Demétria sabia muito bem o porquê. — O antigo rei Bartels enviou suas filhas como comandantes de seu exército, todas as cinco, apenas Barbara retornou. Nash Eskyer, quarto rei, enviou seus filhos mais novos, mas proibiu sua herdeira de arriscar-se na guerra, apenas o príncipe Deneb não retornou. Os humanos criaram armas, armaduras e cuidaram de todos os feridos que podiam. E então, os imagens. Eles se dividiram entre si cercaram todas as cidades, grandes e pequenas, para prevenir ataques surpresa, mas no comando nas tropas imagen de Sora e Onrew estava Ilítia D'luna, A Traidora de Mil Homens. Ela permitiu o ataque que quase custou aos anjos seu trono, a capital foi completamente destruída, quase todos os civis morreram, incluindo os próprios soldados ao comando dela, Júpiter a tomou como consorte depois disso, ela era praticamente a nova rainha. Com isso, o rei Nash tomou uma medida drástica, ofereceu seu trono e a mão de sua herdeira àquele capaz de destruir Júpiter, assim surgiu Netel. Um ferreiro humano ambicioso que passou a buscar sua chance nos Deuses imagen, especificamente Hefesto, mas quando o Deus o respondeu oferecendo um acordo como resposta ele desejou não o ter convocado. Hefesto o ajudaria a construir uma arma capaz de matar um Deus, em troca, Netel sacrificaria sua esposa para que ela pudesse encontrar o Deus em seu pós vida. Não há uma bruxa traidora nem um nascido deus governando Arcade, então aparentemente funcionou.
— Tudo correto, com uma pequena ressalva. Hefesto especificou que armas como essa não são forjadas como armaduras e espadas comuns, é preciso de muito mais magia que plantas ou criaturas magicas podem oferecer, afinal, magia vem da vida Minerva, até mesmo os humanos possuem magia dentro de si. Esse é um dos motivos para Ílitia ser conhecida também como a imagen mais poderosa de todos os tempos. De volta à Netel e seu sacrifício, algumas versões dizem que ele usou o coração de Davina, sua esposa, para forjar a arma, mas um consenso histórico geral é que precisava ser ele a matá-la. Netel pagou o preço e seu resultado foi a Alvorada, uma arma capaz de mudar sua forma dependendo de seu portador, poderosa demais para qualquer um além de um nefilin usá-la. Ele a entregou nas mãos de sua agora noiva com a condição que ela fosse sua portadora, assim, Iris Eskyer derrotou Júpiter em uma batalha que durou dias. Mesmo após a vitória, nefilins e infernais, quase que em seguida, começaram a lutar entre si. Os Bartels diziam que foram os anjos que enlouqueceram Júpiter e negaram a partir daí a dobrar os joelhos para qualquer rei Eskyer, não preciso dizer que essa guerra fria durou por anos e mais anos, porém nunca tão vivida quanto agora Minerva. Por esse motivo é tão importante conhecer nosso passado, o que está acontecendo com Arcade vem assombrando o continente há praticamente 450 anos, estamos no oitavo reinado nefilin e vivemos assim como aqueles que viveram no primeiro. São 870 anos de história, querida, não é fácil saber que vivemos como nossos pais, ou pior, que nascemos para repetir os passos deles.
Naquele momento, Minerva e Demétria se encaravam, a druida sabia que ainda era cedo demais para ela compreender a importância daquelas informações, mas ela temia que Minerva não tivesse tempo, ela precisava entender o mais rápido possível como seu mundo se organizava e quem ela era nele. Entretanto, surpreendentemente, ela enxergou naqueles olhos azuis algo queimar, algo pequeno, mas era o suficiente, uma faísca de revolta era tudo de que precisava.
— E agora a guerra está chegando, não é? — Perguntou, a voz como um sussurro.
— E agora, a guerra já começou. Sua mãe está lutando-a desde que você nasceu, as D'luna estão do lado certo dessa vez e elas continuam as bruxas mais poderosas do continente. — Demétria sorria para ela tentando confortá-la. — Não estou dizendo isso para que tenha medo, mas preciso que entenda que um dia você lutará ao lado dela e que precisamos de você para vencer. Entende isso Minerva?
