Capítulo 2

Ao longe, Amara ouviu uma voz chamando por ela. Estava de olhos fechados e sentia como se estivesse acordando de um longo sono. A voz foi ficando cada vez mais próxima, e impaciente também, Amara percebeu.

— Acorda, garota! Eu não tenho o dia todo.

A menina abriu os olhos e deparou-se com uma mulher encarando ela. Estava usando um zulu e os olhos brilhavam estranhamente amarelos. A pele negra da desconhecida era um tom mais escuro do que a de Amara e reluzia sob a luz do sol, que parecia ainda mais quente do que alguns minutos atrás quando ela estava…

— Ai, meu Deus! — entrou em desespero — Eu morri, não foi? Aqui é o céu, ou o inferno?

A mulher revirou os olhos exóticos e continuou encarando Amara com um aspecto entediado.

— Nem um dos dois. E não, você não morreu. Estamos na terra. 

— Mas… como assim? Lembro perfeitamente que estava caindo da laje da minha casa, e por um instante… tudo se apagou.

— Você foi transformada em pó antes de ter contato com o chão, e isso evitou a sua morte. A transformação foi repetina, o que resultou no seu desmaio, pois o seu corpo não aguentou o processo da metamorfose. Mas agora está tudo bem. É humana novamente, e está viva.

A expressão confusa de Amara deixou a mulher irritada, pois mais uma vez ela revirou os olhos. E então se afastou.

Amara, que estava deitada, sentou e encarou a moça. Ela era alta, não deveria ter menos de 1,80cm de altura. Estava usando uma roupa colorida, e em seus pulsos tinham pulseiras de missangas. Os pés estavam descalços, mas em seus tornozelos também tinham bijuterias feitas de missangas. E o rosto estava pintado.

— Você é algum tipo de deusa africana? — a menina arriscou perguntar — Um orixá?

— Não. O meu nome é Else. — ela estava de costas, na beirada do terraço de um prédio onde estavam, Amara notou — Eu sou uma deusa, mas não pertenço à África. Eu venho de Vernietiging. Sou aquela que transforma. E a que foi exilada. — falou a última frase com desgosto.

— Que loucura. — Amara sussurrou.

— É mesmo loucura. Mas logo deixará de ser. Venha comigo, eu não tenho muito tempo.

— Ir com você para onde? Não tem tempo para que?

Else suspirou.

— Perguntas demais.

— Perguntas de menos. Eu tive uma quase morte, fui transformada em pó, desmaiei e acordei em um terraço com uma mulher estranha que se diz deusa de Veni não sei o que. — Amara praticamente vomitou as palavras — Eu deveria estar surtando, mas estranhamente não estou. E você está reclamando de muitas perguntas? É assim que costuma chegar nos humanos? Como achou que eu reagiria?

— Não está surtando, é? — Else deu um sorrisinho — Eu deveria ter deixado você morrer. Menina ingrata.

Amara arregalou os olhos e engoliu em seco. Era muita coisa para processar, mas tudo bem, estava viva. Estar viva é muito bom.

— Obrigada.

— Disponha. Agora vamos.

— Agora vamos para onde?

Else suspirou e se virou para encarar a menina.

— Como eu já falei, sou uma deusa exilada. Os meus irmãos me baniram de Vernietiging. Mas eu posso voltar, contanto que eu cumpra três exatas missões.

— Exilada por que? E quais são as missões?

— Por motivos bobos. Eu preciso salvar a vida de três jovens escolhidos pelos meus irmãos. Disseram que eu aprenderia uma lição. Você foi a primeira. Faltam dois.

— Que lição aprendeu comigo?

— Aprendi a me estressar.

Amara ergueu uma sobrancelha, demonstrando indignação.

— Eu não fiz nada! Você é impaciente. Talvez essa seja a sua lição. Paciência é uma virtude, sabia? Aprenda a ter.

