🔹 Capítulo XII🔹
𓁭 Guilherme 𓁭
Não consegui dormir nesse resto de madrugada, tudo que consegui foram pequenos cochilos que volta e meia me traziam malditos pesadelos banhados de sangue e crueldade. Depois do ocorrido na festa e o pensamento de que seria horrível morrermos em meio ao sono, optamos por nos amontoados na sala com jogos de tabuleiro, comidas, livros e seriados na tentativa de acalmar os ânimos.
O relógio marca oito horas da manhã. Eu e os rapazes organizamos o café, enquanto Ísis assiste algum seriado com Giovanna deitada em seu colo recebendo cafuné e as outras meninas jogam carteado.
— Interrompemos nossa programação normal para notícias urgentes. — a jornalista surge na TV nos fazendo parar tudo que estamos fazendo e observar. —- Depois do fogo repentino que deixou 50 pessoas feridas, o governo federal transmitiu um alerta para os litorais brasileiros para casos de que em breve deveremos ondas violentas capazes de destruírem partes da cidades. Outros alertas foram emitidos pelo mundo... Tempestades enormes de areia atinge Dubai e vários outros lugares do oriente médio, na Índia uma nova doença começa a matar em massa e astrônomos afirmam que em pouco mais de uma semana nossos dias ficaram mais curtos e extremamente quentes, e nossas noites mais longas e muito frias, comprometendo a agricultura de muitos países.
— Ele está espalhando o caos pelo mundo, não vai parar até concretizar o apocalipse. — Ísis diz olhando fixamente para o aparelho. — Está no controle até dos poderes de Hapi¹.
— O mundo vai acabar? — Giovanna questiona com o medo brilhando em seus olhos.
— Na minha vez de viver a porra do mundo resolve acabar. — Gustavo resmunga.
— Precisamos impedir isso — digo e olhos abismados me observam. — Qual é?! Vocês presenciaram ontem, tiveram a prova de que Ísis é realmente uma deusa e que somos as reencarnações de antigos guerreiros que mantiveram-se como guardiões da terra. Vamos só sentar e observar o mundo ser destruído, esperando pacientes como porcos para o abate a nossa hora de morrer em um apocalipse egípcio?
O silêncio se propaga. Eu não posso julgá-los por estarem com um pé atrás com essa questão. Eu estou me cagando de medo, de verdade, mas nunca me senti como se realmente estivesse vivendo ou cooperando com o bem real da humanidade. Sempre fui o quieto que tinha medo de viver e ser condenado pelos julgamentos alheios pelas minhas escolhas de vida. Tinha medo de experimentar a adrenalina e correr riscos. Vivo na monotonia há 26 anos.
Como já diziam os loucos do século XXI: "Só se vive uma vez". Se for para viver uma única vez e viver por uma boa causa e por descobertas que podem mudar todo o meu conhecimento... Então que se foda, é o momento do só se vive uma vez.
— Eu sei que é loucura pedir que se arrisquem assim. — Ísis quebra o silencio olhando para cada um de nós. — É muita coisa em risco e não quero colocá-los em perigo, mas se não impedirmos, não só vocês, mas o mundo inteiro estará em perigo do mesmo jeito.
— Se ficar o bicho pega e se correr o bicho come... — Anna diz cabisbaixa. — Estamos todos lascados.
— Por mais estranho que seja dizer isso em voz alta, você é uma deusa, Ísis. Você tem magia ao seu dispor e nós? Somos meros mortais que na primeira aparição de um novo perigo vamos morrer rápido e fácil. Isso é basicamente uma missão impossível.
— Ela pode nos dar trajes poderosos que visem a nossa segurança. — indago.
— O Tony Stark tinha um traje poderoso e morreu. — Felipe refutar meu argumento, com o brinde de uma magoar a ferida interna de fã.
— Eu sei que não tenho direito de pedir isso. — O brilho de esperança está quase sumindo dos olhos da deusa. — Mas pelo bem da família de vocês e pelo mundo que conhecem, ao menos me ajudem a desvendar um pequeno enigma para que pelo menos entenda como ter chances de destruir Seth, por favor.
