04
— Parabéns, Felix-ssi! Isso 'tava bom mesmo. — Jeongin diz, chupando os dedos melecados com o molho da comida. Comendo o Kimchi¹ que eu havia feito, com muito esforço e bagunça.
Pela primeira vez em meses, eu havia cozinhado em casa. O motivo é bem incomum, mas Hyunjin me fez ter apreço pela culinária.
O que eu quero falar, na verdade, é que Hyunjin tem um ponta de culpa por ter vários e vários livros de receitas espalhados pela cozinha do apartamento, e por eu quase ter colocado fogo nos meus preciosos dedos. A questão pode ser vista como simples, mas para mim, é bem complicada. Afinal, eu sequer sabia fritar um ovo corretamente.
Tudo começou no fim da semana passada, senhor Hwang pediu minha ajuda para fazer o almoço de Hyunjin, já que ele mesmo não era o melhor manuseando as panelas. E eu? Putz, não vou nem comentar. Resumindo, eu sou um desastre cozinhando.
"— Junghyun não conseguiu preparar nosso almoço e jantar de hoje. Ele estava tão apressado para ir logo ao hospital — Meu chefe disse desanimado, e eu tive que me segurar para não transparecer minha expressão surpresa. Eu achei que ele quem cozinhava. — Preciso que me ajude a preparar o almoço hoje, Felix-ah!
E bem, eu não sou mal educado para negar algo ao meu patrão, ainda mas depois que ele disse "Será recompensado por me ajudar tanto, jovem Lee!" Ele é demais.
Mas, voltando ao assunto em questão, desde que comecei a ajudar meu chefinho a fazer o almoço de Hyunjin, ando bem inseguro com o sabor que nossa comida tem, sabe? Fazer o moreninho vomitar não é minha coisa favorita nesse mundo.
Na quarta da semana passada, primeira vez que cozinhei lá a situação foi até que engraçada, não tinha muito o que fazer para o almoço então Senhor Lee decidiu fazer um macarrão instantâneo— o famoso miojo — Lembro de vê-lo se culpando por dias por conta disso, já que, por algum motivo que eu ainda não saiba, Hyunjin não pode comer tanta comida industrializada.
Mas o melhor de tudo naquela pequena confusão, foi a expressão de Hyunjin ao ver o miojo em seu pratinho.
"— Que... Q-Que isso? — Foi o que ele disse, segurando um pouco do macarrão na colher, olhando com as sobrancelhas franzidas. O Senhor Hwang se segurou para não rir, e eu quis me socar em um buraco e nunca mais sair.
Talvez o macarrão tenha cozinhado demais, derretido até. E os ingredientes que eu usei para fazer o "recheio" Da coisa, tenha queimado um pouco, mas o gosto tava bom. Então eu, sem ter lugar para me esconder, só virei para ele e disse:
— Pode comer sem medo, tá gostosão. — Me sentei em sua frente, ele me olhou, olhou para comida e depois para baixo."
Ele comeu, e eu prometi que aprenderia a cozinhar melhor.
— Pelo menos um Kimchi eu consegui fazer direito. — Suspirei, deitando meu corpo sobre o balcão e observando Myung todo relaxado em seu cantinho. — Que horas são?
—Hum...— Murmura Jeongin checando seu relógio de pulso. — Quase nove horas, já tá no meu horário de ir. — Anuncia, se levantando.
— Você trabalha hoje? — Me levanto também, pegando os pratos e panelas sujas para lavar na pia.
— Minha semana de folga acabou. — Suspira, mostrando sua insatisfação. — E hoje quem abre a floricultura sou eu. — Balanço a cabeça, concordando com ele. — Tô saindo! Até mais tarde, maninho! — Diz já na porta, sorrindo para mim. Me despeço dele, sorrindo com a forma que sou chamada.
O resto da manhã se passou rápido, quando eu percebi já estava no horário de buscar hyunjin em sua escola. E eu estava nervoso novamente.
