26

De todos os dias da minha vida, esse é, possivelmente, o mais confuso.

Eu estava ali, com a mão de Yugyeom em minha boca enquanto eu permanecia estático, sem reação. Em choque.

Todas as coisas que eu havia pensado, tudo o que me foi dito. Todas as coisas que projetei aqui na minha cabeça, era mentira, um possível mal entendido.

Um mal entendido dos grandes!

- Você... Você o que?! - Finalmente tomei uma atitude, tirei sua mão de minha boca e gritei.

Puta merda, essa é uma das situações mais vergonhosas da minha vida.

Se ele realmente for... For o que diz ser, tudo o que eu falei pra ele aqui no carro, vai ser mentira é, cacete, uma vergonha enorme.

- Se você fosse menos escandaloso seria melhor. - Ele disse impaciente, me fazendo suspirar. - E que história é essa de querer ficar com Hyunjin De onde você tirou isso? - Juntos as sobrancelhas em confusão, mordi o lábio inferior.

Ok, não tenho respostas para isso é também não quero entregar Jackson por ter feito uma mini confusão, junto a mim.

- Coisa da minha cabeça, nada de mais. - Foi tudo o que eu disse. - Mas, ei... É sério isso?

- Eu iria te dizer depois, assim como Jung-hee disse para fazer. Mas, meu Deus, você é insuportavelmente irritante quando quer. - Passou as mãos no rosto, respirando fundo.

Calma... Hwang-hee?!

- Como é?! - Mais uma vez, eu me expressei alto demais.

Aquilo era um pouco mais chocante do que Hyeon me falou. Eu sei que Ji-hoon é um monstro de tão ruim, ele me confessar aquilo foi um choque porque eu não imaginava que ele também era uma vítima do desgraçado.

Mas Yugyeom ser o IRMÃO do Hyunjin?! Eu estou... Surtando, pode se dizer!

É... Confuso demais.

- Você vai fazer minha cabeça explodir se continuar gritando. - Ele suspirou, movendo as mãos nervosamente. Me lembra os movimentos que Hyunjin faz para se acalmar.

- Mas... Porra, calma. Isso é sério? Você é mesmo... - Não consegui terminar minha frase, e ele nem precisou que eu terminasse, já que apenas balançou a cabeça e concordou.

- Se você não fosse tão irritante e falasse a boca pelo uma por um segundo, eu teria explicado tudo do início. - Resmungou e tirou o cinto de segurança, esticando os braços e procurando por algo no porta luvas.

Era uma daquelas bombinhas que as pessoas asmáticas costumam usar.

Mas como decidi que seria a noite perfeita para passar vergonha, o que eu disse foi:

- O que é isso? - O arrependimento bateu de um jeito tão grande quando ele me olhou com aquela cara de poucos amigos e balançou a bombinha, inalando o que tinha ali dentro rapidamente.

- Bomba de ar, ajuda pessoas asmáticas. - Respondeu óbvio, respirando fundo logo depois.

- Você tem asma?

Eu tenho a impressão que meu cérebro parou de funcionar, porque não é possível que eu tenha feito uma pergunta tão burra!

E ele sequer teve o trabalho de me responder, apenas me olhou de maneira estranha e negou com a cabeça, suspira do logo em seguida.

- Preciso que você preste atenção em cada palavra que eu vou dizer, Felix. - Avisou, me deixando meio apreensivo. - É importante. É minha história.

Ok, eu não sei o que dizer.

- Você está me assustando. - Confessei, mordendo o lábio inferior. - Não vai mais rolar aquilo de ir ao restaurante?

- Você é escandaloso demais para conversar sobre isso em lugares movimentados. - Deu de ombros, o olhei meio ofendido.

Ele só pode estar de brincadeira comigo.

- Tudo bem, eu já jantei mesmo. - Cruzei os braços, fingindo indiferença.

- Eu não te pagaria comida. - Completou, segurando o riso quando lhe olhei incrédulo.

- Por que me chamou para um restaurante então?! Ora essa...

- Isso aqui não é um encontro romântico para eu te pagar um prato de comida que vale metade do meu salário.- Deu de ombros novamente, me fazendo revirar os olhos.

- Ainda bem que não é. Mas queria a comida. - Provoquei, segurando o riso quando ele me olhou com aquela expressão que dava um leve medo.

Acho que posso voltar a hipótese de sair dessa noite morto. Pelo meu possível cunhado.

Certo, isso ainda não se encaixa perfeitamente em minha cabeça.

- Já que a rua não está movimentada e meu carro não emite sons para as pessoas que estão passando, acho que posso ficar com você aqui mesmo. - Virou-se para mim, parecendo criar coragem para algo.

- Que isso, cara... - Lhe olhei estranho, segurando o riso novamente quando ele me olhou de maneira incrédula e passou as mãos pelos cabelos compridos.

- Não é nesse sentido de ficar, Felixi! - Respondeu desacreditado, negando com a cabeça.

- Até porque eu namoro e amo meu namorado. - Dei de ombros.

Eu acho que só estou fugindo do assunto e testando um pouco da sanidade que o Kim possa ter, já que ainda é meio inacreditável que ele seja irmão do Hyunjin.

Irmão do Hyunjin...

Como... Minha santi divindade, não entra na minha cabeça isso...

- Só fica quieto! - Disse de maneira irritada, respirando fundo. - O que eu tenho para dizer é importante e você não colabora com esse seu jeitinho irritante. - Cruzou os braços, me olhando.

- Se me chamou aqui para ofender, saiba que não gostei. - Fiz a mesma coisa que ele, olhando em seus olhos e, parando para analisar sua feição, ele realmente lembrava um pouco os traços de Hyunjin.

Ele suspirou e abaixou a cabeça, pensando em algo e em alguém, antes de me olhar novamente com uma expressão menos dura, parecendo perceber que essa discussão não levaria a lugar nenhum. Sorri pequeno, dando trégua à minha implicância sem sentido e finalmente dando ouvidos a tudo o que ele queria dizer.

Era sério, ele não me faria uma revelação dessas apenas por notar que seu, aparentemente, irmão mais novo tem um namorado e que esse namorado e o cara que vai buscá-lo todos os dias na escola, para depois dar sermões e dizer que vai arrancar minhas preciosidades se eu fizer algo que machuque seu, aparentemente, irmão mais novo.

Bem, se eu tivesse uma irmã ou um irmão mais novo, iria querer o bem dele e se aparecesse algum sem vergonha querendo namora-lo, daria esses belos conselhos.

Mas certo, vamos dar ouvidos ao Kim desesperado.

