5 - Sonho Real
Por que se importava? Por que estava mais preocupada com Beatrice transando com Andras em vez de o que faria em relação a Mirela? Mais de duas horas e a bruxa enrolada não retornava. Permanecer na confortável sala de estar, sem nenhuma música enlouquecedora e com os homens a conversar sobre toda sorte de bobagem, davam a falsa sensação de normalidade.
Andras e Beatrice agarraram no sono?
Agradeceu a bebida oferecida por Nik com um movimento de cabeça. E suspirou de alívio ao que os dois irromperam no ambiente. Quis saltar e agarrar Beatrice pelos ombros. Contudo, afundou no sofá, incomodada com o beijo suave e carinhoso que Andras deu em Beatrice antes de se afastar. Inveja? Ciúmes? Que loucura, Ayla, que loucura!
Beatrice estava estranha, se é que algumas horas de contato fossem suficientes para julgar o comportamento da bruxa distraída. Enfiada no moletom ao qual caberia duas dela, tomou a garrafa de conhaque da mão de um dos membros da banda e caminhou em passos lentos. Ensimesmada, parou diante da janela e contemplou o vazio. O que aconteceu com os dois enquanto estiveram separados do grupo? Parecia que a energia da bruxa tarada tinha se transformado.
Defronte da janela, o dedo deslizou no vidro, a garrafa esvaziou um pouco mais, girou sobre os calcanhares e focou Gar. Balançou a cabeça em sucessivos "sins" enquanto Andras dizia alguma coisa no ouvido dela. Beatrice se jogou no sofá. Decidida em conversar com a bruxa enigmática para matar a curiosidade, Ayla se levantou e antes de a alcançar, o demônio interpôs-se em seu caminho.
— Não quer trocar de roupa, meu anjo? Está molhada e está frio hoje.
Conforto ou desconfiança? Tinha bebido o suficiente para afastar a sensação de frio, porém não o desconforto da roupa gelada ainda se agarrando ao corpo. O tecido do terno e da calça a ciciar como se estivesse por rasgar. E se estivesse com hipotermia? Estava bêbada demais para perceber se congelava ou não. Concordou e o acompanhou ao segundo andar.
Adentraram em um quarto amplo, duas estátuas de mulheres nuas em alabastro e os abajures produziam uma atmosfera delicada com a iluminação indireta. Os tons pasteis e os móveis em marfim ofereciam uma sensação aconchegante e calma. Ayla tirou o sapato, sentiu o carpete felpudo, quentinho e macio sob os pés frios e enrugados. Andras colocou um conjunto de moletom sobre a cama e uma camiseta. O encarou a espera do momento em que deixaria o quarto para se trocar em paz, porém o demônio não se movia. Para seu desespero, se sentou na cama confortável e a aguardou.
Seria deselegante demais gritar para sair? Pegou as peças de roupa e as examinou, absorta. Por que se sentia atraída? Andras a perturbava. Perceber que sempre sonhou com ele sem o conhecer pessoalmente a devastava. Como explicar para si mesma? Quem acreditaria nela? Deu a volta na cama envolta pelo dossel e permaneceu atrás dele em prol de conquistar o mínimo de privacidade. O demônio achou graça e se sacudiu no riso sufocado. O xingamento escorregou até a ponta da língua outra vez. Controle-se, Ayla! O capeta ao menos tentava ser gentil.
— Você não é tão recatada em seus sonhos.
O sangue gelou. Santo Deus! Então tinha consciência do que ocorria em seus sonhos? Como podia ser possível? Odiou o tecido, a calça estava presa à pele úmida como se tivesse cola e as mãos trêmulas pelo nervosismo não ajudavam. Queria se livrar das roupas, da situação e do tinhoso o mais depressa possível.
— Como sabe sobre meus sonhos?
— Nunca soube que Nik tinha amigas tão interessantes.
— Eu te fiz uma pergunta — insistiu e apressava-se para se vestir, pois Andras se movia e não queria ser vista nua.
— Sei de muitas coisas — disse tranquilo. — Até mais do que gostaria. A propósito, adorei o anel.
Enfiou a camiseta de qualquer jeito. Como era bom vestir roupas secas! E fitou o anel. Uma pedra retangular, branca, envolta pela trama prateada a qual imitava galhos retorcidos. O que tinha o anel? Recebeu de presente da avó, passado de geração em geração. Orgulhava-se da herança. O que mais sabia dela?
