Capítulo 10


As palavras de Demétria pareciam ecoar em sua cabeça, não é como se Sunna já não esperasse uma investida de Apolo, mas ainda assim o choque a fez praticamente esquecer o quanto estava emotiva minutos atrás. Ela precisava lutar agora e não sentia - se nem um pouco preparada, mesmo tendo se acostumado a lutar a vida inteira, era a primeira vez que não podia dar-se ao luxo de perder.

- O que nefilins fazem aqui? E como assim procurando alguém? - A voz de Rence parecia distante mesmo estando ao lado de Sunna que permanecia encarando o vazio, tentando retomar o controle de seu corpo tensionado.

- Isso não lhe diz respeito, Rence, apenas afaste-se e esconda-se em algum lugar seguro. Sunna e eu cuidaremos disso. - Demétria não foi ríspida, mas as palavras rápidas de dispensa tornaram sua atitude grosseira aos olhos de Rence que permaneceu parado enquanto ela passou o braço em volta dos ombros de Sunna puxando-a em sua direção.

- Tenho direito de saber o que está acontecendo. Posso ajudar. - Insistiu, mas foi cortado por Demétria.

- Não, não têm. Isso é problema nosso, então mais uma vez, saia. - Os tons de voz se alteravam tornando-se mais altos e raivosos, barulhentos como uma orquestra desarmônica ecoando nos ouvidos de Sunna, a despertando aos poucos de seu estado de choque.

- Já chega. - Suas palavras saíram baixas, mas cortantes, atraindo apenas a atenção de Demétria. Quando Rence abriu a boca para tentar retrucar, Sunna repetiu. - Eu disse: Já chega! - Dessa vez alto o suficiente para fazê-lo olhar para ela. Assustados com a postura repentina Sunna, ambos surpreendidos com a apatia em sua voz. - Se vão brigar como crianças, é melhor me deixarem agir sozinha. Demétria, toda a ajuda é bem-vinda e não é como se pudéssemos fingir a inexistência de Rence, além de negar que mesmo que sem saber ele está incluído nisso tudo a partir do momento em que você deixou explicito que temos pendencias com a realeza. - Ainda tremula, Sunna aperta a glabela raciocinando o mais rápido possível um plano eficiente. - Você levará Minerva o mais longe que conseguir, vai fazer chover para encobrir seus rastros e vai protege-la como se fosse sua, entendeu?

Sua resposta não foi nada além de um aceno breve.

- E Rence irá com você. Vai fazer tudo que Demétria determinar, sua função é dar cobertura as mantendo seguras. - Ambos pareciam incontestes, mas foi Demétria que se posicionou.

- E o que você pretende fazer? Lutar sozinha com só os Deuses sabem quantos anjos enquanto fugimos? Não faz nem um dia e já vai descumprir sua promessa. - Demétria nunca foi o tipo de pessoa que aceitava ordens sem questionar, sua posição era louvável, mas naquele momento Sunna precisava da confiança dela.

- Não me jogarei como isca, não sem um plano e você sabe disso. - Ela tentava respirar fundo, mas o nó em seu estomago parecia aumentar junto à sua aflição, em seu interior sentiu o mundo desmoronar, não só pela ameaça a frente, mas por finalmente perceber que a paz que achou ser possível não existia, não enquanto Apolo fosse o que fosse. Com a ansiedade apertando seu coração ou não, ela sabia que precisava aceitar esse fato, Minerva não conheceria a paz antes de lutar sua própria guerra e Sunna não poderia protege-la dos males do mundo que a aguardavam em vida, o que podia fazer era tentar afasta-la deles e assim faria. Tentando fugir da sensação de impotência que a soterrava assim como fugia das desconfianças de Demétria e da ignorância de Rence, desejando autocontrole o suficiente para focar em sua prioridade e objetivo em comum: salvar Minerva. - Faça o que pedi. Agora! - Sunna não iria despedir-se, não tão cedo, mas entregar Minerva aos braços hesitantes de Demétria quase lhe custaram uma lágrima, principalmente quando olhou para o rosto de sua amiga.

- Sunna, não, eu posso ajudar. - Com os olhos marejados, ela implorou tentando tocar a mão de Sunna que por sua vez recuou negando com a cabeça incessantemente tentando manter as lágrimas controladas.

- Não, agora vão! - Sunna virou as costas, não deixaria que a vissem chorar. Mas Demétria ainda não tinha terminado.

Em sua cabeça, Demétria gritou, esperneou, jogou Sunna contra o chão gritando para que fosse com ela, esquecesse Filgord e construísse uma vida onde ninguém a conhecesse, mas não foi o que fez. Demétria não conteve as lágrimas que caiam de seu rosto, muito menos controlou a aspereza da voz quando disparou. - Está mesmo me dizendo que vai confiar a vida dela a mim e a um completo desconhecido?

A frieza em suas palavras foi como um banho frio em Sunna, algo naquele momento se quebrara entre elas e Sunna não poderia concertar, não logo. Virando o pescoço para olha-la por cima do ombro e responder tão fria e despedaçada quanto.

- Se ele tentar algo suspeito, não hesite, mate-o. - Sunna não precisou olhar para Rence para saber que ele engoliu em seco. - Retornem quando o sol nascer e se eu não estiver aqui, o que não vai acontecer, fujam para o mais longe de Arcade que conseguirem. - Esperando pela confirmação deles, Sunna recebeu mais que um aceno mínimo de cabeça e um olhar fatal de Demétria. Retornar o olhar para frente tornou-se um consolo, isso é, até ela correr de volta ao chalé em busca de suprimentos e Demétria a seguir, mas só quando chegaram lá Sunna notou que seu intuito era o mesmo do dela. Rence ficou à porta esperando-as armar-se com ervas e poções pré-prontas, por sorte, a mesa ainda contava com muitos suprimentos importantes, mas a tensão entre as duas parecia prestes a cortar o ar. Sunna não queria pensar nisso, não quando estava há um passo de ficar atônita com todas aquelas emoções dentro de si. Enfim terminou de pegar tudo o mais rápido possível, foi até o armário com suas roupas e tirou de lá uma capa branca.

Descendo as escadas, viu Demétria correndo em disparada e Rence carregado de bolsas observando-a antes de seguir seu caminho. - Boa sorte, profetisa. - Rence correu junto a Demétria mostrando que não era tão burro quanto parecia, ele agora sabia quem Sunna era graças a aquela discussão e chegara a hora de deixar Sunna D'luna dormir e a Profetisa vermelha aparecer. Caminhando até a saída, a cada passo um murmúrio de comando evocava a presença do ar.

- Sele as janelas. - E todas foram fechadas pela ventania.

- Cesse o fogo. - E todas as velas e lareira se apagaram, mergulhando a casa em escuridão e frio. Dentro de sua própria bagagem, Sunna tirou um frasco de tinta vermelha e o deixou lacrado até passar três passos da porta principal. Com a casa às suas costas, ela vestiu a capa branca, abriu o frasco de tinta pingando - a em suas mãos. A mente de Sunna estava longe da calmaria, mas controla-la seria sua melhor opção e assim ela fez, calando-a por um curto momento, observando o sol que não se pusera pintar o horizonte constantemente de amarelo. Não tão longe, nuvens de chuva despontam pesadas enquanto Sunna segura duas pontas do capuz, sujando-as de vermelho bordô.

- Tranque as portas. - E assim foi feito, o barulho das portas fechando violentamente junto a uma ventania ainda mais forte fazendo a capa voar, mas Sunna permaneceu imóvel, segurando o capuz enquanto magicamente a tinta tingia toda a capa, espalhando de suas mãos até todo o comprimento, e Sunna, Sunna olhou para a floresta pronta para enfrentar seu passado.

E como se a ouvisse, um enorme lobo escuro como a noite que não chegava atravessou as árvores, tão grande que em poucos passos parou curvando-se para Sunna.

- É uma honra vê-lo novamente, Elijah. - O lobo não se moveu, mas Sunna por pouco não caiu de joelhos implorando pelo seu perdão, invés disso, conteve a tempestade em seu coração assumindo uma força na qual sequer sabia de onde vinha. - Você não conseguiu me proteger, mas fará isso por ela, proteja a minha Minerva, assim como um dia já me protegeu, jure lealdade à sua Deusa. - As palavras de Sunna saíram como um feitiço, quando na verdade eram uma suplica. O grande lobo levantou-se e desapareceu em meio às árvores da floresta deixando Sunna mais aliviada e com uma única certeza; ela não iria perder naquele dia.

Chegara a hora de libertar toda aquela dor que rasgara sua garganta, descontando toda a preocupação, dúvida e impotência, Sunna correu seguindo o caminho do grande lobo, deixando para trás o que um dia foi. Correndo em direção ao futuro guiada pelo passado, pronta para fechar todas as pontas nele abertas.

*

Enquanto Demétria, Rence e Sunna corriam contra o tempo para proteger Minerva, Filgord gritava por clemencia. Anjos invadiam as casas em busca da recém-nascida de olhos brancos sem se importar com quantos corpos deixavam pelo caminho, entre os ditos corpos, estavam os dos pais do pequeno Willian, um menininho alegre de não menos que 6 anos que agora escondia-se debaixo da cama com o corpo de sua mãe, já sem vida o escondendo do campo de visão dos anjos, mas o corpo dela não foi o suficiente para esconder o que aqueles olhinhos castanhos enxergaram a seguir. Um dos soldados desferiu um golpe rápido com a espada decapitando seu pai que implorava por misericórdia. A cabeça girou e girou até parar de baixo da cama ao lado das perninhas encolhidas de Willian que encarou os olhos sem vida daquela parte arrancada de seu pai, ele não esqueceria isso, assim como não esqueceu do nojo daquele soldado ao limpar o sangue de seu pai da armadura antes de sair e deixa-lo para trás. O menino não esboçara nenhuma reação até ter certeza de que os nefilins haviam deixado a casa, então saiu de baixo da cama engatinhando às pressas enquanto vomitava e chorava chamando por seus pais que jamais voltariam a responde-lo. Willian chorou até perder a voz, deixando seu martírio se unir aos tantos outros por toda a cidade, mas quando não tinha mais forças para manter os olhos inchados abertos, aninhou-se no colo ensanguentado e frio de sua mão desejando que milagrosamente ela acariciasse seu cabelo mais uma vez e ali ele dormiu esperando acordar de seu pesadelo.

*

Enquanto chamas e sangue engoliam Filgord, Demétria e Rence corriam floresta adentro silenciosos e tensos demais enquanto nuvens de chuva começavam a se formar graças a Demétria, que apesar de nitidamente enfurecida conseguia convoca-las aos poucos.