Todos se entreolham meio desconfiados e pesarosos até Moisés repousar sua xícara de café na mesa e respirar profundamente.
— Nove cabeças pensam melhor do que uma. — Ísis se anima um pouco e uma chama de esperança luta para sobreviver. — Não prometemos ajudar mais do isso.
— Ainda assim agradeço muito.
A deusa se apressa em abrir um papiro legítimo sobre a mesa de centro, recolhendo um papel e lápis, rapidamente o grupo se amontoa em torno da deusa em completo silêncio. Rapidamente ela começa a transcrever os hieróglifos antigos para árabe. É a visão mais interessante da minha vida, não faço ideia do que está sendo escrito em árabe mas ainda assim é fascinante ver um papiro real tão de perto e com cada detalhe de um escrita já morta.
— Onde os mortais surgiram, o caos espalhou o precioso poder. Sob a cidade banhada em vermelho... sob o templo perdido do sul... onde tudo começou... nesses lugares o grande poder levantará a nova enéade, libertando a essência dos oito. — Moisés lê a tradução.
— O que quer dizer? — Anna pergunta.
— Parece mais uma profecia do que um enigma. — Felipe alega.
— É um enigma codificado. Preciso separá-lo por partes para que se possa chegar a uma resposta concreta. — Bianca diz usando o lápis para reescrever tudo em português e separar em três grandes bolhas. — Colocamos cada parte dentro de um espaço do modelo de três círculos e por fim dedicamos o centro a solução que engloba todas as características.
— Porra, minha namorada é foda! — Gustavo diz abobalhado e orgulhoso.
— É só uma espécie de anagrama para raciocínio lógico, usamos isso nas disciplinas bases de contabilidade. — a garota faz pouco caso envergonhada, logo sendo cobertas de beijos por meu amigo.
— Certo, então temos a cidade banhada em vermelho no primeiro círculo. O templo perdido ao sul em outro e onde tudo começou, sei lá o que significa, em outro. — Felipe diz. — O que vai ficar no centro?
— São localizações, o centro deve ser uma coisa que as três localizações têm em comum. — digo, já maquiando uma teoria. — Historiadores afirmam que toda vida humana se dá origem na África e após vários processos é que começamos a migrar e povoar outras áreas do planeta. Toda essa história começou por causa da descoberta da estátua onde Ísis esteve presa, ela foi descoberta na tumba da rainha Safyia I. Por tanto, o círculo referente a "onde tudo começou" se refere a tumba da rainha e o centro do anagrama é a África, todas as localizações que precisamos estão dentro do continente africano.
— Faz total sentido. A cidade banhada em vermelho... — Felipe pensa alto. — A cidade natal do Moisés! Marrakesh, no Marrocos, é conhecida como a cidade banhada de vermelho!
— Isso, meu amor! — Moisés se empolga estalando um beijo no moreno. — Colegas meus usaram o termo de "templo perdido ao sul" para se referir a descoberta de um templo secreto no meio do Krueger Park na África do sul.
— Temos a localização, mas o que quer dizer a parte de libertar a essência dos oito? E esse lance de nova enéade? — Alice questiona.
— O senhores do Nilo era a enéade na terra, as representações sagradas dos deuses na terra e agora vocês são as reencarnações deles. libertar a essência dos oito, vocês são os oitos. libertar as essências para que enfim se liguem como reais senhores do Nilo e se tornem tão fortes quanto os próprios deuses. — Ísis esclarece arregalando mais os olhos a cada palavra dita.
Tudo se encaixa. Meus olhos se arregalam tanto quanto os dela e instantaneamente nossas mentes se conectam, enquanto os outros ainda tentam raciocinar o que foi dito.
"É o que estou realmente pensando?"
"Sim..." Ela confirma a mistura de medo, hesitação e euforia.
— Uma nova enéade formada por uma deusa e oito reencarnados de senhores do Nilo. O apocalipse egípcio só pode ser impedido com todos nós.