Por um momento ela acreditou ser verdade, que ela era realmente necessária para o rumo da história de seu mundo, mas não era, tinha oito anos, não havia sequer tido seu despertar e pelos deuses, mal sabia amarrar os próprios sapatos. Um dia ela lutaria ao lado de sua mãe porque sabia que ela ficaria feliz com isso, mas Sunna era a esperança de Arcade, não ela. Quando sua mãe vencesse a guerra, como Iris fez, elas poderiam ter tempo para conhecer o continente, olhar para o céu noturno ao invés de pintá-lo, iriam navegar com Rence e ler histórias tristes com Demétria, os três juntos ao seu redor dia após dia. Assim seria, "assim que o céu voltar a funcionar como deveria", como diria sua mãe. A partir daí ela teria seu "para sempre".
— Entendo. Vou estar do lado certo quando a hora chegar, eu prometo. — Sua resposta foi sincera, mas o sorriso que forçou para Demétria nem tanto, fugindo ao assunto que fazia seu estomago aquecer de uma maneira desconfortável. — Terminamos por hoje?
— Você fez um bom trabalho e hoje é seu dia livre, então sim, nós terminamos por hoje. O que quer fazer agora?
— Te dou três opções, ou me ensina rúnico e grego, ou voltamos para minha casa e terminamos de pintar as portas ou finalmente me conta alguma história com um final feliz. Mas só depois que responder algumas perguntas. — Demétria não sabia se saberia explicar de onde Minerva tirou a personalidade mandona, a garota parecia uma pequena cópia de Sunna com o senso de autopreservação de Rence, por sorte ele não ficava por tempo suficiente para contagiá-la com sua bobeira.
— Como quiser, alteza. — Concordou irônica.
— Qual eram os poderes de Júpiter? Se Netel virou rei e casou-se com Iris, então a atual dinastia é parte humana? E por último, posso comer bolo no almoço?
— Já adianto que a resposta para a sobremesa antes da refeição é não. Sobre os poderes de Júpiter, é uma ótima pergunta. Lembra do segundo rei nefilin? Filho de Auréus e Aziza, seu nome era...
— Caelum! — Interrompeu a monstrinha animada com a resposta.
— Exatamente. Entre os nefilins herdeiros do trono seus poderes são no mínimo imprevisíveis, provavelmente por terem o sangue de um Deus. Bom, Caelum era capaz de erguer qualquer coisa com sua própria mente, inclusive, você deve lembrar de eu ter comentado que ele foi quem ergueu o castelo de prata e as ilhas flutuantes. Júpiter tinha uma habilidade parecida, tudo em que Júpiter tocasse tornava-se poeira e subia, como chuva, mas como se o chão chorasse. As traduções são confusas, mas é basicamente isso. Já a descendência de Netel e Iris, filhos não estavam inclusos no prêmio de Nash, ele nunca disse que os filhos de Netel teriam direito ao trono e não tiveram. Iris teve seus filhos com o nefilin prometido à ela antes de Netel, mas ele foi rei, de Sora pelo menos, nossa história mal o reconhece como rei já que morreu logo após a tomada das terras Bartels pelos nefilins. — Demétria queria contá-la a verdade, como é obvio que Netel foi assassinado, que ele ficou louco e tentou diversas vezes matar os filhos de Iris e até mesmo ela diversas vezes. Entretanto ela sabia que não adiantaria empurrar suas verdades em Minerva, e sim instrui-la para encontrá-la por si só.
Minerva observava o comportamento de sua tia com a curiosidade de quem é capaz de ler as entrelinhas, infelizmente, ela não era, não ainda.
— E então, mais alguma pergunta?
— Não por enquanto. Enquanto você escolhe o que faremos o resto da tarde posso pegar os papeis e tinta? Ah, e não esqueça das minhas opções. — Antes que fosse capaz de piscar novamente Minerva já estava abrindo o maleiro sob o acento.
— Não tenho mais paciência restando para concertar sua pronúncia e nós duas sabemos que Rence é o único que realmente sabe pintar entre nós, se realmente quiser desenhos bonitos então indico esperarmos por ele. — Demétria destruiu a postura perfeita à poltrona colocando os joelhos sob os apoios de braço puxando um livro da estante atrás dela.
— Então o que resta é a história. Sem. Final. Triste. — Enfatizou Minerva já com os materiais espalhados pelo tapete colorido.
— Temo que esteja certa, mas não é como se eu recordasse de alguma interessante para contar. — A druida analisava as páginas, passando-as rapidamente procurando algo. — Posso confiar em deixá-la sozinha enquanto faço um chá sem que ateie fogo aos próprios cabelos? Prometo pensar em algo até lá.