- Sou seu ouvinte pelas próximas horas que se aproximam. - Suspirei ao dizer, relaxando meu corpo no banco do carro.

- Ainda bem aquietou. - Ele pareceu aliviado, rindo de minha expressão ofendida e ajeitou a postura, me olhando. - Eu conheço seu pai.

Pronto, foi necessário apenas isso para que eu engasgasse e lhe olhasse de maneira estranha.

- Que?! - Verbalizar minha incredulidade.

Porque tudo de ruim que acontece na minha vida, é ligada ao segundo participante para que ela começasse?!

- Calma, sei que é repentino, mas... Eu conheço aquele homem, sou de Busan também. Do interior, na verdade.- Começou a se explicar, parecendo preocupado de repente e suspirou mais uma vez, mordendo o lábio antes de me olhar e continuar sua fala. - Eu sou autista também, Felix. Sou filho de Soyeon, do seu primeiro casamento.

Mais uma vez, eu estava completamente surpreso.

- Como é?!

- Peço que fique quieto enquanto eu falo, está bem? Para não acabar me arrependendo de contar isso... É literalmente minha história de vida. - Deu uma pausa, me olhando por poucos segundos.

- Você vai me contar sua história? Por que? - Confuso, perguntei.

- Eu prefiro assim e também quero que faça sentido na sua cabeça, não é uma história simples. - Eu apenas concordei. - Meu "grau" - Fez aspas com os dedos - De autismo é muito mais baixo que o de Hyunjin, e eu fui criado por pessoas que me deram o real apoio para meu desenvolvimento e para que eu crescesse com uma vida tranquila e que não fosse tão dependente das outras pessoas, mas isso não quer dizer que foi sempre assim. Eu também fui negligenciado de cuidados, carinho e amor quando era criança, até meus quatro anos de idade, pelo o que minha avó diz, eu fui completamente descuidado.

Eu não tive uma reação sequer, estava paralisado, ouvindo atentamente a história de vida da pessoa que menos me interessou nesse tempo todo e nessa história toda.

Mas aqui estou eu, sentindo um aperto no peito e meio paralisado ao querer saber o desfecho dessa história.

- Soyeon abandonou eu e meu pai quando eu tinha quatro anos. Meu pai trabalhava feito louco para poder sustentar ela e suas vontades extravagantes, ele confiava que ela era uma boa mãe e que cuidava muito bem de seu filho "atrasado mentalmente" - Fez aspas com os dedos novamente, suspirando meio entristecido. - Naquela época eles não sabiam que eu era autista, apenas desconfiavam que eu tinha algum problema no aprendizado e que fazia birra demais, já que minhas crises eram constantes.

- Eu...

- Por favor, apenas ouça. - Concordei com a cabeça, sentindo meu coração palpitar forte com sua confissão. - Quando... Ela nos deixou, falou que não queria viver daquele jeito, não queria criar um filho que mal conseguia vestir roupas sozinhos e um marido que não lhe dava nada. Ela era completamente ingrata e gananciosa, Felix. - Parou de repente, parecendo lugar de algo a mais. - Como eu era muito pequeno naquela época, não lembro de muita coisa, apenas tenho alguns flashbacks e nada a mais.

- Como sabe de tudo isso? - Foi tudo o que saiu da minha boca, ele me olhou e riu baixinho, negando com a cabeça.

- Você é apressado, não é? - Riu mais uma vez, suspirei e esperei que continuasse. - Como eu disse, ela nos abandonou quando eu tinha quatro anos e nunca mais a vi pessoalmente, apenas por fotos que minha avó mostrava vez ou outra, ou revistas, já que ela seguiu a carreira de modelo, mesmo que não tenha dado muito certo. Eu sei de tudo isso porque minha família nunca escondeu nada de mim.

- E seu pai?

- Ele se dedicou a cuidar de mim e a trabalhar ao mesmo tempo, ele se formou em arquitetura depois que completei oito anos e, com o decorrer do tempo, passou mais tempo em casa montando plantas de casas e atendendo telefonemas. Quando fiz dez, ele me levou a um psicólogo porque minha fala ainda não tinha sido desenvolvida cem por cento, falava algumas coisas erradas e às vezes tinha crises fortes, ele se preocupou muito quando percebeu que aquilo não eram birras e sim algo mais sério...

Ele deu uma pausa para respirar e olhou para a rua. Eu mesmo tive que soltar a respiração que sequer notei ter prendido, sentindo tudo aqui dentro de mim se revirar.

- O psicólogo indicou uma neurologista e um fonoaudiólogo. A princípio, meu pai achou que eu tivesse algum problema sério demais, como algum tumor no cérebro ou que eu tivesse língua presa. - Riu baixinho, sem humor algum. - Fui diagnosticado como autista quando tinha praticamente onze anos e meu pai me abraçou, disse que eu seria ainda mais amado do que já era, e tratou de contratar um cuidador com mais experiência no assunto para cuidar de mim junto da minha avó. - Deu mais uma pausa, sorrindo meio triste. - Pode se dizer que eu tive uma infância boa. Mas nem sempre.

O olhei confuso, e ele retribuiu o olhar, respirando fundo e voltando a falar:

- Foi aí que conheci Hwang-hee. - Respondeu com um sorriso nostálgico no rosto, e eu abri a boca, ficando estático.

Como assim Hwang-hee, meu chefe, pai de Junghyun e avô de Hyunjin, foi o cuidador de Yugyeom?!

Isso é... Porra, é muito estranho?! É... É coincidência demais.

- Que?! - Foi tudo o que eu disse, vendo ele rir baixinho e tapar os ouvidos, possivelmente incomodado com a minha voz alta.

Certo, preciso falar baixo.

- Sei que é uma surpresa e tanto, mas eu queria tanto ver essa sua cara! - Ele riu novamente, me fazendo corar e negar com a cabeça. - Certo. Desculpe. Vou voltar ao assunto.

- Por favor. - Respirei fundo, tomando fôlego. - Hwang-hee cuidou de você por quanto tempo?

- Hwang-hee voltou para a cidade de Busan quando eu fiz dezessete anos, ele já era viúvo e seu filho um médico que tinha acabado de se formar, com um filho de treze anos e uma esposa aparentemente perfeita. - Mordeu o lábio inferior, olhando para as ruas a nossa frente, vagando no fundo de suas memórias. - Nesse meio tempo, papai pegou uma doença letal e faleceu quando fiz dezoito anos, ele deixou toda sua herança para mim e minha avó, como eu ainda era menor de idade e estava terminando o ensino médio, minha avó ficou administrando todo o dinheiro que ele conseguiu durante quase treze anos sendo um bom arquiteto. Foi nessa época que eu acabei me envolvendo em uma briga na escola e preso injustamente.