- Preciso de um pouco mais de tempo, vamos parar. - Rence obedeceu ao comando temendo o temperamento da druida que nunca fora muito amigável em sua presença. Com Minerva no colo, Demétria fechou os olhos convocando seu elemento enquanto Rence a observava curioso demais para disfarçar o interesse. - Pode parar de me encarar? Sinto como se você estivesse em meu pescoço. - Ele desviou o olhar, mas a manteve em seu campo de visão, estava realmente empolgado em ver alguém conjurar magia pela primeira vez. - Obrigado.

Rence ouviu o céu trovoar e a água começar a cair fina.

-A chuva vem limpar a dor que os alados causaram. - Os sussurros audíveis de Demétria arrepiaram os pelos nos braços de Rence, seja lá o que ela estivesse fazendo, tinha cheiro de primavera e terra molhada. -Tempestade torne-me mais rápida que seu mais poderoso diluvio, ajude-me a proteger a escolhida do Caos. - A oração de uma poderosa druida, foi o que pensou o rei, mas as surpresas de Demétria não acabaram ali. - É bom não me perder de vista. - Ela segurara Minerva contra o corpo com força e disparou a correr, Rence a seguiu, mas não demorou a perceber que além de mais rápida, Demétria também se camuflava entre os pingos de chuva tornando-se um borrão iluminado pela pouca luz do pôr do sol que atravessava as árvores, talvez ela tivesse se transformado em chuva, talvez a chuva fosse parte dela. Os pingos frios trouxeram ao rosto de Rence um sorriso fascinado, por algum motivo aquele momento causara uma sensação de cócegas, como se aquela noite não fosse tão preocupante como de fato era, então aproveitando a calmaria no início da tempestade, ele correu, não como se sua vida dependesse disso, mas sim como uma criança brincando com seus melhores amigos na primeira chuva do verão, ele sorria e pela primeira vez pode ouvir Demétria sorrir também.

Eles não tinham afinidade alguma ou no mínimo uma simples primeira impressão amigável, mas lá estavam os dois, apesar de todas as desconfianças, sorrindo para a chuva enquanto desviavam dos caules grossos das árvores que os cercavam. Precisavam disso e sabiam, afinal, tudo indicava que deveriam esperar o pior, mas ali, por mais breve que fosse o momento, preferiram fingir que não eram nada além de pessoas comuns brincando na chuva. Principalmente Demétria, que segurava não só Minerva em seus braços, mas o medo de ela ser a última lembrança de Sunna que a restaria quando tudo acabasse. Já Rence, ainda atônito por toda as peças encaixando-se em sua cabeça, agradeceu silenciosamente por aquele pequeno momento de paz.

Correndo floresta a dentro por só os Deuses sabem quanto tempo, as pernas reclamando pelo esforço e pontadas de câimbra já se tornavam quase insuportáveis quando Demétria finalmente parou ao pé de uma montanha.

- Chegamos. Venha, vamos subir. - Rence olhou para cima, completamente enxarcado, encarando a subida desafiadora e porque o lugar seguro seria ali. Apesar das risadas compartilhadas por eles horas atrás, Rence não se sentiu confiante o suficiente para contestar Demétria que avançava facilmente montanha á cima e além disso, notou Rence, curiosamente ela permanecia seca apesar do temporal que caia sobre eles.

Incrédulo, perguntou. - Como faz isso? - Demétria riu sarcástica sem olhar para trás.

- Da mesma maneira que fiz chover. - Claro, a resposta era obvia, mas Rence teria agradecido se a amiga de Sunna pudesse ser um pouco mais compreensiva com alguém que nunca presenciara uma magia como aquela.

- Sim, magia, claro. Então você é uma bruxa? Como Sunna? - Demétria admirava a tentativa de Rence em se aproximar, mas não era o momento e ela não prometeria ter autocontrole o suficiente para lidar com ele pelas próximas horas.

- Sim, magia e não, não sou uma bruxa, mas sim uma druida de água. - A explicação, não importa quão precisa fosse, estava distante dos conhecimentos de Rence.

- Não é a mesma coisa?

- Não, não é e está longe de ser. - Cada resposta menos amigável que anterior, Demétria não poderia continuar assim, não preocupada como estava, se precisasse ouvir outra pergunta de Rence provavelmente o derrubaria montanha abaixo e Sunna, se sobrevivesse, não gostaria nada disso. - Escute. Não irei me opor a responder qualquer pergunta sua, por mais patética que pareça, mas só quando realmente estivermos seguros. Então por favor, até lá mantenha a boca calada.

O tom de Demétria, surpreendentemente, não soava maldoso, mas cansado e ofegante. Rence acatou a esse pedido evitando dar motivos ao temperamento dela de voltar-se mais uma vez contra ele, mas não conteve sua curiosidade. Enquanto enfrentavam a subida árdua da montanha o antigo rei organizava seus pensamentos e perguntas que viria a fazer, talvez Demétria não tive todas as respostas para elas, mas teria respostas o suficiente sobre Sunna e de porque a criança de Apolo estava com ela enquanto todos da cidade estavam convictos que Minerva pertencia a ela. Rence certamente conhecia pouco sobre magia e as criaturas que a utilizavam, mas não era tolo ao ponto de estar alheio aos acontecimentos e boatos dos locais por onde passou, estava completamente a par da morte da rainha, o nascimento das filhas de Apolo e o aparecimento da profetisa que o desmascarara, sendo ela o motivo de sua jornada a Filgord, mas agora ele tinha quase certeza que a dita profetisa não era ninguém se não Sunna. E quando menos percebeu está ajudando no sequestro, ou salvamento, da suposta herdeira ao trono de Arcade se perguntando quando chegou onde chegou, como se fosse...

Antes de concluir seu raciocínio, Demétria aponta para a boca de uma caverna dentro da montanha, quase imperceptível graças a quantidade de plantas que a cobria, mas o espanto não é devido a caverna, e sim o que há dentro dela. Contornando as paredes de pedra, uma belíssima escada iluminada pela fraca luz do sol brilha diante deles deixando Rence boquiaberto. A caverna na verdade se revelara uma gruta, repleta de estalactites e um pequeno lago no caminho até as escadas nas quais a água refletia fazendo sombras dançarem nas paredes. Abaixo das escadas que circulavam suas paredes, tuneis de diversos tamanhos iluminados, pelo que julgou Rence serem, cristais tornavam o lugar digno da curiosidade de qualquer um. Mas Demétria o lançou um sorriso superior ao notar a surpresa em sua feição boquiaberta.

- Destino... - Sussurrou finalizando seu pensamento com os lindos olhos cinza arregalados para aquele cenário tão intrigante. Demétria parecia familiarizada com o lugar, não demorou até atravessar o lago com Minerva em seus braços e a água à altura de seus quadris quando em Rence chegava até metade de suas coxas. Ele segurou no corrimão coberto por poeira e musgo, mas ao seu toque, revelou um tom claro de madeira. A escada, um dia quando limpa e regularmente usada, possuía originalmente um tom claro de madeira, quase branca. O corrimão por sua vez fora talhado com desenhos diversos de folhas e flores enquanto vinhas o rodeavam do piso ao teto. Rence contou, a cada 10 degraus um cristal iluminava o caminho, ao todo havia 8 cristais, logo, 80 degraus a serem encarados.

- Se acha isso impressionante, deveria ter visto na noite em que eu e Sunna destruímos tudo. - A gargalhada maquiavélica de Demétria parecia muito carregada de preocupações para ser cômica, mas mesmo assim Rence sorriu tentando conforta-la mesmo que não entendesse o quanto tudo aquilo estava sendo difícil para ela suportar, e mesmo assim ela estava tentando poupa-lo dessa pressão. Ele sabia que ela não gostava dele, mas admirou sua coragem de carregar tudo aquilo sozinha poupando-o do real perigo ali. Demétria poderia detesta-lo, mas era humana e nobre o suficiente para não o deixar ser atingido pela tempestade antes de prepara-lo para isso.

Eles subiram o grande lance de escadas, silenciosos demais, tensos apesar de fingirem serenidade. Os degraus aos poucos foram diminuindo até terminarem em uma porta entreaberta feita, provavelmente, com a mesma madeira das escadas e os mesmos desenhos do corrimão. Escondendo seu cansaço, Demétria terminou de abri-la, revelando um salão caindo aos pedaços, impregnado de mofo e repleto de mais escadas, portas e tuneis à frente.

Desejando possuir uma tocha, Rence seguiu os passos apressados de Demétria que subia mais escadas, dessa vez sem o auxílio dos cristais brilhantes iluminando o caminho, e para o azar deles, a madeira desse corrimão cedera, deixando boa parte da escada sem apoio, as poucas partes que não faltavam estavam podres demais para apoiar-se sem cair. Confiando em seu tato e na memória de Demétria, Rence subiu as escadas lentamente tateando com os pés por sabe-se lá quantos degraus até outro salão, mas dessa vez menor e com parte da parede parcialmente destruída, dando abertura o suficiente para a luz iluminar quase todo o salão. Ao se aproximar, Rence ficou perplexo com como a vista, era linda, o céu majoritariamente azul contrastando com o horizonte alaranjado do pôr do sol banhando a floresta com sua luz dourada enquanto a brisa fria do inverno que se aproximava arrancava folhas das árvores.

Quando cansou de admirar aquela vista de tirar o folêgo e voltou o foco para Demétria ela já estava acomodada, sentada ao chão aninhando Minerva enquanto preparava galhos para a fogueira.

- Deixe-me fazer isso, coloque-a para dormir. - Demétria não se opôs, entregou a ele as pedras e a lenha dando tapinhas no chão para que se sentasse próximo a ela.

- Eu sabia que tinha medo de mim, mas não sabia que era tanto ao ponto de você seguir minha ordem à risca. - Disse ainda mantendo sua fachada despreocupada e um sorriso falso de canto.

- Se Sunna que me ofereceu casa e comida me imobilizou na floresta disparando ameaças imagino o que você, que já me recebeu com afrontas não faria. - Rence estava sendo sincero, mas sua resposta alargou o sorriso falso dela. - E pode para com isso.

- Isso o que? - E então um pouco daquele tom acusatório retornara, destruindo o sorriso ensaiado.

- Isso de fingir estar tranquila com essa situação. Poucas horas atrás você estava prestes a chorar ao ouvir as ordens de Sunna, agradeço que queira me poupar da real seriedade dos acontecimentos, mas não sou tão estupido assim. - Rence realmente achou que poderia tirar as palavras de Demétria, mas isso não aconteceu, pelo contrário, ela trocou a máscara de tranquilidade pela de sarcasmo olhando-o de cima a baixo repetidas vezes.