— Sem pressa. — E antes mesmo que ela se levantasse, Minerva já parecia concentrada em seus esboços e carvão.
— Tente essa. Não parece difícil para você. — Antes de sair, Demétria a deixa um livro de botânica aberto, especificamente em uma página repleta de pinturas de flores copo-de-leite que aparentemente não serão um desafio para ela.
Minerva estava aprendendo com Rence, mas suas capacidades não estavam além do desenho com carvão e ela não via a hora de começar a fazer tintas com ele. Pouco depois de pintarem seu quarto, Sunna permitiu que ela pintasse as portas de todo o chalé, como um incentivo para que continuasse com os desenhos, mas por mais que Minerva gostasse, pintar flores não era bem sua ambição. Demétria não demorou para retornar, trazia consigo uma bandeja de madeira com duas xicaras e uma fatia relativamente grande de bolo, mas antes que Minerva pudesse comemorar a druida a advertiu.
— Não pense que isso será seu almoço. É apenas uma recompensa pela ótima revisão hoje. — Dessa vez, Demétria não voltou para sua poltrona. Ela sentou-se ao lado de Minerva com sua xicara e pires em mãos e a bandeja em sua frente.
— Bolo é bolo, não há hora errada para bolo. — Respondeu tapando a boca para evitar que as migalhas caíssem. Demétria pensou em corrigir seus modos, mas aquilo foi adorável de mais que estragasse. — E quanto à história?
— Sobre isso. — Suspirou. — Não crie expectativas, eu acho histórias felizes preguiçosas, isso foi o melhor que consegui para você.
— Pode ser, ainda vai ser melhor que chorar por pessoas de papel. — Suas mãos alternavam entre garfo e carvão, estava concentrada no desenho que já tomava forma. Contudo, Demétria estava inquieta e não tinha o que fazer com as mãos, isso é, até reparar nas tranças malfeitas de Minerva
— Nossa história começa em terras distantes, longe de tudo e todos que conhecemos, como se nunca tivéssemos existido para eles. — Ela deslizava os dedos com cuidado pelo cabelo escuro de Minerva evitando desfazer os cachos. — Em um povoado unido e pequeno no alto de uma montanha havia uma bruxa poderosa como nenhuma outra naquele lugar, ela adorava música e seus olhos reluziam como a luz das velas na escuridão. Essa bruxa era amada e querida por todos à sua volta, mas também era muito teimosa e isso a colocava em vários perigos que por sorte ela sempre saia ilesa. Um dia, durante o festival de outono, tradição daquele povoado, ela foi escolhida para dançar em volta da primeira fogueira acesa de outono e dar início às comemorações. A bruxa girava ao redor do fogo com os pés descalços e um vestido branco como a lua, a música tornando-se o único som além de sua risada enquanto todos ali aguardavam a hora certa de juntar-se a ela, mas até lá, a observavam com admiração e fascínio. Entretanto, os aldeões não foram os únicos fascinados, enquanto dançava, entre a pequena multidão estava o sorriso mais belo que viu em toda sua vida, sem conseguir desviar da beleza dos olhos dele que a acompanhavam a cada passo. Entre todos os olhares ali foi o de um humano comum que a chamou atenção, bom, quase comum já que aos olhos dela ele era o homem mais lindo que ela vira em sua vida. Imagine-o como quiser, querida.
Para a surpresa da druida, Minerva parecia cada vez mais focada em sua história, até porque à essa altura não restava mais nada do bolo.
— Deixe-me trocar de lado para terminar seu cabelo. — Mas antes que se se levantasse, Minerva sentou-se em seu colo com todos os materiais em mãos. Provavelmente estava gostando do carinho em sua cabeça e Demétria quase não soube reagir, apesar de acostumada às demonstrações de afeto da monstrinha.— Sendo assim, a bruxa o convidou para dançar assim que outras duplas começaram a surgir. E ali, durante toda uma noite de conversas agradáveis, boa comida e muita música ambos dividiram uma pequena eternidade, que mesmo se fosse a última vez que compartilhariam da presença um do outro lembrariam daquele momento por mais tempo que a maioria das pessoas lembram de seus primeiros amores. Para a sorte deles não era a última vez, já que mesmo após o festival eles não pararam de se encontrar, estavam sempre juntos e isso começou a levantar o burburinho pelos cantos do vilarejo até chegar ao coven o qual a bruxa pertencia. A Senhora do coven não gostou nada disso porque acreditava que humanos e bruxas não podiam ficar juntos e sua prole mestiça teria a magia diluída em sangue humano.