Certo, eu não sei o que dizer.

E, mais uma vez, ele não deu espaço para que eu pensasse no que estava acontecendo.

- Seu pai me libertou após ler meu nome, Kim Yugyeom e disse que eu estava devendo um favor a ele. Eu não dei muita bola, já que faltava menos de um mês para eu terminar a escola e vir para Seul fazer minha faculdade.

- Mas ele te procurou, não foi? - Interrompi, sentindo meu coração acelerar.

- Muito tempo depois, para ser mais específico, a uns quatro meses atrás. - Riu sem humor, negando com a cabeça.

- O que aconteceu depois que você veio para Seul? Como soube que sua mãe também era a mãe de Hyunjin e o que Hwang-Hee fez depois que descobriu? O qu-

- Você vai me enlouquecer. - Negou com a cabeça, parecendo meio tonto e olhou para mim, desviando o olhar alguns segundos depois.

- Hwang-hee sabia a quanto tempo? - Perguntei mais uma vez.

-Ele ficou sabendo uns dois meses antes de Soyeon morrer, já que foi quando nos encontramos novamente depois de uns anos e eu mostrei uma foto dela. Hwang-hee tentou avisar Junghyun sobre a mulher, mandou mensagens e elas eram apenas visualizadas. Ele ligava e perguntava se estavam em casa, mas Junghyun estava tão encantado pela mulher que quando o pai falava disse e ela dizia que iriam viajar, mentindo, apenas para não ter a visita do sogro

- Como Junghyun pode ser tão... Burro? - Franzi o cenho, ficando incomodado.

Eu sei que era a esposa dele, a mulher que jurou amar e respeitar na frente do padre. Mas era a vida de Hyunjin ali também, não entendo como ele ficou tão cego de amor para descobrir que a mulher não prestava só depois de sua morte.

- O amor às vezes deixa a pessoa cega, Felix-ssi. - Suspirou, olhando para mim. - Hyunjin, por exemplo. - Provocou, me fazendo cruzar os braços e lhe olhar desacreditado.

- Não acredito que está fazendo piadas em momentos assim!

- Só para descontrair. - Deu de ombros, voltando a se concentrar.

Descontrair...Como Hyunjin chamaria, que bobão.

- Depois que cheguei em Seul, me empenhei em trabalhar com algo que ajudasse pessoas como eu e, após finalizar minha faculdade de pedagogia, consegui me especializar em ensinos para pessoas neurodivergentes. Mas, antes disso tudo, descobri que minha mãe tinha se casado e tido outro filho com o médico que ajudou meu pai na cirurgia dele, mesmo que não tenha servido muito, papai ainda tentou uma cirurgia para tentar reverter os seus problemas de saúde e-

- Tá brincando que seu pai fez cirurgia com o atual da ex dele! - Exclamei meio chocado, arregalando os olhos.

Isso é muita coincidência! É... Praticamente impossível!

- Nem eu e muito menos ele tínhamos ideia disso, só descobri depois que vi a foto de Junghyun em uma das revistas que saiu em Busan, o nomeando como um dos melhores médicos anestesista coreano. Meu coração acelerou quando vi a mesma mulher que papai me mostrava nas fotos. - Riu sem humor, negando com a cabeça.

- Como soube que Hyunjin é seu irmão?

- Hwang-hee me contou, nós vínhamos mantendo contato desde que ele se aposentou para cuidar do meu irmão, após aquela mulher falecer e Junghyun descobrir um pouco da verdade.

- Um pouco... ?

- Pedi para Hwang-hee omitir a parte que sou irmão de Hyunjin. - Explicou.

- Nem Junghyun sabe?

- Ele não sabe. - Suspirou.

Mas eu sei. Sei mais do que imaginei que saberia. Ele me contou e eu não sei o propósito disso.

- Por que você me contou? - Perguntei então, balançando perna de maneira nervosa.

- Porque seu pai apareceu para cobrar a tal dívida que eu devia a ele. - Me olhou. - Ele disse que você seria má influência para meu irmão, disse que iria corrompê-lo e que você era mal caráter. - Voltou a olhar para as ruas, rindo de maneira estranha. - Também disse que você fugiu de Busan por ser um cara perigoso.

Esse cara me odeia só porque sou Bissexual?! Qual o sentido dessa confusão fudida?!

- Não acredito que tudo de ruim que acontece na minha vida, tem envolvimento desse demônio! - Sem paciência alguma para isso, eu disse.

- Ele falou que era para mim manter ele informado e disse que se algo acontecesse com Hyunjin, a culpa seria minha. - Mordeu o lábio inferior, suspirando. - Mas agora sei que é mentira, contei para Hwang-hee sobre isso e ele não acreditou nem por um segundo, ele sempre confiou em você, Felix.

A vontade de chorar me atingiu de uma maneira tão grande, que cheguei a cogitar a ideia de chorar ali, em sua frente.

- O que você vai fazer? - Perguntei, respirando fundo.

- Eu consegui informações com ele. - Deu um sorriso curto. - Ele acredita que eu tenha caído na conversa dele, que estou do lado dele e começou a me dar informações.

- Isso é... Nossa, informações demais. - Passei a mão pelo cabelo mais uma vez, analisando tudo o que ele havia dito para mim.

- Tem dúvidas?

- Muitas. Tenho várias! - Olhei para ele, vendo seu sorriso diminuir aos poucos. - As coisas que me contou... Meu Deus, a mãe de Hyunjin... Sua mãe é... Nossa, Ela é horrível.

- Sim. Foi gananciosa e pensou apenas nela mesma, largou meu pai por conta do dinheiro que Junghyun podia dar e...

- Abandonou você. - Mordi o lábio inferior, sentindo meus olhos arderem com a vontade de chorar. Aquilo era muito pesado, pesado pra cacete.

Se doeu em mim ouvir aquilo, não imagino a dor que ele possa sentir ao ter dito tudo. Foi de repente, nós não temos intimidade alguma para ele dizer praticamente toda a sua história de vida.

- Por que... Porque me contou tudo isso? - Arrisquei perguntar, não querendo me aprofundar em algo que poderia machucá-lo.

- Porque seria mais fácil para você entender tudo, não... Não faria muito sentido se eu contasse apenas as partes de Hwang-hee e seu pai. - Me olhou por alguns segundos, me fazendo suspirar e concordar. - E também por que é meio ruim guardar tudo aqui dentro e poucas pessoas saberem, é bom ter ouvintes às vezes.