Eu finalmente tive coragem de falar com meu chefe sobre o adiantamento de dinheiro que eu estava precisando. Minhas aulas iniciarão na próxima semana e eu precisava desse dinheiro o quanto antes para pagar as mensalidades que eu sequer sabia estarem atrasadas. Para minha sorte, senhor Hwang alguém gentil e não hesitou em me dar o dinheiro.
— Hum... Eu deveria comprar alguma coisa para ele comer depois do almoço, algo doce. — Murmuro para mim mesmo, olhando a boa quantia de dinheiro em minha carteira, sentado sobre a cama já pronto para sair de casa. — É, vou comprar uma sobremesa para Hyunjin.
Eu não sou fã de nada com muito açúcar, não é minha comida favorita e muito menos uma que eu tenho preferência. Mas, é algo que alguns adolescentes e crianças são fissurados. — Falo isso como se eu fosse um velho de setenta anos.
Coloquei uma boa quantia de ração e água para Myung passar o resto do dia, acariciando sua cabeça, me despedindo do bichano. Também coloquei um pouquinho de água no cacto de Jeongin que está na varanda, pegando sol.
Já com tudo pronto, com minha mochila nas costas e com tudo organizado, sigo para fora do apartamento. Desço sem cumprimentar qualquer pessoa que esteja dentro do elevador, nem mesmo com senhor Choi eu falei, ele estava ocupado demais fofocando com a vizinha do trezentos e vinte. Sorri, negando com a cabeça.
Sigo na direção do ponto de ônibus tão conhecido por mim, esperando esse que me levará para o centro de Seul, onde fica o Banco que vou pagar os meses atrasados da Universidade, finalmente.
A pé, ando poucos metros até chegar no banco Central de Seul, logo após descer do ônibus lotado. E depois de depositar o dinheiro na conta universitária, deposito um tantinho na minha própria conta. — Onde guardo todas as minhas economias, a partir de hoje, é claro— E sigo para fora do lugar.
Ando um pouco, procurando por uma cafeteria... Digamos que... Humilde. Onde os preços das coisas não são tão caros. Coisa que não é tão fácil de se encontrar no centro da capital Sul-Coreana. Decidi entrar no primeiro estabelecimento que vejo, já que o horário não permite que eu demore tanto fazendo algo tão simples. Olhando para os doces que pareciam deliciosos na vitrine, eu tento escolher um para Hyunjin, até uma das moças que trabalha aqui me chamar a atenção.
— Boa tarde, senhor! — Ela me cumprimenta assim que para do outro lado. — O que deseja?
Mordo meu lábio inferior, tentando decidir logo o que comprar e não ocupar tanto o tempo dessa moça bonita. Olho novamente para os docinhos exibidos ali, até um em especial me chamar a atenção.
— Quanto custa essa tortinha de morango? — Aponto para o doce bonito.
— 1.034 Wons², senhor! — Ela diz, com uma cara de tédio. Sorri aliviado, pegando minha carteira no bolso da calça.
— Vou levá-la.
— Vai comer aqui ou deseja embrulhar para viagem?
— Embrulhar para viagem.
Andando em direção a outro ponto de ônibus, agora, para voltar e pegar Hyunjin na escola. Dentro do ônibus, eu coloco a embalagem plástica do doce dentro da minha mochila, com cuidado para não danificar ou amassar a torta.
Não demora muito para que o ônibus pare novamente. Conhecendo bem o bairro onde estou, desço feliz, cantarolando qualquer música que tenha vindo à minha cabeça no momento, a poucos metros eu já avisto a escola colorida de Hyunjin. Observo também que há uma movimentação a mais ali, pego meu celular e percebo que cheguei no tempo certo para pegá-lo. Me aproximando mais, o vejo no mesmo lugar de ontem, com uma feição emburrada e com os braços cruzados, balançando os pés de forma afoita.
Era até engraçado ver ele assim. Era meio fofo também, mas isso não é uma surpresa muito grande. Percebo também que ele está de uniforme, assim como todos os alunos que saem do lugar. Semana passada ele se recusou a usar o uniforme, lembro-me de rir bastante quando senhor Hwang contou da forma engraçada que ele se negou a colocar a roupa escolar. Mas seu professor pediu-me novamente para falar com seu responsável — O pai no caso, mesmo que eu tenha dito ao avô. — que Hyunjin realmente precisava usar o uniforme.
