A Guardiã
Na quinta quadra do Cemitério do Bonfim havia um cipreste. Sob o cipestre, havia um túmulo.A princípio, eu quase não o notei. Mas, a medida que fomos nos aproximando, seus contornos se tornaram mais nítidos e ficou mais fácil enxergar a sepultura.O cipreste estava rodeado por um gradil de ferro com duas portinhas delicadamente entalhadas. É provável que, no passado, tivesse sido completamente pintado de branco, mas agora só restavam a ferrugem e pequenas lascas de tinta encardida. Havia um carinho tangível naquela construção, é claro, mas isso não significava que ela parecia particurlamente bem cuidada. Definitivamente era bem antiga. Muito antiga. Talvez antiga o suficiente para todos que se preocupassem também estivessem mortos.Daniel me chamou atenção para as datas. Aparentemente, a jovem senhora que ali dormia estava confinada em seu sono eterno desde 1897. — O fantasma de alguém que morreu há tanto tempo não poderia ainda estar vagando por aí. Né? — ele perguntou inseguro.Odette expirou profundamente. — A senhorita Berthe não é bem um fantasma comum. Isso eu podia sentir. Aquele definitivamente não era um túmulo comum, pelo menos não com toda aquela energia emanando dele. Era difícil explicar, mas estar de pé diante daquele lugar era como andar no interior de ruínas muito antigas, que guardavam toda a história de um povo em seu cerne e contivessem a essência para descobrirmos o significado do próprio tempo. Era como se aquele túmulo já estivesse ali antes de qualquer terra ser santificada e como se fosse permanecer ali mesmo quando nada restasse além do pó.Odette se aproximou em passos decididos. Aguardei com grande expectativa, mas ela manteve-se imóvel. — Agora esperamos. — ela disse, antecipando nossa ansiedade. Ficamos parados pelo que pareceu um longo tempo. O sol seguiu um curso lento pelo céu, cruzando a abóboda celeste em direção ao seu berço esplêndido.Odette se abaixou ao lado do gradil e examinou algumas folhas secas, caídas há muito tempo. — O que estamos esperando? — finalmente perguntei. — Shhh. — ela fez. — Ela já deve estar chegando.Quando os raios dourados finalmente tocaram a copa da árvore, algo no mundo pareceu mudar. A luz pareceu se infiltrar entre as folhas de um modo diferente, afugentando qualquer sinal de escuridão. O ar vibrou, tremulou e ficou cheio de estática. O vento soprou com força. Precisei piscar algumas vezes para espantar a sensação estranha que tomava meus olhos.Quando finalmente consegui enxergar vi, diante de mim, uma mulher como nenhuma outra. Ela não era alta em estatura, mas possuía algo que a engrandecia. Sua pele e seus cabelos eram muito claros, tanto que suas sobrancelhas eram quase invísiveis. Os olhos, dourados e vivazes, quase fizeram com que eu me enganasse. Não. Definitivamente não haviam batimentos cardíacos ou pulmões cheios de ar. Mas, mesmo assim, ela era viva, mais do que qulaquer outra coisa que eu já tivesse visto. Trajava um longo vestido branco, todo rendado e com aparência muito antiga. Era quase como se um ser angelical tivesse surgido diante de mim. Havia qualquer familiar naquela figura, mas eu não conseguia determinar o quê.