Então, a audiência de Junghyun me veio à cabeça.

Faz sentido? Não fez nem para mim, mas tudo bem, eu quero saber de qualquer maneira.

- Você ajudaria Junghyun a sair de uma possível enrascada? - Mordi o lábio inferior, com medo dele pensar que eu estaria me aproveitando de sua boa vontade.

- A família Hwang é tão vítima quanto eu nessa história, ajudaria eles de qualquer jeito. - Sorriu, me fazendo suspirar tranquilizado.

Fiquei um pouco em silêncio, sentindo meu coração acelerar com os pensamentos constantes e minha cabeça girar com a forma que eu a forçava para pensar em alguma solução.

Eu precisava pensar melhor isso, agir por impulso seria um erro terrível e colocaria mais pessoas nisso tudo.

- Eu... Acho que preciso pensar mais um pouco no que precisamos fazer. - Confessei, suspirando. - Ainda não consigo reagir a isso tudo que você contou.

- É meio pesado, não é? - Suspirou mais uma vez, soltando um riso nasal logo em seguida. - Desculpa, acho que... Deveria ter te preparado melhor para contar tudo isso.

É, eu meio que concordo.

- Tudo bem. - Sorri, mordendo o lábio inferior. - Então, cunhadão, rola aquele jantar?

- Sai do meu carro.

[...]

Naquela madrugada, eu não consegui dormir.

Todas as coisas que me contaram naquele dia, tinham me tirado o sono. As confissões de Taemin e Yugyeom me deixaram completamente pensativo e meio mal com toda a situação.

E, para me tirar daquela pequena bolha deprimente que estava me colocando, levantei no meio da madrugada para pesquisar algo que não tinha me tocado muito bem enquanto conversavam com Yugyeom e seu passado.

"Autismo é genético? " era a pergunta e minha barra de pesquisas.

E, para minha surpresa imediata, sim, o autismo é genético.

Mas, apesar de muitos confundirem, não é hereditário. Genético e hereditário não tem nada em comum, é diferente.

A família da mãe de Hyunjin possivelmente tem uma longa história sobre autismo, que eu possivelmente nunca irei descobrir. E é uma hipótese que ela mesmo possa ter tido TEA, mesmo sem diagnóstico.

É raro acontecer de ter dois filhos com o mesmo transtorno, mas acho que isso também deve variar por conta dos genes dos pais. O TEA é meio complicado quando se para analisar e estudar. Todo transtorno é. Mas como o foco aqui é descobrir algo relacionado concretamente no autismo, arrisco em dizer que esse mundinho me atrai mais a cada dia que passa.

Na faculdade estudamos que uma das principais dificuldades dos autistas são as interações, coisa que convivi e entendi perfeitamente enquanto passavam-se os primeiros meses de minha aproximação com Hyunjin. Mas Yugyeom não aparenta nenhum desses traços.

O que me faz entender- Entender ainda mais, aliás. - Que nenhum autista é realmente igual ao outro.

Eu notei algumas manias que Yugyeom tem em comum com meu docinho, como os movimentos com as mãos que fazia às vezes para tentar se acalmar, imagino eu. Ou o jeito que eu tronco de movia quase que de maneira despercebida.

E isso me leva a entender que meus estudos sobre isso não deveriam ter parado apenas no momento em que comecei a entender Hyunjin. Falei alto com Yugyeom e aquilo pode ter lhe machucado, preciso tomar mais cuidado com meu tom de voz com pessoas desconhecidas também.

Eu entendo que fiz aquilo sem conhecer, mas também me culpo por ter me descontrolado é causado alguma dor ao Kim. Cada dia que passa, o aprendizado aumenta.

- Lixie! - Taehyung bateu na minha porta, me fazendo rir. - Acorda!

Mas hoje é sábado, meu Deus. Era só um dia de tranquilidade.

- Innie... - Eu disse ainda meio sonolento pela noite mal dormida, bocejando ao me levantar e dar de cara com meu melhor amigo parado ali, me olhando com expectativa.

- Então, como foi? - Perguntou com ansiedade nítida em sua voz.

Eu tive que me segurar muito para não bater a porta em sua cara quando percebi do que se tratava aquele "como foi" curioso e fofoqueiro como é, é óbvio que estava falando sobre as conversas que tive ontem e isso me fez revirar os olhos.

- Você só me acordou por conta disso? - Ri baixinho, caminhando de volta para dentro do meu quarto e sendo seguido por ele.

- Por que a tia te chamou para almoçar, na verdade. - Deu de ombros, se sentando em minha cama enquanto eu permanecia parado.

Almoçar?

Meio surpreso com sua fala, corri até minha estante e peguei meu celular, verificando o horário e vendo que já se passavam de meio dia.

- Por que não me acordou mais cedo?! - Corri para fora do quarto, indo direto para o banheiro e fazendo minhas higienes matinais.

- Hoje é sábado, filho! - Mamãe disse com a voz risonha, me fazendo suspirar mais tranquilo.

O problema é que marquei de sair hoje com Hyunjin, mandei umas mensagens para ele ontem quando cheguei em casa após ser praticamente expulso do carro de Yugyeom e marcamos de sair antes do almoço.

Sai do banheiro mais apressado do que entrei e busquei por meu celular novamente e um sorriso curto tomou conta de meus lábios quando vi na barra de notificações o nome de Hyunjin ali, com algumas mensagens suas.

No aplicativo também haviam algumas mensagens de outras pessoas, algumas de Jisung e Seungmin com algumas brincadeirinhas que me fizeram negar com a cabeça, uma de Changbin perguntando se eu já sabia quando ele iria voltar a dar aulas para Hyunjin e várias de Hyeon.

Taemin, na verdade. Ainda preciso me acostumar com esse nome.

Todas as suas mensagens eram prints de conversas dele com aquele desgraçado. Era tudo verdade, as ameaças por mensagens, fotos e até mesmo um print censurado de Ji-hoon lhe chantageando com o tal vídeo que com certeza traumatizou aquele cara.

Me

Certo, obrigado por dizer a verdade e vou tentar acabar com essa situação toda o mais rápido possível|

Não obtive respostas e não esperei recebê-las, tratei em responder as mensagens do meu docinho, e sorri meio chateado comigo mesmo ao ver os emojis tristinhos logo nas primeiras mensagens.

