Dormindo com o Inimigo

A primeira semana foi a pior de todas. Daniel não estava só convencido de que estava sob efeito de um café alucinógeno, mas também de que eu poderia ir embora. Se eu pudesse, certamente teria ido. Ninguém merece ficar preso com alguém que não te quer por perto.

No primeiro dia, logo após a minha revelação, ele simplesmente se trancou em seu quarto. Vez ou outra aparecia para me observar de soslaio, sempre com um pequeno caderninho em mãos. Até tivemos uma conversa, mas não acredito que tenha servido para que ele realmente entendesse a situação. Principalmente porque na manhã seguinte ele se assustou com a minha presença outra vez e tentou me expulsar.

— Se está tão incomodado, vá embora você! — eu disse depois de toda a gritaria que ele arrumou.

— É você que tem que sair, espertona! Se não reparou, essa é casa é minha.

— Você acha mesmo que se eu tivesse escolha eu estaria presa nesse muquifo com você?

Daniel deu de ombros, um sorriso petulante se formando em seu rosto.

— A maioria das mulheres nunca conseguiu resistir a mim, de qualquer forma.

— Se eu quisesse grudar em alguém por ser gostoso, teria grudado no Robert Pattinson e não em você.

— E se eu quisesse um espírito grudado em mim, certamente não seria o seu.

— Pelo menos você parou de negar que eu sou um espírito. 

Daniel sorriu mais ainda, exibindo os dentes bem moldados de uma forma petulante.

— E você parou de negar que eu sou gostoso.

Meus olhos reviraram tanto que, por um momento, eu pensei que ia ficar cega.

Daniel parecia menos irritável quando o terceiro dia chegou. Eu não estava feliz com aquela situação, mas pelo menos tinha começado a entender a rotina do meu agora companheiro de morte. Ele tinha hábitos engraçados, aos quais observei sem disfarçar a minha curiosidade. Já que estávamos presos um ao outro, deveria me restar ao menos o direito de olhar para ele.

Daniel bebia muito café e tinha um gosto musical mais diversificado do que pensei a princípio. Embora ele ouvisse principalmente rock pesado, às vezes sua playlist também perpassa por um pop ou um jazz suave. Ela cantarolava soul enquanto fazia seu almoço e blues enquanto servia o jantar. A música parecia ser um aspecto importante da sua vida.

A única coisa que Daniel amava mais que uma bela melodia era tatuar. Isso era visível em seus olhos e ele sempre sorria sinceramente quando um cliente chegava. Perdi as contas de quantas vezes ele me expulsou do sofá antes de alguém vir.

— Eu estou morta, bobão. Nenhum deles vai me ver. — eu protestava.

— Não quero saber. — ele sempre retrucava. — Não quero meus clientes sentados em uma defunta.

Eu me limitava a dar de ombros. Já tinha acontecido uma vez, enquanto eu pegava o metrô. Eu não podia sentir as pessoas que estavam vivas, mas nem sempre elas eram imunes a minha presença. Por causa disso, lembro do operário que ocupou a mesma cadeira que eu ter se afastado com um salto. Ele ficou olhando para trás por um longo tempo e não saiu mais de perto da porta, pelo menos até sua parada chegar. Naquela época eu ainda não sabia que as coisas estavam associadas, e não me toquei que o fato de eu estar sentindo um cheiro de suor tão forte vindo daquele homem era algo importante.

Algum tempo depois, fiquei sabendo que um homem tinha morrido depois de cair na linha do trem. Eu estava na plataforma de embarque enquanto tiravam seu corpo despedaçado dos trilhos. Os fragmentos avermelhados de tecido eram do mesmo tom que o uniforme que o operário desavisado usava ao sentar sobre mim.

No quarto dia nossa relação parecia estar um pouco melhor. Eu não tinha nenhum interesse em continuar presa a ele, mas já que eu era obrigada, não via razão para não tentar ser bacana. Muitas vezes, quis que ele fosse menos cabeça dura e implicante, então fiquei feliz quando pudemos quase ter uma conversa normal.

— Como é estar morta? — ele perguntou como quem não queria nada enquanto desinfetava a maca.

Olhei para ele de soslaio. Não queria que ele notasse toda a minha curiosidade no interesse dele.

— Basicamente, é como estar viva, mas sem a parte da vida.

— Isso não faz o menor sentido. — Daniel argumentou.

— É porque na prática não é nada fácil de explicar. — retruquei. — Morrer é como se tornar invisível para tudo que existe. As pessoas deixam de saber que você existe e você realmente deixa de ter uma existência verdadeira a medida que o tempo passa. Comer é irrelevante. Dormir é irrelevante. Você não sente mais o toque das coisas. Logo, tudo que te resta é o restar. É como ser um eterno vigilante do nada.

Ele soltou um suspiro profundo, claramente alarmado com a profundidade das minhas palavras.

— Se antes eu já não queria morrer, imagina agora. 

— Se eu pudesse também estaria viva.

Em silêncio, ele secou as mãos. Observei enquanto ele descartava o papel toalha em uma lixeira próxima e, como já era de seu costume, ele caminhou até a cozinha e começou a preparar um café.

— Eu ainda não sei seu nome.

— Talvez eu não tenha um. — retorqui.

— Não seja tola, todo mundo tem um nome.

— Só quem está vivo, querido. Quando você morre, você se torna ninguém.

Não era verdade, é claro. Conheci mortos que lembravam de sua própria existência, mas nenhum deles soube me explicar a razão disso. Apenas eu tinha me tornado ninguém. Somente eu havia sido reduzida a nada.

— Então vou te chamar de Nin.

Fitei-o de modo confuso.

— Que diabo de nome é Nin?

Daniel deu de ombros com um sorriso ladino perpassando a sua face.

— Você disse que era Ninguém, mas eu não acredito nisso. Por causa disso, vou te chamar de Nin. Assim você pega aquilo que você não era e o usa para se transformar em alguma coisa.

Quando dei por mim, já estava rindo. Rir era estranho. Eu tinha esquecido do som da minha própria risada e de como era sentir o riso; esse sentimento engraçado que te preenche por inteiro e faz cócegas no seu ser. Daniel começou a rir comigo, sem razão nenhuma enquanto a água do café começava a borbulhar.

A partir daquele momento eu tinha um nome. Um nome meio inadequado e estranho, mas um nome.

No quinto dia, Daniel se levantou mais cedo. Quando ele apareceu na cozinha, ainda vestido com a sua samba canção do Batman e com os cabelos revoltos, eu soube que havia algo diferente nele.

— Há um lugar em que eu preciso te levar. — anunciou.




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