- Acha mesmo que estou preocupada com como isso pode afetar seus sentimentos? Quanta presunção, alteza. - Seu nome, ela o ouvira, sabia quem ele era e usou isso como um insulto. De fato, ela e Sunna eram quase almas gêmeas à visão de Rence. Mas ele se sentiu grato, preferia o sarcasmo de Demétria à sua falsa calmaria.

- Então já sabia quem eu era por todo esse tempo? - Esfregando as pedras uma contra a outra, faíscas aos poucos acendiam a fogueira. Ela, por sua vez apenas deu de ombros.

- Na verdade, só percebi quando subíamos o primeiro lance de escadas a caminho daqui. - A fogueira acendeu, ainda fraca, mas o suficiente para aquece-los, mesmo que um pouco. Só então Rence se preocupou em olhar diretamente para Demétria, seus olhos estavam marejados apesar da voz calma e o único sinal de cansaço nela eram os cabelos bagunçados, que apesar disso continuavam lindos. Demétria de fato era o tipo de mulher que corresponde ao estereotipo das mulheres imagen, uma beleza inigualável, mas perigosa, que ao contrário de Sunna, aparentava mais delicadeza em seus traços que chegavam até a parecer comuns, mas não em Demétria. Sua beleza era inegável, mas existia algo a mais ali tornando-a tão surpreendente aos olhos de todos, uma imponência em sua presença que rainhas estudam a vida inteira para alcançar, enquanto Demétria nasceu com tal dadiva que ele jamais vira igual em sua corte.

- Eu agradeceria se não usasse meu passado como insulto, e também, se respondesse minhas perguntas. - Revirando uma das bolsas em busca do cantil de água, Demétria concorda com a cabeça.

- Pois bem, eu disse que responderia suas perguntas, pode começar. - Após beber da água, ela a ofereceu para Rence que dispensou a oferta. Demétria devolveu o cantil para onde estava dando tapinhas nas costas de Minerva quase adormecida.

- Primeiro, bruxas e druidas. Qual a diferença? - Essa não era a principal pergunta que queria fazer, mas não queria apressar as coisas quando provavelmente ficariam bastante tempo ali. A chuva engrossou ainda mais ofuscando a bela vista do céu que Rence observara poucos segundos atrás e os presenteando com o som intenso dos pingos sobre a montanha.

- A única coisa que temos em comum com bruxas, necromantes e profetisas é o fato de sermos imagens, fora isso, tudo nos difere. - Demétria estalou o pescoço alongando-se, ela já previa que aquela conversa duraria bastante, então tentaria ser o mais breve possível. - A começar pelo que chamamos de "despertar". Cada imagen é convocado pela magia de uma forma diferente e essa forma é o que determina qual tipo de imagen somos. Ao contrário dos magiecs nossos olhos não brilham coloridos no nosso nascimento ou morte, é um pouco mais complicado que isso, já que somos meio- nomagiecs. Para as druidas, um dos quatro elementos se manifesta, no meu caso, congelei uma xícara de chá aos 10 anos. Para os necromantes, a manifestação ocorre pelos animais, como conseguir se comunicar com eles ou controla-los por exemplo. As profetisas são o tipo mais raro e restritamente ligado às mulheres, elas são convocadas pela própria divindade independente de idade, título e riquezas, os critérios pertencem unicamente aos Deuses. Por fim, bruxas são convocadas por uma forte intuição, sonhos proféticos, visões a adivinhação, mas basicamente estão ligadas a um sentido apurado para o oculto. - Demétria gesticulava com uma das mãos em completo domínio do que dizia e Rence tentava acompanha-la acumulando cada vez mais perguntas.

- E o que acontece com aqueles que não atendem a esse "despertar"?

- Na pior das hipóteses, enlouquecer, principalmente as bruxas e profetisas. - Antes que Rence pudesse perguntar o motivo, ela se adiantou. - Não chamamos nossa magia de "magia de conhecimento" atoa. Após o despertar acontecer o indicado é que iniciemos nossos estudos o quanto antes para apender a lidar com nossas próprias habilidades e principalmente os efeitos colaterais delas, mas não funciona assim para todos. Não é inédito para você que nosso poder venha de nossos ancestrais, o problema é que muitas vezes os pais de crianças imagen não conhecem a própria descendência e não sabem como guiar sua prole. Se por sorte essa criança for um necromante ou druida poderá seguir uma vida comum como um nomagiec qualquer, mas se ela for uma bruxa e não aprender sozinha a controlar suas habilidades, provavelmente vai enlouquecer. Mas as profetisas, se elas se recusarem a servir ao Deus que a convocou, bom, boa sorte para ela. Não se recusa a convocação de um Deus.

- Mas isso não é injusto se tornar uma profetisa contra vontade? - As palavras de Rence arrancaram um suspiro frustrado de Demétria, assuntos como esse não eram muito confortáveis, principalmente quando ela não tinha uma explicação para isso, admitindo ou não Rence estava certo, era injusto.

- Sim. Mas por outro lado todos nós, imagens, trocamos algo pelo poder em nossas mãos, no caso das profetisas, elas absorvem parte dos poderes do Deus que a escolheu, além de ser protegida por Ele, praticamente intocáveis apesar da imposição. - A amenização de Demétria não o convenceu, trocar liberdade por um poder que você pode não desejar não soa como uma troca justa. Prestes a trocar de assunto, ele nota a um gancho na resposta dela.

- Se todos vocês trocam algo por poder, o que você trocou? - Mesmo que lutando contra, o nome de Sunna volta para preocupa-la, era impossível não lembrar dela naquele momento graças às palavras de Rence.

- Para os druidas atingirem seus poderes e dominarem seu elemento precisam passar pelo Ritual de Manifestação, no qual nosso elemento nos escolhe e a partir desse momento a divindade responsável por esse elemento ganha domínio sobre nosso espirito após a morte. - Apesar de estar surpreso, ele não demonstrou, essa foi a escolha de Demétria e Sunna, não cabia a ele opinar em nada relacionado a ela. - Mas não somos obrigadas a realizar o ritual. A maioria de nós escolhe não o fazer, mas não é tão ruim assim, as que concluem o ritual geralmente vivem três vidas humanas antes de serem chamadas por seu elemento.

Ela não parecia arrependida de sua decisão e de fato não estava. Demétria já havia visto muito do mundo para saber que não poderia viver nele sem o poder que tem e sua alma era o preço para a liberdade então ela pagou sem nenhum arrependimento.

Minerva já estava dormindo quando a pergunta na qual ela esperava não responder chegou.

- Então qual elemento escolheu Sunna? Eu acredito que seja o ar, mas a presença dela parece tão cálida para isso. - Engolindo em seco, ela aninhou Minerva entre as bolsas e sua própria capa.

Rence não sabia o porquê, mas Demétria tornara-se perceptivelmente instável quando respondeu.

- Sunna não é uma druida comum. - Ela gesticulava mais que anteriormente, como se a explicação se revelasse confusa até mesmo para ela. - Há muitos lugares para começar a explicar isso, mas basicamente, Sunna é uma bruxa, despertou como bruxa e viveu como uma por 18 anos, não nasceu em Arcade e pertence a um coven histórico, tão antigo e poderoso que é conhecido por alguns de nós como "realeza bruxa". A partir daí muita coisa aconteceu, suas irmãs amaldiçoaram o amor da vida dela e então ela fugiu para Arcade, especificamente para cá. - Demétria apontou para o chão indicando onde estavam. O raciocínio de Rence estava uma bagunça, ele obviamente sabia quem eram as D'luna, é impossível estudar a segunda guerra mágica sem elas, especificamente Ilítia D'luna, a consorte de Jupiter, também conhecida como A Traidora de Mil Homens, após trair seu esquadrão inteiro e unir-se a Jupiter. - As ruinas que nos abrigam agora, Rence, um dia já foram um templo druida.

- É muita coisa, isso explica o porquê de ela se recusar a mencionar seu sobrenome, mas não porque vocês destruíram esse lugar. - Pra sua surpresa, Rence reagiu muito melhor do que ela esperava, melhor até que ela mesma.

- Paciência, já chegaremos a essa parte. Guiada pelo destino, palavras dela, Sunna chegou até a montanha e foi acolhida pelos anciões. Não demorou até eles notarem as habilidades dela, isso é uma das poucas coisas que ninguém conseguiu tirar o mérito dela, Sunna nasceu com a magia em suas veias e sabia usa-la como ninguém. Eu a conheci quando ainda era uma iniciante e ela era minha mentora e colega de quarto, quase como se o destino a aproximasse de mim. - Rence podia não ser alguém perspicaz, mas a mudança no tom de voz de Demétria ao falar de Sunna era completamente diferente, coberto de afeto e adoração por um passado distante. Talvez fosse a imaginação fértil dele, mas Rence pôde jurar ver olhos de Demétria derramarem as lágrimas que ela tanto prendia. - Todos tinham grandes expectativas para alguém tão surpreendente quanto ela, isso é, até o dia do Ritual de Manifestação.

Todo o afeto em suas palavras desapareceu dando lugar ao peso daquelas lembranças, Demétria odiava lembrar daquele dia, lembrar de como despedaçada Sunna foi, e de como ela adorou inundar aquele lugar depois do que fizeram a ela.

- Mas ela é uma bruxa, como o ritual funcionou? - Finalmente Rence começara a entender como a magia de conhecimento funcionava, mas não estava alegre por isso, pelo contrário, sentia-se tão imerso naquela penumbra de memorias quanto Demétria.