O cabelo de Minerva estava praticamente pronto quando ela deitou a cabeça contra Demétria, ela já havia parado de desenhar flores, no canto do papel, rascunhos de fogueiras se espalhavam com diferentes tipos de chamas nelas.
— Mas a bruxa já estava apegada ao novo amigo, assim como ele a ela, não demorou até que ambos perceberem que o carinho o qual nutriam não era amizade um si, eles amavam um ao outro e por serem jovens demais para entender os empecilhos do mundo, amar era o suficiente para eles. O coven não cedeu ao pedido da bruxa em tomar o humano como consorte, após esse pedido até a proibiram de vê-lo, e com isso eles não só desobedeceram, mas decidiram fugir daquele lugar. — Demétria não parou de afagar o cabelo de Minerva, era capaz de sentir sua respiração relaxada contra ela. Mesmo que não visse seu rosto sabia que tinha toda sua atenção. — Eles planejaram sua fuga com cuidado, até mesmo se afastaram para despistar os olhos do coven, também não contaram a ninguém sobre sua partida, bom, mais ou menos, a bruxa decidiu despedir-se de suas irmãs e pediu que se algo não ocorresse como o combinado elas a conseguissem tempo, ela fez questão de prometer retornar para vê-las e após ter todos os preparativos alinhados fugiu com seu humano. Os dois adentraram a floresta ao cair da madrugada, iluminados pela lua e dividindo sorrisos discretos e sussurros regados de "nós conseguimos", o ar soprava entre os galhos melodias de esperança, cada passo mais próximo do fim daquele terreno íngreme e montanhoso. Estavam tão felizes que nem mesmo o cansaço os tirou o calor vitorioso crescente dentro deles, estavam livres e se pertenciam, ninguém era capaz de mudar isso. Quem os dera.
— Lembre que me prometeu uma história não trágica. — Alertou Minerva voltando a rabiscar, dessa vez árvores.
— Não esqueci, seu "final feliz" está chegando. Bem, continuando de onde paramos. Eles já haviam pegado o barco para fora da ilha onde a bruxa vivia e não demorou tanto para atracarem, a praia precedia outra floresta, mas eles optaram por descansar um pouco, o alvorecer estava próximo, mas o pior já estava distante o plano funcionou e eles poderiam permanecer juntos por quanto tempo a mortalidade permitisse.
— E fim, foi uma boa história, quer dizer, para a sua primeira com um final normal está bom.
— Quem disse que terminei? — Demétria soltou a fita que prendia o próprio cabelo, desfazendo o penteado complexo, seu cabelo caia como uma cascata brilhante pelos ombros. Com a fita começou a prender devidamente cada trança. — Eles não estavam prontos quando as outras bruxas do coven apareceram cercando-os, a bruxa reconheceu todos aqueles rostos, mas foi o de suas irmãs que a fez chorar. Não havia como correr, mesmo que houvesse, a líder do coven não demorou a oferecer suas condições e alternativas à bruxa, fazendo-a escolher entre voltar para casa e deixar o humano para sofrer as consequências do suposto "sequestro" dela ou sofrê-las junto com ele. Mas não havia o que escolher, sua decisão estava feita quando ela o tomou como seu e fugiu com ele, foi isso que disse à líder do coven. Mas a matriarca não gostou da resposta da bruxa, estava irada e pronta para sentenciar o casal a pagar por sua desobediência. O coven entoava um feitiço desconhecido pela bruxa, mas suas mãos estavam pintadas de roxo e seguravam ervas secas em um dos punhos fechados. Eles tentaram correr e funcionou, os outros bruxos não os impediram, não precisavam, correr foi inútil quando sua maldição caiu sobre o humano transformando-o em uma besta feroz e sem consciência nenhuma além de uma missão, matar a bruxa, sua parceira, a quem um dia jurou proteger de todo o mal que viesse a cair sobre ela.
— Não gosto dessa história. — Foi a primeira vez que Minerva virou-se para vê-la desde o começo da história. Demétria sabia que aquela reação viria, mas acreditava precisar fazer isso, então abraçou Minerva para confortá-la.