— Senhorita Berthe. — Odette se apressou em saudar, fazendo uma pequena mesura com a cabeça. — Odette. — Berthe cumprimentou, com um sorriso suave. — Vejo que você trouxe companhia.Mesmo que não olhasse diretamente para mim, eu sabia que Berthe tinha consciência da minha presença. Não porque me visse, mas porque sua aura englobava todas as coisas ao meu redor, quase como se o universo inteiro participasse de seu ser. — Sim. — respondeu Odette, apontando para mim e Daniel. — Estes são Nim e Daniel. Os dois estão em uma busca complexa e imaginei que talvez você pudesse ajudá-los.A atenção de Berthe se voltou inteiramente para mim, e, por um momento, me senti como se estivesse completamente nua sob seu olhar perscrutador. — Diga, Nim. — ela ordenou com sua voz serena e imemorial. — Qual é a razão de tua busca?Se eu ainda estivesse viva, teria sentido a saliva parando em minha garganta. Mesmo que não fosse possível, eu engoli em seco. Como eu poderia começar a explicar algo tão simples para alguém tão poderoso? — Eu... — titubeei por um momento. — Eu estou perdida. Não sei meu próprio nome ou quem eu era. Não tenho noção nenhuma da minha identidade, apenas a consciência da morte. Daniel teve a ideia de tentar procurar meu túmulo e, quem sabe, conseguir alguma informação sobre mim. Mas eu também não lembro onde estou enterrada... — o volume da minha voz foi diminuindo a medida que o desperado desejo por respostas me preenchia. — Será que você pode me ajudar? — quase sussurrei. Berthe me dirigiu um olhar cheio de compaixão. — Há muito eu não me deparava com alguém como você. Situações como essa sempre enchem meu espírito de tristeza. Ninguém deveria se perder. Todos deveriam ser amados o bastante para não estarem perdidos.Ela soltou um longo suspiro, como se a própria ideia a dilacerasse. — Você sabe o que eu sou, Nim? Neguei com um movimento de cabeça. — Sim, Daniel. Sou, de fato, um fantasma. Pensar assim não é supor errado. — ela deu um sorriso arteiro, como se tivesse apanhado uma criança levada no flagra. Daniel, é claro, enrusbeceu. — No entanto, essa descrição não encerra a totalidade do meu dever. Eu e Nim temos algo de muito semelhante, embora estejamos em lados opostos do espectro da memória. Eu sou, em verdade, a Guardiã deste cemitério.Berthe contemplou as nuvens por um instante, antes de continuar. — Os cemitérios são locais sagrados, pois guardam a essência de tudo que já viveu em sua forma mais pura. Por vezes, também se tornam o solo onde a vida extinta transforma-se em vida nova. — ela fez um gesto amplo, abarcando as árvores. — Tudo o que foi, o que é e o que será traz consigo uma memória, e toda memória necessita de um portador. Os vivos têm dos livros de História; já os mortos, têm os Guardiões. Nós somos aqueles que velam pelo que permanece. Estou ligada à própria essência deste solo, às histórias que nele repousam e às lembranças que, mesmo no esquecimento, perduram. O olhar dela retornou para mim. De novo, tive a sensação de ser profundamente esmiuçada. Apesar disso, Berthe não estava em nada desprovida de benevolência. — Se tu estivesses aqui sepultada, eu teria comigo as tuas memórias e poderia lhe prestar auxílio. Porém, vejo claramente que esta não é a tua derradeira morada. Você está além... — Berthe pareceu divagar por um momento, e então continuou. — Todo cemitério tem seu próprio Guardião. Se conseguires descobrir onde seu corpo repousa, poderá contar com ele para te guiar. Daniel, que permanecia ao meu lado e ouvia a tudo com atenção, resolveu perguntar: — Então você não pode nos ajudar? — Ao menos não absolutamente. — seu olhar se deteve novamente sobre mim enquanto ela pensava. — Talvez seja possível fazer uma pequena reminiscência e resgatar algo útil. Porém, devo te alertar as memórias são complicadas para aqueles que, como Nim, permanecem por muito tempo na escuridão.Pisquei, aturdida. — O que eu preciso fazer?Ela estendeu os dedos alvos para mim. — Dê-me tua mão.Quando minha mãe pousou na dela, senti que meu âmago havia sido aberto como um livro. Era como se Berthe virasse páginas e mais páginas, desbravando vestígios de uma história que estava oculta até para mim. Quando ela finalmente me soltou, eu me senti zonza.— De fato, não há muito que carregues contigo — disse ela. — Contudo, quando eras viva, houve uma universidade que te serviu de lar quando teu próprio lar te faltou. Nesta universidade, que é mais antiga que todas as outras, ainda reside um espírito amigo que talvez possa elucidar algumas de tuas dúvidas sobre o passado.Daniel deu um aceno entendido. — Mais antiga do que todas as outras da cidade? — quando Berthe confirmou, ele sorriu. — Acho que sei exatamente para onde devemos ir. — Sabe? — perguntei chocada. — Sim — disse, simplesmente. — Só tem um lugar que se enquadra nessa descrição. — ele me lançou seu olhar mais esperançoso. — Sei exatamente a onde devemos ir agora, Nim. Vai ficar tudo bem.Hesitei.