Andras se levantou e caminhou em sua direção. Desconfiada, deu alguns passos para trás, como se a distância pudesse a proteger do demônio de alguma forma misteriosa e ridícula. Os lumes verdes se apertaram no riso malicioso.
— A magia é sutil, todavia certeira. Criei essa banda, compus essas músicas e atuam como magia-ritual para trazer pessoas como você e Faure até mim. Admito que não esperava que fosse eficiente a ponto de trazer vocês duas à minha humilde casa na mesma noite.
Estaria Andras envolvido com todos os acontecimentos daquele dia? Teria conjurado os demônios? Os forçado a persegui-las? O amigo de Beatrice estava envolvido? Era membro da banda, não era? Beatrice estava fazendo mesmo o ritual sozinha naquela cidade desolada? Será que não estava envolvida também? E se todos se conhecessem? O que sabia sobre aquela gente?
Estava na beira do abismo da loucura, prestes a surtar. E se imaginava? E se nada daquilo fosse real? Os pensamentos se embolavam, não tinha mais certeza de nada. Não diferenciava o real do imaginário. O sono do despertar. Os olhos marejaram. Sozinha, estava sozinha.
— O que quer com a gente? — Ayla temia a resposta.
— O que eu quero? — Sorriu. Lindo. Maldito sedutor! Avançou mais um passo, e Ayla outro para trás. — Eu já tenho o que quero. Não tudo, confesso. Seria bom experimentar você como faço em seus sonhos. Entretanto quando vi Faure, não resisti. — Inclinou a cabeça como se as lembranças o deleitassem. — Transar com ela é como profanar o Jardim do Éden. Foder gostoso na cara de Deus.
— Poupe-me dos detalhes.
O calcanhar bateu contra o rodapé. Estava encurralada.
— Não me resistirá por muito tempo.
Uma onda morna percorreu ao longo do corpo de Ayla ao ouvir a respiração dele no pé do ouvido enquanto roçava o nariz no pescoço.
— Eu prefiro esperar sair o gosto da minha amiga da sua boca.
— Vaidade é um pecado feio. E o gosto de Faure não sairá de mim assim facilmente.
— Prefiro evitar cobiçar o homem da próxima.
— Desde quando pecados são importantes para você, meu anjo?
— Desde que se tornaram convenientes — disse e esquivou-se dele.
Por mais que quisesse correr quarto afora, Andras exercia uma atração violenta, arrebatadora. Como nos sonhos, apesar de certa do perigo, a vontade de se atirar nos braços dele era quase incontrolável. Quase! Porque sabia o que acontecia quando se entregava ao demônio sedutor no mundo onírico, conhecia bem o caos interior resultante.
As pernas estavam bambas. E se sabia incapaz de disfarçar o desespero, a febre, a volúpia e o tormento. Sonhava? Sim, bem poderia ser sonho, não tinha nada de diferente. Gente estranha, o demônio sedutor, o desejo indômito, a confusão dos sentimentos e pensamentos. Entregue-se, Ayla, entregue-se. Quem se importa com a realidade? Quem são essas pessoas para te julgar? Quer transar com ele, não quer? Não, não seria a segunda opção. Jamais! Não era como Beatrice, oferecida e devassa. Não ficou dançando de calcinha e camiseta se insinuando aos homens. Não, ela não era esse tipo de pessoa.
E se fosse sonho?
Como poderia encontrar em sua vida real alguém que apenas conhecia nos próprios sonhos? Numa atitude infantil e estúpida beliscou o próprio braço e a dor confirmou a realidade. Bateu as mãos contra os bolsos, ofegava, ansiosa, não obstante os calmantes ficaram na cidade abandonada.
Andras a analisava, podia sentir. Não, ele não responderia nenhuma de suas perguntas. Beatrice notou a magia dele? Ficou seduzida a ponto de não conseguir evitá-lo? Comentou o interesse por Gar ao chegarem. Porém, uma bruxa capaz de afastar demônios no meio do nada não cairia na lábia de Andras! Estava de conluio. Mas, Ayla seria assim tão importante? O que tinha para oferecer? Acreditava ser uma mulher insossa de vida insípida, sem talentos ou dons. Não, não fazia sentido, nem a situação e menos ainda suas conclusões.
Enfadado, afastou-se dela e deixou o quarto. O acompanhou, tentando elaborar uma prece ou uma boa ideia para barganhar com algum deus qualificado para esclarecer a situação, ou ao menos despertar em sua cama.