— Não tenha medo, está acabando. — Com a pequena aconchegada em si, ela continuou. — A bruxa correu e seu amado a caçou floresta adentro. Ele não era mais quem um dia foi para ela, não tinha o mesmo sorriso doce, não, agora era um rosto animalesco, como um lobo, a encarando repleto de fúria. Naquele momento ela sabia tê-lo perdido. Mesmo fugindo, ele era mais rápido e suas garras ficavam cada vez mais próximas de suas costas, ela precisava se esconder se quisesse viver, foi então que trombou contra o tronco de uma árvore forte o suficiente para que se arriscasse a subir. A bruxa conseguiu, mas não saiu ilesa, o lobo conseguiu tirar sangue de uma de suas pernas com as garras, o corte foi profundo o suficiente para que seu grito ecoasse pela floresta. Ofegante e ferida, ela quase não percebeu quando os respingos de seu sangue feriram o lobo. Nesse momento tudo muda para ela, se ele podia feri-la e ela também podia feri-lo, então estavam condenados a arruinar-se ou a curar-se. Eis aqui um conselho Minerva, os únicos capazes de nos ferir verdadeiramente são aqueles que amamos, jamais ame de volta quem não morreria por você. — A pequena permanecia encolhida em seu colo, mas assentiu. — A bruxa reuniu o pouco de coragem que a restava, sacou uma pequena lâmina de sua bota e desceu árvore abaixo mirando o lobo enquanto o medo rugia dentro dela, a boca da besta aberta esperando por ela que cortou o próprio braço durante a queda. O lobo recuou uivando de dor, mas ela não voltou um passo sequer, manteve o braço erguido, sempre em frente, finalmente conseguindo observá-lo devidamente. Ela agarrou o pelo opaco de seu pescoço fazendo-o encará-la e disse com a voz embargada e os olhos repletos de lágrimas, mas ainda assim firme como pedra: "você jurou nunca me machucar".
Dentro de si, Minerva pode jurar sentir a textura do pelo do lobo em seus próprios dedos, ou ouvir os soluços desesperados da bruxa. O papel e carvão já não eram suficientes, seu coração rugia e o mundo parecia pequeno demais ao seu redor, quase como se não coubesse dentro de si. Demétria também não parecia consigo mesma, Minerva podia sentir seu folego instável o coração acelerado.
— Ela fechou os olhos e o abraçou, esperando um milagre ou um fim, mas o golpe final não veio. Não abriu os olhos, nem mesmo quando braços humanos a envolveram e seu choro passou a assemelhar-se com um urro agoniado, mas ele envolveu seu rosto com as mãos e secou suas lágrimas com beijos. — Demétria conseguiu senti-la soltar o ar preso, aliviada. A druida não pode evitar beijar o topo de sua cabeça em afeto. — Eles fugiram dali, as outras bruxas estavam tão confiantes que eles estavam mortos que partiram sem conferir. Assim, eles encontraram uma cidadezinha amigável o suficiente para que envelhecessem juntos e em paz.
— Se praticar, talvez conte histórias melhores. — O riso de Demétria saiu junto a uma tosse descontrolada, o que fez Minerva deixar seu colo. — Mas está ótima para a primeira.
— Claro, monstrinha. — Disse recolhendo as louças. — Estou pensando em fazer uma caminhada antes de almoçarmos, o que acha?
Sua resposta limitou-se a um simples aceno de cabeça, estava juntando suas folhas e carvão para devolver ao maleiro. Quando Demétria desapareceu cozinha adentro, foi o momento em que Minerva olhou seus desenhos, a maioria flores, vasos ou natureza morta no geral, nenhum chegava a ser realmente bom. Seus dedos correram pelo último feito, manchando o carvão no papel e dando ao lobo um aspecto fantasmagórico no meio do canteiro de flores. Ela estava longe da capacidade de reproduzir realismo, mas a sensação da história de Demétria parecia palpável. Minerva não admitiria que a história a assustou e estava arrependida de ter pedido por ela mesmo sabendo que sua tia não tiraria sarro dela, mas algo em seu íntimo amedrontado a dizia para manter tanto a história quanto seu desconforto para si.
Quando Demétria retornou, estava com o casaco de Minerva sobre o braço e o cabelo preso em um simples rabo de cavalo.
— Vou levar seu casaco, mas duvido que vá precisar. Está com frio?
— Não, não. Deixa aí, está quente.