— É agora ou nunca... Preciso de vocês... Por favor. — A deusa diz esperançosa.
— Estou com você. — Sou o primeiro a tomar a frente.
O silêncio tomou o lugar mais uma vez, até ser cortado por um suspiro forte de Gustavo.
— Quero um traje foda, entendeu?!
— Eu também! — Giovanna diz eufórica. — Capriche no meu cunhadinha.
— Estamos dentro. — Moisés e Felipe dizem juntos.
— Nós também. — Bianca e Anna dizem.
Todos olhamos para Alice, a última sensata a não se pronunciar, aguardando expressões que talvez dê a entender que queremos que ela aceite. A de cabelos curtos respira fundo e se dá por vencida.
— Tá. Eu entro nessa missão suicida. Mas se eu morrer juro que voltarei como a maior assombração do mundo para puxar o pé de vocês durante a noite e atormentar toda a vida de vocês até pararem em um hospício.
Está feito. O projeto de desajuizados. A formação de uma nova enéade.
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O restante do dia passamos como uma força tarefa mafiosa para resolver todas as burocracias mortais para partirmos na aventura — possivelmente suicida — divina.
Moisés ligou para alguns amigos financiadores arqueológicos, o marroquino nos conseguiu hospedagens e passagens gratuitas para nossos destinos; Alice, eu e Giovanna conseguimos convencer mamãe a assinar a permissão da mais nova para viajar conosco; Bianca, Gustavo, Felipe e Anna ficaram responsáveis por comprar roupas específicas para essa viagem; e Ísis passou todo esse período trancada no quarto projetando nossos trajes para casos de emergência.
Partirmos amanhã à tarde e uma parte de mim está se pelando de medo, mas uma outra parte — talvez seja o espírito do tal Jahi tomando um pouco de controle — se sente ansioso para entrar nesse furacão de adrenalina. Talvez eu realmente tenha incorporado o protagonista de fantasia muito fácil, abraçado com muita força a ideia de escape da própria realidade, uma vivência do inimaginável.
— Um brinde a nossa missão digna de um livro. — Gustavo levanta sua cerveja e os demais acompanham.
— Um brinde a vocês. — Ísis ergue sua taça de vinho relaxando contra meu peito. — Os humanos mais corajosos que já conheci.
Brindamos sob o lugar ofertado pelo playground do prédio. Estamos todos esparramados em um canto com bebidas e salgadinhos observando algumas crianças brincarem e Giovanna reclamar por não deixarmos que ela experimente uma cerveja.
— Sempre gostei de observar pequenos humanos brincando, era meu passatempo favorito. — a deusa soa nostálgica, sua voz baixa o suficiente para que apenas eu a escute e seu corpo relaxado contra o meu.
— Você é a deusa da fertilidade e proteção, faz sentido que esse fosse seu hobbie.
— Sinto falta de Hórus... Espero que ele esteja seguro...
Seu filho. Durante esse tempo em que estive mais íntimo dela me esqueci completamente de sua real natureza e de que ela tem um filho que é milênio mais velho que eu. É a coisa mais bizarra em que posso pensar.
— Ele é um deus forte e já lutou contra Seth antes, se eu não soubesse que você é a mais poderosa de todos, diria que ele era o mais forte e capaz para isso.
— Puxa saco. — ela aperta a minha mão na sua com um sorriso zombeteiro nos lábios.
— Só estou fazendo a minha parte para ter o melhor traje da equipe. — digo e ela me dá um beliscão no antebraço. — Ai!
— Idiota.
— Ei, Ísis, mostra o traje para nós. — Giovanna diz se balançando ferozmente.
— Isso! Estou morrendo de curiosidade. — Anna completa e o pessoal se empolga.
— Vamos lá! Você fez suspense o dia todo sobre isso!
— Tudo bem, tudo bem. — ela se dá por vencida. A deusa observa os lados vendo que o lugar está deserto. — Giovanna venha aqui.
— Por que ela é a primeira?
— Porque eu sou a cunhadinha favorita dela. — A mais nova me mostra a língua e envolveu um abraço carinhoso na deusa que gargalha com a situação.