-Exato, não funcionou e o segredo dela foi revelado. Os anciãos decidiram deixa-la por último, esperavam dela o mesmo que acontecera com jovens com um dom tão aguçado, eles acreditavam que mais de um dos elementais escolheriam Sunna já que ela sempre demonstrou aptidão para todos, mal sabiam que esse suposto dom era sua verdadeira natureza. Eu fui a primeira a participar do ritual e fui escolhida por Pontus e após eu outros dois rapazes foram agraciados pelo fogo e terra respectivamente. Quando chegou a vez de Sunna todos prenderam a respiração, o ritual começou da mesma forma que todos os anteriores até todas as velas se apagarem, a terra tremeu, as águas evaporaram e uma ventania invadiu o salão. Todos os elementos se manifestaram ao mesmo tempo exigindo que Sunna fosse morta, chamavam-na de impura, mentirosa, farsante, eles revelaram a todos seu sobrenome, quem era, porque estava ali. Sunna não soube o que fazer, ela parecia inconsolável, destruída e agora desmascarada. - Sem conseguir mais conter tudo aquilo, Demétria permitiu que suas lágrimas escorressem enquanto ela inconscientemente encolhia seu corpo. - Eles a trancaram em uma cela improvisada, a manteram lá por semanas, não me deixavam vê-la, fazendo sabe os Deuses o que com ela, mas um dia ela gritou tão alto chamando meu nome que invadi aquele maldito cômodo, mas quando a vi, tive que segurar a vontade de vomitar. Eles a amarraram, pés, braços, pescoço, não com cordas, mas ferro, aqueles filhos da puta esquentavam o maldito ferro até queima-la. - Os olhos vazios de Demétria diziam muito mais que Rence podia descrever, ela estava revivendo a cena em sua cabeça, contendo um grito em sua garganta enquanto as lágrimas caiam cada vez mais. - Eles não estavam fazendo isso pelo ocorrido com os elementos, fizeram por vingança, mas ela não era Ilítia. Eles cortaram sua carne, violaram seu corpo, quase a mataram de inanição por compartilhar seu sobrenome com alguém morta há séculos! - Demétria mandou ao inferno o controle gritando as últimas palavras com a ira de Ares em sua garganta.

- Naquela noite eu matei pela primeira vez, mas ao contrário do que até eu mesma esperava, não senti nada, mas ainda lembro da sensação quente do sangue daquele carcereiro escorrendo pelos meus braços quando enfiei sua própria lança em seu queixo até sair pela nuca. Não me arrependi disso, assim como não me arrependi de matar todos que tentaram me impedir de tira-la de lá. - Rence sentia seu corpo arrepiar conforme as palavras de Demétria o atingiam, mas ao invés de repulsa, ele admirou a força daquela mulher impiedosa, desejando ter sido capaz de fazer o mesmo por sua esposa quando Vlad a atravessou uma lança. - Sei que se tivesse demorado mais tempo ela teria morrido, assim como sei que se eu fosse um pouco menos covarde e tivesse invadido aquele lugar desde a primeira noite a teria poupado de muita coisa. Porém, o mais surpreendente é que aquela foi a primeira vez em que seus gritos foram audíveis, e nós druidas não possuímos nenhuma magia de disfarce, ou seja, ela não gritou, em momento algum. O seu espirito foi tão destruído que seu corpo sequer tinha forças para gritar. Eu a levei para Filgord, onde fica uma das bibliotecas do meu pai e cuidei dela por três meses antes de voltarmos para o templo e destrui-lo junto com todos que a machucaram, um por um, até que não restasse nada além de seus ossos.

Demétria mordia os lábios impedindo seus soluços de saírem, mas ainda assim forçando-se a continuar a falar. Rence não conseguiu vê-la assim, mesmo com a pouca intimidade entre eles, não hesitou em abraça-la forte, segurando sua cabeça contra o peito, sentindo suas lágrimas o molharem. Demétria tentou afastar-se, mas logo desistiu, sabia que não havia mais volta e Rence já a enxergara sem suas máscaras.

- Você pode parar, não precisa reviver tudo isso. - Ela negou contra seu peito, parecia tão indefesa quanto Minerva, não uma guardiã apática, mas alguém que temia perder a última pessoa que amava.

- Eu quero continuar. - O fogo crepitava tão alto quanto o barulho dos pingos de chuva como uma sinfonia poupando-os do silencio que se alastrou por todo o salão até que Demétria retomasse o controle de sua voz. - Quando chegamos a Filgord ela estava praticamente morta, tão magra que pude ver nitidamente os ossos de seu quadril e costelas, a pele coberta por hematomas, queimaduras e cortes. Ela permaneceu desacordada por semanas até finalmente abrir os olhos e quando enfim lembrou de tudo que aconteceu não parou de chorar, parece exagero, mas foram horas até que ela parasse de soluçar, mas quando parou secou as lágrimas com as costas das mãos e disse olhando em meus olhos com a fúria de uma tormenta "Eles transformaram sua admiração por mim em uma faca e rasgaram minha garganta, retribuirei transformando seus espíritos em cinzas." Foi a partir daí que ela começou a traçar sua vingança, mesmo ainda mal conseguindo caminhar sozinha, mas compartilhava comigo cada detalhe, o que eu faria, como faria e porque faria. Até que ela melhorou e me perguntou como podia retribuir o que fiz por ela e mesmo comigo dizendo que não desejava nada dela, ela insistia cada vez mais, então a fiz prometer que um dia ajudaria alguém, assim como a ajudei. Falei da boca para fora, não esperava que realmente pretendia manter a promessa, e agora, eis aqui você.

Desvencilhando-se do abraço de Rence, ela agradeceu com um aceno de cabeça e um sorriso pelo apoio que ele a ofereceu.

- Como se eu estivesse destinado a encontrar vocês. - Disse para si mesmo, mas Demétria confirmou com a cabeça.

- Talvez esteja. Mas então chegamos à parte em que Sunna tornou-se uma druida. - O rosto de Rence era pura confusão, ele provavelmente forçou um pouco mais para arrancar um sorriso fino de Demétria que o agradeceu mentalmente. - Dias antes de nosso ataque ao templo, ela me fez prometer não segui-la, pois havia uma parte chave do plano que ela precisava fazer sozinha e eu não hesitei em confiar nela, na verdade, foi a primeira vez em que fiz isso, não confiar em alguém, mas acreditar tão cegamente que ela sabia o que fazia que não precisava me preocupar pois sabia que ela voltaria. E ela voltou. - Demétria respirou fundo desviando olhar de Rence para a fogueira crepitante e o estalar da madeira, preparando-se para o que viria a seguir. - Sozinha, ela mesma refez o Ritual de Manifestação, não invocando todos os elementos, mas apenas um deles, o Ar, e ao contrário das outras druidas de ar que firmaram contrato com Éolo, Sunna invocou o vento Oeste, Zéfiro. Surpreendentemente ele apareceu e aceitou a proposta dela, transformando-a na primeira imagen a forçar um despertar.

- Isso é incrível, mas não houveram consequências? - A pergunta de Rence tinha fundamento, mas se feita um dia atrás receberia uma resposta completamente diferente. Atingida por uma onda de esperança, Demétria lembrou do calor incandescentes nos olhos de Sunna naquela tarde enquanto ela perdia o controle do feitiço.

- Não, isso é, até agora. - Encarando o horizonte pelo buraco na parede, Demétria deixou que as peças se encaixassem aos poucos em sua mente. Já Rence, ele a assistia com curiosidade esperando uma explicação.

- O que quer dizer com isso? - Com um sorriso de canto discreto e um olhar perspicaz, Demétria foi confortada, mesmo que um pouco, mas agora havia esperança.

- Que ela foi convocada por seu verdadeiro Despertar essa tarde e se eu a conheço bem, ela está correndo atrás dele agora, logo, só existem duas opções, ou ela vence ou morre.

*

As árvores passavam como um borrão por Sunna, correndo não apenas contra o tempo, mas as contra memórias que aquela tarde fizera questão de libertar. Ela as sentia em seu encalço, animais selvagens cercando-a prestes a abocanhar um membro e a arrastar para sua toca, onde lá jamais retornaria a ver a luz do dia. Memórias cuja ela jamais ousara fazer as pazes temendo ser devorada por elas, pobre Sunna, mal sabia que elas já haviam terminado de destrui-la, o que fugia não passava de uma carcaça do que um dia ela foi.

Ela sentia o vento frio de inverno cortar seu rosto e arder seus olhos ignorando completamente a respiração ofegante sem diminuir o ritmo da corrida, ciente de onde desejava chegar, mas atrasada pela lama profunda que soterrava seus pés, forçando-se a não pensar em nada além de seu destino e desejando poder deixar aquela tempestade emocional para depois. Esquecendo-se de que quando a taça está cheia, só precisa de uma gota de Caos para transbordar. Um de seus pés escorrega, deslizando pela terra escorregadia e fazendo Sunna cair contra o chão lamacento, encharcando-a de lama. Ela tentou levantar apoiando-se nos cotovelos ralados, mas não conseguia, seus pulmões ardiam enquanto ela respirava ofegante, tossindo e xingando mentalmente sua fraqueza. Enfurecida, Sunna esmurra o chão berrando alto já beirando o precipício que a seguia há tanto tempo.

Lá estavam todas as vozes daqueles que a destruíram repetindo cada insulto naquela tarde envolta de memórias, na qual suas cicatrizes, mesmo que apagadas, ardiam como fogo sob sua pele gélida. Lembrava do desprezo nos olhos de sua mãe quando ela se recusou a retornar às Ilhas Solares e do prazer de Irina em vê-la matar Elijah. Ouviu a voz dos anciãos enaltecendo seu talento, presenteando-a com o afeto que jamais recebeu de sua família, mas logo depois de ouvir seu sobrenome não hesitaram em a colocar em uma jaula como se fosse um animal e apesar de todos os cortes, queimaduras e abusos ela seguia se desculpando por decepciona-los. Desculpava-se pelas mentiras que os contou mesmo sendo acolhida por eles, implorou pelo seu amor mesmo com correntes de ferro ardente queimassem sua pele, e quando percebeu que jamais seria amada de verdade, ela desejou que o que viveu com Demétria fosse o suficiente para que ela a salva-se, ela não precisaria ficar, não precisaria ama-la ou respeita-la, mas naquele momento o nome dela era o único em sua mente. Ela ainda lembrava como aquele grito rasgou sua garganta, lembrava de um dos anciões emburrando sua cabeça contra a parede para que desmaiasse, mas a última que viu foi Demétria coberta de sangue enfiando uma lança no pescoço de seu torturador, os olhos de sua amiga brilhavam furiosos e assassinos, apesar disso ela não parava de chorar, como se a dor de Sunna fosse a dela. Desde então, Demétria jamais partiu, pelo contrário, caminhou dia após dia ao seu lado incentivando a grande druida que um dia ela acreditou que fosse.

Contra a vontade se seu corpo, Sunna levantou-se da lama cambaleando pelas pernas tremulas e completamente imunda, mas isso não era nada para ela, o cansaço era apenas o começo e ela pagaria qualquer preço pela segurança de Minerva, mas naquele momento o que a fez levantar, conter a respiração e correr ainda mais rápido foi a memória de Demétria. Talvez Sunna realmente fosse um monstro amaldiçoada pelo seu sangue, mas se Demétria e Elijah viram isso e foram capazes de ama-la, então ela enfrentaria o que fosse preciso pela segurança e felicidade deles. Seus músculos repuxavam graças ao intenso esforço, mas foi um pequeno córrego que chamou sua atenção. Com um grande salto sobre um tronco caído, ela finalmente pode enxergar seu destino. Seguindo o impulso do salto, ela derrapou descida abaixo até parar de frente para a nascente do pequeno córrego, sobre ele, dois troncos inclinados em direções opostas formavam um arco sobre a água iluminada pelo brilho dourado daquela tarde. 15 Anos depois, lá estava ela novamente, tão determinada quanto desesperada como na primeira vez, sozinha por escolha e ainda assim disposta a arriscar o pouco que a restava, algumas coisas não mudam.