Para Demétria, a parte mais difícil de permanecer naquela cidade era lidar com as pessoas nela. Mesmo após a reconstrução de Filgord, o apoio do antigo patriarca e as melhorias trazidas por Sunna e toda Lótus a maioria dos moradores encarava Minerva com repulsa, principalmente quando era Willian que estava com ela. Ao seu lado era diferente, eles temiam a ela e sua influência, mesmo que tudo que tivesse fosse a herança de seu pai e marido, e enquanto Minerva não enxergasse o veneno no olhar daqueles ignorantes ela não tomaria nenhuma atitude que não fosse encarar cada um deles de volta até que desviassem o olhar. Naquele dia não foi diferente. Minerva segurava sua mão enquanto fazia estripulias e apontava para comércios, balançando o vestido rosa claro à altura dos joelhos, erguendo as mangas para os cotovelos ou só chutando pedrinhas e sujando suas meias. Parecia não haver um único momento em que seus dentes não estivessem expostos em um sorriso e para Demétria isso era o suficiente, ela não se importaria em contratar um padeiro particular para a monstrinha se a mesma a pedisse com aquele sorriso, por sinal faltando um único dente de leite.
As paradas foram breves entre as lojas para que Demétria se abastecesse de algumas poucas coisas que a faltavam em casa enquanto Minerva mantinha-se ocupada observando o teatro de fantoches ao longe. Para a tristeza da druida, ela teria que buscar informes na taverna ocupada pelos membros da Lótus, péssimo lugar para ir com uma criança, mas Minerva estaria muito mais segura em um muquifo repleto de revolucionários que seguiam sua mãe que com qualquer outro aldeão de Filgord se não Willian.
— Minerva, querida. — Chamou, levando-a em direção à taverna. — Nós entraremos em um lugar diferente hoje e vou precisar que você faça o que vou pedir, entendido? — O sonoro "humhum" animado foi toda a confirmação que precisou. — Quando chegarmos eu entrarei sozinha por uma porta grande no canto, não posso levar você, infelizmente. Por isso, você deve esperar por mim ao lado de fora, não vou demorar mais que dois minutinhos. Se alguém falar com você responda educadamente, de preferência sorrindo, deixe claro de quem você é filha e que está esperando por mim. E acima de tudo que é mais sagrado ou profano, não saia do lado da porta.
— Posso fazer isso. — Apesar da confiança de Minerva, ficar apreensiva parecia completamente plausível para Demétria.
A taverna à esquina do centro comercial era um dos maiores estabelecimentos de Filgord depois da igreja, a pensão, o mercado principal e a padaria central, com a diferença de seus frequentadores, obviamente. Ninguém fora de contato com a Lótus atrevia-se a passar por aquelas portas, a maioria ali eram viajantes cansados que não conseguiam alugar quartos temporários, mas os rostos mais comuns eram de moradores de Filgord, um deles estava escorado à porta dupla de madeira esverdeada entreaberta. Quase toda a estrutura da taverna era madeira, com exceção do chão, esse era de pedra. Lustres pendiam do telhado alto inclinado, as velas em seu fim tremeluziam exigindo a mínima atenção para serem trocadas. O exterior parecia muito mais imponente, com bandeiras com flores brancas bordadas de maneira brusca, janelas escuras sempre fechadas e o pior de tudo, a estátua de górgona sobre a porta alta.
Minerva sentiu-se engolir em seco antes que entrassem. O homem à porta a abriu para Demétria cumprimentando-a com a cabeça, para sua surpresa, sua tia o cumprimentou de volta. O cheiro de bebida era novidade para Minerva, o de mijo infelizmente, nem tanto, isso é, Filgord em si cheirava a suor velho, mijo e mofo, mas naquele lugar conseguia ser ainda pior. Ela não soltou a mão de sua tia, mas seus olhos estavam em todo lugar, no homem careca com desenhos estranhos nas costas, na velha desdentada que servia cerveja e usava um batom que cobria muito mais seu queixo que os lábios, viu também um enorme quadro de avisos próximo à entrada atrás dela, mas logo perdeu a entrada de vista, o lugar estava lotado. Sua atenção estava em tantos lugares ao mesmo tempo que não percebeu que as pessoas abriam espaço para que Demétria passasse, alguns até sorriam e a ofereciam bebidas, mas ela recusava com um aceno e um sorriso educado. Minerva queria perguntar o nome de cada um daqueles estranhos com cicatrizes e facas demais em suas cinturas, ela esperava ter medo, esperava que o cavalheiro com metade do rosto queimado e uma perna de pau a fizesse congelar, ou que a mulher de tranças negras, pele azulada e brânquias a roubasse a voz, mas nada disso aconteceu.