Criança abusada.
Ísis olhou para Giovanna e com um estalo de dedos o corpo da minha irmã foi envolvido em uma névoa vermelha e preta. Suas roupas deram lugar a uma calça cargo com a barra para dentro de coturnos pretos e um cropped que evidencia uma marca como a que tem em meu ombro no formato da estatueta de Seth, braceletes de ouro adornam seus pulsos e duas adagas estão embainhadas em seu quadril.
— Uau! — a loira exclamou. — Espera, estou sem óculos e estou enxergando normalmente? Eu estou com uma tatuagem? Mamãe vai me matar.
— Os trajes são forjados de pura mágica de combate, suas principais peculiaridades é auxiliar vocês melhorando seus pontos fracos a fim de que tenham um desempenho quase perfeito em combate. — Ísis explica e a boca de todos se fecha em um O. Será que ela consegue fazer essa cura da miopia ser permanente? Seria ótimo poder enxergar de graça. — Quanto a tatuagem é a marca de Seth, cada avatar terá a sua, ela é a ligação com a enéade e também a fonte da mágica que os coloca como senhores do Nilo.
A deusa chamou por Anna e com mais um estalo de dedos o corpo dela brilhou como se fosse o próprio sol. Suas roupas se transformaram em uma calça Aladim branca e blusa da mesma cor com detalhes aritméticos dourados na gola e manga, também de coturnos, uma marca em forma de sol se desenhou ao redor do seu olho esquerdo — a marca de Rá — e duas espadas de ouro estão embainhadas em suas costas. O traje de Alice se mostrou muito semelhante ao de Giovanna, apenas diferenciado pela blusa de linho com uma abertura charmosa nas costas revelando a marca de um leão — a marca de Sekhmet — e uma lança dourada surgiu em sua mão. Na vez de Moisés, seu traje revelou uma armadura de obsidiana com garras felinas, uma espada do mesmo material está embainhada em suas costas. A marca em formato de gato, representando Bastet, se desenhou em seu pescoço.
— Caralho, eu sou uma versão falsificada do pantera negra! — o marroquino exclama com seu sotaque forte nos fazendo cair em uma gargalhada.
Bianca recebeu um traje semelhante ao de Anna, porém em uma combinação de preto e cinza, em seus pulsos e mãos surgiram ataduras de linha e um cajado sua em sua mão. A marca de Anúbis ficou destacada em seu bíceps direito. Quando a deusa estalou os dedos em direção a Felipe, suas roupas deram lugar a uma calça de couro preta e coturnos, em seu peitoral uma espécie de armadura — ou colete, não sei como nomear a coisa — de pele de crocodilo deixou em destaque a marca na forma de uma balança — a balança de Ammit — em sua clavícula e em sua mão uma espada de ouro.
Gustavo se aproximou rapidamente, só faltando saltar de tanta euforia como uma criança encapetada. Sua roupa deu lugar deu lugar a um traje semelhante ao de Felipe, porém seu peitoral é coberto por uma armadura de ouro e detalhado em lápis-lazúli, a marca do olho de Hórus se desenhou em torno de seu olho direito e uma catana foi embainhada em seu quadril. A deusa então se aproximou de mim.
Existe tranquilidade em seu olhar, como se estivesse satisfeita em me entregar o traje que antes rejeitou veemente. Ela estalou os dedos e a marca em meu ombro esquentou, minhas roupas deram lugar a um coturno militar, calças cargo cinzenta, meu peitoral e abdômen começaram a ser enfaixados como uma múmia, meus punhos e mãos seguiram da mesma forma, duas espadas surgiram em minhas mãos, uma com o cabo em forma de cajado e a outra com a forma de um mangal. Armas como a de Osíris para o avatar de Osíris. Ísis fez um movimento com a mão e suas roupas se transformaram em uma vestido tradicional egípcio, um grande colar antigo com um escaravelho no centro adornou seu pescoço e em pequenas mechas de seu cabelo pequenos adornos enfeitaram.