Meu docinho favorito

Lixie, você vem que horas? [8:30]

Meu docinho favorito

|Mandei mensagens pro Jeongin e ele disse que você ainda está dormindo [9:45]

Meu docinho favorito

|Não demora, Felixie queria comer docinhos com você [10:15]

Meu docinho favorito

Felixie sabia que tem uma lojinha de doces pertinho daqui? [10:30]

Meu docinho favorito

|Se diz loja? Não sei, esqueci... Mas tem uma pertinho! [10:50]

Meu docinho favorito

|Acorda, Felixie papai vai sair e vovô vai ficar sozinho se você chegar tarde [11:00]

Meu docinho favorito

Felix bobão [11:15]

Meu docinho favorito

| Me exaltei, desculpa lixie, você não é bobão... Estava cansadinho de ontem? [11:17]

Meu docinho favorito

| [11:20]

O sorriso que cresceu em minha boca ao ler suas mensagens, foi enorme. A cada dia que se passa, eu me apaixono ainda mais por esse garoto.

Decidi então ligar para ele após ler sua última mensagem, a mais recente. Respirei fundo e ajeitei meu cabelo, acionando a ferramenta de ligação de vídeo e sentindo meu coração acelerar somente em imaginar o rostinho dele aparecendo na tela do meu celular.

Acho meio bizarro isso que o amor faz com as pessoas. Onde já se viu ficar ansioso por apenas uma ligação?

Pois bem, aqui estou eu completamente ansioso para ser atendido por meu namorado e ouvir sua voz, assim como irei ver seu rosto.

- lixie? - A voz de hyunjin me tirou do transe que o amor que sinto por ele me colocou.

Só a voz mesmo, já que a tela estava completamente escura.

- hyun? Onde você está? - Perguntei confuso, tentando ver algo na tela.

Até ver parte do seu cabelo e um pouco da sua orelha.

- N-no closet, lixie! - Ouvi uma risada curta e o barulho de algo abrindo, sorri.

- Docinho, pode afastar o celular do ouvido?

- Mas como vou ouvir? - Ri baixinho com sua pergunta, colocando a mão no peito.

- Não quer me ver?

- S-sim! Manda varias m-mensagens, Lixie... Fui namorado chato? Você disse que chegaria cedo... Mas quero te ver, Felixie.- Sorri novamente, me deitando na cama.

- Você não foi um namorado chato, docinho. - Deixei claro, ainda com um sorriso grande na boca. - Eu amei receber suas mensagens fofas, mas gostaria de ver seu rosto. - Confessei, encarando meu celular.

- Só o rosto? - Sua voz saiu mais baixa, como se estivesse chateado.

Eu sabia das inseguranças que ele tem com o corpo e isso me preocupa. Ele é perfeito, incrivelmente lindo e não digo por ter o porte corporal que tem, eu o amaria de qualquer jeito.

Me apaixonei por sua personalidade, seus gostos e o seu jeitinho de agir, nunca o vi de maneira errônea.

- Você inteiro. - Fiz questão de dizer, ouvindo um suspiro curto seu, seguido por uma risadinha. - Mas acho meio difícil eu ver seu corpo todo por ligação de vídeo, hyun não me ouviria se ficasse tão longe para eu te ver inteirinho.

- L-ligação de vídeo? - Ele pareceu surpreso, afastando o celular do rosto de uma maneira tão rápida que a claridade que se fez ali, doeu meus olhos. - Lixie! - Um sorriso grande nasceu em sua boquinha bonita, me olhando por alguns segundos através da tela de seu celular.

- Oi, docinho! - Sorri também, me sentindo mais calmo em poder vê-lo, mesmo que seja por um celular. - Não sabia que era ligação de vídeo?

- Hyunjinnie e-estava tão... Tão ansioso que não percebeu... - Respondeu baixinho, me fazendo rir mais uma vez.

- Ansioso pra me ver?

- P-para sair com você, lixie. - Fez um biquinho convencido, virando o rosto de lado e empinando o nariz.

Eu amo quando ele faz isso.

- Pois saiba que eu estava muito ansioso para te ver. - Provoquei, segurando o riso quando ele desfez a expressão de antes e me olhou mais uma vez, parecendo envergonhado.

- Jura? - Desviou o olhar, mordendo o lábio inferior de maneira ansiosa.

- De mindinho! - Levantei meu dedinho para que ele visse, mesmo que não estivesse olhando para mim.

- E-então porque... Porque não veio ainda, lixie? - Seu tom de voz saiu brincalhão, me arrancando uma risadinha apaixonada.

- Quer almoçar comigo? Podemos sair e depois voltamos para a livraria, já que trabalho hoje a tarde. - Propus, notando um brilho diferente em seus olhos que focavam em algo além do celular, sorri mais uma vez.

- Quero, Felix! - O celular começou a movimentar conforme ele dava pulinhos, me arrancando mais uma risada.

Me levantei a fim de entrar em contraste com seus movimentos, dando pulinhos pelo quarto enquanto Hyunjin ria junto a mim.

- Então se arrume, docinho! - Falei ainda pulando fraquinho, rindo abertamente quando ele balançou a cabeça rapidamente, concordando comigo e fazendo seus óculos ficarem tortos em seu rosto sorridente.

Eu me sinto um bobão assim, mas é incrivelmente bom me sentir um bobão enquanto Hyunjin sorri e dá pulinhos junto de mim.

- Vou! - Respondeu, parando os pulos aos poucos e respirando fundo.

Sinto que meu amor por ele aumenta cada dia mais, a cada vez que ele abre a boca para falar, toda vez que ele respira.

- Passo aí em meia hora, está bem? - Ele apenas balançou a cabeça e sorriu novamente, me olhando antes de mandar um beijinho no ar.

-B-bitoquinhas, lixie!- Deu fim a ligação.

Me deitei na cama lentamente, sentindo meu coração calmo e um sorriso pequeno em minha boca. Acho que Junghyun me deu como namorado a melhor anestesia que ele já tocou, Hyunjin deixa tudo calmo aqui dentro de mim nos piores momentos.

Eu chamo de anestesia do amor.

Deixando esses pensamentos de bobo apaixonado de lado por alguns minutos, me levanto e vou direto pro banheiro novamente e com uma toalha no ombro, tomo um banho rápido para ficar cheirosinho e visto uma roupa confortável.

- Bom dia, filho! - Mamãe diz assim que me vê na cozinha, ela larga o que estava fazendo para me dar um beijo na bochecha, sorri e lhe dei um abraço.

- Está todo arrumadinho assim porque, lixie? - Jeongin, que estava sentado ao redor da mesa da cozinha, perguntou curioso.

