03

— Jeongin! Jeongin, cheguei! — Eu gritei ao entrar em casa, mais apressado que o normal para contar toda a novidade para meu melhor amigo. 

— Que gritaria... — Jeongin apareceu na porta de seu quarto coçando os olhos. Não percebi que estava tão tarde. Me assustei quando ele veio rápido em minha direção, agarrando-me pelos ombros e balançando meu corpo. — Onde você estava! Quer me matar do coração!? 

— Você que vai me matar assim, idiota! — Coloquei a mão na cabeça, meio tonto — Eu tava ganhando dinheiro! 

— Hã? Dinheiro? — Me olhou confuso — 'Tá trabalhando com tráfico?

— O quê?

— Você se meteu com gente ruim de novo, Felix!? — Acusou novamente, me olhando de um jeito engraçado. 

Pelo amor de Deus. 

— Burro! Tô falando do trabalho de hoje cedo! — Me joguei no sofá, dando risada de toda aquela situação. Jeongin é incrível! 

— Ah! É verdade! — Ele finalmente pareceu cair na real, sentando ao meu lado. — E já recebeu dinheiro? Uau! 

— Senhor Hwang falou que hoje seria um tipo de experiência e caso eu não gostasse do trabalho, a vaga seria de outro, por isso me pagou. — Expliquei. Eu estava verdadeiramente animado. — Mas foi tão legal, Jeongin! Eles já têm clientes fiéis, sabia? São pessoas tão gentis! E tem o netinho dele, um garoto bonito e reservado... Ele é autista, e ainda chamou meu cabelo de "cabelo de sol"

— Autista? Uau... — Jeongin disse de um jeitinho engraçado, me fazendo rir baixinho.

— Tive essa mesma reação.

— Como vou passar minhas tardes lá, vou tentar ser amigo dele. 

— Amigo? Você está se disponibilizando para ser amigo de alguém desconhecido?! Milagres acontecem! — Jeongin gritou. Dei ainda mais risadas com sua fala, quase caindo do sofá com o ato.

— Ele não tem nenhum amigo em Seoul, pelo que sei. E ficar o dia todo dentro do quarto trancado, não é saudável, Jeongin. 

— Hum... — Me olhou desconfiado — Você disse que ele era bonito, não disse? 

Ah, não.

— Vai procurar o que fazer, Jeongin. — Tentei me levantar mas, fui impedido por ele que segurou em meu braço e jogou-se por cima de meu corpo.

— Ah... Deixa de ser emocionado, Felixzinho! — Disse de uma forma engraçada, se aconchegando em meu peitoral como se fosse Myung, todo dramático. — Qual o nome boyzinho? 

— Hwang Hyunjin. Ele desenha também. Esqueci de perguntar a idade dele, mas deve ser entre quinze e dezesseis anos. 

— É, ele pode ser só um bom amigo seu mesmo. — Ele deu risada, neguei com a cabeça. 

Já estava mesmo tarde, eram quase dez da noite quando fui para meu quarto tomar um bom banho. Ah... hoje foi incrível! Reabri meu curso na faculdade e ainda consegui um bom emprego. Como eu queria falar isso para minha mãe. Ela iria ficar tão feliz!  

Aí me perguntam: — Mas, Felix, por que não fala? Bem, isso é assunto para um outro momento. 

— Vem comer, Felix, não pense em pular refeições novamente. — Diz Jeongin, batendo na porta do meu quarto. 

— Tô indo! — Aviso com um sorriso curto nos lábios. Não tenho conseguido esconder meu sorriso desde que voltei do meu novo emprego. 

[...] 

E assim se passa uma semana. Confesso que foi a melhor semana que eu tenho nos últimos meses. Senhor Hwang é um ótimo chefe, sempre preocupado e tentando ajudar-me a fazer cada coisa que preciso fazer. Talvez por ser a primeira semana? Não sei, mas ele é um chefe exemplar.

E tem o Felix. Ele é o que mais me intriga desde que comecei a trabalhar aqui. Raramente o vejo, entretanto, quando percebo sua presença no ambiente, ele está sempre lendo um livro diferente. Como ele consegue ler livros tão grandes em tão pouco tempo? Nunca saberei.