Beatrice beijava Gar com a cabeça apoiada no colo dele. Qual o problema daquela menina? Qual Pombagira a possuiu? Agitada demais para pensar em bons modos, agarrou a bruxa promíscua pelo pulso e a arrastou. Bêbada o suficiente a bruxa depravada não reclamou de ser levada para o banheiro. E ria segurando a barriga como se sentisse dor.
— Você é toda maluca, Ayla! — exclamou Bia, alegre.
— Ah, falou o exemplo da sanidade!
Trancou-as e agarrada a maçaneta ficou em silêncio com o ouvido grudado à porta. Certificou-se de que não foram seguidas. Suspirou, inconformada, ao ouvir Beatrice urinar.
— Como sabia que eu precisava vir ao banheiro?
— Como você pode se embriagar em uma situação dessa?
— Pergunta errada, Ayla. A certa seria "como ficar sóbria numa situação dessa"?
— Vá se danar com suas filosofias etílicas! Nós temos que sair daqui!
— Por quê? — perguntou a outra ao se vestir e dar descarga.
— Aquilo não foi uma apresentação ou ensaio, e sim um ritual!
— Colombo! — exclamou, debochada. — Tudo tem um propósito. Cada gesto, cada palavra, cada gemido, tudo está como deveria, cobrando-nos a responder a cada incidente com o melhor de nossas capacidades. Aprenda duas dentre as mais importantes regras nesse mundo: primeiro, nada é por acaso; e segundo, a primeira pode bem ser sua última chance.
— Não estamos seguras aqui! E eu não quero sair daqui sozinha. Você me deve explicações.
— Devo?
— Sim. Sabia de tudo, não é? Sabia que me encontraria na cidade abandonada com os demônios e Nik viria nos buscar e nos traria para cá.
— Hã? Endoidou?
— Nik é seu amigo!
— Sim, Nik é meu amigo, desde a adolescência, o único a não se importar de correr perigo por conviver comigo. É o submundo, Ayla! Acontece no mundo o tempo todo e ninguém percebe. E quando percebe, os médicos encontram uma forma de dopá-los, esconder a verdade.
— Que verdade?
— A verdade de que vampiros, lobisomens, anjos, demônios, elfos, djinns e fadas existem. Tanto quanto todos os outros aos quais não vem à minha mente agora. Cada um no seu canto, cada qual seguindo suas tradições e vidas. Está certo, se envolvem com situações as quais nem deveriam ou criam guerras inúteis. Esse é o mundo real. E quanto menos nós humanos soubermos, melhor. Porque nós somos os escravos e os escravos servirão. Hora de questionar a autoridade, colega. Pensar por si mesma.
— Como somos controlados?
— Porra! Em que mundo você vive? Comprimidos te controlam. A mídia te faz pensar e comprar o que querem que pense e compre, coloca uns contra os outros. Tendemos a acreditar em qualquer babaca que nos passa uma imagem de autoridade, mesmo quando sentimos que mente. Gostamos de servir, gostamos que nos digam o que fazer das nossas vidas, quem somos e para o quê estamos aqui. Não importa se mentira ou verdade, é confortável, é melhor do que viver no caos do mistério, do não saber.
Acendeu um cigarro e tragou em ruidosa inspiração.
— É uma merda. Magos e bruxos são perigosos como todos os outros seres. Grande bosta estar nesse mundo. É foda não saber em quem confiar. Ainda assim, que diferença isso faz? Aponte um único humano ao qual pode confiar. Que estará ali por você a qualquer tempo, sempre que precisar. É isso. Vivemos numa bola rochosa flutuando no espaço vazio, sozinhos, aterrorizados, sem saber o que diabos viemos fazer nesse maldito lugar. Genial, não acha? É aterrador se perceber sozinho em um mundo imenso e misterioso, não é? Medo de morrer, medo de viver, medo do desconhecido. Estamos constantemente assustados e por isso somos tão vulneráveis.
Baforou a fumaça na cara de Ayla.
— Então, colega, relaxa. Beba um drink, escolhe um deles para transar e aproveita a noite, pois não sabe se amanhã estará viva.
Ayla a encarou, perplexa. Bia sustentava o sorriso relaxado, debochado até, e mantinha o mesmo brilho vermelho que viu no olhar de Andras. Enlouquecia. Era isso. Estava doida! Talvez não houvesse brilho nenhum, quiçá somente imaginava, controlada pela ansiedade. Beatrice tinha razão. Precisava relaxar. Estava estressada, teve um dia difícil, para não dizer absurdo.
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