Pessoas São Cruéis

Por fim, chegou o meu primeiro dia de aula. Estou ansiosa para aprender e conhecer coisas novas. Eu sempre quis me tornar uma veterinária. Creio que serei muito feliz cursando.

Acordei mais cedo que o normal. Minhas aulas são integrais. Manhã e tarde. Graças a Deus a mãe do Sebastian vai me pagar para cuidar do apartamento aqui. Seria horrível ter que arrumar um emprego noturno. Eu mal conheço a cidade. Seria uma presa fácil.

Estou de frente ao guarda-roupa e, pela primeira vez na vida, não sei o que usar.

Não mudo meu estilo por qualquer motivo, mas estar numa universidade é um evento muito glamoroso.

— Já sei! Vou é ligar pra Sandy...

Após chamar umas três vezes ela me atende.

"O mundo tá acabando?"

— Do que Cê tá falando, muié?

"São seis horas da manhã! Quem em sã consciência acorda seis da manhã?"

A voz sonolenta dela é extremamente engraçada.

— Uai, a aula é daqui a pouco, sô! Tá na hora de acordar já, ué!

"Minha linda amiga, a aula começa às sete. Por que diabos eu acordaria às seis e perderia quarenta minutos preciosos de sonhos?"

— Ah, muié, para de reclamar. Eu preciso da sua ajuda. Eu não sei que roupa é adequada pro primeiro dia de aula...

"Já, já eu chego aí! Emergência de moda é prioridade."

Antes que eu possa dizer qualquer coisa ela desliga o celular.

Bem, já que ela vai vir até aqui eu vou tomar café da manhã.

🐎🐎🐎

Antes que eu termine meu café, Sandy chega.

Em poucos minutos ela escolhe minha roupa e eu me visto. É um vestido marrom com aparência de couro. Ele tem mangas longas e vai até o joelho. Na cintura ele é apertado, então mostra o quanto sou magra. Ele não é decotado, então eu não corro o risco de ficar constrangida. Como tenho o bumbum um pouco avantajado e as coxas torneadas, o caimento fica perfeito.

Pois é, nunca fiz exercícios em academias, mas os trabalhos pesados do sítio me tornaram assim. Vai entender.

— Duas tranças ficarão perfeitas! – Sandy diz sorrindo — Você é linda, amiga!

Eu coro.

Sandy fez duas tranças simples em meu cabelo e deixou uma pequena mexa solta na frente. Em seguida ela passou uma maquiagem em meu rosto e um batom.

Confesso que fiquei com medo dela exagerar. Nunca soube me maquiar então me acostumei com minha aparência natural.

— Aquela bota cano alto sua vai completar o look. – Ela me olha por um instante e depois dá um tapa em meu bumbum — Vai arrasar os corações!

Eu arregalei o olho no princípio com o ato de Sandy, mas depois acabo caindo na gargalhada.

🐎🐎🐎

— Uau! – Guilherme diz assim que me vê.

— Caralho! Caipira, você está linda. – Alex fala colocando as mãos no rosto fazendo drama.

Sebastian leva a mão direita à nuca, mas não fala nada.

Eu apenas fico sem jeito.

— Vamos, Débora! Temos que mostrar minha obra prima aos alunos daquela Universidade!

— Não exagere priminha. Débora é linda naturalmente, você só deu dica de moda. – Guilherme diz enquanto toma um copo de uma mistura estranha.

— Seu ogro, a moda ajuda muito a mostrar a beleza escondida. – Ela pega o copo da mão dele e cheira - Que nojo, isso é ovo batido.

Guilherme tenta pegar o copo novamente e eles acabam numa briguinha boba.

— Posso pedir uma coisa pro cêis? – Eu falo olhando para meus pés, mas mesmo assim percebo todos pararem o que estão fazendo só para olhar para mim.

— Seu desejo é uma ordem! – Guilherme diz prontamente.

— Cêis podem me chamar de Dera? – Eu olho para eles e percebo que estão me encarando — Se ocêis não quiserem tudo bem. - Digo balanço as mãos freneticamente.

— Mas é claro que posso! – Sandy me abraça — Não acredito que já está nos considerando amigos próximos a ponto de te chamar por um apelido. – Ela beija minha testa.

— Dera? Tá aí gostei. Vou aderir. – Guilherme pisca para mim.