Nós nos falamos algumas vezes, nada mais que "Bom dia!" ou " Boa tarde!" Mas tem algo que irá mudar essa semana! As aulas de Hyunjin iram começar e meu chefe, seu avô, pediu-me gentilmente para acompanhar seu neto de sua escola até a livraria, sua casa na verdade. 

Eu estou ansioso, não entendo porquê, mas sinto uma vontade enorme de conversar tranquilamente com Hyunjin. Depois do vexame que passei no dia que o conheci, entendo que eu não sabia suas "condições" e acho que é por isso que fico tão nervoso ao cumprimenta-lo. Vai que ele não goste de mim? 

Saindo desse assunto meio dramático. Foi cômico a forma que meu chefe pediu-me para acompanhar Hyunjin até sua casa.

"— Jovem Lee! — Ouvi a voz de meu chefe assim que entrei no local, ele sorria grande, parecia feliz. —  Que bom que chegou, preciso tratar de um assunto sério com você. — Seu sorriso diminuiu minimamente, senti meu estômago gelar. Me aproximei da mesa que trabalho, colocando minha mochila sobre a mesma e lhe encarando com certo receio. Havia feito algo errado?

— Não precisa me olhar assim, Felix! — Ele sorriu, dando uma tapinha em meu ombro. — Quero pedir algo a você, tem haver com meu neto.

Quando o nome de Hyunjin foi colocado na conversa, senti meu peito apertar. 

— Aconteceu algo com Hyunjn? — Perguntei com dúvida, apertando minhas mãos em punhos.

— Não, não! — Ele riu novamente. — Sabe, as aulas de Hyunjinnie vão começar semana que vem, e eu queria lhe pedir algo. — Me atentei ainda mais ao assunto, encarando-o com mais atenção. — Hyun nunca frequentou uma escola, Felix-ah, suas aulas eram todas em casa. — Arregalei os olhos surpreso, ele não tinha uma vida? — Não sei lhe dizer o motivo, mas, voltando ao assunto. Não confio em deixá-lo vir da escola todos os dias, sozinho. — Suspirou, fiz o mesmo. — Não é que eu não confie nele. Não confio nas pessoas que as ruas de Seul podem ter. — Concordei novamente.  — Então, como o horário de vocês dois batem, quero pedir para você acompanhar meu neto da escola até aqui.  Eu sei que está não é sua função, por isso seu salário vai aumentar um tantinho. — E sorriu, tão calmamente que me deixou tonto." 

E desde então, venho pensando em como agir quando estiver acompanhando Hyunjin da escolinha dele para cá. Na minha barra de pesquisas na internet, está lotada de coisas sobre autismo e comportamentos que devo ter ao estar com um. Passei a noite de domingo todinha estudando sobre.

Sem muito barulho. Nada muito luminoso para não machucar seus olhos. Lugares calmos e aconchegantes. — Acho bem difícil isso em uma capital como Seul, mas irei tentar deixá-lo confortável quando estiver comigo. — E várias outras coisas que vão deixar Hyunjin bem.

Disse ao meu chefe que vir de ônibus não seria o ideal, já que ele não é muito acostumado com isso. Então ele me entregou dinheiro que dá para pagar o táxi a semana que vem todinha, fiquei impressionado. 
 
—Felix, seu tapado! Já viu que horas são?! — Jeongin me acorda carinhosamente, com uma almofadada na cabeça. — E por que dormiu no sofá? Não tem quarto não?

— Ah, cala a boca! Parece minha mãe! — Resmunguei me obrigando a levantar, com uma mão no local atingido há pouco tempo. — Quase que você fez uma fratura no meu crânio. 

— Eu vou te acertar com uma marreta se não me contar o que são esses papéis espalhados na minha sala e o porquê de você ter dormido aqui, no sofá! — Cruza os braços. 

Eu não tenho um melhor amigo, tenho uma segunda mãe. 

— Eu estava estudando e pesquisando mais coisas sobre Hyunjin. E eu dormi aqui porque... Não sei, tava cansadão! — Me jogo no sofá, fechando meus olhos e querendo mais que tudo pelo menos mais uma horinha de cochilo. 

— Oh, meu deus... — Ele se sentou, obrigando-me indiretamente a ficar sentado. Idiota. — Por que tu troca o dia pela noite? Não tem tempo o suficiente pra fazer essas coisas quando tá de dia, não? 