— Eu os concedo agora o título e o poder de senhores do Nilo, coloco vocês agora em posição de poder sobre essa terra. Eu os torno agora a nova enéade. A enéade de Ísis.
𓁭 𓁭 𓁭
As gotículas de água ainda se prendem em meu corpo quando deixo o banheiro vestido em meu pijama, enquanto caminho em direção da cozinha com a ideia de um chocolate quente em mente. O pessoal se dispersou depois do nosso recebimento de trajes e breves aulas de como convocá-los e fazê-los desaparecer, Alice foi para sua casa levando consigo Anna e Giovanna, Bianca e Gustavo foram para o apartamento do japonês na outra torre do condomínio e Moisés foi conhecer o apartamento de Felipe, deixando finalmente meu apartamento novamente silencioso com apenas a companhia da deusa.
A sensação quente e adocicada do achocolatado me tranquiliza e esquenta de uma forma deliciosa. Em meio ao silêncio um par de braços se enrosca em minha cintura e a sensação do corpo de Ísis contra o meu completa perfeitamente a situação.
— Obrigada... Por entrar nessa comigo e convencer o pessoal a ajudar também. — sua voz soou baixa e agradável, enquanto seus dedos fazem um leve carinho em minha barriga.
— Não precisa agradecer. Eu não estava muito com vontade de morrer em um apocalipse, talvez assim eu possa ter uma morte um pouco mais digna.
— Falou como Jahi. — ela solta uma risada anasalada. — Ainda me lembro de como aquele jovem meio parrudo, filho do general do alto egito, sempre tinha uma fala que remetia a glória e a honra mesmo que envolvesse a morte. Isso te faz parecer um herói meio louco, mas que de certa forma é sexy.
— Então sou sexy? — Um sorriso zombeteiro surge em meus lábios, quando me viro para ela. A deusa se desvencilhar de mim, o meu blusão lhe servindo de camisola, logo se sentando em uma das cadeiras em uma pose de falsa inocência. Eu a imito.
— Bem, talvez eu possa ser um pouco suspeita para falar, lembra quando vimos o primeiro filme do Capitão America? Eu acho que tenho uma boa queda por loirinhos.
— Que bom, porque também tenho uma queda muito grande por morenas. — ela solta uma breve risada com meu comentário, encarando de longe meus lábios. Sensual, ela levanta de seu assento vindo em minha direção, seus braços se enroscaram em meu pescoço e rapidamente a deusa tomou seu lugar em meu colo.
Lentamente, ela beijou minha têmpora, minha bochecha e então selou nossos lábios brevemente. Seus olhos escuros como a noite me encararam profundamente e no meio da ânsia pelo prazer que toma as suas orbes uma pequena quantidade de seriedade se faz presente.
— Em breve vamos estar de frente ao caos e destruição, eu não quero que se machuque. — sua voz é baixa e aveludada. — Nosso tempo juntos pelo menos se tornou um pouquinho maior, mas ainda assim...
— "Não pense, apenas sinta"... Foi isso que disse para mim em nosso último encontro. Vamos aproveitar o tempo que nos resta, sem arrependimentos. — Envolvi sua cintura com meus braços em uma espécie de abraço depositando um beijo em sua clavícula. A deusa de olhos fechados apenas projetou o pescoço para trás deixando o espaço livre para meus beijos na região.
— Sem arrependimentos, loirinho. — sua voz soou baixa e rapidamente ela colou nos lábios.
Não queria admitir, mas estou fazendo exatamente o que sempre fiz. Estou fugindo da ideia e do iminente trágico fim que essa relação com a deusa terá, apenas por que sou egoísta demais e me apeguei a ideia de tê-la por aqui. Estou evitando falar nisso, pensar nisso e aceitar isso. Ela é uma deusa milenar e eu sou apenas um humano normal. Já sabemos o que vai dar no final, mas ainda sim gosto de me enfiar mais e mais nessa ilusão maravilhosa de estar apaixonado por uma deusa e de ter ela sentindo a mesma coisa por mim.