Lá já estavam presentes três elementos, água, terra e ar, logo, Sunna não demorou para convocar o fogo. Apesar da chuva, os galhos ao redor não estavam completamente enxarcados, seriam o suficiente para uma fogueira, mas quando ela já estava praticamente finalizada Sunna pode sentir a presença dele trazendo-o do Oeste.

Triunfante como sempre, Zéfiro se revela entre as árvores, os longos cabelos cinzentos arrastavam-se pelo chão, mas permaneciam impecáveis em contraste com a pele azulada praticamente translucida do Deus inferior, seu físico apesar de forte possuía uma delicadeza sofisticada combinada à sua altura exagerada, já as roupas, Zéfiro não era um grande apreciador delas, trajava apenas uma saia branca à altura de seus joelhos, porém braceletes e tornozeleiras de ouro adornavam seu corpo, reluzindo à luz fraca com toda a presença imponente de sempre. Conforme se aproximava, as folhas ao seu redor rodopiavam e junto a elas seu cabelo ainda sujo de lama.

- Há quanto tempo não sou agraciado por seu chamado, querida. - Sunna não sabia distinguir se havia ou não sarcasmo em suas palavras, mas se precisasse apostar diria que não. Zéfiro costumava ser muito mais franco e sincero ao invés de debochado, além disso, ele costumava ser um ótimo companheiro de conversas, apesar de traiçoeiro e ligeiramente manipulador.

- Faz realmente bastante tempo, mas eu ainda não o havia chamado. - Largando a tora de madeira que carregava para a fogueira, Sunna levou toda sua atenção àquele velho e poderoso amigo, que agora estava a poucos passos dela, encarando-a com aqueles finos e delineados olhos azuis claríssimos quase transparentes, sendo o único ponto de cor em seu rosto as tatuagens em suas têmporas, desenhos de galhos, flores e pétalas tão finos e delicados que só tornavam-se visíveis de perto. Tão poderoso que apenas sua presença fora o suficiente para cessar a chuva.

- Mas pretendia chamar. - Não havia sido uma pergunta, mas mesmo assim Sunna confirmou. - Você me intriga, minha cara. Sei o que está acontecendo nesse exato momento em sua vila e tudo o que fez no discurso daquele anjo medíocre, sobre isso aceite meus parabéns, mas não entendo o que faz aqui, muito menos o porquê precisa de mim mesmo quando já a entreguei o que precisa. Diga-me Sunna, qual plano sangrento é tão complexo que o poder que lhe dei não é o suficiente para chutar aquelas gaivotas de sua cidade?

- Gostaria de ter tempo para explicar-lhe os detalhes, mas tempo é um privilégio que não estou dispondo agora, então resumidamente, recebi meu Despertar, bom, o terceiro na verdade. - Zéfiro não disfarçou a expressão boquiaberta, pelo contrário, parecia de fato não acreditar nisso.

- Como três? Bruxa e agora profetisa, não há como receber um terceiro Despertar Sunna. Caos bagunçou tão forte em sua mente que você enlouqueceu? - Ele não era idiota, à essa altura já sabia que sua presença ali estava relacionada ao acordo entre eles.

- Zéfiro, não há tempo então apenas escute, eu transformei água em vapor essa tarde, perdi o controle e fiquei ligeiramente hipnotizada. Precisa acreditar em mim e me ajudar a entrar em contato com meu elemento, a vida de muitos depende disso! - As palavras saiam rápidas demais, eufóricas demais, mas Sunna tentou manter-se o mais concisa o possível.

- Por Zeus, Sunna, sua namoradinha é uma druida de água, ela pode muito bem ter feito isso facilmente e mesmo que o que esteja me dizendo seja verdade, não é como se eu pudesse desfazer nosso contrato e você sabe disso e mesmo se pudesse o que eu ganharia com isso? Você entregaria sua alma para a Héstia e eu não receberia nada por todos os anos que você usufruiu de meu poder. - Zéfiro tinha um ponto, mas não era como se ela pudesse provar, o que tinha de fazer era convence-lo de um jeito que ambos ganhariam, assim como na primeira vez.

- Escute, não é como se eu pudesse provar, mas olhe para mim Zéfiro, você viu em mim uma guerreira quando o invoquei, foi o que disse, e assim como há 15 anos atrás eu continuo lutando, mas dessa vez não estou lutando contra mim mesma ou meu passado, temos coisas maiores aqui e você sabe disso, e sei que sabe. As marcas em meus ombros não são meras decorações, se o que o preocupa é que tudo isso não é nada além de um truque para que eu fuja de nosso contrato você não poderia estar mais errado, não temo a morte e muito menos o que me espera após ela. Aqui, anos atrás você fez de mim tão poderosa quanto qualquer druida e eu jamais esqueci ou deixei de ser grata a você, sem você eu não teria sobrevivido, então por favor, eu prometo que arrumaremos uma forma de que você consiga sua parte do acordo, mas agora me ajude e rápido. - Cada segundo contava, a cada piscar de olhos uma vida podia estar sendo ceifada e Sunna era um exército de um soldado só pedindo reforços urgentemente.

- Já chega. - Disse pondo a mão enorme na boca de Sunna para que se cala-se. - Esqueci de como você pode ser irritante, mas vou repetir, não vou, nem posso ajuda-la Sunna, o melhor que pode fazer é encontrar sua miniatura de Deusa e leva-la o mais longe possível de Filgord. Se meus poderes não são o suficiente para que salve sua cidadezinha então os de Héstia também não serão e você sabe disso. Sinto muito, Sunna. Mas se serve de consolo eu passei por sua família deslocada antes de chegar aqui, estão seguros e bem abrigados. - Não, ele não sentia, só não queria parecer indelicado e ela sabia disso, mas principalmente quando ele tocou seu ombro em despedida. - É tudo que posso fazer por você.

Zéfiro virou as costas adentrando aos poucos o bosque, já Sunna, por pouco não jogou uma pedra em sua nuca, não, ela faria isso com ou sem ele. Sem demora tirou de sua bolsa duas pedras e as esfregou até suas faíscas se tornarem fogo.

- Eu farei. Com ou sem você. - Sunna não repetiria suas palavras, muito menos voltaria atrás, ela faria o ritual mesmo que a custasse um inimigo como Zéfiro. Só havia um caminho e ela o seguiria. Caminhando até o centro da nascente circular e parando debaixo dos troncos inclinados.

- Não sabia que possuía uma alma em seu bolso, por favor use-a então. - Sobre Zéfiro não ser alguém debochado, Sunna passou reconsiderar isso, mas ignorou suas palavras, seguiu o ritual conforme planejou mesmo o ouvindo se aproximar.

Com a água rasa à altura de suas panturrilhas, ela ajoelhou-se limpando a mente e fechando os olhos.

- Vamos Sunna, levante daí, já chega. - Seus passos se aproximavam ainda mais, dessa vez entrando na água. - Está surda? Eu mandei sair! - O ignorando, Sunna começa a entoar o canto de evocação aos poucos inclinando o tronco para frente. - Escute, se você parar com esse absurdo e levantar desse rio eu a levarei até Demétria as guiarei até um lugar realmente seguro, é tudo que posso fazer, então aceite. - Sunna podia senti-lo a poucos metros dela quando mergulhou a cabeça na água e juntou os braços atrás das costas. - Eu disse, chega! - Zéfiro não era conhecido por ser alguém paciente, mas graças a isso confirmou sua suspeita, ele não queria que ela finalizasse o ritual. A entidade a tirou da água puxando-a pelos ombros. Ela por sua vez, apenas o encarou com os cabelos ensopados sobre boa parte de seu rosto, deixando de fora apenas seus olhos, nariz e boca.

- Eu farei. Com ou sem você. - Repetiu a profetisa com um sorriso orgulhoso. - Um dos princípios das maldiçoes e legados: O direito hereditário não pode ser revogado, por nada e por ninguém se não aquele que amaldiçoou ou conquistou tal direito.

O rosto de Zéfiro tornou-se pétreo, só os Deuses sabiam como ele desejava torcer o pescoço de Sunna, mas antes que pudesse desferir qualquer comentário ou ação, um frio glacial caiu sobre eles. Zéfiro olhava para Sunna pedindo por respostas, mas ela apenas sussurrou sentindo aquela presença familiar estremecer a floresta. - Ele está aqui. - E de repente ele não precisava olhar para trás para ver quem estava lá, sua presença esmagadora era o suficiente para a água da nascente tremular, o ar antes sob seu controle voltar-se contra ele, a terra tremer sob seus pés e a pequena fogueira tornara-se um fogaréu.

- Ele não viria por você, chega de truques. - Zéfiro estava em negação, era impossível uma falsa druida D'luna ser realmente uma protegida dele.

- Diga isso a Caos, Zéfiro. - O sorriso de Sunna era enorme, principalmente quando olhou nos olhos de Zéfiro e sentiu seu toque se suavizar sobre seus ombros. Não demorou até que ele a solta-se sem que Caos precisasse pronunciar uma única palavra para isso, o corpo alto de Zéfiro era a única coisa que a impedia de vê-lo, mas ela ainda não o olhara, fez questão de apreciar a surpresa nos olhos de Zéfiro, a mesma surpresa que viu nos olhos de todos aqueles que um dia a subestimaram e esse vislumbre sim fazia todas as palavras cruéis valerem a pena.

Sunna deu a volta por Zéfiro pronta para encarar aquele que a dera uma nova chance. E então, ela o viu. Caos não possuía uma forma masculina, feminina ou qualquer outra coisa entre isso, sua figura era humana, mas não se limitava a gênero, todo seu corpo parecia ser envolto pela mais profunda escuridão, exceto seus olhos, esses carregavam o brilho de mil galáxias colidindo umas contra as outras em uma explosão de cores e destruição, não trajava nada além de uma capa prateada como o brilho das estrelas, sendo ela e seus olhos, as únicas coisas distinguíveis naquela imensa escuridão.

- Olá Profetisa Vermelha. - A voz do Deus primordial estremeceu a floresta, tão suave e acolhedora e ao mesmo tempo destrutiva, mortal. Instigando Sunna a perguntar-se do que o Deus do universo era capaz se estivesse inspirado. - Parece que realmente está se esforçando para conquistar minha aprovação. Você é corajosa, menina, preciso admitir.