— Para Innie, parece minha mãe! — Repito, deitando minha cabeça em seu ombro. 

— Se a tia escuta você falando assim, te mete um tapão — Reviro os olhos, mas não retruco, até porque é verdade. 

— Por que me acordou? 

— Repetindo: Já viu que horas são?! — Grita novamente, me acertando um tapa no braço. 

— Puta merda, Jeongin! — Resmungo, revirando os olhos — Não tenho relógio e nem peguei no celular, que horas são? Sete da manhã? Eu quero dormir... 

— Sete da manhã... Puff — Ele negou sorrindo, me deixando confuso. — São quase meio dia! Quero ver se vai acordar nesse horário quando as aulas começarem! 

— O quê?! — Salto do sofá apressado, quase xingando o sofá por ser tão desconfortável e me deixar com dores nas costas. — O Hyunjin!
 
—O que tem teu patrão? — Franze a testa. 

— Meu chefe é Hwang-Hee! — Grito andando até meu quarto, quase que desesperado e Jeongin me acompanha. 

— Não importa! —Ele grita de volta. 

—Importa sim!
—Por que você tá gritando comigo!? Acordou de mal humor foi?! 

— Um doido quase quebrou minha cabeça a almofadadas para me acordar, é claro que tô de mau humor! — Ando até meu guarda roupas e tiro de lá meu look do hoje, tudo meio preto.
 
— Não justifica seus gritos! 

—Você...! —Diminuo o tom de voz, cessando o mini escândalo — Você que começou!

— Meu Deus, é uma criança! — Se jogou na minha cama, e olhou indignado. — Se demita. Não sabe cuidar de outra criança. 

— Não vou cuidar dele! Vou acompanhá-lo da escola até em casa, apenas isso! — Resmungo, jogando as roupas sobre ele e corro até a saída do quarto, indo ao banheiro, dando risada dos resmungos de Jeongin. — E ele não é uma criança, já tem quase dezenove anos. 

Isso também foi uma surpresa para mim, sabe... Eu imaginei que Hyunjin tinha entre quinze e dezesseis anos mas, quando o vi de pé, fiquei ainda mais surpreso. Ele não é alto, só três ou quatro centímetros maior que eu, mas ele anda me surpreendendo bastante.

— Dois folgados! — Digo revirando os olhos ao ver Jeongin com Myung no colo, sentados em minha cama. Mesmo que o sorriso discreto que tem em meus lábios, seja indiscreto o suficiente para que Jeongin veja e murmure um "mas que você ama" e eu apenas o ignorei. Embora ele não esteja mentindo.
 
— Podem dar licença para que eu possa trocar de roupa? — Peço os olhando, Ung mia baixinho, demonstrando sua insatisfação. 

—Vamos Ung, não somos bem-vindos aqui. — Se levanta com o gato no colo, e Myung mia novamente, concordando com meu melhor amigo. Dramáticos. 

Vesti minha roupa na velocidade da luz, penteei meus cabelos de forma desajeitada e com certeza coloquei meias com os pares trocados, desesperado o suficiente por imaginar Hyunjin andando sozinho por essas ruas. Veja só, meu chefe confiou em mim para isso! 

— Innie! — Chamei ao sair do quarto com minha fiel escudeira no ombro, minha mochilinha guerreira. 

— O que foi agora? — Pergunta saindo da cozinha. 

— Sabe onde tá meu coturno? Aquele marrom? — Olhei em volta, procurando meu lindo sapatinho surrado.
 
— Você não lembra? — Franziu as sobrancelhas, me ajudando a procurar. 

—Eu não acho em lugar algum! — Bati a mão na testa, me sentando no sofá e suspirando chateado. 

— Qual foi a última vez que você usou ele? — Sentou-se ao meu lado. 

— Hum... — Coloquei a mão no queixo, pensando. — Quando a gente saiu aquela vez... 

— E que você sumiu com aquela garota? Isso já tem quase um mês, Felix! —Me olhou desconfiado. 

Ok, eu perdi meu sapato. Ótimo. 

— Que... Ódio! — Suspirei desgostoso, apoiando minha cabeça no encosto do sofá. 

— Não adianta reclamar, garanhão! — O palhaço deu risada da minha infelicidade. Muito bom. — Coloque um tênis, já está quase na hora de você sair e ainda nem comeu. 

