Prédio Azul
Ainda era um mistério como eu havia chegado até ali, mas aquele prédio azul era um enigma que me atraía. Minha última lembrança era de estar procurando meu café favorito no supermercado, o que era bastante estranho, afinal fantasmas não tomam café. Segundos depois (ao menos era o que parecia) eu tinha simplesmente surgido diante daquele lugar decrépito, sentindo o alicerce puxando meu corpo como um ímã. Erguido numa rua relativamente inóspita, aquele prédio era cercado por um muro baixo e com aspecto decadente. Um caminho de tijolinhos de pedra dividia ao meio um gramado mal cuidado e se estendia até a entrada. Carros estavam estacionados sob um telhado metálico e levemente enferrujado. A tinta azul da fachada começava a descascar, as janelas precisavam de uma nova pintura. Sobre a entrada havia um expositor com as placas de várias empresas. Não era um prédio comercial, mas aparentemente alguns habitantes sediavam em suas casas seus próprios negócios. Era engraçado porque eu nunca tinha visto aquele lugar antes, mas ele me chamava de forma inexplicável. Jamais tinha frequentado aquela parte da cidade, mas ainda parecia que eu deveria estar lá. Sem entender completamente minhas próprias razões, comecei a me mover. Não havia nenhum elevador, mas mesmo se tivesse eu não o pegaria. Todos sabem que fantasmas não pegam elevadores desde o acidente de 1982. Subi quatro lances de escada antes de sentir que tinha chegado ao lugar certo. Reparei no piso vinílico e escuro que cobria o corredor, nos tapetes vetustos que diziam "bem-vindo" na frente das entradas de cada apartamento, nos adereços da porta. Quando dei por mim, já tinha andado até um apartamento muito específico. O número 406 tinha sido posto na porta e sob ele havia uma placa que indicava um estúdio de tatuagem. Letras brancas e garrafais anunciavam que aquele era o Voodoo Tatto e havia até mesmo o desenho de duas mãos segurando uma brilhante boa de cristal. Tudo isso ficava cada vez mais estranho. Fantasmas também não fazem tatuagens. Sem fazer mais cerimônia, cruzei a porta. A iluminação estava restrita a um lustre cônico e baixo que lançava uma luz precária sobre o ambiente, criando um clima meio underground. Não havia muitos móveis, apenas uma maca preta posicionada no centro, um sofá de couro escuro sob uma janela suja, uma estante baixa cheia de materiais de tatuagem e uma mesinha baixa com um rádio que tocava um rock qualquer. Uma bancada se estendia a esquerda, demarcando onde acaba o estúdio e onde começava a cozinha. Reparei também em corredor penumbroso cujo tamanho era difícil precisar. Supus que não devia ser muito grande, afinal todo apartamento parecia meio pequeno. A minha direita havia uma porta preta coberta por um grande pôster de Pulp Fiction e um frigobar que emitia um ruído esquisito. Exceto pelo azulejo da cozinha, todo o resto estava coberto por um papel de parede velho que imitava tijolinhos vermelhos. Era um lugar estranho, mas tinha personalidade. Soava até meio familiar. Familiar demais.Será que eu já havia estado ali?
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