A blusa do meu pijama foi para no chão e a blusa que cobria o corpo da deusa seguiu o mesmo destino. O corpo da deusa depositado sobre a mesa segurando as bordas enquanto me encontro de joelhos demonstrando toda minha devoção a ela, as lamúrias embriagadas de prazer, a paixão... tudo é o mais puro e delicioso egoísmo que eu poderia experimentar e eu fico feliz que seja com Ísis.
"Me beije..."
A voz embebida em prazer dá sua ordem e eu acato imediatamente, nos envolvendo em um ósculo quente, feroz, urgente. Vou beijá-la até que ela diga chega, porque não me importo mais com os "e se" e ela também parece compartilhar do mesmo pensamento. As últimas peças de roupa que me cobriam foram parar em algum lugar, novamente estávamos imersos em nosso prazer, a mesa balançando a cada novo movimento, as lamúrias deixando nossas gargantas. O clímax nos atingiu no mesmo momento, nossas testas unidas compartilhando do mesmo fôlego e apenas o sentimento pairando entre nós.
— Talvez seja uma hora muito estranha ou ruim para dizer isso. — Penso alto, ainda abraçado ao seu corpo. Ela alisa os fios da minha nuca à medida que meu coração acelera com a incredulidade e nervoso pelo que irei dizer.
— Já estou acostumada com as suas peculiaridades. — Ela sorri doce e enfim tomei coragem.
Deixando-a sentada sobre a mesa, procuro pelo pacote de pão de forma que comprei. Não sei porque, mas sinto que devo fechar esse dia esquisito com uma coisa que vai soar como mais uma esquisitice que vou poder contar aos meus futuros netos quando for um velho gaga. Delicadamente pego a mão de Ísis e envolvo em seu dedo o pequeno lacre do pão como um anel improvisado.
— Não é uma maravilhosa joia feita das mais raras pedras preciosas, mas vai servir para a simbologia do momento — digo e a deusa apenas me encara sem entender bem a situação. — Ísis, Senhora da magia e da fertilidade; deusa protetora; rainha divina e muitos outros títulos grandiosos que são longos demais para se lembrar... Você permite a honra desse mero humano a graça de poder te chamar de namorada, não de forma mentirosa, mas como uma forma real até que o nosso tempo permitido acabe?
Ela gargalha alto e não sei se devo me preocupar, mas então ela puxa meus lábios contra os seus em meio a um sorriso. Ela parece feliz... muito feliz.
— Permito sim, shaghaf. — ela diz segurando meu rosto com delicadeza e carinha. — Já permitia a muito tempo...
Meus neurônios demoram um tempo para se reorganizar e produzir uma resposta coerente. A alegria começa a circular sem freio pelo meu corpo e a medida que a deusa me abraça, eu a tomo em meus braços rodopiando em extasiado com a sensação da nossa bola. É disso que irei me lembrar quando o tempo acabar, é nisso que vou me apegar.
𓁭 𓁭 𓁭
Enfrentamos uma despedida chorosa dos meus pais juntamente com instruções detalhadas e ameaças para cuidarmos bem da Giovanna. Se eles soubessem da merda que estamos nos metendo... Em seguida, um voo de 2 horas até São Paulo para então embarcar em mais um avião por mais 15 horas até pousarmos em solo marroquino. Durante todo esse tempo, me peguei pensando nos meus sentimentos, em mim e Ísis, e cheguei a conclusão de que tem um nome definitivo para a turbulência em meu peito e eu sei bem como se chama, mas é tão inacreditável de se dizer em voz alta e que não sei se devo expor isso para a deusa em meio a toda essa coisa peculiar que é a nossa relação.
— Doutora Hadassa conseguiu as melhores instalações para nós, esse hotel é famoso entre arqueólogos que procuram pela sua próxima tese histórica e muitos turistas também. — Moises nos explica após finalizar todo o processo de check-in no local e entregando nossas chaves. Ísis segura curiosa o cartão, enquanto carrego nossas bagagens caminhando com o grupo em direção aos elevadores. — Aliás, amanhã o local vai estar lotado, é dia de visitação, então é melhor que façamos nossa pesquisa suicida no dia seguinte. Pelo menos vamos turistar antes de nos jogarmos aos braços do perigo.