Um elogio como esse vindo de quem veio não era algo menos que surpreendente, principalmente para Sunna que o reverencia antes de responder. - Farei com que não se arrependa de sua escolha, Caos. - O primordial a dirigiu uma risada melódica, porém curta antes de voltar-se para Zéfiro.

- Jamais esperaria menos de você minha criança. - Para a surpresa tanto de Zéfiro como de Sunna a voz de Caos poderia facilmente ser interpretada como afetuosa, mas apesar disso, Zéfiro continuou de costas para o primordial. - Mas quero avisa-la, não precisa recorrer a outras entidades quando já fiz de você minha e para ti, meu poder não dorme. Apesar de sua situação ser difícil, vou ajuda-la e você também irá Zéfiro. - O sorriso grato de Sunna só não foi maior que a surpresa de Zéfiro, virando-se rapidamente para encarar Caos.

- Eu agradeço, imensamente. Mas também peço que me perdoe, achei que conseguiria sozinha. - O medo de Sunna sumia aos poucos, e Caos parecia notar isso, mas Zéfiro permaneceu quieto apesar de nitidamente discordar das ordens do Deus.

- Mas conseguiria, o que farei será guia-la, não a Héstia, mas a alguém que não precise de uma alma, mas para isso, minha criança, precisará morrer como druida. - Sunna sentiu sua coluna gelar e um arrepio percorrer seu corpo dos pés à cabeça. - Precisa de uma forma ou de outra romper seu contrato com Zéfiro e a única forma de fazer isso acontecer é morrendo. De fato, seu raciocínio sobre o princípio das maldiçoes está correto, seu despertar é um direito de sangue dado a você, mas seu trato com Zéfiro também, minha cara.

- Mas assim não poderei cuidar de Minerva, não posso fazer isso. - Mesmo envolto de escuridão sem deixar qualquer traço de seu rosto a amostra, Sunna pode jurar vê-lo sorrir.

- Não tema, pois você retornará a vida, afinal, Zéfiro terá controle de sua alma após a morte e eu garantirei com que ele a devolva a você, não é Zéfiro? - Ele não ousaria desobedecer a Caos, mas não significava que o faria de bom grado. Assim, Sunna se pegou pensando nisso, na suposta morte que nunca temeu por acreditar não ter nada a perder, mas agora, de repente ela não podia deixar ir, pois não aceitava perder Minerva e muito menos quebrar sua promessa para Demétria. - Morra como druida e nasça como profetisa.

Ela estava com medo e não escondeu isso, principalmente quando olhou para Zéfiro, ele cerrara os punhos e trincava o maxilar, seria tão ruim assim ajuda-la? Eles nunca foram realmente próximos, mas Sunna foi muito grata por tudo que conquistou graças a ele e ver Zéfiro se recusar tanto a ajudá-la a machucou por dentro. No fim, ela sabia que isso aconteceria novamente, outro momento em que independente de suas intenções, atos, palavras e esforço não seriam o suficiente para que seu sobrenome não fosse colocado como única verdade. Sunna D'luna, a traidora de mil homens, quando amou apenas um em toda sua vida e esse um morreu pelas suas mãos. Talvez os anciões estivessem certos, seu nome era amaldiçoado e seus pecados seriam pagos com sague, mas ela não deixaria que fosse o sague dela, mas sim os daqueles que a quebraram. Eles iriam pagar e ela não moveria um dedo para isso, não mais. Caos a dera uma oportunidade de matar quem um dia já foi, limpar seu legado de sangue e mentiras, ela viveu duas vidas e estava pronta para viver a terceira, mas dessa vez o D'luna não seria sua maldição e sim seu orgulho, afinal, se ela quisesse que Minerva carregasse esse nome ele teria que ser limpo primeiro.

- Pois bem. - Sunna era uma mulher corajosa de fato, uma pena que só descobriu isso no momento de sua morte e se sentiu grata em saber que teria a chance de viver admitindo isso. Não era mais um ritual e sim sua redenção. A profetisa se posicionou de volta ao local onde estava ajoelhada, mas dessa vez não mergulhou seu rosto nas águas, mas sim ergueu a cabeça encarando o céu. Ela estava pronta. - Eis-me aqui.

Caos estava contente com a atitude de Sunna, principalmente com a força que acumulou por todos esses anos esperando para ser liberta e Caos seria quem viraria a chave na fechadura e assim que aquela porta se abrisse o mundo se curvaria diante da segunda Profetisa do Caos.

- E assim seja. - Sem demora, Caos estalou os dedos e a última coisa que se ouviu de Sunna foi um suspiro antes de seu corpo cair na água.

- O que está planejando Caos? Não importa o quão poderoso seja, nenhuma divindade ligada ao fogo aceitaria fazer um trato com uma D'luna e eu tenho certeza que não pretende entregar seus poderes a ela. - A voz de Zéfiro era áspera, porém e contida, quase entredentes.

- Há uma divindade que trocaria até mesmo sua imortalidade por Sunna, Zéfiro, não se precipite. - O Deus respondeu após uma gargalhada melódica. - Encare Sunna como uma incubadora e pare de me questionar, não o contarei nada, mas lembre-se do meu verdadeiro poder. Agora, seja bonzinho traga-a de volta.

Ele não confiava em Caos e com razão, mas apesar disso suas palavras continuaram em sua cabeça martelando por mais tempo que gostaria, qual divindade seria tão apegada a Sunna?

- Zéfiro, eu disse agora. - Entoou firme.

- Assim seja. - Respondeu Zéfiro em deboche. Ele nunca imaginou que poderia temer por Sunna e o futuro que a aguardava, apesar de tudo ele a via como alguém que valia pena o sacrifício de Prometeu, mas agora, não podia salva-la e muito menos alerta-la. O mínimo que podia fazer era continuar ao seu lado. O Deus convocou sua magia que retirou o corpo de Sunna das águas frias daquela nascente, erguendo-o sobre o rio até que estivesse à altura de Zéfiro. - Desperte, esse é seu destino. - O ar se agitava ao redor deles, mas foi quando Zéfiro soprou em seu rosto que a verdadeira surpresa ocorreu. Caos agiu no exato momento, seu toque nas águas da nascente fizera com que uma luz branca incandescente seguisse rapidamente até Sunna aos poucos espalhando-se por toda a nascente que ganhou o brilho dos olhos de Caos. Zéfiro devolveu Sunna à água já com sua alma de volta ao corpo e se afastou esperando o pior acontecer, mas foi lindamente surpreendido.

Das águas da nascente saia vagarosamente uma mulher tão majestosa quanto impossível, aquela divindade não existia, não possuía nome ou culto porque simplesmente não pertencia ao Olimpo. Ao contrário de Caos, sua pele era envolta da mais pura luz, tão brilhante e majestosa quanto a própria lua, mas eram seus cabelos que faziam Zéfiro prender a respiração, pois neles havia a escuridão de Caos. Mechas longas de suas madeixas ondulavam por toda a nascente sendo erguidas muitas vezes pelas brisas de Zéfiro. A bela, porém, nitidamente incomum Deusa se aproximava de Sunna, ainda adormecida boiando sobre a água, ela parou ajoelhando-se para aninhar Sunna em seus braços e acariciar seu rosto como se conhecesse a profetisa.

- Levante-se profetisa. Dona de minhas chamas há muito apagadas, é hora de provar seu valor e renascer das cinzas. - Sua voz era tão doce e afetuosa, mas chorosa. Sem demora, Sunna abre seus olhos sentindo todo o corpo formigar. Naquele momento, Zéfiro não só notou a quebra do acordo, mas o quão grande foi o vazio que ele deixou.

- Você...- Sunna permaneceu atordoada esticando a mão para tocar o rosto da Deusa que a envolvia. - Quem é você? - A profetisa também não a conhecia, e apesar disso demonstrava uma estranha intimidade com ela, olhando-a nos olhos como se buscasse em sua memória quem era aquela na qual ela sentia tanto apresso. A Deusa segurou a mão de Sunna antes de acabar com o contato visual entre elas. Ela olhava para Caos agora, pedindo silenciosamente sua permissão para algo, mas ele negou com um aceno único de cabeça mais cortante que qualquer palavra. Os ombros da Deusa se curvaram e só então Zéfiro viu lágrimas escorrerem de seu rosto luminoso, ela continuou se curvando até cobrir o tronco de Sunna com o seu.

Com palavras tão silenciosas quanto um pensamento, a Deusa misteriosa respondeu à pergunta de Sunna. - Sou sua lótus negra.

Aquelas simples palavras foram o suficiente para despertar Sunna, mesmo que a mesma não compreendesse a resposta da bela Deusa.

- Hora de terminar o que começou. - Disse Caos tão mais ríspido que nunca aos olhos surpresos de Sunna. Que observava a maneira urgente cuja a Deusa se movia para ajudá-la a se levantar.

- Quem é ela? - Dessa vez Sunna se referiu a Caos, não olhou para ele, não nasceu com tanta afronta em seu sangue, mas sua voz saiu mais firme que o esperado devido a seu estado.

Caos a ignorou, continuou encarando a Deusa sobre as águas que ainda segurava Sunna pelos ombros, não demorou até que ela sentisse um calor descomunal atravessar seu corpo e com ele a clareza das memorias que fugiram de sua cabeça confusa momentos atrás. A Deusa estava guiando aquilo, era a magia dela que preenchera Sunna enquanto o mundo se calara para que ela fizesse o que desejava. Caos parecia satisfeito com o trabalho dela, esperou pacientemente até que a Deusa concluísse sua parte e quando isso aconteceu ele pediu para que ela se afastasse de Sunna com um simples gesto com a mão.

- Ninguém que você precise ser apresentada, agora D'luna, está pronta para o seu destino. - Caos foi direto, sucinto, mas isso não impediu a profetisa de hesitar antes de seguir em frente ainda vidrada naquela Deusa de presença tão marcante. Ela ficou parada, esperando inconscientemente ser dispensada pela luminosa criatura.

- Vá e incendeie o mundo. - Como se despertada de um sonho, Sunna assentiu para todos ali antes de disparar em retirada, correndo de volta pelo caminho de onde chegou. Boquiaberto, Zéfiro mal teve tempo de devolver sua atenção para a Deusa, ela sumiu tão rápido quanto Sunna, mas Caos permaneceu. Ele esperava as perguntas de Zéfiro, mas o vento Oeste não conseguia dizer nada.