Concordei e coloquei qualquer tênis que achei na minha gavetinha de sapatos, sendo acompanhado pelo olhar de Ung, sempre tão curioso.
 
— Tô saindo. Até mais tarde! — Anúncio a Jeongin, que faz uma careta desgostosa e anda até mim.
 
— Não vai comer? 

— Eu como em algum lugar. Até mais, mamãe! — Sorriu levemente ajeitando minha mochila nas costas, fechando a porta antes que ele me obrigue a comer. Sigo até o elevador e suspiro aliviado ao entrar ele vazio. 

—Bom dia, senhor Choi! — Cumprimento o porteiro, quase correndo até a saída do prédio. 

E era ali que sempre começava meu dia. Nunca imaginei que gostaria tanto de trabalhar em uma livraria, só tem vantagens! Estou entediado? Leio algo; cansei de ler? Vou organizar cada livrinho em seu lugar. Mesmo que aquele bairro não seja um centro comercial, o movimento da livraria é bastante agitado. Vários adolescentes, seja menino ou menina, compram livros ali, nunca imaginei que os adolescentes de hoje em dia fossem tão literários. Então, eu não tenho tanto tempo de sobra assim.

Bem, voltando a minha situação atual, minhas mãos estão suando mais que o normal, assim como minha nuca. Hyunjin nunca falou comigo diretamente, mas eu o pego me observando nas poucas vezes que ele sai do quarto. Talvez ele queira ser meu amigo e só é tímido demais. Ou não foi muito com minha cara depois do dia que nos conhecemos. Que confuso. 

E o mais surpreendente no dia de hoje, — Até o momento. — é que eu conheço essa rua!

Conheço porque essa é a mesma rua da Universidade em que estudo, quero dizer, em que vou voltar a estudar. Senhor Hwang foi bom o suficiente para me adiantar todo o dinheiro que foi necessário para pagar as mensalidades atrasadas. Meu chefe é incrível!

E mais uma boa notícia hoje! Pelo menos eu vou direto da faculdade para buscar Hyunjin e assim vamos os dois para sua casa, sem precisar voltar para meu apartamento ou fazer qualquer outra coisa. Eu disse que era perto, mas andei tempo o suficiente para acumular algumas gotículas de suor em minha testa, Seul anda quente demais esses dias. Espero que seja isso.

Assim que parei no portão da escola colorida, — Colorida demais. — arregalei os olhos ao ver ele ali sentado em um dos banquinhos embaixo de uma árvore que fica no pátio da escola, balançando o corpo para frente e para trás calmamente, já me esperando. Pelo menos é isso que penso. 

— Hyunjin? — Chamo ao me aproximar das grades do portão, ele não me olha, muito menos faz menção a tal coisa. 

Suspiro, tirando o celular do bolso checando as horas. 

13:10. Cheguei em um bom horário.

—Hyunjin, ei! — Chamo sua atenção novamente.

Falho. 

Suspiro e então eu decidi entrar de uma vez, estranhando o fato do portão não estar trancado. Que falta de responsabilidade, deixar um portão aberto com um garoto como Hyunjin aqui, sozinho. E se qualquer pessoa mal-intencionada aparecer? Não quero nem imaginar.

Caminho suavemente para não o assustar, ele mantém a cabeça baixa e o corpo se movendo com suavidade. E uma coisa que eu não havia notado até o momento foram os óculos que ele tinha no rosto. Ele fica bonito com óculos.
 
— Hyunjin? — O chamei mais uma vez. Então ele para, levanta o rosto e me olha por frações de segundo, se levanta com uma expressão meio confusa no rosto e olha em volta.
 
—C-cadê? — É o que pergunta. O quê?

— Cadê, o quê? — Olho em minha volta também, tão confuso quanto. Ele volta a se sentar e então me responde.

— Papai. — Seus olhos não se focam em nada, seu corpo não para quieto, diferente de suas mãos quietas no seu colo. 

Me sento ao seu lado, com uma distância considerável entre nós, respeitando seu espaço. 

—Achei que você sabia. Quem vem te buscar na escola sou eu... Seu avô não te explicou? — Sorri. 

Um biquinho involuntário nasce em seus lábios e seu rosto fica vermelho. 