Eles pareciam respeitar sua tia, no mínimo, não pareciam notar que ela escondia Minerva às costas, não até que chegassem até a dita porta. Então, os olhares foram para Minerva que não conseguiu disfarçar o sorriso nervoso, com Demétria ao seu lado, a atenção alternava entre as duas, mas a maioria sequer se importava com a presença de uma criança em um lugar tão insalubre e estava preocupada demais com a própria bebida.
— Faça como combinamos. — A voz grave de sua tia a tirou de seu foco, fazendo-a olhar para Demétria e confirmar outra vez. Quando recebeu o aceno de Minerva, Demétria levantou a voz para a os poucos que as observavam. — Não deixem a menina sair de onde está, e mantenham um olho nela. E apenas os olhos, volto já.
A druida, apesar de grata pelos rostos familiares, não confiava em qualquer um ali, podiam respeitá-la, mas detestavam Sunna, a maioria deles. E o fato de Sunna ter uma filha não era segredo, assim como Demétria passar a maior parte dos dias com ela não era. Não era de tudo paranoia acreditar que poderiam machucar Minerva para atacar Sunna, principalmente quando não sabiam quem a pequena monstrinha realmente era. A porta se fechou às suas costas e ela se obrigou a acreditar que Minerva faria o que ela a pediu.
A maioria das pessoas se dispersou quando sua tia entrou por aquela porta, eles a ignoravam completamente, ou pareciam ignorar já que volta e meia ela notava olhadas de canto. Eles levavam ordens muito a sério aparentemente. Ela conseguiu manter a animação escondida até uma mulher ruiva de chifres passar do outro lado da taverna com um copo de bebida tão grande quanto ela, ali, Minerva percebeu que definitivamente não podia fazer isso, ela precisava falar com alguém, perguntar sobre alguma cicatriz ou como perderam um olho. Ela estava prestes a chamar atenção da mulher de pele cinza quando um homem enorme esbarrou contra ela a derrubando no chão, ninguém a ajudou e o homem sequer olhou para trás. Minerva estava disposta a fingir que nada aconteceu, foi um acidente, mas então o senhor a olhou sobre o ombro e riu audivelmente poucos passos a sua frente.
— Ei. — Chamou já de pé. O homem a ignorou. — Ei, estou falando com você. — Insistiu.
O homem riu ainda mais alto a ignorando, mas fazendo questão de parar de adentrar a multidão e falando alto com seus companheiros.
— Parece que o sangue de Medeia fala alto. — O comentário maldoso não passou despercebido, alguns mais próximos se calaram para assistir ao espetáculo. Minerva sabia bem o que aquele comentário significava, Medeia foi uma mulher cruel e louca, ele a estava a chamando de amaldiçoada, estava difamando sua linhagem, chamando as mulheres de sua família de assassinas.
— Pessa desculpas, agora! — Sua voz saiu esganiçada, fina, descontrolada, completamente diferente de como Demétria a ensinou. O homem riu ainda mais alto, balançando a barriga desproporcionalmente maior que o corpo. Estava tentando humilhá-la, ela sabia, queria fazê-la sentir vergonha de sua mãe, Demétria a avisou que alguém poderia tentar fazer com ela. — Você é surdo ou só é imundo demais para não limpar as orelhas? Estou falando com você.
Minerva não soube de onde tirou coragem, mas se arrependeu de tê-la encontrado quando o homem finalmente virou para ela.
— Está falando comigo, D'Luna? — Seu hálito parecia feder mais que a taverna inteira, mesmo longe dela, Minerva podia senti-lo e não disfarçou a careta.
— Pessa desculpas. — Foi o que o resto de coragem que tinha a permitiu dizer antes que ele se aproximasse, os amigos provocando e rindo o incentivando.
— E por que acha que merece desculpas? Você é grandinha o suficiente para saber que mentir é errado, eu só disse a verdade. Que você tem o sangue de uma puta assassina e que merece ser tratada como tal. — Os olhos que encaravam Minerva de canto de repente estavam um pouco mais próximos. O homem e seus amigos ainda riam, e pareceram gargalhar quando viram que ela estava prestes a chorar.
Os olhos marejados não embaçaram sua visão o suficiente para que errasse o chute certeiro no joelho dele, ela estava triste e morrendo de medo, mas sua raiva era maior que isso. O chute de uma garotinha de oito anos não machucaria um homem de seu tamanho, mas a humilhação contava para ela. Ele a olhava incrédulo, irritado.