— Está tudo bem, faz séculos que não vejo essa terra. — Ísis diz ainda revirando o cartão. — A última vez que vi aqui era uma terra tomada por fenícios.
Não demoramos muito até chegarmos em nosso respectivo andar e cada dupla procurar por seu quarto. Ísis parou a frente da porta 281, nossa porta, encarando a chave cartão, a porta e então a mim. Com um mínimo sorriso pela sua confusão tomo a frente abrindo a porta, a vendo fazer um surpreso O com a boca. Nosso quarto é simplesmente incrível, tamanho médio e elegante, com uma bela vista.
— O avião é uma coisa bacana, mas andar em um foi horroroso. — Ísis resmunga se jogando na imensa cama.
— Uma deusa que luta contra demônios sanguinários com medo de avião, quem diria — zombo me deitando ao seu lado.
— Eu não estava com medo!
— Não, claro que não. Os arranhões que deixou na minha mão apertando durante a decolagem e aterrissagem foram grandes demonstrações de coragem. — Ela acerta um travesseiro em mim. — Ei!
— Eu só estava... desconfortável.
— Que mentira mais deslavada. — sem que ela espero devolvo o golpe de travesseiro e correndo para o mais longe possível as gargalhadas.
— Eu vou pegar você, humano abusado. — A deusa sai em disparada em meu encalço me acertando com vários golpes, sem nem ao menos me dar a chance de revidar.
— Chega! Chega! Tá bom, você venceu. — me rendo voltando a me deitar, com um sorriso triunfante ela se deita sobre mim, apoiando o queixo em meu peito.
— Eu sempre venço.
— Rancorosa, tem medo de avião e agora convencida. Quem diria que a grande deusa seria assim, hum?!
— Cala a boca.
— Vem calar.
— Você quer um beijo ou um tapa?
— A primeira opção, com certeza.
Ela se aproxima de mim com um sorriso ladino, cada vez mais próxima me causando ânsia pela sensação dos seus lábios. Meus olhos se fecham esperando pelo delicioso momento, mas tudo que recebo é um tapa forte na testa que me sobressalta.
— Ai!
— Anda, levanta, ouvi pessoas dizendo que tem atrações culturais no salão de jantar. Quero ver. — Ela se levanta, me ignorando e tomando a frente.
— Doce como um limão — resmungo, me levantando para segui-la.
— O que disse? — ela questiona com a mão na maçaneta e um olhar inquisitivo.
— Que você está linda, senhora — retruco a abraçando por trás lhe tirando um sorriso singelo.
A morena desvencilhar meus braços de seu entorno, entrelaçando nossos dedos para que possamos caminhar pelo corredor. Sinto contra as dobras dos meus dedos o pequeno arame de pão de forma ainda enroscado em seu dedo.
— Quando formos passear para conhecer a cidade, vou comprar um anel de verdade para você.
— Não precisa. — ela diz olhando para o improviso. — Eu já tive milhares de joias feitas de muitas pedras preciosas, mas ninguém nunca me presenteou com algo tão simples e com tanto significado. Quero continuar com ele.
Como pode uma deusa ser assim tão simples e amorosa? No meu relacionamento anterior eu fui comprar um anel bonito e ela foi comigo para escolher. Janaina fez questão de escolher um de ouro com um belo diamante, enquanto uma deusa poderosa escolheu ficar com um arame de amarrar um pacote no dedo. É realmente diferente, tudo com Ísis é muito diferente do que a minha vida inteira já foi. Eu me sinto leve, me sinto bem ao seu lado não importa a situação, é bem como se... Como se meu coração sempre estivesse ligado a ela.
Uma ligação feita pelo diodo destino.
1. Hapi: Deus do Nilo. Personifica as águas do rio durante a inundação anual, a que o antigo Egito estava sujeito entre Julho e Outubro.
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