Ele não está usando seus óculos. Poxa, Hyunjin fica lindo de óculos
— Hyunjin! — O chamo, tentando chamar sua atenção, coisa que não funciona muito já que ele não pareceu me escutar — Hyunjin! — Tento novamente, falhando.
Uma moça bonita para ao lado de hyunjin, ela tem o uniforme de trabalho, o que indica que ela trabalha aqui. Observando tudo atentamente, vejo quando ela aponta o dedo em minha direção e me oferece um sorriso, bonito vale ressaltar. E no mesmo momento em que seu dedo é direcionado a mim, Hyunjin também me olha, por breves segundos. Ele fala alguma coisa para ela e se levanta, agora com sua mochila nos braços. O observo a todo momento, ele mantém a cabeça baixa, olhando para seus pés enquanto caminha até mim.
— E aí, tudo bem? — Digo encostando meu ombro em uma das grades de ferro, o olhando.
Ele nada diz, somente concorda com a cabeça, ainda com um biquinho emburrado nos lábios. Encaro seu rosto e solto uma risada curta, vendo uma borboleta pequena desenhada em sua bochecha esquerda.
— Quem fez isso em você? — Sinalizo com a cabeça em sua direção, ele novamente me ignora, fazendo um barulho engraçado com a boca. — Por que 'tá assim? 'Tá bravo? — Arrisco, ele suspira. E por sorte, ele diz que sim, somente com um acenar de cabeça.
— Por que? Você parecia bem animado falando com aquela moça. — Contenho um risada, ainda sem me olhar, ele nega.
— H-Hyunjinnie bravo com você! — Revela então, mordendo a alça da mochila.
Fico confuso, tentando lembrar qual merda que eu fiz ontem e o deixou bravo, mesmo que não tenhamos nos falado muito ontem.
— Bravo comigo? Por quê? — Decido perguntar então.
Ele me olha, desvia o olhar, e me olha novamente. Parecendo ter coragem ou procurando as palavras certas para dizer. Mas a única coisa que faz é apontar com o dedo indicador na direção de seu próprio corpo, mostrando seu uniforme.
— O seu uniforme? O que tem? É bonito! —Prendo a risada novamente, sua feição se torna em um misto de confusão e indignação, parecendo ainda mais bravo. Fofo.
— N-não! É amarel-lo! — Volta a abraçar sua mochila, negando com a cabeça.
—É bonito! Olha só, tem até gravatinha! — Ele bufa irritado, começando a andar.
— Onde vai?
—C-casa.
— Mas me explica porque você está bravo comigo! — Começo a segui-lo.
Ah, outra coisa que eu havia esquecido de explicar! Hyunjin realmente se sente desconfortável entrando em carros que ele não conhece, seu avô me contou na quinta-feira da semana passada. — Me senti culpado, porquê Hyunjin passou quase uma semana andando em ambientes que não o deixavam bem. — A partir de hoje, nós vamos a pé para sua casa.
— Você contou para papai que te-tenho quer ir para escola com... Unicórnio. N-Não. — Ele negou rapidamente com a cabeça, me fazendo rir baixinho. — U-uni... Umifo... Aish.
— Uniforme? — Mordo meu lábio inferior, controlando o riso, coisa que não é muito fácil ao ver como ele ficou mais bravo ainda. Começando a andar com mais velocidade.
— Não gosto desse umif-forme feio. — Diz novamente, suspirando logo em seguida.
—Tudo bem, tudo bem. — Começo a rir fraquinho, ele se mantém ali, quieto e ainda meio bravo. Não vou prolongar essa conversa, já que eu não sei como ajudá-lo nisso. — Se eu te der uma coisa, você fica de boa comigo?
— D-de boa? —Tomba a cabeça para o lado, confuso.
— É, me desculpar, entende? — Encarei seu rosto, vendo a expressão confusa sumir. — Tenho uma surpresa para você.
— Surpresa? É-é bom?
— Prometo que você vai gostar. — Garanto.
