Capítulo 4

Lucas

Senti meu corpo tremendo enquanto saía da empresa, quando o cheiro molhado das flores atingiu minhas narinas, foi como se um botão de reinício tivesse sido pressionado em minha mente. O aroma fez minha respiração falhar, e o mundo ao seu redor começou a desmoronar. O aroma das flores, que parecia inofensivo para a maioria das pessoas, tinha um efeito devastador em mim.

Parei inclinado com as mãos no joelho em frente a empresa, o pânico cresceu disparado dentro de mim, o cheiro parecia se intensificar mais e mais em meus pulmões, cambaleei até a parede e me apoiei tentando desesperadamente manter a calma.

Que idiotice. Eu odiava essa merda

Senti as mãos de Ian em minhas costas tentando me acalmar, ele conversava mas sua voz parecia tão distante que eu não conseguia entender nada que era dito.

Forcei me a mantar a calma e a lembrar que eu estava bem, era apenas um cheiro. Qual o meu problema ?

— Lucas, olha para mim irmão. Lucas — Ian parecia extremamente preocupado.

Sua voz parecia tão distante de mim

Tentei falar mas minhas palavras não passaram de um sussurro.

— não... não consigo... respirar.

Coloquei a mão sobre meu peito, a dor que eu estava sentindo era surreal, eu sentia que eu iria morrer ali. Apertei meu peito fortemente com a mão e forcei uma respiração para fora.

As lagrimas involuntárias, quentes, escorregavam como óleo em minhas bochechas. Cada queimação me lembrava o quão patético e fraco eu estava sendo. As lembranças horrendas viam a tona em minha mente me fazendo encolher de dor.
Quando finalmente consegui me acalmar, as lagrimas ainda corriam sobre as minhas bochechas, o pior já tinha passado. Eu não entendia o motivo de continuar me sentindo impotente.

Minhas pernas fraquejaram.

Quando finalmente consegui voltar a realidade me sentei no banco público de madeira que ficava a alguns passos da entrada do grande prédio.

Quem quer que seja que está me enviando essas malditas flores eu vou fazer pagar. O desesperado que antes estava presente se transformou em uma forte onda de raiva.

— Cara você me assustou — Ian apareceu com um copo de água— Está tudo bem agora ?

— Sim, foi só um susto..— Levantou o copo para que eu pegasse.

— Já é a terceira vez que isso acontece, tem certeza que não precisa ir ao médico?

Eu nunca senti necessidade de comentar sobre isso, de expor para os outros esse problema com o aroma das flores. Talvez fosse mais fácil se as pessoas soubessem, mas, por algum motivo, sempre preferi guardar isso para mim. Não vejo como algo que os outros precisam saber, como se fosse um segredo insignificante. Não quero que olhem para mim de forma diferente ou que tentem me entender por algo tão pessoal e estranho. É uma parte de mim que não sinto a necessidade de compartilhar com ninguém.

Esse ataque de ansiedade me pegou de surpresa, eu ainda sentia meu peito apertado, e meus músculos rígidos. As lágrimas ardiam em minha bochechas e senti um calor subir em minhas veias enquanto tentava controlar minha respiração.

— Relaxa Ian, isso não é nenhum problema — eu disse friamente enquanto meu olhar se dirigia para a cafeteria que ficava oposta a entrada do prédio.

Foi então que a vi.

Ela estava de costas mas eu reconheceria aquela bela silhueta em qualquer lugar. Seus cabelos cor de mel sempre perfeitamente arrumados balançando levemente enquanto seus ombros de mexiam indicando uma risada. Observei cada detalhe sem querer, a forma como ela jogava o cabelo para o lado ao falar, parecia tão natural, diferente da ignorância que eu conhecia nela.

Seu riso, sua felicidade, fizeram meu peito apertar de novo, não de ansiedade, mas de raiva. Raiva pelo que ela representava. Raiva de sua bela aparência que tirava minha concentração sempre.

O que há de errado comigo?

Nunca enxerguei Laura dessa maneira. A raiva veio como um soco no estômago, repentino e violento. Só de vê-la ali, tão despreocupada, algo dentro de mim começou a ferver. A cada riso que ela soltava com suas amigas, a indignação crescia. Era irritante, como ela conseguia parecer tão tranquila, tão à vontade.

Eu respirei fundo, tentando controlar os pensamentos que começavam a me invadir de novo. Encontrar Laura, naquele momento, era o último teste de paciência que eu precisava.

Ian me cutucou

— O que você está olhando ? — tentou procurar com os olhos.

— Você viu o jogo ontem ? — Perguntei tentando mudar de assunto.

— Sim, achei que íamos perder de novo —Ian respondeu desconfiado.

Ele começou a descrever o jogo em detalhes e me esforcei ao máximo para focar em suas palavras e esquecer a presença indesejável de Laura e tentar afastar a raiva que borbulhava em mim. A última coisa que eu queria era transformar a conversar em algo sobre Laura.

Conversamos por bastante tempo e me esqueci totalmente do que havia acontecido, convidei Ian para irmos ao bar beber para assistir a final do jogo de basketball de New Jorls vs Vallara.

O cheiro de cerveja e cigarro se misturava no ar enquanto todos vibravam a cada lance.

— Vai, vai , vai — alguém gritou ao nosso lado chamando nossa atenção.

Dancei o dedo sobre o gelo em meu copo vazio, não estou me divertindo nem um pouco. As lembranças de mais cedo me consumiam pouco a pouco e eu não poderia ir embora para casa, me arrependi de ter convidado Ian para vir a esse bar.

O barulho da torcida na TV aumentou e por um segundo todos congelaram em silêncio, como se ninguém quisesse quebrar o momento. A cesta saiu rápida e precisa. Todos se levantaram ao mesmo tempo de explodindo em feitos e risadas.

— Eu te disse que hoje era o nosso dia — Ian levantou a lata de cerveja enquanto olhava uma bela moça do outro lado do bar. — Cara se anima, olha aquelas belezuras ali do outro lado — Indicou com o queixo a loira e a morena que se aproximava nos encarando.

Ian era apaixonado por mulheres loiras, não me lembro uma única vez que o vi com uma mulher dos cabelo morenos. Eu por outro lado gostava de todas as mulheres.

Eu sorri de lado. Talvez eu devesse me divertir um pouco.
Peguei a garrafa de vodca e enchi meu copo até a boca, apreciei o álcool por um momento antes de levar o copo a boca.

Ian cortou nosso silêncio.

— Você transaria com Laura ? — Perguntou casualmente e eu cuspi imediatamente e me engasguei na bebida.

Ele deve estar louco em pensar que eu me submeteria a essa cova.

— Você está louco ? — O olhei incrédulo.

— Nossa, essa foi a máxima reação que já vi você demonstrar até hoje — me olhou de lado— Ela é gostosa pra caralho, eu comeria ela em qualquer lugar.

Senti uma pontada furiosa em meu pulmão. Que porra.

— Eu jamais ousaria tocar a pele dela — Levei o copo a boca novamente tomando um gole, dessa vez, bem sucedido.

Sorri de lado.

Mesmo enquanto tentava negar, a imagem persistia, como um fantasma que se recusava a desaparecer. Porra

Eu nunca chegaria perto de Laura. Nunca me permitiria.

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