— Oh, é m-mesmo... esqueceu. — É o que diz. 

— Meio que deu para perceber. — Ri, olhando em volta e percebendo que algumas pessoas ainda estão dentro da escola. Franzi o cenho e o olhei novamente. 

— Por que você não 'tá lá dentro? — Perguntei. 

Ele não me responde. Apenas abaixou a cabeça.

—Ok, ok! — Me levanto. — Vamos então? Senhor Hwang pode estranhar nossa demora. — Digo, mesmo que não esteja no meu horário de trabalho ainda.

Hyunjin se levanta em silêncio e vai até o portão em passos meio desajeitados. Eu o sigo, mas paro antes mesmo de atravessar o portão ao perceber uma coisa. 

— Onde 'tá sua mochila? — Pergunto desconfiado.

Afinal, para ir à escola precisa de alguma coisa para levar os materiais, né? E ele não está com nada além da roupa e os óculos que ficam incrivelmente bem nele. Ele para, se vira de frente para mim e aponta para dentro da escola. 

Meu Deus do céu... 

— Eu não acredito! — Prendo a risada que queria sair, ele acharia que estou zombando dele ou coisa do tipo. — Aish, vem, me espera sentado onde você 'tava, ok? Já volto! 

Ele não diz nada, mais uma vez, apenas me acompanha e se senta onde estava. Quieto. 

Beleza, eu só preciso saber onde é sua sala e descobrir qual sua mochila. 

— Qual a cor da porta da sua sala? — Pergunto, não querendo me perder naquele prédio estudantil. 

— A-azul. — Ele responde meio incerto. 

Que esteja certo, amém.
 
— Já, já eu volto! — Digo de novo e volto a correr para dentro da escola. 

O que eu não imaginava era que todas as portas daquela escola fossem azuis. Me ajude a te ajudar, Hyunjin!

— Com licença? — Alguém me chama. 

Eu estava parecendo um doido andando pelos corredores daquela escola e não queria chamar atenção? Burro. 

— Está tudo bem com você? Se perdeu de sua sala? — Me viro e dou de cara com um homem alto, alto pra caramba, me encarando. 

— Eu não sou um aluno. — É o que falo. O analiso e percebo que é um funcionário da escola, ótimo, assim eu acho aquela porta mais rápido.—Pode me ajudar? — Me aproximo mais. 

—Em que exatamente? — Veio em minha direção também. 
— Eu estou meio perdido e vi que você é funcionário e tals... — Sorri meio constrangido. — Sabe onde fica a sala de Hwang Hyunjin?

— Ah...— Suspirou. — Por que pergunta? 

Puta merda, que ódio. Não pode só falar? A única coisa que faço é suspirar e dizer a verdade. 

— Meu filho 'tá lá fora e-

— Você é o pai de Hyunjin? —Me interrompe. —Sua voz está um pouco diferente, senhor Hwang — Me olha desconfiado. 

Bem que mamãe dizia que mentir nunca é uma boa opção. 

— Eu estava brincando, Há Há... Foi engraçado... — Digo sorrindo nervoso. Mas o grandalhão não riu nem um tiquinho. — Tá, vou falar a verdade. Eu vim buscar Hyunjin porque seu avô me pediu, o tapado esqueceu a mochila e eu vim procurar, entrei e vi um monte de porta e  perguntei 'pra ele qual era a sua e ele disse que a sala tem a porta azul, mas todas as portas são azuis! Sabe qual é? 

O cara pisca os olhos um bocado de vezes parecendo confuso, Respira fundo e anuncia: —Nunca chame um autista de "tapado". — Faz aspas com os dedos. —  Você é burro ou é idiota?¹ — Diz meio irritado. Eu só não xingo ele por me ofender dessa forma porque ele tem razão, fui meio idiota em ter falado aquilo. Agradeceria se ele me desse um soco! Burro, burro!

— Olha, eu sou o professor de Hyunjin e devo te instruir a nunca falar esse tipo de coisa para alguém como ele, entendeu? — Aponta o dedo em minha direção, se aproximando rapidamente e me olhando dali de cima. 

Um poste, é isso que ele é. 

—Entendi sim. —Sorri, engolindo em seco. 