— Você e-está perdoado! — Ele começa a dar pulinhos na calçada, animado. Aquilo me fez sorrir de um jeito bobo.
Que interesseiro, olha só!
— Que bom então! — É que eu digo, meio difícil não sorrir daquilo.
— Cadê surpresa? — Ele para de dar seus pulinhos e me olha, diminuindo seu sorriso bonito.
— Vai ganhar só quando chegar em casa, depois do almoço. — Volto a caminhar devagar, deixando ele para trás.
Ele para na hora, voltando a mesma expressão de antes; emburradinho, ainda com um biquinho inconformado nos lábios.
Como hoje o clima está incrivelmente agradável e um friozinho bom, nem deu para perceber o quanto andamos rápido, não tão rápido para não cansar Hyunjin. O resto do caminho até sua casa foi silencioso, vez ou outra eu falava alguma coisa, só para descontrair, mesmo que não fosse respondido.
— P-pode ser quando entrar? — Hyunjin perguntou baixinho, ainda querendo saber o que é a tal surpresa.
Ele é insistente quando quer ser, minha santa divindade.
— Não, não. Já falei, depois do almoço. — Sorri, estranhando o fato do portãozinho estar trancado. Por sorte, eu havia pego as chaves extras que meu chefe me entregou na semana passada, atravessando o portão e sendo acompanhado por um hyunjin bravinho de braços cruzados atrás de mim.
Estranhei também o fato da porta de entrada estar fechada, e logo peguei meu celular para contatar senhor Hwang. Mas, assim que cliquei no aplicativos de mensagens, o ícone do perfil do meu chefe foi o primeiro a aparecer, mostrando algumas mensagens que eu não havia visto.
— O-o que foi? — Hyunjin perguntou, possivelmente estranhando o fato da porta está fechada.
Não o respondi de imediato, cliquei no ícone do meu chefe para ver do que se tratava suas mensagens.
Chefinho:
|Felix-ssi, eu tive que dar uma saidinha! É provável que eu volte apenas à noite, sinto muito! Tem um bilhete que meu filho deixou na cozinha, leia-o, por favor!
Franzi o cenho, tentando entender a situação.
Chefinho:
| A chave da porta está no vasinho da Rosa do Deserto de cor rosa, abra a livraria apenas no seu horário de trabalho, ok? Não trabalhe muito. Seu almoço e do meu pequeno Hyun está na geladeira, cuide bem de Hyunjin, ok? Obrigado e até mais tarde!
Suspirei, sorrindo pequeno. A forma que o senhor Hwang me tratava era tão confortável que, às vezes, eu me sentia como parte de sua família.
— Seu avô saiu. — Disse baixo e Hyunjin suspirou, deixando a expressão triste dominar seu rosto. — Vai tomar um banho enquanto eu preparo algo para você comer, pode ser?
— Um-hum — É o que ele murmura, mesmo que permaneça parado ali, depois de tirar os tênis e entrar. O sininho anunciou nossa entrada, mesmo que não tenha ninguém na livraria agora para nos ver.
— Birrento. — Digo baixo o suficiente para que ele não escute, tirando meus tênis e andando em direção a cozinha. Ele me acompanha, curioso.
Tirando da mochila a tortinha que trouxe para ele com cuidado, coloco dentro da geladeira e suspiro, vendo Hyunjin parado olhando para baixo. Esse garoto...
— Se você for rápido, vai ter sua surpresa rapidinho também. Mas ainda 'tá parado aí, tcs tcs. — Estalo a língua, negando com a cabeça.
Ele, desajeitado, se vira e vai para o andar de cima a passos pesados, com os braços cruzados e aquele biquinho inconformado na boca.
Então eu repito: —Birrento.
Subo as escadas atrás dele, indo para a sala e deixo minha mochila no sofá, assim que volto para a cozinha vejo o tal bilhete que meu chefe falou, em cima da mesa de mármore.