— Ainda prefiro caipira, mas pode deixar que quando for te chamar no sério eu te chamo de Dera. - Alex vem e me dá duas tapinhas no ombro esquerdo e sai em seguida da sala.

— Gostei do apelido. Vou te chamar assim agora. - Sebastian vem e afaga meu cabelo.

Eu fico envergonhada e feliz ao mesmo tempo.

Eles não sabem, mas Dera é o apelido que o Júnior me deu. Ele me encontrou chorando depois que eu descobri sobre meus pais terem formado novas famílias e me deixado para trás. Foi a primeira vez que ele conversou comigo. Eu contei tudo o que aconteceu e ele disse que ter um apelido seria como me rebelar. Meu nome foi à única coisa que me deixaram. Então não ser chamada por ele me impediria de lembrar-se deles.

Não fez nenhum sentido o que ele disse, mas eu gostei do apelido. Então eu fiquei feliz novamente e esqueci-me daqueles que me puseram no mundo.

🐎🐎🐎

O Campus é enorme. Graças a meu bom Jesus, minhas aulas são no mesmo prédio.

Enquanto eu estava indo para minha primeira aula às pessoas ficaram me encarando. Como se eu fosse de outro mundo.

Acho que não foi uma boa ideia pedir ajuda a Sandy.

Eu me sento em uma carteira da fileira da frente. Quando os demais alunos vão chegando, me olham curiosos. O que me faz ficar tensa e envergonhada.

— Bom dia, alunos. – Um senhor de meia idade com uma calça jeans e uma camisa social azul clara fala ao entrar na sala.

Ele escreve o nome dele no quadro.

"Doutor Antônio Marcos"

— Trabalharei com vocês nesse primeiro semestre com a disciplina Biologia celular.

Ele continuou explicando do que se tratava a disciplina e como será a divisão de suas atividades.

Anotei tudo com muita atenção. Quero terminar a faculdade com honra. Foi muito difícil chegar até aqui. Tenho que fazer valer a pena.

O dia seguiu tranquilo.

Tive aula de Ecologia básica e Anatomia Veterinária I.

Na hora do almoço eu pude ir até em casa, visto que o AP é próximo ao campus. E depois voltei para as aulas da tarde.

Eu posso jurar que ouvi algumas meninas falando algo sobre mim. Mas não me incomodei. Já estou acostumada com esse tipo de atitude.

Porém, na hora de ir embora eu ouvi algo que realmente me machucou.

— Vocês viram aquela caipira? Aposto que não tem nenhum amigo. Parece uma Pata Choca. Quem iria querer ser amigo de alguém assim? – Uma garota ruiva e bem vestida disse, fazendo o grupo rir.

Tinha cerca de oito pessoas. Todos da nossa turma.

Eu saí correndo.

🐎🐎🐎

— Dera, você está bem? – A voz de Sebastian me desperta.

Desde a hora que eu cheguei me tranquei no banheiro. Nem sei ao certo quanto tempo estou aqui. Eu simplesmente liguei o chuveiro e deixei a água me molhar. Como se ela fosse capaz de tirar todo o mal. Foi com roupa e tudo mesmo. Só tirei minha bota.

Depois de molhada eu só fechei o chuveiro e fiquei encolhida, sentada no chão.

— Dera. – Ele bate na porta — Você está bem? Faz muito tempo que você tá aí.

"O que houve?" – Ouço a voz de Alex um pouco distante.

— A Débora está ali dentro desde a hora que eu cheguei.

— E quanto tempo faz isso? – Alex se aproxima da porta, pois o tom da voz fica mais alto.

— Quase uma hora! – A voz de Sebastian parece de preocupação.

— Dera... Dera! – Alex grita — Tá me ouvindo? - Ele bate freneticamente na porta — Por favor, responda.

Eu até quero responder, mas não consigo. Algo parece prender minha voz. Minha visão está um pouco turva.

Com um pouco de dificuldade eu caminho até a porta e abro.

Só sei que senti quatro mãos me segurando antes deficar tudo escuro.    


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Queria eu ter dois belos rapazes para me amparar em momentos como esse! Mas tô mal pela Débora. Tadinha. 💔

Obs.: O capítulo está aparecendo normalmente para vcs? Sempre que entro para visualizar ele está 'errado'. Fica faltando a parte que a menina fala mal da Débora e ela ouve. Aí está aparecendo certinho?

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