— Que bom! — Ele também sorriu, voltando a sua expressão calma e tranquila, se afastando e virando de costas enquanto eu ainda estava parado. — Não iria pegar a mochila de Hyunjin? Me siga. 

Eu nem questiono, apenas vou com ele e quando dou por mim, já havíamos chegado na porta azul — Mais uma delas. Ainda bem. 

Eu espero do lado de fora da sala mesmo, ansioso demais para que o tal professor ande rápido e traga logo a bendita mochila. Meu desespero se torna maior ao perceber que deixei Hyunjin tempo demais sozinho, ande logo senhor poste, preciso ir embora.
 
— Aqui. — O professorzinho aparece segurando uma mochila azul claro, sempre com esse sorriso irritante no rosto. — Desculpa por agora a pouco, eu meio que-

— Ah. Não, não, tudo bem —O interrompi também. — Eu falei sem pensar, sei que não posso falar essas coisas de gírias, apelidos e xingamentos perto dele, eu só... Esqueci. — Tento me justificar.

— Certo. — Sorri novamente. Que carinha sorridente. — Fale para ele fazer o dever de casa e usar o uniforme amanhã. Como hoje era o primeiro dia dele, não era obrigatório, mas amanhã, será.  E... — Olha para os lados, parecendo procurar ou ver se alguém estava vindo — Cuide dele. 

Cuidar dele? Moço, eu vou apenas acompanhá-lo até sua casa. Ri com o pensamento voltando apressado até onde Hyunjin estava. Me aproximo calmamente e estendo o braço, colocando a mochila a sua frente. Ele parece se assustar um pouco pelo movimento, então me afasto, forçando um sorriso em sua direção.

— Achei! — Ele se levanta e pega a mochila rapidamente, abraçando ela contra seu corpo. 

Murmurando um "Obrigado" ele volta a andar de volta ao portão e sai, caminhando sozinho. Eu fico olhando, encarando seu corpo se afastando, até me dar conta que preciso ir atrás dele, já que ele está indo para o lado errado. 

— Hyunjin! — Chamo quando já estou próximo o suficiente. — Onde pensa que 'ta indo? 

— C-casa! — Continua a andar, abraçando a mochila com mais força. 

— Sabe que você está indo pelo lado errado, não é? — Eu prendo a risada automaticamente quando seu corpo tenciona e ele se vira para mim, nunca olhando para um ponto fixo.

— Cadê... Cadê o carro? —Pergunta baixinho.

Para meu alivio, o Uber que eu havia pedido apareceu no mesmo momento que Hyunjin fechou a boca. Sorri contente, segurando nas alças da minha própria mochila.

— Acabou de chegar!

— Não era...

— Hum? — Pergunto confuso, vendo ele encarar o carro com certo desgosto.

Ótimo, comecei bem minha missão de tê-lo como amigo. 

— Você não se importa em entrar aí, não é? — Pergunto receoso, temendo a resposta. — Podemos ir a pé, se for te deixar desconfortável entrar aí dentro. Uma caminhadinha às vezes ajuda.

 hyunjin fica em silêncio, mas nega com a cabeça e aponta para o carro. Suspiro aliviado.

 — Então me siga, jovem estudante! Temos um pequeno longo caminho à nossa frente. — Tento descontrair e, pela primeira vez desde que o conheci, o vi sorrir.

Ele sorriu. Um sorriso pequeno, mas mesmo assim, é um sorriso. E foi eu quem provoquei isso nele.  

Cumprimento o motorista ao entrar no carro, e depois disso, partimos em direção a casa de Hyunjin e o meu local de trabalho. O silêncio que se mantém aqui dentro não é desconfortável, mas sinto que Hyunjin está inquieto e penso em algo para ajudá-lo de certa forma. Então uma pequena ideia surge em minha mente; música!
 
Procuro pelo meu celular na mochila que estava em meu colo, percebendo o olhar curioso de Hyunjin sobre mim. Então, anuncio:

— Quer ouvir música comigo? — Pergunto. Ele nega.— Desculpa a perguntar mas, por quê? — Pergunto baixinho, querendo manter aquilo só entre nós dois.

— O-o som... Machuca. — Responde soltando um dos braços de sua mochila, apontando para sua orelha. Ah... 