"Felix-ah, desculpe-me por não ter avisado antes, mas à dispensa de alimentos está um pouco vazia, a geladeira também não tem estado muito cheia. Falei para meu pai fazer as compras, mas ele não terá muito tempo hoje. Ando muito ocupado ultimamente e sem muito tempo para fazer compras também, poderia ir ao mercado mais tarde, por favor? Tem dinheiro na primeira gaveta do armário da cozinha, eu também fiz uma lista das coisas que precisam ser compradas, ela está fixada na geladeira.
Obrigado e até mais tarde. E perdoe-me por lhe dar um trabalho que não é seu"
Leio as palavras feitas em caligrafia bonita anotadas sobre o papel, com as sobrancelhas franzidas ando até o tal armário onde ele diz que se encontra o dinheiro, abrindo a gaveta e encontrando-o ali, olho para a geladeira e também encontro um papel comprido fixado por um imã. Que listão.
Suspiro e coloco tudo dentro da gaveta novamente, eu devo levar Hyunjin comigo? Não sei se é uma boa ideia. Mas também não quero deixá-lo sozinho Como eles deixam essa responsabilidade para mim? Eu sou apenas o atendente da livraria!
— Okay, primeiro preciso pensar no almoço. — Abro a geladeira procurando pelas marmitinhas que estavam no congelador, sorrindo ao encontrá-las em vasilhas coloridas.
Um tempinho depois, Hyunjin aparece na cozinha e se senta no banquinho do balcão, com seu celular em mãos. Eu quis pedir seu número, mas me faltou coragem.
—'Tô quase acabando. — Olho para ele, vendo ele já sentado, quieto, com a roupa trocada e os cabelos molhados. —Gosta de kimchi?
— S-sim . — Respondeu, olhando para a geladeira com os olhos curiosos — Cadê?
—O quê?
— Surpresa... —Respondeu, insistente.
Eu nego com a cabeça, sorrindo fraquinho e tirando as tigelinhas do microondas.
— Deixa de ser teimoso, eu já disse que vou te dar só depois do almoço. — Falei, colocando seu Kimchi numa tigelinha de plástico, lhe entregando, junto com os hashis.
— Olha, é só comer que você ganha sua surpresa, tá bom? — Ele me olhou de um jeitinho engraçado, segurando os hashis com certa força.
—H-Hyunjinnie entendeu. — Responde olhando atento para a tigela de kimchi. Ele estava nervoso.
Me afasto para colocar minha comida também, quando olho novamente para onde ele está vejo sua dificuldade para segurar os palitinhos de metal, então tudo que faz é largá-los sobre a mesa e cruzar os braços, com outro bico emburrado no rosto.
— O que aconteceu? — Me sento em sua frente.
— Não c-consegue — Murmurou sem me olhar. Parecia envergonhado.
— Não consegue segurar eles? — Aponto para os pauzinhos jogados na mesa. Hyunjin assente com um movimento pequeno de cabeça, desanimado. Ai... Poxa vida.
Então, para tentar deixá-lo melhor, eu me levanto e vou até a gaveta onde tem algumas colheres, pego duas.
—Toma. —Estendo em sua direção, ele me olha por poucos segundos antes de suavizar a expressão e pegar a colher de minha mão. — Já que você não vai comer com eles, eu também não vou.
Meio surpreso, ele me olha, até se desmanchar em um sorriso sem mostrar os dentes, um sorriso miúdo.
— Ob-brigado! — Nego com a cabeça, sorrindo, começando a comer.
Sorri satisfeito no final da nossa refeição, Hyunjin pareceu gostar muito da comida, pois só deixou a colher quieta quando a tigela estava vazia.
— Gostou? — Pergunto, ele diz que sim, movimentando a cabeça. Ele volta a olhar para a geladeira, depois para mim e depois para a geladeira de novo.
— Você não esquece mesmo, não é? — Digo com um sorriso pequeno, negando com a cabeça.
— Não mesmo! — Diz com a cabeça baixa, começando a brincar com as mãos um pouco cobertas pelo suéter grande.
Sem responder nada, eu me levanto, pegando as tigelas sujas e colocando elas na pia, vou até a geladeira para então pegar sua tortinha de morango. Hyunjin me acompanha com um olhar curioso. Atento a tudo que faço.