- Você deve acompanha-la, Zéfiro. Afinal, continuará sendo o guardião dela. - E sem qualquer despedida, Caos desapareceu como nevoa floresta adentro deixando claro que sua ordem não possuía negociações. Sem escolha, Zéfiro cumpriu sua ordem, mas não odiou isso, pois estava curioso demais para saber quão mortal se tornou a Profetisa Vermelha.

Não demorou até que Zéfiro a alcançasse com a velocidade do vento, observando-a de cima correr com um folego incansável, fazendo-o perguntar-se se ela possuía entendimento o suficiente para notar a importância dos acontecimentos minutos atrás. E mesmo que não o tivesse, não mudava o quão impressionante Sunna D'Luna podia ser. Nascida bruxa, morta druida e renascida profetisa, carregando não só um legado de sangue, mas rompendo-o para construir um novo. Se ela não fosse a escolha certa para criar Selene, então nenhuma outra poderia supera-la. Aproximando-se de Sunna, ele pode ver seus olhos marejados, as lágrimas não escorriam, mas o brilho que carregavam fez com que Zéfiro engolisse em seco, aquela mulher realmente incendiaria o mundo e ele adoraria assisti-lo queimar.

*

Sunna sentia suas veias pulsarem compulsivamente movendo aquela magia dentro dela, prestes a explodir. Seu folego se tornara quente, mas não sufocante, ela sentia sua traqueia esquentar também e se perguntava o porquê de sentir-se tão extasiada, incapaz de sentir cansaço apesar do esforço mesmo que sua mente continuasse fazendo questão de trazer tantas memorias de volta, mas dessa vez não como fantasmas a assombrando. Aquelas memorias morreram com a falsa druida, as memórias que a cercavam agora, mesmo as mais cruéis, não a lembravam não de suas falhas, impurezas e fraquezas, mas sim de sua força. Ela sobreviveu, depois e apesar de tudo ela pôde se levantar e criar uma nova história e nessa história ela construiria um lugar seguro para Demétria e Minerva. Mas antes que pudesse sequer perceber as lágrimas escorrendo de seus olhos ela chegou a Filgord.

Seu coração pulsava forte em saber que apenas uma faixa de grama alta a separava da destruição que a aguardava, um único passo e ela não poderia voltar atrás, um passo e qualquer decisão seria decisiva. Ela repassou um novo plano em sua mente, ainda que arriscado é tudo que podia fazer e seu poder precisava ser o suficiente.

- Não está pensando em lutar sozinha com um exército de Apolo, ou está? - As palavras repentinas de Zéfiro surpreenderam Sunna o suficiente para assusta-la.

- Não faça isso de novo, quase delata nossa posição. - Respondeu Sunna ainda recuando devido ao susto. - O que está fazendo aqui?

- Errado, você quase nos delatou. E estou aqui para impedi-la de morrer, de novo. - Apesar da seriedade estampada em seus olhos, Zéfiro não abanadora a postura inabalável. - Tenho um plano.

- Agora que você está aqui, eu também tenho um. - Surpreendendo o Deus com uma epifania inesperada, Sunna sequer dá a ele a oportunidade de dizer algo. - Você possui as habilidades de um metamorfo, não é?

- Eu e qualquer outro Deus, por quê? - Sunna não negaria ajuda, nem mesmo a de Zéfiro, mas ela não parecia guardar mágoa alguma sobre os acontecimentos passados, pelo contrário, lhe lançava um olhar conspiratório e um pequeno sorriso confiante.

- Você vai aguardar meu sinal e quando ele chegar, fará sua participação. - E assim, Sunna teceu seu plano junto a Zéfiro.

*

Encoberta pela magia de Zéfiro, Sunna agora observava Filgord do alto do campanário queimar. A raiva fazia com que cerrasse os punhos, alimentada pelos gritos e o sangue que pintara as ruelas, sangue de seus vizinhos, todos inocentes mortos a troco da cabeça dela e ela não deixaria que aquela carnificina fosso em vão. Era hora de provar da habilidade com que fora presenteada. Sua respiração foi profunda quando ela acessou a magia que palpitava em suas artérias, sentindo as chamas sem controle que queimavam telhados. Sunna fez delas suas as absorvendo e tornando-as pouco mais que labaredas. Em sua garganta, ela preparou um grito estridente cheio de raiva e adrenalina e então libertou todos os sentimentos e dores reprimidas naquele entardecer infinito. Seu grito saiu tão poderoso quanto o esperado, mas suas chamas foram a verdadeira surpresa, o lume ascendeu o campanário sem sequer queima-lo tornando Sunna visível e ardente entre as chamas que a banhavam com sua luz tornando seus fios ruivos tão incandescentes quanto a capa escarlate suja de lama e como esperado, os anjos vieram até ela.

- Hoje não será eu quem se tornará cinzas. - Disse mais para si mesma, tentando encorajar-se, que para os nefilins que voavam ao seu encontro, o mais próximo vinha por suas costas, empunhava uma lança que a teria acertado se ela não tivesse pulado campanário abaixo, as massas de ar de Zéfiro a acompanharam fazendo que planasse em segurança enquanto ateava fogo em qualquer asa que se aproximasse, a maioria desviava, mas aqueles que não conseguiam caiam e não erguiam-se rapidamente.

Sunna os enxergava como borrões, eram rápidos e treinados, poderosos demais para se matar em uma luta corpo a corpo, então se desejasse vence-los precisaria deles a uma distância segura. O segundo a aproximar-se era uma mulher, não utilizou sua lança, mas sim facas de caça que por pouco não acertaram os ombros e abdômen de Sunna, mas desviar dessas a tiraram o equilíbrio fazendo-a sair da massa de ar guiada por Zéfiro. Mais nefilins se aproximavam e dessa vez ela não conseguiria desviar se não pelas chamas que carbonizaram as armas, surpreendendo até ela, por sorte, as habilidades de Zéfiro a resgataram poupando-a de uma queda de no mínimo 7 metros.

Recuperando o equilíbrio, contou quantos a cercavam e se estivesse correta ali estavam 13, ela derrubou 3, precisava ser esperta, precisava de uma armadilha. A profetisa correu planando e pulando telhados contornando círculos para tentar despista-los e como esperado eles a seguiam disparando armas. Sunna olhava para trás com o folego já comprometido ainda era cedo para recuar, então abandonou a massa de ar de Zéfiro deslizando telhado abaixo e escondendo-se dentro de uma casa qualquer, por sorte, vazia. Sunna se escondeu dentro das portas de um guarda-roupa esperando seus inimigos adentrarem o quarto a sua procura, ela tentava conter a respiração, mas o cheiro de sangue e cinzas era algo que nunca iria se acostumar, suas pernas se contraiam sozinhas graças ao esforço, mas seu foco permaneceu intacto, se continuasse assim poderia ouvir até mesmo a respiração deles. Não demorou até que um grupo entrasse no cômodo furtivamente, mas certamente sentiam o cheiro de Sunna e cercaram o dito armário de roupas, a profetisa não sabia quantos eram, mas sua vantagem vinha de atacar antes deles e com um chute seguido de uma rajada de chamas ela saiu de seu esconderijo queimando incessantemente mais 2. Os gritos chamaram a atenção dos outros grupos que não se preocuparam em fazer silencio, pelo contrário, gritavam ordens e praguejos uns para os outros antes de cerca-la, bloqueando a única saída.

- Nós deve...- As palavras da profetisa foram cortadas por um golpe direto na direção de sua garganta desferido por alguém nitidamente jovem demais, Sunna desviou golpeando-o com um chute em direção ao estomago, mas o garoto também era rápido, muito rápido, ele recuou seu abdômen para trás, mas cravou a espada no chão perfeitamente alinhada com o golpe de Sunna que dessa vez não pôde desviar cortando o tendão em seu calcanhar e arrancando um grito agudo da profetisa.

- Sem comentários. - Disse cuspindo direto em seu rosto. Eles precisavam dela viva, não inteira, mas se acharam que ela tinha acabado estavam errados. O corpo desequilibrado de Sunna caiu deitado chocando-se com a parede, mas agora eles estavam todos presos no mesmo cômodo que ela. A brisa de Zéfiro trancou a porta e ela libertou outra rajada incandescente que engoliu o quarto em chamas enquanto ela tentava escapar mancando entre os corpos flamejantes. Ela sentia o sangue escorrer por seu pé inutilizado, mas grata pelas chamas não a queimarem, chegando à porta o mais rápido que aguentava enquanto os gritos ficavam cada vez mais alto e quando enfim tocou a maçaneta, um dos nefilins cravou o polegar na fenda aberta em seu calcanhar arrancando dela outro grito. Sunna caiu de joelhos urrando de dor sem conseguir olhar para trás, com seu discernimento afetado pela agonia que tomou conta de seu corpo, ela puxou seu pé, mas o nefilin não a largava aumentando ainda mais sua dor.

- Filho da... - Impedindo novamente sua fala ele crava outros dois dedos puxando a pele para abrir ainda mais o corte, substituindo o xingamento de Sunna por outro grito. Apesar do seu pouco controle sobre as novas habilidades, fez com que as chamas percorressem seu corpo até atingirem os dedos do soldado cruel, que mordeu o próprio lábio para não gritar. As chamas não se limitaram a sua mão, serpenteavam por todo o braço queimando a carne rapidamente, ele hesitava em solta-la, mas já não tinha forças para prende-la quando Sunna puxou novamente sua perna. Apesar da dor insuportável, ela obrigou seu corpo a se mover e abrir a maldita porta, deixando os corpos queimados para trás.

Ela avançava praticamente rastejando, sua perna esquerda praticamente inutilizável e suas forças já diminuindo quando lembrou de um maldito detalhe, mas foi auxiliada pelos outros três nefilins que a esperavam no corredor. Anjos se curam.

- Merda. - Sussurrou fazendo uma prece para Zéfiro envia-la outra massa de ar, mas os três nefilins derrubados agora a olhavam cada um com um sorriso mais mortal que o outro e se ela não fugisse, logo aqueles presos no quarto se curariam também. Os soldados começaram a se aproximar, mas Zéfiro por sorte a ouvira, acatando seu desejo, a ventania a levou em direção a uma das janelas de madeira da casa, aberta pela força do vento, mas quando a massa de ar a levou um pouco mais longe da casa facas de caça atingiram suas costas. Sunna arqueou a coluna segurando o grito em sua garganta desviando o máximo que conseguia para voltar ao campanário para retirar as facas fragilmente enterradas em suas costas.

Os planos dos nefilins não incluía matá-la, pois se o quisessem ela já estaria morta, aquele que a arremessou facas poderia tê-la matado se mirasse um pouco mais para cima, estavam tentando imobiliza-la e isso era o último detalhe do plano de Sunna e Zéfiro. Nem sempre vencer é a melhor opção.