— Ah... — Suspiro, me sentindo meio mal por isso. — Tudo bem! — Dou um sorriso pequeno, colocando meu celular de volta na mochila. 

 hyunjin já não me olha mais, e é perceptível sua inquietação.

— As que eu ouço às vezes são baixinhas. Quando quiser ouvir comigo é só pedir! — Sorri. Fui ignorado novamente. Nada de anormal.

Depois disso, seguimos em silêncio até sua casa. Passamos em frente à minha Universidade e também em frente ao prédio onde moro. O Senhor Choi estava fofocando com a vizinha do trinta e dois. Soltei uma risada nasal, feliz por estar perto do meu trabalho. A missão de hoje foi cumprida. Hyunjin foi entregue em segurança.

— Ah, chegaram! — Senhor hwang, meu chefe, diz assim que ultrapassamos a porta que dá entrada a livraria, me assustando minimamente.  

— Vovô! — Hyunjin diz animado, e eu nunca havia visto aquela animação toda vindo dele. O menino passa por mim, correndo até seu avô e o abraçando com força. — P-Papai está aqui? — Pergunta ao se afastar rapidamente, aquilo também me surpreendeu.

— Oh! Não, meu amor. — O velhinho diz com cuidado, acariciando os cabelos do neto. — Junghyun não pôde vir almoçar conosco hoje. — A expressão animada de Hyunjin diminui um pouquinho, o vejo suspirar. 

Eu nunca o vi tão sorridente, aquilo me deixou estranho, mas de um jeito desconhecido. Não sei quanto tempo passei observando o sorriso de Hyunjin, só notei que estava hipnotizado quando ele deu as costas e subiu para seu quarto. Me senti diferente.

— Felix-ssi? — Senhor Hwang me chamou, balancei a cabeça e o olhei, me assustando com seu sorriso enorme. O pessoal aqui costuma ter sorrisos bonitos.

— Sim, senhor? 

— Obrigado por trazer meu neto em segurança, estou orgulhoso de você. 

Ok, aquilo me deixou desestabilizado. 

— P-por nada, senhor! — Curvei-me em sua frente, tentando não transparecer meu nervosismo com suas palavras anteriores.

Ele apenas sorriu, e então eu comecei meu dia de trabalho. Ser atendente não é ruim, as pessoas que aqui frequentam são calmas e gentis, peguei o ritmo em dois ou três dias de trabalho. Às vezes algum jovem pedia minha ajuda para pegar livros altos — O que eu não entendo muito bem, já que não sou um homem alto. — ou indicar qualquer que fosse meus romances favoritos. E era exatamente isso que estava fazendo agora, ajudando um rapaz a escolher o livro perfeito para as características que ele havia me dado.

— Humm... Ah! Esse é ótimo para você! —Digo ao garoto, pegando o livro da prateleira.

— "Diário de uma Paixão?"  — Ele murmurou pensativo, lendo o título do livro. Balancei a cabeça em concordância. — Você já leu?  

— Oh, li sim! Diário de uma Paixão, é uma legítima história de amor! — Disse a ele, pegando o livro de sua mão. —   Apesar de o livro possuir uma boa história, as coisas levam muito tempo para acontecer, na verdade, não há nada de muito "envolvente". — Faço aspas com os dedos, citando um dos "defeitos" do livro. — A respeito da narrativa, no geral, a leitura de Diário de uma Paixão é interessante por se tratar de um livro pequeno. Eu o recomendo muito para alguém que aprecia a leitura de um romance romântico.

Quando acabei de falar, percebi os olhos do garoto brilhando em minha direção, sorri, lhe entregando o livro.

— Vou levar esse! — Sorri novamente, caminhando até o caixa. E foi assim que vendi mais um livro romântico.

—Felix-ssi! — Me assustei ao ouvir a voz de meu chefe, levei minha mão até meu peito, demonstrando minha surpresa. — Você é o melhor funcionário que eu poderia ter! Os olhos daquele menino brilharam com sua explicação.

— A-ah, obrigado! — Sorri sem graça, pegando os livros que estavam sobre o balcão do caixa. — Fiz o que fui contratado para fazer.

— Estou feliz por ter lhe contratado. — Ele sorriu novamente, me ajudando a pôr os livros de volta em seus devidos lugares. — Mas, bem... Mudando de assunto, já que está em seu horário de " folga", — Ele rir, fazendo aspas com os dedos — queria saber se pode ajudar Hyunjin em suas atividades escolar.