— Aqui. — Coloco a embalagem bem arrumada sobre a mesa, em sua frente.
Apressado e meio desajeitado ele começa a abrir. Mesmo sabendo que talvez ele goste, também tem a opção dele não gostar, e é isso que me deixa apreensivo.
— Hyung... —Ouço ele me chamar. O olho, analisando sua expressão e tentando saber se ele gostou ou não, o que é bem difícil.
— Eu não sabia se você gostava de morango, só comprei porque parece bom e a maioria das pessoas gostam — Comecei a me explicar, mas logo fui calado quando suas palmas ecoaram pela cozinha, ele estava animado.
Puta merda, eu levei um susto danado!
— G-gostar muito! — Ele diz, sorrindo. E dessa vez, é um sorriso enorme que mostra seus dentes e seus olhos se fecham minimamente.
Vale ressaltar claro que é a primeira vez que vejo ele sorrindo assim, tão grandiosamente, para mim. É possível ver seus dentes!
— Espera um pouquinho, vou pegar outra colher pra você. — Me levanto, ele faz que sim freneticamente com a cabeça, nunca deixando de sorrir. Uau!
— Aqui. — Estendo uma colher pequena para ele — Enquanto você come, eu vou lavar a bagunça que fiz. — Digo, tendo uma certeza de que ele não ouviu nada do que eu disse de tão animado que está, dando toda sua atenção à tortinha que eu lhe dei.
Não demorou muito para terminar de lavar tudo, até porque não tinha muita bagunça. Quando me viro e olho para Hyunjin, percebo que vou precisar lavar outras coisas também. Ele é meio bagunceiro para comer, isso eu já percebi, mas sujar até o cabelo já é demais.
— Meu Deus do céu, cadê o Hyunjin e por que tem um porquinho na cozinha?? — Me aproximei com um pano molhado, percebi que ele já tinha terminado de comer. Bem, boa parte do doce estava em seu rosto e na mesa, mas ele pareceu gostar mesmo daquilo.
Tem geleia de morango até em seu olho!
— Deixou um pouq-quinho para o hyung! — Diz, apontando para um restinho de torta dentro do pratinho pequeno. Sorri.
— Eu não gosto muito de doces, você pode comer. — Dei de ombros, passando o pano sobre a mesa. — Mas obrigado, de qualquer jeito.
Ele ficou quieto, terminando de comer o resto do doce enquanto eu limpava a mesa, então olhei para ele novamente, analisando seu rosto atentamente, sorri desacreditado ao ver aquela pequena borboleta ainda em sua bochecha.
— O que é isso? —Aproximei meu dedo de seu rosto, sem o tocar. — Você tomou um banho tão bem que nem a borboleta saiu de seu rosto. — Ri fraquinho, percebendo suas bochechas vermelhas.
— Não quis tirar. — Diz baixinho, sorri novamente. Então ele baixa a cabeça. Vendo isso eu me sento novamente, agora, ao seu lado.
— Quem foi que fez? — Decidi mudar de assunto.
— D-dahyun Noona... — Respondeu, brincando com as mãos. — P-professor pediu para ela faz-zer pintura no rosto da turminha...
— É aquela mesma mulher que te avisou quando eu cheguei? — Perguntei e ele fez que sim, movimentando a cabeça — Ela é o que lá? Eu achei que era professora.
— Inst-tru... Ins... I-Int-tra — Ele juntou as sobrancelhas, tentando lembrar da palavra, mas logo desistiu —Não lembro.
— Instrutora? —Perguntei e ele concordou com a cabeça novamente, calado, encaro seu rosto, desde o nariz grandinho ao queixo manchado de chantilly. — A borboleta está Linda. — Ele me olha, sorrindo minimamente.
— Obrigado! — É o que diz. E eu não entendo porque ele está me agradecendo
Depois que Hyunjin subiu para se lavar, eu abri a livraria para receber as pessoas, virando a plaquinha de "fechado! " para "aberto!" sorri, vendo duas pessoas aguardando a abertura da livraria.