- Vou almoçar com Hyunjin. - Sorri, vendo minha mãe murchar um pouquinho. Acho que ela contava comigo para esse almoço... Certo. - Prometo que hoje eu janto em casa, tá bem? - Lhe dei um beijo na bochecha, vendo ela voltar a sorrir e balançar a cabeça e concordar.

- Tudo bem, bebê! - Ela disse, me arrancando um sorriso envergonhado.

Olhei o horário em meu celular e arregalei os olhos que vi que já se passaram vinte minutos desde que liguei para Hyunjin. Pontual como sei que ele é, já deve estar olhando o horário em seu celular ou relógio de pulso e vendo que faltam menos de dez minutos para que eu chegue lá.

Me despedi de minha mãe e meu melhor amigo, pegando um coturno preto na saída de casa e fui direto para o elevador, ficando tranquilo quando vi apenas duas pessoas ali dentro, as cumprimentei e seguimos até a portaria em silêncio. Acho que meus vizinhos me odeiam, só pode.

- Bom dia, senhor Choi! - Me curvei em cumprimento ao porteiro velhinho.

- Quase tarde, Jovem Lee! - Deu um sorriso curto e se curvou minimamente, retribuindo meu cumprimento.

Acenei com a mão para ele e segui caminho para a livraria, andando um pouquinho mais rápido para chegar lá com uns três minutos de antecedência. Até teria dado certo caso eu não tivesse visto uma barraquinha de flores e ver um buquê de florzinhas lilás.

Hyunjin amaria elas.

Por isso, me aproximei da pequena barraquinha e deixei pago as flores. As pegaria quando passasse por ali com Hyunjin, seria uma pequena surpresa.

- Vou passar aqui daqui uns vinte minutos, moça - Sorri para a mulher ao me distanciar, acenando para ela.

Quando cheguei na livraria, um sorriso grande se apossou dos meus lábios instantaneamente. Ah, Hyunjin... O que você fez comigo.

- M-mas ele disse que chegaria agorinha, vovô! - Foi a primeira coisa que eu ouvi quando abri a porta da livraria, segurando uma risada ao perceber que era de mim que essa falavam lá na cozinha.

- Mas não custa nadinha comer um pouco do que seu pai fez, meu bem. Tenho certeza que está com fome. - Hwang-hee disse pacientemente.

- Não q-quero comer tanto, vovô. - Hyunjin continuou, franzi o cenho.

- Pois eu fico triste ouvindo isso. - Falei ao entrar na cozinha, segurando a risada quando Hyunjin deu um pequeno pulinho no lugar e levou a mão até o peito quando virou-se em minha direção, sorrindo quando viu que era eu ali.

- Viu, vovô! - Hyunjin disse cruzando os braços. - Felix chegou no h-horário certinho.

- Felix, diga a ele para comer pelo menos um pouco do que Junghyun fez. - Meu chefe pediu de maneira suplicante, mas notei quando segurou uma risada quando Hyunjin lhe olhou de maneira repreendedora.

Eu amo essa família, sinceramente.

- Prometo encher esse carinha aqui de comida no restaurante, Hwang-hee. - Fiquei próximo a Hyunjin e dei dois tapinhas fraco em sua barriga, ouvindo ele rir baixinho e mover a cabeça freneticamente em concordância.

[...]

- Seu pai disse para onde ia? - Perguntei para Hyunjin assim que saímos da livraria, ele negou com a cabeça.

- E-ele disse que não iria demorar. - Suspirou, apertando minha mão e ajeitando o fone de ouvidos em sua orelha.

- O que quer ouvir? - Perguntei e ajustei o som do celular, o olhando.

- M-maybe, Felixie. - Sorriu e apertou minha mão novamente, me fazendo sorrir também.

Busquei por sua playlist em meu celular e dei play em sua música favorita. Analisei sua expressão e soltei um suspiro aliviado quando ele sorriu ao ver que a música começava a ecoar por seus ouvidos.

Andamos em silêncio por uns minutos, até eu ver a barraquinha de flores pela qual passei enquanto ia para a livraria. Como se sentisse o cheiro delas de longe, hyunjin encarou o pequeno estabelecimento por breves segundos, apertando minha mão mais uma vez e sorri.

Pausei a música que rodava por nossos ouvidos e ele me olhou confuso, lhe dei um beijinho na bochecha para amenizar sua confusão e, de quebra, receber um sorrisinho tímido.

- Vamos ali, tenho uma surpresinha para você. - Falei lhe puxando levemente em direção a barraquinha de flores.

- O que é, Lixie? - Verbalizou sua confusão, apenas lhe ofereci um sorriso como resposta.

Chegando próximo ao estabelecimento móve,l a moça que me atendeu minutos atrás deu um sorriso simpático quando nos viu chegar. Fiquei aliviado ao notar que ela havia lembrado-se de mim.

- Boa tarde moça, vim pegar aquele buquezinho de flores que deixei pago uns minutos atrás! - Sorri, ela concordou com a cabeça e se abaixou atrás do balcão para pegar o que eu havia dito.

Olhei para meu namorado e sorri quando seus olhinhos ficaram maiores do que já são quando viu o buque de florzinhas lilás.

- lixie... - Ele disse visivelmente feliz, mas também envergonhado.

- Obrigado. - Sorri para a mulher que me entregou o buquê, tentando inútilmente esconder um sorriso grande. - É seu, docinho. Presentinho de quase um dia. - Me virei para hyunjin, me segurando para não beijá-lo ali mesmo quando vi a expressão de felicidade em seu rosto.

Ele me agradeceu e pegou o pequeno buque de flores de minha mão, me abraçando rapidamente e passando os dedinhos longos sob as flores cheirosas.

- Obrigado mais uma vez, noona! - Me curvei para ela, sorrindo quando sua cabeça se move freneticamente em uma negação.

- Tudo bem, rapaz! Eu quem agradeço. - Sorriu, olhando de relance para hyunjin, que estava um pouquinho mas atrás de mim. - Ele é seu irmão ou...?

Eu pensei em dizer que sim. Nossa sociedade não é muito confiável quando o assunto é esse em questão, negaria pela segurança de Hyunjin, ja que tudo que menos quero nessa vida, é que ele passe por uma situação onde será julgado por ser quem é.

Não quero que passe por isso novamente, já que percebo que ele foi julgado por ser autista por, praticamente, toda a sua infância e adolescência. Pela própria mãe.

Não quero isso.

- Ele é meu namorado. - Sorri para ela, segurando novamente a mão de Hyunjin e o colocando ao meu lado.

Não quero que nada de ruim aconteça com Hyunjin por conta dessa sociedade homofóbica, mas também não vou mais esconder o que sinto e o que sou. Somos, na verdade.. Se acham errado, vão ter que engolir nosso amor.