No mesmo instante, Amara lembrou da última frase que disse à mãe, antes de sair de casa. E o seu coração se apertou e ela murchou de repente.

— A carapuça serviu, não foi, menina? — Else debochou.

Amara ficou um tempo em silêncio. Ela estava refletindo, pensando no quanto foi idiota com a mãe e que precisava urgentemente pedir perdão. Então ela finalmente se pôs sob os pés e olhou em volta, analisando o local e procurando entender onde realmente estava, tratando-se de bairro. Ou cidade.

— Eu preciso ir pra casa.

— Não. Você precisa vir comigo. — disse Else, tentando não soar grosseira.

— Por que? Já me salvou e cumpriu a sua missão. 

— Preciso te levar comigo como prova.

— É sério?

— Sim, vamos logo.

— Não podemos passar na minha casa primeiro? Pelo menos para o meu irmão e a minha mãe saberem que estou viva. Não consigo imaginar o pânico que estão sentindo agora.

— Não se preocupe com isso. Eu dei um jeito.

— O que você fez?

— Os transformei em preguiças. Devem estar dormindo tranquilamente.

— Você o que?! Ficou louca?!

A deusa revirou os olhos

— Estou brincando. Eu transformei o tempo, de presente para passado. É como se você nunca tivesse caído, para o seu irmão.

— Quer dizer que tem uma outra de mim lá?

— No passado.

— Não estou entendendo nada.

Else rosnou e começou a puxar os cabelos, e andar de um lado para o outro. Era uma deusa realmente muito impaciente. Amara estava começando a imaginar o porquê de ela ter sido exilada.

— Não precisa entender, tudo bem? — falou mais calma — Apenas venha comigo, e no final de tudo, você estará em casa com a sua família.

— Vou mesmo?

— Te dou a minha palavra.

— Tudo bem.

[...]

Amara entrou em pânico quando num estalar de dedos, Else transformou as duas em borboletas. A princípio, ela sentiu uma forte tontura e ficou enjoada. O coração disparou e a respiração desregulou, fazendo-a ter espasmos. Parecia que Amara estava prestes a infartar.

— Acalme-se. — Else pediu com gentileza. — Pare de se debater e respire fundo. Deste jeito não vai sobreviver às ruas lá embaixo.

— Eu estou voando! — Amara falou irritadiça — Eu não sei voar, mas estou voando e isso é muito esquisito.

— É uma borboleta agora. E borboletas sabem voar. Pelos deuses, mantenha a calma e deixe que o instinto de voar te guie.

— Tudo bem, tudo bem.

Amara puxou o ar pelo nariz e soltou lentamente pela boca. Aos poucos ela foi se acostumando com a sensação de ser um inseto. Ela pensou que poderia ter sido transformada em algo maior e poderoso, como por exemplo, uma águia com grandes garras assassinas. As borboletas eram tão pequenas e frágeis.

— Siga-me. — disse Else — E não faça nenhuma tolice.

As duas voaram para fora do prédio e traçaram um caminho tortuoso até chegarem próximas do chão. Uma leve brisa que passava era como um vendaval para Amara, que forçava o pequeno corpo a permanecer firme e não ser levado pelo vento. Else planava tranquilamente como se nada a abalasse, nem mesmo as mãos das pessoas que agitavam para espantá-las para longe, com medo que as asas tocassem nos olhos. E então, Amara se lembrou do quanto tinha medo de borboletas na infância, pois a sua avó tinha lhe contado que o pozinho das asas poderia cegá-la. 

E pensou que talvez as borboletas não fossem tão inofensivas assim, e por um momento a menina gostou de ser uma.

Por mais alguns minutos, voaram. Até Else entrar num beco e rapidamente voltar a ter um corpo humano. Ela estalou os dedos e Amara também voltou ao seu normal.

— Olha, isso foi divertido e ao mesmo tempo assustador. — falou a menina sorrindo e ofegante — Não me transforme mais numa borboleta, por favor. — disse séria.