— Bem-vindos! — Anunciei, curvando-me para os dois jovens que entraram sorridentes, sumindo logo em seguida dentre as muitas prateleiras ali. Suspirei, caminhando até minha mesa e abrindo o caixa, vendo o dinheiro das vendas da manhã ali.
— Senhor, pode me ajudar? — A garota que havia entrado poucos minutos atrás, chamou minha atenção. Sorri para ela, levantando-me e pedindo para que ela me contasse no que eu poderia a ajudar. — E-eu e meu irmão estamos procurando dois livros Diferentes. — Ela disse tímida, mordendo os lábios.
— Diferentes?
— É-é — Franzi o cenho, tentando entender. Então, ela prosseguiu: — N-nas livrarias tradicionais, não existem muitos livros com romances V-você sabe, romances LGBTs
Abri minha boca surpreso, sorrindo novamente para ela.
Isso também me surpreendeu quando eu comecei a trabalhar aqui, senhor Hwang tem vários e vários livros LGBTQIA+ em sua livraria, eu tive que me segurar para não sorrir quando passei pela sessão.
— Temos vários, moça. — Pisquei para ela, pedindo para que ela me acompanhasse. — Tem alguma preferência?
— Eu queria algo misterioso. — Ela sorriu, abaixando a cabeça.
— E eu gostaria de algo mais romântico, senhor! — O garoto que estava acompanhando-a, seu irmão, apareceu dentre as prateleiras, sorrindo de um jeitinho engraçado.
— Não me chame de senhor, menino. Não sou tão mais velho que você. — Sorri, pedindo para que eles me acompanhassem até a sessão do conteúdo que queriam.
— Desculpe.
Eu acabei vendendo dois dos meus livros favoritos ali, "Cem Chances", para a garota que pediu algo misterioso. E "Ele é Como Rheya"², para o garoto. Sorri contente, me despedindo deles após o pagamento.
— T-tá frio... — Me assustei quando Hyunjin apareceu de repente, com a cabeça baixa, os braços ao redor do corpo, abraçando a si mesmo.
— O que aconteceu? — Me aproximei preocupado, sem o tocar.
— M-molhado... — Ele apontou para seu suéter, e eu analisei todo seu corpo, notando manchas em toda sua roupa. Suspirei.
— Como você ficou assim?
Ele me explicou, com dificuldades, que se molhou enquanto lavava o rosto e outros lugares que estavam sujos. Mas não tirou a borboleta da bochecha.
— É melhor trocar de roupa, para não pegar algum tipo de resfriado, sabe? — Digo, sem olhá-lo no rosto. Ele concordou em um murmúrio, virando-se de costas para subir novamente.
— Quer ajuda? — A pergunta sai automaticamente.
Ele negou, balançando a cabeça para os lados. Suspirei e apenas concordei, caminhando de volta para minha mesinha. Peguei meu celular, para me distrair enquanto eu estava com um tempinho livre. Haviam várias mensagens no KakaoTalk⁶, a maioria de Jeongin.
Soul👺:
|Felix! Chegou uma remessa de orquídeas 😭😭😭😭😭😭😭😭😭 elas são tão lindas 😭😭😭😭😭😭😭
Soul 👺:
|Minnie falou que só vai me dar uma orquídea se eu for um bom namorado 🤡
Soul👺:
|Quase dois anos namorando com esse arrombado e ele ainda acha que não sou um bom namorado? 👺
Soul👺:
|Eu quero uma florzinha😭
Soul 👺:
|Sabe, já que você e Seungmin são quase cunhados, você poderia convencer ele para mim? 🥰🥰🥰😍😍😍
Me:
Ah, mas nem ferrando que eu falo com Seungmin sobre isso, se vira ai.|
Dei uma risada lendo aquilo, Jeongin e Seungmin tinham um relacionamento invejável. Eles já deram, literalmente, a volta ao mundo juntos. Foram ao Brasil em comemoração aos um ano de namoro deles. Quando eu namorar, vou comemorar nosso aniversário de namoro no Brasil também, quero nem saber.