Soltei um sorriso quando seus olhos confusos viajaram até nossas mãos juntas, depois para meu rosto e depois para a mulher à nossa frente. Mas voltou o olhar para suas florzinhas, sorrindo de uma maneira encantadora.

- Peço que tome mais cuidado com esse tipo de demonstração de afeto, jovem... - Ela disse, pensei em refutar suas palavras mas ao encarar seu rosto e notar em sua expressão a preocupação, senti meu coração se acalmar. - É ruim ter que dizer isso, mas nossa sociedade é um lixo as vezes...

- L-lixo dos mais pe... Perigosos. - Hyunjin, que ate o momento se mantinha quieto admirando suas florzinhas, disse baixo e me surpreendeu. Concordei e acariciei sua mão.

- Isso mesmo, jovem...- A mulher nega cabeça, parecia entristecida. - Mas é bom saber que ainda exista jovens românticos por aí hoje em dia, a maioria das pessoas que compram manhas flores são pessoas mais velhas! - De repente, ela abriu um sorriso novamente.

- Se eu pudesse, compraria todas as flores do mundo para ele. - Eu disse de maneira impulsiva, mas não era mentira.

Segurei um riso envergonhado quando Hyunjin apertou minha mão com mais força e quando encarei seus rosto pelos cantos de meus olhos, percebi suas bochechas mais rosadas que o normal. Eu amo a forma que ele reage a tudo que digo.

E eu mesmo sentia minha bochechas mais quentes do que o normal.

A moça simpática sorriu e também agradeceu novamente pela compra das flores e até mesmo pela conversa curta. Se todas as pessoas do mundo pensassem da forma que aquela mulher pensava, acho que viveríamos em uma sociedade menos podre. Ou, como meu docinho disse, não viveríamos em uma sociedade lixo dos mais perigosos.

- Ah, Hyun... - Chamei sua atenção enquanto caminhávamos em direção ao restaurante que havia feito a reserva. Ele me olhou brevemente e murmurou um "Hum?" - Acabei me esquecendo de perguntar se você queria ir ao restaurante comigo. - Sorri meio constrangido, respirando fundo. - Mas, se te incomodar, podemos ir a qualquer outro lugar menos... Movimentado.

- E-Eu quero ir, lixie. - Sorriu ao dizer. - Changbin hyung disse que é bom eu...Eu ir a lugares novos para a-adaptar e me acostumar.- Explicou, me fazendo sorrir e concordar.

Ele explica de um jeitinho tão lindo que eu já estou sorrindo como um bobo.

- E s-se fizer mal a eu, juro que vou dizer. - Concluiu, me deixando feliz e mais tranquilo.

Caminhamos tranquilamente em direção ao restaurante que ficava próximo da minha casa, mamãe havia entrado em contato com a proprietária para ver se tinha vaga para cozinheira, a mulher disse que ela poderia ir na segunda feira para fazer um pequeno teste. Se ela passar, estará contratada.

Tenho certeza que minha mãe vai conseguir, não a ninguém em sã consciência que irá rejeitar alguem com uma comida tão deliciosa.

- Quer dar uma passadinha aqui em casa quando voltarmos? - Perguntei para Hyunjin assim passamos em frente ao prédio que moro.

- Sim! - Disse sorridente, olhando para o edifício do outro lado da calçada.- Tem um s-senhorzinho acenando...

Olhei novamente para o prédio e vi o senhor Choi acenando para nós, sorri e retribui. Hyunjin desviou o olhar após balançar a mão duas vezes para o porteiro, apertando minha mão levemente.

- Ele é o porteiro de lá, acho que o conheço desde que me mudei para esse prédio. - Sorri ao dizer, relembrando de algumas situações constrangedores que o senhor Choi já presenciou por minha causa. - Ele meio que deu uma ajudinha para que eu começasse a trabalhar lá na livraria.

- S-serio? - Surpreso, ele perguntou.

- Sim, ele e Jeongin às vezes para o que estão fazendo apenas para fofocar. - Ri ao me lembrar do dia que meu melhor amigo apareceu na porta de meu quarto batendo nela, quase a arrombando só para me mostrar o panfleto que Junghyun e Hwang-hee haviam deixado lá. - Foi ele que deu o panfleto da livraria para mim.

- Ah... - Ele disse fraquinho, sorri e notei que já havíamos chegado no restaurante. Hyunjin pareceu confuso quando puxei sua mão levemente para que ele parecesse. - O que foi, Felixie?

- Chegamos, docinho. - Lhe puxei levemente em direção a entrada do estabelecimento, ele ficou parado por alguns segundos e quando iria perguntar se estava tudo bem, ele apenas sorriu e me seguiu para dentro do restaurante.

Falei com a recepcionista sobre a reserva que havia feito e ela chamou um rapaz para nos acompanhar até a mesa que pedi, fiquei meio perdido com todas essa... Chiqueza, digamos assim. Não estou muito acostumado com um restaurante tão... De gente rica.

Quero dizer, não quando eu sou o cliente, já que trabalhei por uns meses como garçom em um restaurante desse tipo a algum tempo atrás.

Quando chegamos na mesa que reservei, sorri ao perceber que era exatamente o que eu tinha pedido. Discreta, mais afastada das demais e em um cantinho silencioso.

- Desejam algo para beber? - O garçom perguntou com um sorriso gentil no rosto enquanto eu abria o cardápio. - Temos vinhos das melhores marcas e-

- Apenas dois copos de suco de morango, por favor. - Sorri para ele, sendo atendido e ficando sozinho com meu namorado.

- Não g-gosta de beber b-bebida ruim, lixie? - Hyunjin perguntou curioso, colocando o buquezinho de flores em cima da mesa, próximo a si.

Quis perguntar como ele sabe se bebida alcoólica é ruim sendo que ele nunca bebeu...

- Prefiro tomar um suco. - Respondi, além de ser mais barato também. - Aqui, escolha o que quer comer. - Lhe entreguei o cardápio.

Sorrindo feito um bobão, coloquei minha mão no queixo enquanto ele olhava atento para o cardápio em sua mão.

- Esse! - Apontou para o prato escolhido, sorri e concordei.

O garçom chegou pouco tempo depois com nossos copos de sucos e fiz os pedidos dos pratos principais. Hyunjin quis Tteokbokki e eu escolhi Bulgogi para acompanhar, já que ele não costuma comer uma tigela completa daquelas.

- Qual sobremesa você vai querer? Perguntei brincalhão, ele riu baixinho e apontou para a tortinha de morango no cardápio de sobremesas. - Não estou surpreso.