- Não fuja profetisa, está apenas ganhando tempo, mas tirando nossa paciência. - A voz fina ecoo em um grito cheio de raiva, mas ela estava correta, ela estava apenas ganhando tempo e já estava na hora de jogar de verdade. Sunna continuou até o campanário, de volta ao início, ela podia não se regenerar como eles, mas ainda possuía energia de sobra, podia lutar muito mais, mas esse não era o plano. As facas foram tiradas uma por uma, no fim haviam sido apenas quatro, ela rasgou uma parte limpa do tecido de seu vestido e a usou para estancar o sangue em seu tornozelo perguntando-se o porque eles ainda não vieram até ela, provavelmente estavam ajudando os outros dentro do quarto a se curar, sabem que ela não conseguiria ir muito longe.

- Zéfiro, quase lá. Fique atento. - O sussurro foi tão baixo quanto a brisa, Sunna estava poupando forças, tentando ignorar o quão horrível estava e como tudo ali parecia rápido demais para assimilar. Mas antes que tivesse tempo para atacar primeiro, outros seis voavam até ela que mais uma vez deslizou pelo ar com a ajuda de Zéfiro, ela podia jurar ouvi-lo torcer por ela, mas duvidava da ideia. O ar entre eles era pesado, rápido demai,s qualquer desequilíbrio poderia ser fatal para Sunna que não ousou diminuir a velocidade e os anjos perceberam a mesma coisa. Sunna esperou que agissem, lançassem facas, flechas, lanças não importa, ela apenas esperou para baixar a guarda quando se aproximou da casa que escapara minutos antes e ainda abrigara nefilins feridos. Como o esperado, mais facas em direção às suas costas, mas ao invés de desviar Sunna pulou da massa de ar em direção a casa lançando mais uma rajada de chamas que consumiram toda a extensão da residência e quando estava novamente prestes a cair foi aparada pela massa de ar. Funcionou, o sorriso de Sunna aumentou conforme soltava a respiração presa e mesmo que suas costas ardessem, ela permitiu-se respirar fundo.

E nesse exato momento foi surpreendida por um golpe em sua nuca tão forte que a arremessou contra outro telhado escurecendouy sua visão. O choque contra a superfície dura foi demais para a profetisa que já não conseguia se levantar, estava dolorida demais, exausta demais. Lutar deixara de ser uma opção.

- Olhe só para você. - Disse um dos nefilins macho ao pousar perto de seus pés, olhando-a por cima com nojo em sua voz. - Quem diria que nos daria tanto trabalho? - Alguns ecoaram uma risada forçada, mas Sunna ainda lutava para recuperar o foco de sua visão. Eles pousavam um por vez cercando-a por todo o telhado.

- Não deboche de nossa amiga Caius, ela se esforçou tanto. - Dessa vez a voz era feminina, mas Sunna não conseguia discernir de onde vinha.

- Parem de brincar com a presa, temos uma missão a cumprir. - A terceira voz veio de trás, mas aos poucos aqueles que estavam na frente abriram espaço para o dono da voz chegar até ela. O mesmo jovem que cortara seu tendão desfilava com metade do corpo ainda em carne viva com um brilho cruel nos olhos claríssimos. Ele a analisava por completo procurando por respostas que sua boca não entregaria. - Deveriam reverencia-la, afinal, estão diante da famosa Profetisa Vermelha. Uma pena que sua fama tenha durado menos de 1 dia. - Mais risadas esnobes e enjoadas, incluindo a do anjo que não parecia ter mais de 17 anos. - Podemos terminar rápido com isso, não acha? - O garoto continuou a se aproximar dela, especificamente de seus pés.

- Não. - Murmurou Sunna encolhendo a perna e forçando seus sentidos a se recuperar depressa. O anjo gargalhou de seu murmúrio passando os dedos entre os fios dourados de seu cabelo bagunçado.

- Não? Se acha que isso dói não acho que gostará de ver o que sua majestade faz com vadias da sua laia. - Ele saiu de perto de seus pés, mas agora ajoelhava-se de frente para ela destilando palavras envoltas de humilhação. - Tenho certeza que em algum lugar nessa podridão há uma bela mulher. - Os dedos do nefilin agora acariciavam a bochecha de Sunna que se continha para não cuspir em seu rosto, não ainda. - Vamos, seja uma boa vadia e me diga onde está a princesa.

- Foi sacrificada noite passada, não era isso que dizia o comunicado? - Sunna fez questão de pronunciar as palavras com o máximo de escarnio que conseguia colocar em sua voz finalizando com um sorriso tão debochado quanto.

- Está abusando da minha paciência, profetisa. - Devolvendo o sorriso, o nefilin ergueu a mão para o grupo, ele pedia por uma arma. Não existia momento melhor que aquele. Sunna se aproximou ainda mais de seu rosto encarando os olhos verdes daquela criança sombria virando levemente a cabeça para o lado em um nítido desafio.

- Eu sempre gostei de brincar com fogo. - Ao fim da frase chamas espalharam-se por todo o telhado, mas principalmente queimando o rosto angelical a sua frente por completo.

Sunna sorria satisfeita quando foi apanhada mais uma vez pela brisa, os anjos recém curados voltaram a se contorcer e aquela criança xingava mais alto que todos.

- Não acredito que conversar será a melhor maneira de entrarmos em acordo, mas pelo pouco de empatia que me resta por vocês o farei. Não pretendo devolver Selene e muito menos me deixar ser capturada por vocês, então peço educadamente que evacuem Filgord e digam ao seu rei que pare de interferir nos planos de Caos. - Ela sabia que não seria ouvida e só estava gastando o pouco folego que possuía, mas tentaria apelar para a diplomacia ao menos um pouco e como esperado, não funcionou. O jovem nefilin estava irritado demais para conter seus poderes lançando um raio contra Sunna que a levou diretamente para o chão, uma queda de no mínimo 4 metros de costas.

A consciência da profetisa tornou-se parcial, os anjos começavam a descer do telhado e a segurar contra o chão para evitar outro ataque quando o jovem nefilin desceu por último. Sunna teve lapsos de seu rosto completamente queimado, ele estava péssimo e curando-se muito devagar.

- Admiro sua coragem profetisa, pena que suas palavras não são equivalentes à sua força. - O sarcasmo em sua voz desapareceu dando lugar a um tom frio entredentes. Ela ouviu o tintilar de uma lâmina sendo tirada da bainha, ela os provocou demais, eles a matariam ela colaborando ou não, mas Sunna possuía algo a barganhar.

- Espere, façamos um acordo. - Ela não conseguia mover nada além da cabeça, os outros 15 nefilins a prenderam por completo, sua magia estava fraca demais para ser utilizada contra tantas pessoas e ainda assim seria inútil.

- Um acordo? Me surpreende o quanto você pode ser valente e covarde ao mesmo tempo. Derruba minha legião não uma, mas duas vezes e agora quer barganhar por sua vida? - Ele não é tão burro quanto parece, nota a dualidade nas ações dela facilmente, está esperando por um truque.

- Não posso morrer agora e você precisa de algo que eu tomei. Nós dois possuímos algo que interesse a outra parte, não é comandante...? - Ela realmente esperava que sua fachada funcionasse, a presença de Zéfiro estava ali, não perto o suficiente para ser sentida por magiecs, ela só precisava da colaboração daquela criança.

- Soren, e você é tão hipócrita quanto qualquer outro falso herói que se pusera no caminho de Apolo. - As ofensas não a atingiram, mas Sunna fez questão de parecer ofendida, devastada, mal sabia Soren que as lágrimas que caíram de seus olhos eram de alegria. - Primeiro a Deusa, e não ouse tentar outro truque, ou eu mesmo vou decepar sua cabeça.

- Preciso de uma de minhas mãos, e da garantia que não vai me matar também. - Soren sorriu, seu rosto já estava parcialmente curado, mas seu cansaço era evidente.

- Que seja, se você cumprir com sua parte do acordo sequer olharemos para trás. Agora, a criança. - O soldado outrora chamado de Caius soltou sua mão direita, mas seu antebraço continuou preso ao chão. Chegara a hora de Zéfiro cumprir sua função e ele não poderia ter feito de melhor forma. Ao estalar os dedos, uma cópia perfeita de Minerva materializou-se aos pés de Soren.

Os nefilins olhavam perplexos para a garota de olhos tão pálidos quanto a própria lua, sua presença era inegável, não um feitiço de ilusão qualquer, mas realmente um Deus. Sunna teve que se esforçar muito para não sorrir, fazendo o possível para parecer desolada, arrependida.

- Espere, por favor. Não a levem. - Suas suplicas foram ignoradas, Soren colocou o bebê em seus braços ainda surpreso assim como todos os outros.

- É mesmo ela, comandante? - Uma voz mais alta se sobressaiu entre os sussurros.

- Só há um jeito de ter certeza. - Ele pouco se preocupou em desviar os olhos da criança, apenas tomou a adaga de um de seus companheiros e desferiu um pequeno corte no ombro dela, o choro veio tão rápido quanto o sangue e quando Selene não se transformou em um objeto e seu sangue em poção os anjos comemoraram, ignoraram o perigo que um dia Sunna representou e a soltaram antes mesmo da ordem do comandante.

- Escute, é um erro, vocês não compreendem o que Caos pode fazer se sua protegida for assassinada. - Sunna não abandonou o personagem, continuou suplicante levantando-se do chão ainda úmido pela chuva.

- Não esperava que você fosse mudar de ideia, profetisa. Patético.- A voz de Soren foi o suficiente para acalmar o burburinho comemorativo. - Não quer que eu mude de ideia sobre a minha parte do acordo também? - Fingindo medo, ela negou com a cabeça forçando ainda mais lágrimas quando recebeu um tapa inesperado contra seu rosto, ela voltou ao chão. - Obrigado pela colaboração grandiosa profetisa. - O sarcasmo retornou, mas essas foram as últimas palavras dele antes de farfalhar suas asas e levantar voo junto aos outros anjos deixando-a para trás, ajoelhada, desolada, vencida e indefesa.

A chuva voltou a cair, banhando o rosto sujo de Sunna, ela esperou até que não pudesse mais vê-los do horizonte e deitou-se de volta no chão, logo Demétria e Rence voltariam com a sua Minerva, a verdadeira Minerva e ela estaria completa. A água fria confortou seu corpo enquanto ela gargalhava para o céu comemorando sua derrota, para alguém tão competitiva, Sunna nunca esteve tão feliz em perder. Entregando-se ao cansaço a profetisa fechou os olhos e deixou que as cinzas fossem lavadas de seu rosto.  

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