Decidi responder as outras mensagens de Jeongin depois, já que Hyunjin já estava descendo, com outra roupa. Para variar, outro suéter, agora um lilás. E estava com sua mochila nas costas.
Ainda nem era meu horário de almoço, mas já que não tinha ninguém na livraria, iria ajudá-lo com suas atividades.
— O que temos que fazer hoje, jovem estudante? — Perguntei, seguindo-o até uma das mesinhas espalhadas ali. Hyunjin se sentou na primeira que viu, tirando de lá seu caderno, estojo de canetas e lápis. Ele tinha muitos desse, tipo, muitos mesmo.
— N-números. —Respondeu, mostrando as duas mãos abertas, como se estivesse contando. Ah
— Matemática? — Ele assentiu, começando a organizar seus lápis por cores, do menor para o maior. Fofo. — Matemática não é minha matéria favorita, mas nunca tirei nota vermelha nessa matéria endemoniada. — Falei passando as folhas do caderno, e então olhei rapidamente para Hyunjin quando percebi o que tinha falado. Ele também me olhou, parecendo confuso com alguma coisa.
—Nunca repita isso, tá bom? — Me apressei a dizer, quase que desesperado. Eu preciso pensar antes de falar qualquer coisa, meu Deus.
— P-por quê? — Tombou a cabeça para o lado, com as sobrancelhas juntas.
— Porque é... É-é feio e... E é uma palavra feia, é. Muito feia! — Comecei a folhear o caderno de forma nervosa, torcendo internamente para ele não perguntar mais nada.
— Mas voce disse... — Continuando a arrumar seus lápis, ele falava sem perceber o desespero interno que eu estava tendo.
— você- Digo, eu, sou meio burro mesmo. — Engoli em seco, tentando inutilmente molhar a garganta para as palavras saírem com mais facilidade. — É só não falar, tá bom? Principalmente na frente de seu pai ou avó, também nunca diga que e-eu falei algo assim, tá bom?
Com uma expressão confusa, Hyunjin concordou. E eu imagino seriamente que ele deve me achar um doido ou algo do tipo.
— Felix? — Ouvi sua voz e o olhei, observando a forma que ele mudava os lápis de posição, depois voltava eles ao mesmo lugar para depois, mudar novamente. Murmurei um "Hum" Baixinho para que ele continuasse a falar.
—Colocar m-musica? — O olhei rapidamente, tentando entender se não havia ouvido errado. Na última semana, Hyunjin não pareceu muito contente enquanto eu colocava músicas para tocar, mas não dizia nadinha. E agora, ele pediu para mim. Endireitei minha postura e sorri, pegando meu celular sobre no bolso da calça.
— C-coloca aquela. — Pediu, olhando para mim agora.
Uma sensação diferente me atingiu naquele momento, pensei que iria morrer ou que meu coração fosse sair pela boca. Tudo normal. Procurei por Maybe na playlist, colocando para tocar logo depois.
— Gosta muito dessa... — Ele fechou os olhos, sorrindo pequeno e apreciando a música, seu cabelo pretinho ainda estava úmido e a franja jogada sobre os olhos fechados, quase tampando-os. Meu deus do céu, assim não tem como me concentrar e resolver esses problemas de matemática.
Balancei a cabeça, me concentrando.
— Ei, ei! — O chamei. — O dever é seu, eu só vou te ajudar. — Coloquei o caderno na mesa e arrastei até ele, vendo seu sorriso diminuir aos poucos.
Mesmo a contragosto, ele pegou o caderno. Me aproximei mais um pouco para que eu conseguisse ver o que estava escrito e ajuda-lo a responder.
A música foi colocada repetidas vezes, por pedido de Hyunjin que sempre pedia para eu não trocar. Fizemos todo seu dever só ouvindo ela, às vezes um ou dois clientes entravam na livraria e eu tinha que interromper o que estava fazendo para atendê-los.
Agora, já estamos quase acabando o último problema de matemática quando a porta se abre novamente e o sininho anuncia a entrada de uma pessoa. Mas me surpreendo ao ver quem está parado ali.
— Seungmin? — Ele estava parado do outro lado do local. E também parecia surpreso ao me ver aqui.
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