— Foi realmente uma loucura. Inconsequente. Como as borboletas sobrevivem neste ambiente? — Else se indignou.

— É uma boa pergunta. Mas enfim, o que estamos fazendo aqui? Achei que fosse me levar para algum lugar que não fosse… esse mundo.

— Não agora. Preciso dos outros dois antes.

— Já vi que vai demorar.

— Paciência, jovem. — a deusa falou com um sorriso contido.

— Ora, é mesmo? — o sarcasmo de Amara fez Else sorrir mais.

Poucos instantes depois, um grupo de garotos entrou no beco soltando piadinhas e gargalhando. O alvo das brincadeiras era um menino menor, de pele parda com grandes manchas brancas. Um empregado de vitiligo. Os agressores o empurravam e proferiam palavras ofensivas. Eles pareciam não perceber a presença da menina e da deusa, que observavam a cena. Amara fez menção de ir em direção ao grupo, mas Else a segurou pelo braço.

— Ainda não. — falou baixinho.

A garota a encarou indignada. Como era possível ver tamanha covardia e não fazer nada de imediato? Estava claro que aquele menino iria tomar uma surra se elas ficassem ali paradas apenas olhando.

— Qual foi, sorvete misto? — inquiriu um rapaz alto, de pele pálida e cabelos ruivos — Aquele seu namoradinho não está aqui para te defender? — cuspiu no rosto do garoto, que se acanhou assustado. — Aberração.

— Tudo bem, não vai dar para esperar. — expressou Else, suspirando de raiva e se aproximando do grupo, com Amara a seguindo — Ei, garoto! Deixe ele em paz. Vão embora daqui! — ordenou.

O ruivo apenas deu um sorriso desdenhoso e avançou dois passos para perto da deusa. Ele não se intimidou com a altura dela.

— Olha só. Macaca mãe e macaca filha. — sorriu debochado.

Os amigos dele gargalharam, causando irritação em Amara.

— Vaza daqui seus babacas! — gritou — Racistas idiotas!

— Sua preta ridícula, eu vou te mostrar…

Else estalou os dedos e o menino foi transformado num orangotango, com pelos vermelhos, idênticos ao do humano que era a poucos instantes.

— Misericórdia! — gritou um dos garotos — Ela é uma bruxa! Sua macumbeira, o que fez com ele?

— O mesmo que farei com vocês se não saírem daqui agora.

Todos eles saíram correndo sem olhar para trás, exceto o rapaz que estava sendo alvo de bullying e preconceito.

— Você está bem? — quem perguntou foi Amara, se aproximando dele.

— Por favor, não me machuque. — o menino se afastou, abraçando o próprio corpo.

— Não vamos te machucar. Estamos te salvando. — Else falou.

O garoto arriscou olhar para ela. Ficou fascinado com tanta beleza e poder. Nunca viu uma mulher tão linda em toda sua vida.

— O meu nome é Ravi.

— O meu nome é Else. E esta é Amara. — apontou para a dona de longas tranças escuras.

— O que… o que são vocês?

— Sou um ser humano normal, como você. E ela é uma deusa. De Veni. — contou Amara.

— De Veni? — Ravi perguntou confuso.

Else revirou os olhos.

— Vernietiging.

— Hm. — disse Ravi, ainda sem entender.

— Eu preciso que venha conosco, Ravi. Você faz parte de uma de minhas missões, e eu preciso te usar como prova de que cumpri. — falou Else, torcendo para que ele aceitasse logo.

— Tudo bem. — ele respondeu.

Amara ergueu as sobrancelhas, surpresa por ele não ter surtado como ela.

— Que ótimo. Vamos. Amara te deixará a par de tudo no caminho.

Os três saíram do beco como se nada tivesse acontecido, até a menina se lembrar de que estavam deixando algo para trás.

— E o macaco que está lá no beco? — quis saber.

— Pelos deuses. — Else estalou os dedos — Pronto. Quase esqueci.


[1810 palavras]

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