— E depois? — Daí fica mais claro qual é o nosso próximo passo. — Daniel respondeu. — Mas... E depois? — tornei a perguntar. — Você sabe. Depois que eu tiver me lembrado.Franzi os lábios. Nos últimos tempos, aquela dúvida estava lentamente se tornando maior do que as outras. Embora lembrar quem eu sou ainda fosse uma grande necessidade, eu comecei a temer o que esse conhecimento pudesse simbolizar. — Então você saberá. — Berthe disse. — O plano físico não é onde tudo termina. Eu, Odette e tantos outros permanecemos aqui, tivemos nossos próprios motivos. Se for o melhor, você pode seguir em frente. — Para onde?— Não posso contar. Isso você terá que descobrir sozinha. — Berthe sorria enigmaticamente. Odette, que estivera de fora da conversa até então, anteviu a tempestade de perguntas que se formavam no meu ser e decidiu intervir. — Nim. — ela chamou. — Tudo na morte, assim como na vida, é questão de escolha. Todos nós, até mesmo eu e Berthe, já nos estivemos perdidos. Na hora certa, você saberá o que fazer. — Como alguém que conhece tudo se perde? — Daniel perguntou espontaneamente. Quase no mesmo instante, ele se deu conta que poderia ter soado ofensivo e começou a pedir desculpas.— Está tudo bem, Daniel — disse Berthe, com um sorriso sereno. — Nem sempre fui Guardiã. Em tempos idos, nada havia que me distinguisse dos demais espíritos. Sendo a primeira a repousar nestas terras, passei anos sem companhia, sem avistar outra alma errante como a minha. Nem todos os espíritos permanecem junto aos vivos depois de sua passagem. Minha ligação com este solo formou-se aos poucos, mas agora sei que este é o meu lugar. Porém, houve uma época, confesso, em que até mesmo eu busquei desvencilhar-me deste destino.— Mas nós não podemos fugir do nosso destino. — Odette disse.Disso até eu sabia.— Talvez o destino não seja algo que se possa fugir, mas... — pausei, tentando encontrar as palavras certas. — Será que é algo que podemos moldar? Berthe arqueou levemente uma de suas sobrancelhas quase invisíveis, mas seu semblante continuava compassivo. — O destino, minha cara, não é uma linha reta — respondeu. — É mais parecido com um rio. Ele flui por entre pedras e curvas, mas sempre segue em direção ao mar. Tu podes desviar o curso, criar barreiras, mas, no fim, encontrará o caminho. — Então... — hesitei. — E se eu não gostar do que encontrar no final? — Essa é a beleza de ainda não saber quem és. — disse Berthe. — Tens o poder de escolher o que fazer com o que descobrir. Sua identidade passada não define seu futuro. Apenas te dá ferramentas. Daniel, até então quieto, coçou a cabeça, parecendo digerir as palavras. — Então, se o destino é um rio, nós somos... barquinhos? Odette, que havia sido pega desprevenida, soltou uma risada genuína. Até Berthe deu um sorriso de canto. — Algo assim, Daniel — Berthe respondeu, divertida. — Ótimo — ele murmurou, mais para si mesmo. — Porque eu me sinto meio à deriva aqui. Apesar do tom brincalhão, algo no que ele disse me tocou. Aquele era um sentimento genuíno. Estávamos à deriva, em busca de algo tão nebuloso quanto o meu próprio passado. Ainda assim, senti um calor estranho — talvez fosse a presença de Berthe, ou talvez fosse a certeza de que eu não estava sozinha nessa jornada. Berthe deu um passo para trás, sua figura irradiando uma luz que parecia crescer conforme os últimos raios de sol desvaneciam. — Há um longo caminho pela frente — disse ela. — Mas lembrem-se: o fato de estarem juntos já é uma vitória. Nenhuma alma deve caminhar sozinha. Eu queria agradecer, dizer algo profundo ou expressar o que sentia, mas minha garganta parecia apertada. Berthe inclinou a cabeça levemente, como se entendesse meu silêncio. — E tu, Nim, não se esqueças — ela acrescentou, a voz soando como o eco de um sino ao longe. — A busca pela verdade não é um fardo, mas um presente. Ela deu meia-volta, caminhando em direção ao gradil do túmulo. Quando seu pé tocou a entrada do pequeno portão enferrujado, seu corpo começou a perder forma, como uma pintura sendo apagada pela chuva. — Espera! — exclamei. — Nós vamos te ver de novo? Ela parou, já quase transparente, e lançou um último olhar por cima do ombro. — Se o rio permitir. E então ela se foi, deixando apenas a leve vibração no ar e a luz das estrelas que começavam a pontilhar o céu. Odette se aproximou e colocou uma mão reconfortante em meu ombro. — Vamos, Nim. Chegou a nossa hora de ir.E assim, seguimos em frente, atravessando a quinta quadra do cemitério, levando conosco as palavras de Berthe e a promessa de que, embora perdidos, estávamos navegando no mesmo rio.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top