Anotação 1: Diário do Daniel
19:25
Ok, cara. Tenho certeza absoluta que estou ficando louco. Maluco, biruta, doido de pedra. Decidi que não vou mais tomar café solúvel porque ele induz a alucinações. Essa tarde, por exemplo, acreditei ver uma defunta. Uma fantasma, melhor dizendo. E não importa que eu já tenha despejado toda a lata na pia ou bebido três litros de água para tentar espantar o efeito, ela não vai embora. Ela só... fica pairando pela minha sala. Eu estou mesmo muito angustiado. Não consigo me sentir em paz dentro da minha própria casa e isso é surreal!
20:15
A assombração ainda está na minha sala, esticada bem no meu sofá de couro. Decidi que não precisava mesmo ir ao banheiro e voltei para o quarto. Tem uma latinha vazia de Coca Diet aqui mesmo em algum lugar...
22:15
Minha mãe dizia que, quando a situação estivesse difícil, eu precisava me erguer e encarar as coisas de frente. Decidi que talvez essa fosse a melhor abordagem para lidar o espírito na minha casa.
Até tentei falar com ela quando a vi pela primeira vez, mas assim que ela me disse que era um fantasma, eu entrei em pânico, cara. Você não pode me julgar por ter gritado e atirado minha caneca nela. Nem por ter me refugiado no meu quarto. Nunca tive uma alucinação visual antes, nem quando eu andava com a galera que frequentava a Praça Sete (e eles me davam todo tipo de coisa). Isso está em um nível completamente novo.
Vou transcrever o diálogo. Minha psicóloga certamente vai querer ver isso.
22:17
— Olá, dona defunta. Quando é que você vai sair da minha casa?
Ela ainda está sentada no meu sofá. Parece estranhamente cansada.
— Não consigo ir embora.
— Aposto que você nem tentou!
Ela ergue a sobrancelha para mim. Claramente eu a ofendi. Ela se levanta e caminha até a porta. Observo com espanto seu corpo passar pela porta. Sequer dá tempo de sentir alívio. Quase no mesmo instante, a garota-fantasma retornou, atravessando a parede do outro lado do cômodo. Sua expressão era furiosa.
— Eu tentei de todo jeito! Por todas as portas, todas as direções, eu até mesmo subi na maca e tentei passar pelo teto, mas eu sempre acabo voltando! — ela explodiu.
Olhei para ela. Ela olhou para mim. Alucinações não deveriam ser tão realistas.
— Estou tão presa com você quanto você está comigo. — sua voz soava triste a princípio, mas então mudou para um timbre tipicamente irônico. — Você está preso com uma morta e eu com um doido varrido que fica me encarando e escrevendo em um caderno como se eu fosse um experimento científico!
23:20
Estamos sentados um do lado do outro. Não sei quanto tempo faz.
— Nunca quis tanto ser encontrada por um jovem místico! — a morta suspirou.
— Ahn?
— Alguém que pudesse acreditar que eu existo de cara, não alguém que pense que eu sou uma espécie de... piração. Tantos kardecistas em Belorihills e eu fui justamente ficar presa com uma ateu pão com farofa!
— Ora, e que prova eu tenho que exista um deus, vida após a morte ou qualquer uma dessas picunhinhas religiosas?
Havia tanto desgosto em sua face.
— Tá vendo! — eu disse.
— Tem que ser maluco para estar diante de um fantasma e continuar acreditando que não existe vida após a morte.
— Sério?
Ela meteu a mão dentro do meu peito. A imaterialidade atravessou a carne e eu senti um frio terrível. Rapidamente saltei para longe.
— Você é um tolo mesmo!
Cheguei a conclusão que era hora de dormir. Talvez bastasse uma boa noite de sono para afastar os efeitos do café estragado e, consequentemente, aquela bizarra alucinação.
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