— A vadia da sua mãe sequer a ensinou modos? Menina selvagem. — Seu tom de escarnio parecia tornar-se cada vez mais raivoso e longe do humor,
— Ensinou, assim como me disse para não falar com estranhos. Parece que não sou uma boa aluna. — Algumas poucas risadas despontaram, ele não pareceu gostar disso e fingiu achar graça de sua resposta, mas a cusparada que desferiu em sua direção dizia o contrário. A saliva nojenta caiu em seu ombro fazendo-a se contorcer de nojo.
— Escute, pirralha. — Ele não aceitaria sair por baixo. Acocorou-se encarando-a de cima ainda que sobre os joelhos. — Acabou a festa, vá embora e não conte para sua mamãe que esteve aqui, ela não vai gostar de saber onde você se enfiou para arrumar confusão.
Minerva mal o ouviu, estava em agonia com aquela baba nojenta em seu vestido, estava com raiva e descontrolada. Olhou para frente, viu o rosto pálido com barba rala e orelhas grandes a encarando e sorrindo com escarnio. Demétria a mataria depois que soubesse o que aconteceu, mas parecia uma causa a qual ela desejaria fazer um sacrifício.
Ela faz questão de pôr um sorriso encantador antes de devolver a cusparada direto nos olhos do brutamontes acocorado em sua frente.
— Vá se fuder. — Ela não se orgulhava dos xingamentos que aprendeu, mas foram úteis pela primeira vez. Minerva limpou a própria saliva no canto de sua boca e voltou a escorar-se na parede ao lado da porta enquanto o ogro fedorento esbravejava e limpava os olhos. Ali, sua tranquilidade sumiu assim que o maldito veio em sua direção.
De repente tudo pareceu rápido demais. O homem avançou pronto para segurá-la, a porta ao seu lado abriu, as pessoas que a observavam avançaram contra o ogro e a única reação de Minerva foi prender o ar e firmar os pés no chão desviando o olhar de Demétria prestes a sair da porta.
Três pessoas segurando facas se colocaram a frente do imundo, Demétria saiu com envelopes em uma das mãos esbarrando com o grupo. Os olhos da druida foram diretamente para sua sobrinha ao lado da porta, a garotinha fingia calma, mas não conseguia disfarçar os olhos tremeluzentes e o folego curto. Compartilhando sangue ou não, era inegável que aquela era a filha de Sunna.
— O que, em nome dos Deuses, você fez? — A voz fria e cansada de sua tia foi mais assustadora que o quase ataque do homem a uma barreira humana de distância. Minerva engoliu em seco.
— Ele que a importunou, a menina se defendeu como podia. — Respondeu um daqueles na barreira, ela não podia ver qual com Demétria em sua frente. A druida inspirou o ar com força, as bochechas coradas de raiva e o cenho enrugado pareciam preceder outra briga, isso é, até ela apertar o cenho e forçar um sorriso amigável.
O barulho na taverna tornou-se um burburinho, a atenção que antes era restrita se espalhou por uma grande extensão do bar, atraindo olhares e cochichos baixos. Assim, atraindo tudo que Demétria queria evitar, atenção.
— Minerva, conversamos sobre me desobedecer em casa. Agora diga-me, o que este... senhor fez? — Se não a conhecesse, Minerva diria que sua pausa não foi nada além de um acidente. A voz calma contradizendo o que internamente sentia.
— Eu devolvi a pirralha para o lugar dela. Alguém precisa fazê-la entender quem a mãe é. — Ele tentava aproximar-se, ainda que menos alvoroçado, mas fez questão de chegar o mais perto possível de Demétria, olhando-a de cima devido à baixa estatura da druida que o observava entediada.
Os olhos estavam tão focados no confronto que ninguém se preocupou em olhar a entrada quando a dupla entrou, ninguém exceto Minerva que reconheceria aquele cabelo em qualquer lugar, assim como a túnica verde escura, geralmente encardida, tremeluzente ao vento.
— E quem eu seria, senhor Throne? — A voz sorridente ecoou fazendo os olhares arranjarem um novo foco, menos o de Demétria, aquela foi a primeira vez que Minerva a viu vacilar.
À entrada da porta, Sunna e Rence sorriam com olheiras nítidas e vestes surradas, mas ainda assim com um brilho vitorioso no olhar. Com um rápido movimento de cabeça, Minerva espiou o homem que agora fingia não ter ficado boquiaberto, isso a vez rir. Demétria encarava Sunna contendo o sorriso que marcava suas covinhas e pela primeira vez em muito tempo, Minerva teve a certeza de que seu dia seria extremamente interessante.
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