O tempo passou tão rápido que não notei. Já eram cinco da tarde! E, para ser sincero, eu estava mais surpreso com o pedido que me foi feito, mas não neguei.

Subi as escadas a pedido do meu chefe, sorrindo involuntariamente quando vi Hyunjin sentado no chão da sala de estar com materiais escolares à sua volta. O que me deixa impressionado nessa casa é que a cozinha é lá embaixo, mas o resto dos cômodos são aqui em cima, no segundo andar.

— Boa tarde... — Anuncio ao entrar no local, me sentindo estranho quando ele me olhou, e ainda sorriu minimamente.

Era diferente vê-lo sorrir, seu sorriso nunca mostrava seus dentinhos de coelho. — Uma comparação meio diferente, mas seus dentinhos da frente realmente lembravam a um coelho sorridente. Na última semana que passei aqui, era difícil vê-lo, e eu já o vi interagir duas vezes com ele, apenas hoje! Isso, para mim, foi um grande avanço.

— Seu avô disse para te ajudar nas suas atividades...

— Me que chamou você. — Essa foi a primeira vez que não o gaguejar, o que já era engraçadinho, e sua troca de palavras deixou aquilo ainda mais bonito. E, além da surpresa de não o ouvir gaguejar, essa última informação que ele deu a mim, me deixou eufórico. Aproximei-me, sentando ao seu lado.

— O que você tem que fazer? — Perguntei, colocando suas coisas sobre a mesinha de centro. Tentando não parecer muito nervoso. E dessa vez, ele não me impediu de tocar em suas coisas.

—D-Desenho sobre... Sobre... — Ele forçou sua mente para pensar, eu neguei sorrindo e tirei seu caderno de dentro da mochila, me impressionado quando percebi não ter nada envolvido a fadas e coisas mitológicas. Seu avô ama falar de Hyunjin, por isso sei de sua paixão por seres místicos.

Abri e a primeira coisa que me deparei foi um desenho de unicórnio, bem, eu creio ser um unicórnio por conta do chifrinho. Na segunda página, estava escrito em letras bonitas o que ele teria que fazer. 

— "Um desenho sobre algo bonito"? — Li a frase escrita e o olhei, vendo seus olhos focados em organizar seus lápis coloridos sobre a superfície da mesa. 

Como eu o ajudaria, sendo que não sei nada sobre desenho? Meu Deus! 

— Desenhar você! — Ele disse do nada, tomando o caderno de minha mão e o colocando sobre a mesa. 

Abri minha boca desacreditado, o olhando. Eu ouvi direito? 

— Me desenhar? — Perguntei.

Ele concordou com a cabeça, começando a passear a lapiseira pela folha branca. 

—Por que eu?

— Você é bonito. — Disse olhando para a folha, enquanto a rabiscava suavemente. 

Certo, eu realmente não esperava por aquilo. Minha aparência me agrada, mas não sabia que Hyunjin me acharia bonito ao ponto de querer me desenhar. Quero dizer... Ele é muito talentoso.
 
— V-você vai mesmo me desenhar? — Ele não respondeu verbalmente, mas concordou com a cabeça. Logo, tive uma ideia precipitada, enfiei minha mão no bolso da calça e peguei meu celular. — Eu posso por uma música então? Essa é minha condição para deixar você me desenhar. — Ele olhou para o celular por breves segundos e então concordou. 

Finalmente! Aquilo realmente me deixou feliz. Busquei no Spotify minha playlist favorita e foi ao som de "Maybe" que meu coração acelerou por breves segundos. 

Deixei o som o mais baixo possível para não incomodar Hyunjin e me encostei no sofá. Enquanto ele me desenhava, eu me sentia estranho ao ouvir a melodia da música e a voz calma de James soar pela sala silenciosa.  

So, maybe
Então, talvez

Maybe we were always meant to meet, Like this was somehow destiny
Talvez nós sempre tenhamos sido feitos para nos encontrar, Como se isso fosse de alguma forma o destino

Like you already know, Your heart will never be broken by me
Como você já sabe,
Seu coração nunca será quebrado por mim. 

Naquela época, eu não sabia o peso que aquela música teria para nós dois. 

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