- E-e você, lixie?

- Prefiro só ver você comer o docinho. - Toquei em seu nariz, ele riu baixinho e concordou com a cabeça, a abaixando logo em seguida.

Fiquei uns segundos olhando para seu rosto e quando dei por mim, estava começando a procurar semelhanças que ele e Yugyeom poderiam ter.

Coisa que não foi muito difícil, mesmo não tendo muitas coisas, é possível notar algumas semelhanças tanto em seu comportamento como em sua aparência. Os olhos eram maiores que os do Kim, mas o nariz tem uma semelhança pequena, mesmo que o de Hyunjin seja mais redondinho.

- Docinho, você gostaria de ter irmãos? - A pergunta saiu espontânea, eu sequer pensei antes de dizer.

Ele me olhou confuso e abaixou o olhar logo em seguida, parecendo pensar.

- A-acho que papai não vai me dar um i-irmãozinho, Lixie... - Ele baixo, me fazendo rir baixinho. - Ele d-disse que não quer se casar t-tão... Tão cedo.

- E irmão mais velho?

- É meio i-impossivel, Felixie! - Ele riu, negando com a cabeça.

- Tem razão, é impossível. - Ri sem graça, respirando fundo e segurando em sua mão sobre a mesa. Preciso controlar essa minha lingua solta.

- Se eu t-tivesse um irmãozinho mais novo, ia t-tomar muito cuidado para não machucar ele. - Ele sorriu, fechando os olhos e suspirou logo em seguida. - Ou ela, p-pode ser menininha também.

- Certeza que você seria o melhor irmão do mundo. - Segurei em sua mão e a trouxe em direção a minha boca, dando um beijinho curto.

- Você t-também, Lixie. - Riu baixinho. - P-por que a pergunta, Felixie?

- Foi só uma pergunta boba que se passou pela minha cabeça. - Respondi meio nervoso.

Amo Hyunjin e sei que ele amaria descobrir que tem um irmão mais velho que preza por sua segurança e cuidado, mas odiaria entender o que levou isso tudo a acontecer. E também não irei desrespeitar a decisão de Yugyeom jamais, sei que isso é importante, mas também trará muitas consequências.

- Bobinho. - Ele disse, me fazendo rir.

De repente, ele soltou sua mão da minha e a levou em direção ao buquê de flores sob a mesa e tirou uma florzinha dali, a colocando em meu cabelo.

- Hyun... - Ri ao negar com a cabeça devagar para não derrubar a florzinha que colocou ali.

E ele não parou! Continuou a colocar várias flores ali enquanto ria baixinho. Depois de certo tempo, comecei a fazer o mesmo que ele, colocando as flores lilás em volta de seu cabelo preto, por conta do pequeno topetinho que fez ao repartir os cabelos compridos em partes desiguais, ficou mais facil das flores segurarem ali, alem delas terem o caule grandes também.

Mas o que realmente importa é que ele ficou uma gracinha com essa coroa de flores improvisada. Mais gracinha do que já é.

- Seus pedidos, garotos. - O mesmo garçom de antes disse ao colocar nossos pedidos sobre a mesa e eu quis rir da expressão que fez ao olhar para nós e ver dois bobões com flores na cabeça - Estilo vintage, uma graça.

Quase queimei de vergonha ao ouvi-lo dizer e, me surpreendendo como sempre, Hyunjin sorriu e lhe entregou uma das poucas florzinhas que ainda sobraram.

- V-vintage em você também! - Ele sorriu ao dizer, derretendo todo meu pobre coraçãozinho ao interagir de maneira tão doce com outra pessoa.

O garçom sorriu e, se entregando aos encantos e gracinhas de Hyunjin, abaixou-se ao seu lado e deixou que meu namorado colocasse a pequena flor em sua orelha.

Tudo que eu senti ali, foi orgulho e uma felicidade enorme.

- Obrigado por me deixar tão estiloso quanto vocês dois. - O garoto se curvou em nossa frente e sorriu mais abertamente ao se afastar.

Eu não conseguia sentir nada além de orgulho e felicidade ao notar a facilidade que Hyunjin teve ao interagir com o rapaz desconhecido. Eu estava tão feliz e agindo como o bobo apaixonado que sou, que me peguei lhe admirando mais uma vez naquele início de tarde.

- Como você consegue ser a pessoa mais apaixonante desse mundo, docinho? - Perguntei baixo , me segurando para não beijá-lo ali mesmo.

Quis dar várias bitoquinhas íntimas.

Ele apenas riu envergonhado e negou com a cabeça, começando a comer o que havia pedido. Nós dividimos nossa comida, para se dizer a verdade, já que ele comeu de minha carne e eu comi de sua sopa de bolinho de arroz. Foi um almoço completo.

- Lixie- - Ele iria dizer algo, mas foi interrompido quando meu celular tocou indicando uma ligação.

- Oh, seu pai está me ligando. - Franzi o cenho, atendendo logo em seguida. - Junghyun?

- Ah, Felix! - Ele disse animado, me fazendo sorrir. -Está com o Hyun ainda?

- Sim, ainda estamos no restaurando. - Olhei para Hyunjin e ri ao perceber que ele tentava ouvir o que estávamos falando. Decidindo acabar com sua curiosidade, afastei o celular de meu ouvido e ativei o viva voz. - Dá oi pro seu pai, docinho.

- O-oi, papai! - Sorriu abertamente ao dizer, me fazendo rir mais bobo do que antes. - Tudo bem?

- Sim, meu bem. - Ele respondeu, ouvimos um barulho alto vindo do outro lado da linha e logo após barulho de chaves. Acho que ele acabou de entrar no carro. - Me manda o endereço do restaurante, Felix-ah, acabei de terminar a reunião com meu advogado e passo ai para pegar vocês.

- Está bem. - Sorri ao dizer, mas meu sorriso desapareceu ao ouvir o que ele havia dito.

Advogado.

- A-advogado? - Hyunjin disse com as sobrancelhas juntas, confuso.

Ele não sabia. Ele não sabia da acusação contra o pai.

- Te explico assim que chegar em casa, hyun. - Junghyun disse mais sério, me fazendo morder o lábio inferior. - Me manda o endereço Felix, chego ai em dez minutos dependendo do trânsito.

Eu fiz o que foi dito logo após a ligação ser finalizada. Hyunjin ficou pensativo após a fala de seu pai e eu fiquei meio apreensivo com o motivo da conversa.

Pelo visto, as coisas iriam acontecer antes do que eu imaginava.

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